terça-feira, 21 de setembro de 2010

MINHA CRÔNICA-COLIBRI - Vitor Hugo Fernandes Martins

Sim, à maneira dos cronistas-colibris, e remeto desde logo quem me lê a um dos maiores, o Bruxo do Cosme Velho, quero ser breve e leve em relação a três tópicos que me chegam, não mais pelo telégrafo, como no caso da antológica crônica de Machado de Assis, datada de 11 de novembro de 1897, para o jornal carioca A SEMANA, mas sim pela internet. A saber: a provável condenação à morte, por apedrejamento ou enforcamento, de Sakineh Mohammadi Ashtiani, no Irã; a subterrânea experiência de sobreviver dos mineiros no Chile; e a intolerância racial na França de Sarkozy. Vejamo-los.

Primeiro pairo. É certo que cada povo tem suas leis, seus costumes, seus valores, suas naturezas e suas culturas. Em razão disso, devemos respeitar o Outro, para exigirmos respeito em relação ao que é nosso. O que não é nosso, em princípio, tende a ser não compreendido por nós e, portanto, negado, depreciado, execrado. Como é o caso da pena de morte adotada em muitos países, como o Irã – antiga Pérsia – mas não aqui, na terra de Pindorama. Acredito, todavia, que, se houvesse um plebiscito, hoje, no Brasil, a pena de morte seria aprovada por uma maioria significativa da população brasileira. Não, porém, com o voto deste cronista, sublinho. Se a justiça humana é falível, aqui e em qualquer lugar do mundo, como ressarcir a vida daquele que se foi, condenado à morte injustamente? No entanto, como já disse no início deste parágrafo, respeitemos o Outro, para que este nos respeite. Por mais que as leis, os costumes, os valores, as naturezas e as culturas do Outro nos pareçam radicais, absurdos, desumanos, têm de ser compreendidos dentro do seu contexto. Condenar alguém à morte, por apedrejamento ou enforcamento, sob a acusação de adultério e participação no assassinato do ex-marido, como parece ser o caso de Sakineh, para nós do Ocidente, e em pleno século XXI, só tem um nome: barbárie. Por isso, há uma grita geral por parte de quem não é do Oriente, em favor da absolvição da bela e quarentona iraniana. Por isso, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, o “Lulinha paz e amor”, interveio em favor dela junto ao “amigo” e “colega” Almadinejad, oferecendo asilo à acusada. Certo, Lula, em matéria de diplomacia, é um retumbante fracasso, mas vale a intenção, reconheçamos. Que intenção? Talvez tenha intervindo a pedido, não do nosso Chanceler Amorim, mas sim da presidenciável Dilma, para simbolizar a defesa das causas femininas e a luta contra todas as injustiças sofridas pela Mulher. Talvez em razão de 2010 ser um ano eleitoral. Talvez porque esteja pensando em ganhar o prêmio que lhe falta, o Nobel da Paz. Talvez “porque só quer se aparecer”, na voz de um amigo meu e inimigo número 1 de Lula, aqui de Ipiaú. Talvez porque ele, “Lulinha paz e amor”, queira ser o Nazareno da Madalena iraniana (É, o apedrejamento é bíblico, mas não cristão, lembremo-nos). E seria o caso de indagarmos: nesta hora trágica para Sakineh, onde andará a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003, a também iraniana Shirin Ebadi? Talvez, enfim, porque nosso presidente seja verdadeiramente um humanista. Talvez...

Pairemos sobre outro tópico, tão ou mais dramático do que o primeiro. A tenebrosa situação dos 33 (32 chilenos e 1 boliviano) mineiros numa das minas do Chile. Também eles estão condenados a morrer, mas não mais por força de lei, costumes ou valores culturais. O destino pregou-lhes uma peça: foram em busca de minas e transformaram-se em minas humanas. Estão a ponto de explodir, pior, de implodir. O inimigo número 1 do presidente Lula do segundo parágrafo, um espirituoso retado, satiriza: “Também quem mandou eles darem uma de tatu! Agora agüenta, cambada!” Mas a situação não é para risos, e sim para lágrimas. Não são sete palmos de terra a cobri-los, senão setecentos metros. O buraco é mais embaixo, leitor(a). Soterrados, sobrevivem, sem uma única baixa há mais de um mês, e isso por si só já é um milagre. Como um exército de formigas, trabalham com cálculo, solidariedade e determinação, palavra esta perigosa, sabemos, mas que fica nesta crônica-colibri, por ser obra do acaso. A verdade é que estes mineiros nos dão uma lição de sobrevivência admirável. Aprendamos com eles, pois, a arte de conviver solidariamente com o Outro, em situações-limite, como a deles, que envolve escuridão, escassez, isolamento. Devem estar famintos das manhãs, do ar e do sol chilenos. E sobretudo do afago da mãe, da esposa, do filho. Uma sonda os põe em vida e é o canal entre eles lá embaixo e nós aqui em cima. Sobreviverão por mais quatro meses, tempo este estimado para que possam ser resgatados de seu Hades? E depois de resgatados, o que farão eles de suas seqüelas? Perderão a visão pelo desábito da luz ou passarão a transver, na medida em que aprenderam a ver com a escuridão?

Terceiro pairo. No que respeita à intolerância do governo francês, melhor será dizermos intolerâncias, com relação, primeiramente, aos imigrantes, em especial aos ciganos, nada mais condenável do que a intolerância do governo de Nicolas Sarkozy. E é aqui que entra em cena a revanche do destino barthesiana. Como explicarmos que a mais alta autoridade da França (apesar de não passar de 1m65cm de altura, dizem), cujo pai, imigrante, é oriundo da Hungria – a terra originária dos ciganos, segundo me consta –, esteja agora empenhadíssima em expulsar os ciganos do território francês? Estaremos fantasiando muito ao vermos aí um parricídio? Só Freud mesmo para explicar tal perseguição.

Mais: o presidente Sarko (para os íntimos) vai mais além: persegue também os imigrantes muçulmanos e suas práticas e gestos culturais, como, por exemplo, proibindo o uso na França, em lugares públicos, da burka. O argumento dele é insidioso: com a proibição do uso do véu islâmico, em lugares públicos franceses, ele, Sarkozy, estaria ao lado dos direitos humanos, porque defenderia a liberdade da mulher que poderia mostrar seu rosto, impor-se e, assim, identificar-se. O uso da burka no Ocidente é um desrespeito às leis e aos hábitos e culturas do mundo ocidental? A meu ver, não necessariamente. Até porque não se vive a proclamar, hoje, aos quatro cantos deste planeta, a aldeia global, o multiculturalismo, as culturas híbridas do pós-modernismo? Onde, então, o OrientenoOcidente ou o OcidentenoOriente? (Assim mesmo, senhor micreiro. Micreiro? Retado! Assim mesmo, senhor revisor!).

Os três tópicos acima tocados certamente tocaram (tocarão) também a(o) leitor(a) sensível. Não, é claro, por causa do plano da expressão, do estilo do cronista, mas sim do plano do conteúdo, do tema, a nossa sempre tão precária condição humana, seja no Irã, seja na França, seja, ainda, no Chile. Sakineh, cujo olhar tem algo do de Capitu, sim (Não resisto à tentação de dizê-lo...), não merece pedra nem forca nem chibata, aliás, nenhum ser vivo o merece; os mineiros enterrados vivos no país de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, a injustificável caça aos gitanos e a discriminação dos imigrantes muçulmanos e seus valores culturais na França, berço da liberdade, igualdade e fraternidade, não esqueçamos, merecem, sim, de nós outros, do Ocidente ou mesmo do Oriente, solidariedade. Daí esta crônica-colibri.




* Vitor Hugo Fernandes Martins é professor do Curso de Letras da UNEB – Campus XXI. Poeta, cronista e contista.

O CRIME VALE A PENA - 1ª parte

O CRIME VALE A PENA - 2ª parte

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pablo Neruda, Poema 20

A LEI DO APEDREJAMENTO - por Diadorim Sabiá

GUARDAR COMO: ANTES QUE SE APAGUE, MAIS DO QUE SAUDADES

Eu não sou toda. Toda alegria, toda esperança, toda vontade, toda paixão, toda. Ao menos, em certas horas, eu cumprimento uma saudade louca que chega e explora minha vontade, me derruba como o sono do cansaço e interroga todos os meus caminhos e descaminhos. Eu sei que vivi o que vivi, e se vivesse outra vez, viveria o que vivi, simplesmente não me despeço dos momentos de vida, mas eu os tanjo com um beijo e os aninho bem perto do meu colo e eu os cuido por terem nascido de mim. Não foram frutos do acaso os momentos da minha vida, mesmo os mais efêmeros, mesmo aqueles que não consegui perceber, e nem tocar.
A saudade ou qualquer coisa bem parecida com ela, me pega ali, justamente ali onde não compreendo alguns fatos. Eu não compreendo porque sou tão sozinha, mediante tamanho amor. Não compreendo porque a amizade é virtual na maioria das vezes, não compreendo essa facilidade em deletar uma página de história de vida. E é justamente aí, nesse apêndice de mim, onde algumas dores, e a tristeza fabricam um ritmo todo particular de pulsar.
Expulso do meu coração, o perdido flagelo do afeto, nesse asfalto massacrado de intenções frágeis, pouco duram, pouco crescem para um sentimento. Mas roçam como um véu de tranças marcadas, pelo meu corpo. Não sentiria nada, se a presença do meu corpo não indicasse um motivo para essa falta de amor.
Às vezes, muitas vezes eu penso, será que fabrico ilusão?! Eu fiz um nicho dentro do meu coração para você estar, será que fabrico ilusão?! Não tenho falsos pudores como me ensinaram persistentemente a tê-los. Sutil e leve, fácil de ficar, está em mim esse lugar. Eu sinto isso quando olho bem no fundo dos olhos que me olham. Eu sinto isso quando o calor da tua pele roça no da minha pele, mas você não está ali, nem aqui, talvez nunca estará. Talvez mesmo nunca esteve. Mas eu sinto a presença do desejo neste vão da sensação, no entusiasmo de um momento.
Agora mesmo, me foi dado o abraço mais querido, me foi dado o beijo mais molhado, me foi dado o prazer como outrora foi me dado a falta de prazer. Não suspeito da certeza desta sensação, nem do prazer, nem do desejo. Sinto e não me engano. Suspeito das inúmeras tentativas de cimentar o sentimento, de decifrar suas rotas, de estudar e analisar sua moral ou sua decência.
É profundamente imoral o ser-humano viver sem amor. Não há vida sem amor. Mentem de todas as formas possíveis. E se não bastasse fazem aquilo que considero o lugar nascituro de todas as perversões: aliam o amor ao dinheiro. Criam uma falsa relação entre o amor e o dinheiro. Dizem que sem o dinheiro não há felicidade, e criam as crianças desde o seu berço para apostarem nisso, o dinheiro tornou-se um ser.
POR ISSO HÁ FALTA DE AMOR.
Viver de novo. Outra vida. Não estou falando de reencarnação. Mas de ressurreição. Uma vez que o fio passa pelo buraco de uma agulha, uma vez que a linha está colocada, uma vez que o alinhave foi feito, coloco este termo antes da vida, ressurreição. Não depois, postumamente, como muitos acreditam, mas antes. Como era no princípio, agora e sempre...
Viver de novo. Estou aqui, por isso me preocupa o sentido da vida, e o jeito como a vida está sendo vivida. Eu não construirei um fundo falso dos meus sentimentos, e os balizarei em falsas promessas, mas eu viverei meus sentimentos e os tornarei novos em meu nome. Feito a madeira de lei. Sem culpa de vive-los, de dizê-los. Concentro a minha vida em tudo o que faço, eu sinto a energia que corre em minhas veias. Eu sinto o meu pulso, eu sinto o beijo que dou, o abraço que dou, o amor que eu te amo. Eu te chamo pelo nome, não és qualquer um.
Por que matam a vida?!
Acreditam que tem esse poder de dilacerar a alma, o espírito?! Que encerram a vida de uma pessoa com rajadas de bala, com facadas, com a crueldade?! Não. NÃO.
Insuportável não é a vida, a vida é bela. A vida é uma dádiva. Não é possível matar a vida.
Leis insensatas: a Lei do Apedrejamento. “Atire a primeira pedra aquele que não tem pecado”. Você consegue enxergar o outro? Você consegue me ver? Você sabe quem eu sou? Você me conhece? Você um dia conversou comigo? Você viveu a minha vida? A pedra que você atirar sobre mim, esta pedra tornará sobre você.
AINDA NÃO VIVI TUDO.

terça-feira, 22 de junho de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

ROBERTO CARLOS, A URCA, AS PEDRAS (AS PEDRAS)... - Vitor Hugo Fernandes Martins

Para Fernando Fortes

Faz mais de trinta anos, escrevi uma crônica sobre um Rei. Não resisto à tentação de escrever outra hoje, ainda sobre esta mesma régia figura. Não porque eu seja monarquista, como parece ser boa parte do povo brasileiro, esclareço logo. Não. Mas sim porque Sua Majestade é meu vizinho, morador da Urca, este país de solitários. Mais: porque o Rei é melancólico, o “Príncipe da Melancolia” – para me valer da felicíssima expressão de uma raposa fluminense, um misto de político, intelectual e escritor. E nós, a raposa aludida e eu, também não ficamos imunes à Melancolia. Se tudo isso for pouco, confesso que escrevo esta crônica porque o Rei e o seu alter-ego carioca já me (nos) ofertaram algumas jóias da MPB, como, por exemplo, OLHA, inefável na leitura de uma cantora baiana de boca e voz esplêndidas.
Nem tudo tem sido branco e azul para o Rei, que vem convivendo com pedras (perdas) há muito tempo. Daí por que ser morador da Urca – que não é cura só anagramaticamente. O sentimento de perda, que lhe apontei na crônica lá atrás, de Curitiba, permanece em seus olhos, em seus sorrisos, em seus depoimentos, letras e canções. É-lhe inerente. A última perda, melhor, a Perda, a do Amor, quase nos faz perde-lo de vez. Provocou-lhe um câncer n’alma. Fê-lo, então, o Rei da Melancolia, raposa fluminense. Felizmente, o Rei desmorreu, aprendeu (com os esotéricos) que é preciso morrer para viver. Afinal, não foi esse mesmo o ensinamento do Rei dos Reis?
Sê rei de ti mesmo, propõe-nos um poeta lusíada,singular e plural, pela voz heterônima de um médico e monarquista, seu conterrâneo. O Rei a que aludo – com o seu dizer (haverá na MPB uma voz mais popular, mais carismática do que a dele?) e o seu fazer (haja vista para a sua coerência de homem artista) – propõe-nos sermos reis do Outro. É Rei, realmente. O único que reconheço no Brasil, embora não pertença à dinastia dos nobres da Coroa Portuguesa, petropolitanos. A nobreza desse Rei vem de seus gestos, não de seus títulos. Seu reinado, sim, é vitalício. PARA SEMPRE. A propósito, o Rei chama-se Roberto Carlos.

O AMOR - Vitor Hugo Fernandes Martins

“Meu Deus, como o amor impede a morte!”
(Clarice Lispector – Uma amizade sincera)

O Amor, juro, bateu à minha porta. A casa e eu (há muito fechados) fizemos uma concessão: a-bri-mo-nos. Retirei o aviso tomado a Hesse, o lobo da estepe: Aqui não há ninguém. Nunca. E PENETRAMONOS.
Assentido, assentado, o Amor recusa, amavelmente, a cervejinha que lhe ofereço. Não vim aqui para receber, vim para dar, que é o que sei fazer de melhor. “Mas por que euzinho?” – pergunto-lhe, limpando com o dorso da mão esquerda meu bigode de espuma. Porque te negas a viver, porque te negas a amar. Doravante, ensinar-te-ei a viver, eninar-te-ei a amar. Sorrio, não do Amor, mas do “doravante” e das mesóclises dele. Que amor mais parnasiano este!
Na cama, porém, nem Madonna... Aí a linguagem do Amor deixa de ser parnasiana. É, eu diria, pós-moderna, já que tem todas as posturas, todos os estilos. É sem preconceitos, SUBLIMEGROTESCO. Com ele, nem Ovídio conseguiria competir na arte de amar. O Amor é fogo, erotomaníaco que só!
O Amor, como é ele? Nortista. Rondoniense. Cunhantã. Anda na idade do prazer. Tem um sabor, um odor, uma cor, um ardor! Cupuaçu. Já provaram, manos? O Amor, sobre mim, hábil amazona. Suas lições amatórias, eita! Fazem-me desmorrer, sim! De suas bocas, de seus seios, de suas mãos, de seu corpo, extraio o mel da vida. Que se dane a minha hiperglicemia!
Adormecemos. Desnecessitamos de sonhar: gozamos a realidade à exaustão.
Amanhece. O Amor, em pelo, faz café e uns ovos mexidos para mim. Isto pode não ser lá muito higiênico, mas que é estético, é, acreditem. Que fêmea e erótica arquitetura!
Sim, mas também o Amor – quem diria? – tem hora, tem de ir. Para onde? Para quem? Para o meu palácio, para a minha mãe, responde-me o Amor, cupidamente. Diz que volta. Basta que tu queiras viver, basta que tu queiras amar. Banha-se, veste-se, beija-me, voa. Deixa-me a Volúpia. Leva as chaves da casa e da minha alma.

SOB(RE) MEU PAI - Vitor Hugo Fernandes Martins

para Alaor Ignácio dos Santos Júnior

O comércio exulta, antegoza, há uma semana: é tempo de algarismarmos, uma vez mais, nossos sentimentos. Amanhã, 13 de agosto, comemorar-se-à o Dia dos Pais. É certo, não se vende tanto aí como no Dia das Mães, o que é uma prova cabal de que as velhas estão em primeiro lugar em nossos corações. “Pai, você é uma mãe!”. Não é assim que se diz? Vem por último em tudo o pai. Puta injustiça, essa.
Meu pai, meu pequeno grande pai, perdi-o faz mais de dez anos. Perdi-o? Não. Ele, nunca ele esteve tão comigo, tão presente, ausente. Meu pai, confesso-lhes, amava-o perdidamente. Amava-o tanto que ele se tornou um obstáculo à minha plenitude, à minha felicidade, à minha vida. É que eu não sabia então que até o amor em excesso faz mal. Urge, assim, que eu esqueça meu pai para recordá-lo.
Falando em coração, foi este que o matou. Fulminantemente. O coração também me matará. Pro-lon-ga-da-men-te. Não dou conta de matar em mim o amor demais da conta por meu pai. Sou um masoquista, pois. Não quero me salvar, não quero fugir do amor por meu pai, como o fez Kafka em relação ao pai dele, embora esse atormentado theco tivesse lá seus motivos e os metamorfoseasse literariamente, como ninguém. Meus textos também tratam de meu pai. Neles, ele, inevitavelmente, embutiu-se. A sombra, eterna em minha escrevivência. Meu pai, infinita presença.
Bem, minha intenção era fazer uma crônica sobre o Dia dos Pais. Acabei recordando meu pai. Ele é referência, recorrência, para mim. Desculpem-me por tê-los frustrado. Para me redimir um pouco, aqui vai uma sugestão para vocês que me lêem neste domingo, 13 de agosto: que tal sentimentalizarmos nossos algarismos? Dêem Quase memória, de Carlos Heitor Cony, a seus pais. É o que eu daria a meu pai. E estaria, seria presente.
Bom Dia dos Pais para vocês!

Vitor Hugo Fernandes Martins

RODA MUNDO 2009 - ANTOLOGIA INTERNACIONAL ANO 6
Organizador – Douglas Lara

O CATARINA E EU

João é ninguém e todos nós. João, faz tempo, o meu vizinho do quarto 35. O que tem 67 anos, uma cabeleira branca impecável e um orgulho dos diabos. Posto que mora em hotel, a solidão é inerente. Aí João sai cedinho, dentro de um eterno e indefectível terno branco (para combinar com a cabeleira, eu sei), no usufruto de sua iníqua e inócua aposentadoria: vai perdigar.
Em sua travessia, desce e sobe e sobe e sobe e desce a mais carioca das nossas ruas. Passa ao largo pelos sebos. Seduzido, sim, pelo cartaz do Cine Íris, excita-se, coça-se e esfrega as mãos freneticamente: PENETRAÇÕES EM ABUNDÂNCIA. Hesita. Acalma-se. Olha para os lados. Dois dedos, o indicador e o médio direitos, salivados, sobre as sobrancelhas, gesto recorrente. Conserta a gravata e segue em frente, trauteando, sempre alguma coisa do Nélson Gonçalves. Entra no Luiz, parada matinal obrigatória. “Um remédio e um chope. Sem colarinho, ouviram?”
Depois, esbaforido, os bofes e a alma pela boca. “Também! Um sprinter daqueles, e a balzaca oxigenada, nada...”. Senta-se no banco preferido. Reconhece os habitues do pedaço, os seus pares, os que não sabem o que fazer com a manhã e a liberdade em plena Praça Tiradentes. Levanta a cabeça para o seu pétreo e diário interlocutor: “D. Pedro I – A gratidão dos pombos brasileiros!”
E ri de sacurdir-se, de lagrimar, de avermelhar-se todo feito um peru, com a própria chalaça. Tira o lenço marrom (da mesma cor da gravata, do cinto, das meias, dos sapatos) do bolso traseiro da calça e enxuga as lágrimas dos olhos vermelhos de pitu, o remédio. E recompõe-se.
Morta a que o matava, e lá vai a nossa personagem, palito entre os dentes, dando tapinhas no figueiredo velho de guerra. Avança para o Campo de Santana: fazer a digestão perdigueira. Galegas pacas, professor!
Bem mais tarde, estará abrindo a Estudantina. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair da gafieira. Já tem até mesinha cativa. “Uma deferência especial do gerente ao degas aqui”. E João dança, dança, dança. E bebe, bebe, bebe. “A dar com o pau!”.
A volta para o Rio Hotel, para o nosso terceiro andar, João sabe como o faz, mas volta sempre. Em sua cela, escancara a janela que dá para o João Caetano, tira o paletó, a gravata, a camisa. Afrouxa o cinto. Toma (me desculpe, João!), digo, bebe a boa e desmorona na cama. Desacorçoado. A mala, em cima do guarda-roupa, chama-o, convida-o novamente a partir...
Não, não se mate, João! Eu estou aqui ao lado, solitário/solidário. Vamos pituzar, vamos! Ou falemos da galega Madonna, a quem você gostaria de dar uma boneca, certo? Ou pichemos o Governo, que nunca rima com povo, não é verdade? Que tal fazermos uma fezinha, botarmos tudo no veado? Que tal uma raspadinha? Por que essa angústia noturna a corroer-lhe a existência, João? É, concordo, às vezes, mesmo para nós, tupiniquins, profissionais da esperança, fica difícil contestar que o Brasil não é um ´país sério...
A despeito disso, não se mate, João! Venha ouvir Vitor Assis Brasil, ou Paulo Moura, ou Robero Sion, comigo. O jazz também nos impede de jazer, sabia? Venha, sim, que eu quero ler alguma coisa para você. Alguma coisa daquele luminoso negro do Desterro, seu conterrâneo. Então você vai saber o que é DOR. Venha, que eu sou despreconceituoso. Se quiser dizer safadezas, diga, eu gosto também delas. Só não me chame professor: eu brigo. A vida é que ensina e as melhores e inesquecíveis lições quase sempre vêm de nãos.
Não, não se mate, João! Você, que é tão desertado, não me deserte. Há tantas galegas para as nossas fantasias! Há tantos bailes ainda para você, pé-de-valsa! Há tantos pés-sujos para dessedentá-lo! Afinal, por que cultivar a morte no quarto, na mala? Jogue fora o três-oitão! Melhor, vamos barganha-lo na feira de Acari, vamos! Com o dinheiro, zonearemos a dar com o pau! Tudo em nome de Baco, pois Tânatos nós já cultuamos demais.
Não, não se mate, João! Você já se esqueceu do Carnaval, quer dizer, do vale a carne? Por que é que temos Carnaval, João? É para lembrarmo-nos de que estamos vivos, de que chegou a hora de tirarmos as máscaras cotidianas e gozarmos (em todos os sentidos) a vida, meu agridoce catarina. Mesmo porque “morrer é ininterrupto”, conforme uma ucraniano-carioca.
Não, não se mate, João! Antes é necessário conhecer o metrô, Sou lá tatu pra andar debaixo da terra!, boquejar contra a filha (o que você plantou e agora tem de arrancar?), perder os dentes, ganhar mais tiques e acabar pelo fundo como panela...
Não, não se mate, João! Eu ainda não falei em Deus, reparou? E tenho de fazê-lo: é Ele, por meio dos homens, que me dá uma vontade danada. Homens, por exemplo, como o Cidadão (com todos os efes e erres) Herbert de Souza, o Betinho e sua Sociologia da Caridade, a mostrarem-nos que podemos ricos do Outro, sim Senhor.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A SINTAXE PARATÁTICA DE “CONTOS CARDIAIS” – Cleiton dos Santos Pereira

“Por mais veterano, por mais hábil que seja um contista, se lhe faltar uma motivação entranhável, se os seus contos não nasceram de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético.”
(Júlio Cortázar)

Aprendi com João Cabral de Melo Neto, a retirar a gordura do texto: fazer, a todo instante, lipoaspiração nas palavras. Ou melhor: como os árcades, cortar o que for inútil. Preferir a transposição à inspiração. Privilegiar o chão à nuvem. Enfim: ser telúrico, orgânico, cirúrgico.
Todo esse cuidado com o texto (a propósito, muito mais do que se imagina!) Vitor Hugo tem de sobra. Sua sintaxe é cortante, afiada, elegantíssima. Em suma: ingordurosa. Despe-se dos adjetivos delirantes, das nuances metafóricas. Assiste-se, antes de tudo, à sintaxe lacônica, cabralina, que se reveste de clareza, de objetividade, de concisão. Por isso, fascina.
Engana-se quem se dispuser a ler os “Contos Cardiais” com apenas coração. Deve-se lê-lo, em detrimento de qualquer compreensão, com o cérebro, com a precisão cirúrgica à Ivo Pitanguy (perdoem-me a analogia médica). Eliminam-se o adiposo, as sobras, os lipídios, os glicídios. A palavra, somente ela, é quem monitora o olhar atento do leitor.
Podem-se ver, na sintaxe narrativa dos contos, os “pontos cardiais” (a paranomásia do título do livro não é gratuita!) estão vivos, vivíssimos na voz do narrador anônimo, que perpassa a sintaxe paratática dos enredos (parecidíssimo com o narrador machadiano, que escre(vivia) suas histórias com a perspicácia inerente às testemunhas oculares).
Para ser mais sincero: Vitor Hugo, meu amigo, você não tem cura. A sua escrita é logocêntrica. À Roland Barthes. Não por acaso, assim como eu, acredita, também, que a Linguística é a ciência maior. A Semiótica, apenas filha bastarda dela. Nesse ponto, barthianamente, compartilhamos a mesma opinião (o que é coisa rara: que o diga o meu vício pirrônico, como você já disse certa vez, em carta enviada ao Laércio,na Corte!).
Essa maneira de narrar, que faz inveja ao curitibano Dalton Trevisan, desvia os olhos da história para os olhos da palavra. Vemos, em primeiríssima mão, o vocábulo; depois, o enredo. Como os formalistas russos, o discurso em vez da histórica. O enunciado em vez da enunciação.
Para a compreensão da narrativa de “Contos Cardiais”, vale mais a sintaxe do que a semântica (ou, convenientemente, vice-versa, bem ao gosto dos críticos de Noam Chomsky!). Sendo assim, a literariedade que Jakobson nos ensinou em seu famoso artigo O que é poesia? (1978): “A palavra é então experimentada como palavra, e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão da emoção”.
Se não, vejamos:
a) “grudarnela” na cantina...” (Gula)
b) “pichara democradura...” (Polaca)
c) “Es-ti-lha-ça-do, o escuro silêncio...” (Eles)
Nesse sentido, o significante é, em si, o próprio significado. Para aquele, os nossos olhos. Para aquele, o cuidado do narrador. Vemo-nos na palavra. A história, primorosa também, caminha paralelamente. Nem por isso, menos importante. Ofusca-se, porém, diante do primor sintático do enunciado.
Mas, registre-se, o NARRADOR COM (à Jean Pouillon) apresenta os pontos cardeais mediante as particularidades dialetais de cada região (escre)vivida nos “Contos Cardeais”. Dos Portos Velho e Alegre a Curitiba, do Rio de Janeiro a Goiânia, as marcas linguístico-locais são evidenciadas pela artimanha do discurso narrador:
a) “Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios [...]” (Amargo feito sorvete – Porto Velho, negrito meu);
b) “- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria!” (Vingança – Porto Alegre, negritos meus);
c) “Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabonitismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski?” (Polaca – Curitiba);
d) “Dioniso da Silva, aliás, o ‘Bonito’, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriado. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé?” (O sequestro – Rio de Janeiro, negrito meus);
e) “Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor, a um Enoch.” (Sob(re) Ancila – Goiânia, negritos meus).
Assim, pelas frestas da linguagem, as variações diatópicas, diastráticas, diafásicas se encontram idiossincrásicos do nosso destino, do nosso falar brasileiramente. Eis os “Contos Cardiais” : de cor (ô) e de cor (ó). Dos olhos (em primeira mão) e do coração (em segunda mão).
As reses (sintaticamente) prevalecem em detrimento do predicado. As sentenças dos contos são curtíssimas. Daí, a preferência pela parataxe. Ou seja: a ausência de subordinação e de coordenação. O vocábulo, ele próprio, a frase, o sintagma nominal. Nisso, Vitor Hugo chega a ser artesão. Vasculha as vísceras da palavra. Parataticamente, um ourives. Enfim: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!” (bilacmente!).
Bom exemplo disso é o conto “Diana-Chupeta”. Quase todo qualificador. O verbo desaparece. Dá lugar à precisão cirúrgica do sintagma adjetival. Por esse motivo, ler os “Contos Cardiais” é muito mais que deleite. É aprendizagem e palavra, discurso e sobriedade, cérebro e concretude.
Não fiquemos apenas com esse aspecto. O conflito das narrativas percorre o caminho tênue enter o nós e os outros (o empletment, como nos ensinou Hayden White). Permitam-me o meu inofensivo bairrismo: a Ancila (quem é escravo de quem?), pela beleza, pela luxúria, tinha de ser de Goiânia. Terra das mulheres mais bonitas do mundo (não, meu coração não é menor do que o mundo, Drummond! Ele tem mania de grandeza...).
Ressalte-se, pois, a astúcia do Divino 45, a Gula de Neuza Beatriz, o sofrimento do implícito Jean Valjean em Eles (reescritura d’Os Miseráveis, de Victor Hugo: ambos, românticos!). Toda essa gama de personagens, que nos remontam ao universo continental brasileiro: do Rio Madeira ao Guaíba, do Largo do Humaitá ao Lyceu de Goiânia. Tudo se move como se a vida estivesse ali, na fineza narrativa, no labor das palavras de cor.
Enfim, Vitor Hugo insere a lâmina sintática na contística contemporânea brasileira. Por isso, este livro demarca a vida literária deste carioca mundano, e o lança no rol dos principais contistas que surgiram em nossas letras do final dos anos 80 para cá. “Contos Cardiais” o provam. Deleitem-se com mais essa prova de amor à palavra, à literatura, à vida literatizada. Grande abraço, meu amigo crônico!

Ceilândia, DF, 23 de novembro, de 2005.
Quarta-feira!
15h6min!

O “ESCREVIVER” DE VITOR HUGO MARTINS – ALAN OLIVEIRA MACHADO (Poeta e professor)

Vitor Hugo Fernandes Martins, esta figura camoniana por trás dos óculos escuros, perspicaz, carioca, é uma personagem rara dentro do nosso mundo acadêmico. Conjuga o rigor teórico, apolíneo, do doutor, com a embriaguez, o desprendimento dionisíaco, do artista. Com a existência e a persistência desse homem, a Academia, muitas vezes ascética, fria e fechada, ganha por dois lados: por um, o professor competente e cativante, demasiadamente humano; por outro, a literatura refinada, de alta qualidade. Quem até então só conhecia o professor, a pessoa, verá, neste “Contos Cardeais”, o criador, o homem que luta com as palavras, luta vã, diria o poeta das epígrafes, mas infinda, inquietante e necessária como a vida.
Vitor Hugo é um “flâneur”, bem no sentido que dá João do Rio ao termo. É aquele andarilho inteligente, como coração aberto ao mundo, às singularidades das vivências. Esse vagamundear certamente se reflete neste seu bem tramado livro de contos. Aqui, um périplo pelos cantos cardeais do Brasil se converte em “Contos Cardiais”, referentes ao coração. E este às vezes se avoluma, outras se apequena diante da força existencial de suas personagens, predominantemente gauches, de têmpera sanguínea, dionisíaca. Assim, vai-se enfileirando de conto a conto, de canto a canto, essa gente excluída, esta gente carnal, esta gente da margem: Divino, Diana, Gringo, Bonito, Bernadete, Ancila...
Porém, mais do que um desfile de almas, temos em “Contos Cardiais” o saboroso texto de um exímio escritor, de um perito na lida com a língua. No contato com o “escreviver” deste mestre, nós nos damos conta de que a verve, o estilo vitor-huguiano é fruto de profunda consciência de linguagem, da palavra, diga-se. Isso é o que denuncia a sua prosa paratática, picada, que se esquiva dos verbos, forçando o substantivo, o nominal, a ganhar efeitos inusitados, mediante hábil manipulação metabólica ou semântica. Ademais, com a mesma perícia que atribui ao seu “Divino 45” no estudo das vítimas, o autor se apropria, ainda, na medida certa, de bossas e tiques que dão a cada narrativa, situada regionalmente, um agradável colorido local.
Um livro de primeira, vibrante, rápido, é o que este deambulador (insaciável) nos entrega. E aqui temos, muito mais que o deleite, a sorte de apre(e)nder o mundo, a língua... Viva, vivíssima.

Goiânia, 14 de novembro de 2005.

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

SOB(RE) ANCILA - OESTE

Aí vai à frente, meus leitores sacanas – grandessíssimos e inveterados “voyeurs” – o meu conto, a que acrescento um ponto, está claro, obedecendo, assim, à lição machadiana. Se considerardes de saída que sou chegadíssimo numa sacanagem e numa poetagem, estareis com a razão. Se pensais, porém, que neste textículo haverá mais sacanagens e menos metáforas, incorrereis em grosso, desmarcado erro. Preparai, pois, vossas fantasias, vossos olhos, vossos ouvidos. Relaxai e gozai.
Penso que posso e devo estimular vossas cabeças, safados leitores, até porque esta história não passa de uma puta sacanagem, literariamente, e não literalmente, hein, moralistas de plantão! É antes ficção que fricção, cuideis. Mas, alegrai-vos, vede, aí vem a minha, a nossa criança. Quatorze anos, nem mais nem menos. Delicioso um-metro-e-setenta. É, bitelona, sim. Filé, de dar água na boca a um Roman Polanski, a um Woody Allen e a outros pedófilos menos dotados. É loura, onde quer que tenha pelos. Lourice natural. Olhos azuis. Bocas maravilhosas.
Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor a um Enoch.
Um rubi, o umbigo, sempre à mostra. Uma pinta, uma razoável pinta acima do púbis, à direita de quem entra. E crede, povo devasso que me lê, calipígia. Ai, a queda que os brasileiros têm por uma bunda! Eu também estou aí no meio, hein! De minha, digo, nossa ninfeta só falta dizer-vos isto: é goiana, de Montividiu (sic), assim como eu, a Ancila. A que me escraviza com suas bocas e mãos. A que sob mim me domina. A que me cavalga, já que súcubo sou, silenciosamente, mordendo o lábio inferior, e me faz incêndio. Como a seguir, no próximo parágrafo, excitados leitores, como cacei jeito de caçar esta pombinha que me não sai da cabeça. Por enquanto, gozai e relaxai.
Proxeneta, o destino nos destinou mutuamente. Se não, vejamos: Ancila mora na minha rua, a T-4 Setor (Mui) Bueno, aqui em Goiânia. No mesmo prédio em que moro. Vive debaixo de mim. Além de ser montividiuense e minha vizinha, é minha aluna. Faz a oitava série no Hugo de Carvalho Ramos. Aluna boa, boa aluna. NooooooosSenhora!, demais da conta, sô! Aprende com facilidade tudo que lhe ensino. Tem um dom inato, raríssimo, para trabalhar com a língua. E com as mãos também. Uma prestidigitadora, ela.
A mãe dela não me conhece, não sabe que sou professor de Português da filha. Talvez tenhamos nos dado um ou outro bom-dia no elevador. Ela parece mais preocupara com o marido, sozinho lá nas fazendas de Montividiu, do que com as lições e a iniciação da filha comigo. Desconhece, por exemplo, que o vou-estudar-na-casa-de-Laura de todas as tardes, inclusive e sobretudo as dos sábados, é trepar no meu quinto andar. Nem desconfia, coitada, que eu deflorei (iche! que verbo mais fora de moda!) Ancila no começo deste ano, numa chuvosa sexta-feira, depois de lermos, em voz alta, es-can-din-do, os versos de A NOITE DAS NOVE FODAS, soneto de Bocage, e de assistirmos no vídeo ao GARGANTA PROFUNDA e ao ÚLTIMO TANTO EM PARIS. Foram as preliminares do defloramento (iche!) de Ancila. Transa feita com muito vagar, com minúcias, detalhe por detalhe. Trabalho de ourives. Digitando-a, manuseando-a, invadindo-a, explorando-a. Eu, o seu espeleólogo. Eu, comendo o mingau pelas beiradas, para não acabar logo... Aí ela aprendeu o que é clitóris, que não é uma palavra proparoxítona como ela pensava e pronunciava, clitóris; aprendeu, NoooooosSenhora!, como aprendeu, o que é felação; aprendeu a diferença enter quiromancia (ela vibrou com a palavra), onanismo (achou massa a história de Onan) e siririca (iche! eu palavra mais “démodé”! na verdade, nada mais “démodé” que a palavra “démodé”, não achais, lúbricos leitores?); aprendeu um numeral muito especial, o sessenta-e-nove, e uma variação dele, o noventa-e-seis, não pensa noutra coisa; aprendeu a ser penetrada com manteiga (exige que eu chame de Maria Schineider); aprendeu coisas pra caralho. No outro dia, no sábado, ela trouxe todas as lições na ponta da língua. Estais aí ainda, leitores luxuriosos? Melhor fazermos uma pausa, certo? Eu aqui; vós, aí. Ufa! Mas vem mais, aguardai.
Há quase um ano venho ensinando, cevando, comendo Ancila. UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES. Lições amatórias, muitas, muitas. E, como costuma ocorrer, quem aprende, termina ensinando. MESTRE É QUEM DE REPENTE APRENDE. Ou quem recorre à APRENDIZAGEM DE DESAPRENDER. O que tenho dado para Ancila? – me perguntais, desejando mais devassidão do que citação, mais sexo do que nexo e plexo, leitores libertinos. Serenai, eu vos respondo: banhos pro-lon-ga-da-men-te gostosos; duros exercícios com duros instrumentos de gozo; e ração diária (incluindo algumas tardes dominicais) de carinho-e-delicadeza, uai! Sabei que coisamos ainda nos entardeceres goianienses, coisamo, sim. Ô terém danado de gozozo! Agora, a verdade seja dita, recebo mais do que dou. Ancila é que me ensina, me ceva, me come. ESTE DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE, temo e tremo só de pensar em perde-lo, e sei que vou perde-lo breve, breve. Afinal, ela já sabe bater asas, já sabe voar. Afinal, tenho, segundo ela, a mesma barriguinha dos quarentões, a mesma mania de olhar por cima das lentes dos óculos e, o que é pior, a mesma idade do pai dela. Quem carece de alforria, pois, não é Ancila, mas sim eu. Por ora, entretanto, ela me diz que não pertencerá a mais ninguém, nunca jamais. Leréia, leréia, eu sei. Diz, após o orgasmo, depois de colar o ouvido no meu CORAÇÃO DISPARADO, tirando o louro cabelo do rosto suado e rosado, meu trem!, e eu chego outra vez ao Éden. Para mim, será custoso demais da conta não mais introduzirmenela, edernizarmenela, eternizarmenela. Anoitecerão dolorosamente as minhas tardes, a minha vida. Debruçado sobre a T-4, sem o meu ancilar gozo, estarei plenamente vazio. Descerei rápido para o poço de mim, sem minha Lolita. “Professores frágeis sempre se apaixonam por alunas fortes”, onde li isso, meu Deus?
Quereis saber mais, mixóscopos leitores? Quereis antes trepadas que depressões? Simples: comprai o próximo número desta revista. Aí talvez possais ver se ainda estou sob(re) a Ancila. Pelejei que só para contar-vos, com engenho e arte e erotismo, a história de uma ninfeta goiana, e vos daí, desse lado, com essa vossa puta má-vontade, com essa vossa puta indiferença, com essa vossa puta insensibilidade, sempre insatisfeitos, com essa vossa puta pulsão escópica que vai além da normalidade, querendo mais e mais e mais... Ide vós todos aos pés, que é como dizemos aqui em Goiás, o que quer dizer, na verdade, ide vós todos à merda! Basta. Cansei. Ficai com a putaria; eu fico com a poetagem. Ou vossa excitação vos impediu de inferir deste textículo o quanto quero estar próximo de vós?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

ELES - OESTE

Nada. Mais uma vez ele chegava sem nada. O olhar vazio. As mãos vazias. O estômago vazio. Se fosse só isso, ele não se nadificaria. O que lhe esvaziava a existência, o que o mortificava era isto: a fome da mulher, da filha. Estes seres queridos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos... pela madrugada adentro, dentro dos ouvidos dele, acusando-o, recriminando-o, penalizando-o. Elas, a vida dele; ele, a morte delas. Não, desta vez ele não chegaria com as mãos vazias. Hoje, sim, ele se tornaria um criminoso. ELES veriam só...
A vidraça, es-ti-lha-ça-da com o soco. Es-ti-lha-ça-da, o escuro silêncio. Ele corria, corria, corria. Fugia dos apitos policiais. As mãos sangravam mas não estavam vazias: apertavam o pão ao coração. Ele ria, ria , ria que chorava. Elas agora estavam salvas, viveriam.
Apenado, ele só pensava nelas, no que elas penavam. Elas, à própria sorte neste momento. Sim, mais um crime que ele cometia contra elas. Será que elas, pelo menos elas, entenderiam que, naquele estado, o que ele fizera fora uma necessidade? Se ele...
A fome comeu elas, tadinhas, disse-lhe a vizinha, talvez a próxima vítima dELES, digo, da fome. Ele levou as mãos à boca: queria vomitar-se. Pensou em entregar-se ao primeiro policial que visse: Sou o foragido que vocês procuram. Levem-me, encarcerem-me, executem-me, por favor!
Porém, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Apesar disso, ele desvivia. Noturnamente, esgueirava-se, rato, esgueirava-se. Sim, porque ELES o perseguiam. ELES o perseguiam a vida inteira. Javermente. Não, não era delírio persecutório, como disse a psicóloga. Não. No fundo, ele é que devia persegui-LOS.
Ele penou, penou, penou. Foi então que ele cruzou com Deus. Ele nunca tinha provado Deus. Um sabor que só vendo, só se tendo, Deus. Com toda certeza, ELES nunca tinham cruzado com Deus. Então comeu o pão que Deus cozeu: sabia melhor que o que ele comera antes, sabia, sim.

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

HISTÓRIA - OESTE

“Toda história é remorso.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Ele lecionava-nos História. História do Brasil. OS DONOS DO PODER – a Bíblia dele – sempre debaixo do braço esquerdo, nas mãos de dedos nodosos, sob os olhos com óculos de lentes grossas feito fundo de garrafa. Os dois volumes. Lidos. Relidos. Treslidos. Surradíssimos. As capas, esmaecidas. Como o terno azul-marinho de todas as aulas, que de tão justo já não abotoava mais. A camisa, branquinha, branquinha, trazia o colarinho puído. A gravata, a eterna gravata, também de um azul-marinho desbotado, curta. Saliente, o ventre dele, o que o fazia mais baixo do que era na verdade. Obeso, ele andava com dificuldade. Raras vezes ia à lousa. À cátedra, empedernido. Gostava era de que lêssemos em voz alta, que comentássemos, que discutíssemos, palavras, expressões, frases, períodos, parágrafos, capítulos de OS DONOS DO PODER, de Raymundo Faoro. Dizia-nos que dava aulas dialéticas, que usava a estratégia de Sócrates, a maiêutica. Senhorita Vera Lúcia, por que “o coronel converte o freio jurídico do governo em buçal caboclo”? Senhor Marcos Lúcio, qual o seu comentário a respeito da citação de Raymundo Faoro e que o senhor acabou de ler? Pelo que vejo o Cleiton Luís discorda da interpretação dada pelo senhor Wendell Sullivan à expressão “criatura domesticada” e deseja intervir. Estou certo, senhor Cleiton Luís?
Ele tinha um ar de cansaço, de fastio, de amargura. O nodoso médio da mão esquerda teimava em ajeitar os óculos bem no meio da armação. De imediato, silenciávamos. Ele olhava-nos, devassava-nos. Desde o nosso primeiro dia de aula, nós sabíamos que íamos amá-lo. Também sabíamos que ele vivia à base de vinho, de ódio. Negro, ele era negro.
O professor Amaro deixou-nos cicatrizes indeléveis. À sombra da nossa confidente munguba, nós o víamos chegar todas as manhãs, a pé, pela Rua 22. Vagarosamente. Penosamente. Odiosamente. À beira da calçada, ele ajeitava os óculos. Esperava, com uma feroz tranquilidade, que os carros passassem para poder atravessar a Rua 21. Logo começava a suar. À claridade do sol, ele negrejava. Vinha vindo. Raymundo Faoro na axila esquerda, claro. Na mão direita, os diários de classe. Ante a sua iminente e eminente presença, parávamos a discussão sobre Zico, sobre Reinaldo. Calávamo-nos, intimidados. Bons-dias, senhores. Entrava no Lyceu pontualmente às 6h55min. Não ia para a sala dos professores, não. As retinas estavam fartas daquelas cópias chinfrins, como a da Santa Ceia, a do Homem com moça no barco, a da Mona Lisa e, sobretudo, a do Beijo de Judas em Cristo. Aquela sala também estava cheia de gente chinfrim e de Judas... Atravessava o pátio. Lançava, sim, um tímido olhar para os seios da Índia, à esquerda, palavras do Turco, o Nacif, o maior cê-dê-efe do Lyceu, que não sabia mentir. Com uma dor patente, com um rancor latente, subia aquela ingrata escadaria que levava à sala 18, a nossa. A mão esquerda sobre o joelho da perna esquerda, a que coxeava levemente. No patamar, esbaforido, tirava os óculos, limpava o suor do rosto com o lenço azul-marinho, embranquecido como o terno, como a gravata. Às 7h, ao toque do sinal, entrava em sala, fechava a porta. Bons-dias. Depois que ele entrasse, ninguém mais entrava. Podia ser o Queixada, o Fernando, o filho da professora Iná, a Diretora, que não entrava, não. É, ele era opiniático até, o professor Amaro.
Aprendemos muito com ele. Às aulas de História do Brasil dele ninguém faltava. Mesmo o Quasímodo, o Hércules, o mais baixinho da nossa turma, o gazeteiro-mor do Lyceu, não perdia uma aula sequer do professor Amaro. Por quê? Porque eram aulas iniciáticas, reveladoras da História do Brasil. Quer dizer, não da História Oficial do Brasil, mas sim da História marginal, proibida. Os porões, os vazios, os interditos da história do País aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. A anti-história. Aquele homem negro de alma negra, tão indignado, tão indiciado, tão injuriado, não apenas nos informava, mas principalmente nos formava. Vocês trouxeram consigo o artigo de O POPULAR que eu lhes pedi na última aula, estou certo? Vamos lê-lo, então. Senhorita Myrian Ruth, por favor, leia, sim.
“De São Paulo a Minas, meditei sobre os imprevistos caminhos dos povos. O jovem Pedro do Ipiranga era neto da mesma Maria que, 30 anos antes, sancionara as condenações de Tiradentes e seus companheiros.
Tais são os caprichos da história que, poucos anos depois, o mesmo príncipe sonharia reunir numa só duas pátrias. A D. Pedro pareceu natural juntar o título de rei de Portugal ao de imperador do Brasil.
Caprichos da história, talvez. Ou então indício da índole dos brasileiros, que, em menino, Pedro absorvera. Pois nós somos, como os mineiros tão bem exemplificam, pela conciliação. A mão estendida. O milagre de uma gente para quem o dia de glória é o do perdão e do esquecimento, e não o dia da ira, o dia da violência.”
“Caprichos da história”, como quer o nosso intelectualismo General-Presidente, significam o mesmo que caprichos do homem, senhor Geraldo Magela? A seu ver, senhorita Sônia Maria, o brasileiro tem mesmo índole cordial, conciliatória? Certo, senhor Cleiton Luís. De fato, não podemos, não devemos confundir “esquecimento” com impunidade. Brilhante, o seu aparte. Parabéns.
Sim, aprendemos demais com o professor Amaro. Com ele aprendemos mais Português e Literatura que com os nossos professores de Português e Literatura, que, por sinal, eram muito bons, façamos justiça. Mas nosso inesquecível mestre de História do Brasil ensinou-nos a amar as palavras, a nos amar pelas palavras. Ensinou-nos a ler as entrelinhas da VIDA, este texto tão acessível a todos. Aprendemos o significado de palavras como dignidade, coerência, justeza, solidariedade, desalienação, cadeia da legalidade, constituição humanismo anistia... aprendemos o que é ser digno, coerente, justo, solidário, desalienado, humanista, anistiado, amaro...
Pela grossa aliança no anular esquerdo, sabíamo-lo casado. Porém, ninguém o via com a esposa. Ninguém, vírgula. A linguaruda da Dalila, aquela sardenta que escrevia notas chistosas em O LYCEU, espalhou que tinha visto a mulher do professor Amaro, uma loura de fechar o comércio, gente. Disse mais: tinha visto o casal e uma escadinha de filhos, três meninos e uma menina, todos louros, louríssimos, gente, a loura, que não era oxigenada, não, tinha um decote... um sábado, no Mutirama. Apenas mais um detalhe, gente: o professor Amaro estava vestido com o seu inseparável terno azul-marinho... Seria verdade da Dalila? Aquela sardenta sabia mentir como ninguém. Era o oposto do Nacif. O nome se ajustava bem à pessoa. Ela já havia espalhado que ele, o professor Amaro, fedia a vinho... E nisso ela infelizmente não mentia. Com toda certeza, ela estava se vingando dele, pois fora reprovada por ele. Era ainda uma segundanista. Nós aí nos vingamos dela: batizamo-la de “Ferrugem”. Pronto. E não é que pegou.
Este 1979, que recuperamos agora nesta história, alimenta-nos. É matéria de memória. Sempre recordamos o professor Amaro, sua natureza atrabiliária, a última palavra que lhe ouvimos, quando da nossa despedida. Sim, lá estava ele, com o mesmo terno azul-marinho desbotado, o mesmo tique com os óculos, suando, um nadinha de vinho na boca. Só, na sua doce cólera. Sem saber o que fazer com as mãos, que talvez sentissem falta de Raymundo Faoro. Ele, o professor Amaro, nosso substrato. Nossos pais choravam por nós, por nossa formatura. Nós chorávamos por ele. Temíamos não tê-lo amado como ele merecia ser amado. Como nós o amávamos, meu Deus! Levou-o de nós uma hepatólise, faz três anos. Trazem-no de volta a nós suas lições: ainda hoje sabemo-las de cor.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

TREMOÇOS - LESTE

“Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo
Vencido sobre quem se aventura a recompô-lo.”
(José Cardoso Pires. “O delfim”).


Invernosa manhã. Plúmbea. Curitibana. Apesar disso, eu e minha cervejinha dominical. Estupidamente gelada. No MATOSINHO, Praça da Bandeira. Minha toca aos domingos. E segundas, e terças, e quartas, e quintas e... Mania de boteco. Incorrigível. Atração fatal, os pés-sujos. E não só os cariocas e fluminenses, mas também os paranaenses, os catarinenses, os paraenses, os rondonienses, os goianos, os mineiros, os paulistas, os brasis. Bar doce bar. Sim, mas eu e minha cerveja dominical estupidamente gelada. Lá fora, garoa. Frio. Com jeito de Sampa, o Rio. Merda. PERGUNTE PRO SEU CORAÇÃO, o fundo musical aqui dentro. De repente, à minha frente, em cima do balcão, uma generosa porção de tremoços. Ter-mo-ços! Tira-gosto, brinde da casa, José. O bigode e as costeletas do Belarmino, o proprietário do MATOSINHO. Não, não, obrigado, Belarmino. Pois, vai, homem, come! O insistente Belarmino. Certo, certo. Um, dois, três, quarto, dez... Mecanicamente. Mecanicamente. Mecanicamente. Bom, não? Assim, assim, pouco curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes. Saco. Sabor de quê? Sabor já sábido... Amargor. Ora, por causa das casquinhas, José. Não, Belarmino, não por isso... Sabor imperecível. Só meu. Rua Lins de Vasconcelos, 323. Centena impagável... Outra vez na cabeça... Por quê? Casa na ladeira. Casa natal, para mim e para a Irmã. Casa e brinquedo. Casa-oficina do Avô, lusitano como o Belarmino. Casa de móveis, imóvel no tempo. Eu-menino. Sem Avó, sem a filha da Avó, sem o Pai, sem a Irmã. Esses, chamados por Deus, agora no céu. A vontade de Deus. Pois. A vontade de Deus. Ou o edifício e os familiares sob o fogo das águas. Verão de 1966. Pois. O posto, o tirado por Deus. Certo? Não! Eles no Céu, e Eu e o Avô no inferno? Eu, o Avô e o Agregado. Amigo de infância, da mesma aldeia, do mesmo navio imigrante. Outono de 1910. Pois. Agregado, coisa de portuga. O encardido das camisas-de-meia deles. As bainhas das calças listradas, dobradas até as brancas canelas deles. Os tamancos. Os tamancos. Os tamancos. Os dois portugas. Unha-e-carne. Nós três, nós. Sobreviventes. Nós e os tremoços. Bem curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes (alguns de ouro) do Avô. Raios. As casquinhas dos tremoços do Agregado sempre no chão. Uma imundície bestial. A vermelhona careca dele. O dito Benedito, maldito. Um Judas de marca maior. Na certa, muita inveja da prateada cabeleira do Avô. Meu marceneiro de mágicas mãos. O Agregado, sim, carpinteiro. Dia e noite, noite e dia, o Avô debruçado sobre a bancada. A pua. A grosa. A plaina. O formão. A cola. O pote de tremoços. Sempre ao pé de mim, hem, José! Tremoço, coisa de portuga. O Avô e os meus doze órfãos anos. O Avô no lugar do Genro, da Filha, da Neta. O Avô-professor. O Avô perdedor. Perda e dor. Mais do que Eu, bem mais do que Eu. Pois. A orfandade do Avô. Provações, privações. Privado da Esposa já no Brasil. Do Filho, o primogênito, igualmente José, o desertado, o deserdado (mas nunca esquecido, sempre recordado). Parecido em tudo contigo, José. Da Filha. Do Agregado, o grandessíssimo filho da mãe. Da Neta, o xodó dele, porque a caçula. Do Neto. De mim?! Não! Nunca! De modo algum! O Avô, essência preciosa, possante tristeza. Coisa de família, dos Fernandes? Coisa de portuga? Acordeonista, cantor e inventor, é claro. O Avô no estribo do bonde Lins de Vasconcelos, número 75. O salto do Avô, de costas, o mais difícil, o mais perigoso, defronte da loja-casa. Caramba, Avô! A Tora, a sinagoga do Avô. Na Beneficência Portuguesa, no asilo, o Avô. Por conta própria. Só. Mas por quê? Doença contagiosa. Conversa. Pois. Proibidas as visitas. Mesmo do único parente, do Neto? Inclusivamente. Por quê? Ordens expressas dele. E os tremoços? Não. Proibidos. Dieta rigorosa. Mas por que tudo isso, Avô? Porventura pela semelhança em todos os sentidos com o Tio, o Valdevinos? Talvez por causa daquele leite derramado pelo Avô sobre o meu peito menino, cicatriz significativa no meu corpo e na mente dele. Talvez pela perda do xodó. Talvez porque também órfão de Deus... Não, ele não. Muito íntimo de Deus, o Avô. Talvez porque... O passamento do Avô. No São João Batista, o Avô vestido, velado, enterrado, chorado, somente por mim. Mais tremoços, José? Não! Não, Belarmino, não, obrigado. Xô, travosa memória! Tremoços, remorsos...

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O MAR E O VELHO - LESTE

Ele. E o mar. O VELHO E O MAR, lembrou. Aquela história de se ganhar e perder tudo conforme os desejos (Ela diria desígnios, mais erudito, mais chique...) do mar. História de pescador, para ele. O Mar, e ele: inimigos figadais. A vírgula e o adjetivo (um dos preferidos dela desde os tempos da universidade) vinham da esposa. Assim como a alusão, a todo momento, ao romance do escritor norte-americano, o romancista de que ela mais gostava, porque escrevia com concretude, sobre o aqui e o agora, telúrico por excelência... (O que ela não contava nunca é que ele escrevia sempre sobre os cachaças, os perdedores, os fodidos pela vida...). Irritava-o já profundamente isto: ouvi-la contar às vizinhas, às visitas, aos parentes que iam vê-los em Cabo Frio, na Praia do Braga: eles são inimigos figadais, o Mar, e o Zé Carlos. Mas por que aquela frescura de escrever mar com eme maiúsculo, caralho?
Sou tarada pelo Mar, ela dizia rindo. Os dentinhos. Clarinhos. Certinhos. Se-pa-ra-di-nhos. Sessenta anos. Eu tenho Mar até na minha cidade natal, gente! Brincava com os amigos dele, sempre bem mais novos do que ele, como se fossem filhos. Os filhos sonhados, nunca tidos. Não por causa dele, fique bem claro. Ela se referia a Mar de Espanha. E continuava, espirituosa: Não, por favor, digam quem parece ser mais de Minas Gerais entre mim e o Zé Carlos, digam!
A esposa. Tinha o Normal, feito no Instituto de Educação, e o curso de Letras, na UERJ. Mas se aposentou mesmo foi pela Caixa Econômica Federal, pois em casa só havia espaço para um romântico, para um nefelibata... Ela pensava que ele era incapaz de atinar para a ofensa, para a agressão, pelo eufemismo, pela ironia. Ela pensava que o dominava, uma vez que o bancava (Como ela usava e abusava desse verbo, caralho!). Ela pensava que conhecia todos os calcanhares-de-aquiles dele. Ela pensava que ele não pensava. Coitada.
A casa. Na Avenida Projetada. O sobradinho, comprado, projetado, construído, decorado, bancado (Lá vem o puto do verbo!) por ela, a esposa. Dona Maria. Foda.
O apartamento do Alto da Boa Vista. Décimo oitavo andar. No meio das nuvens. Literalmente (Maldita palavra que ele acabou assimilando de tanto ouvir da esposa). Não seria metaforicamente? Eu, hein, Zé! Pirou?!. Foda-se. Isso. O apartamento do Alto da Boa Vista, conseguido à custa de muitos vôos, incontáveis vôos, incontáveis vôos, que ele não tinha saco pra contar as horas de vôo, tremenda punheta. Masturbação, onanismo, Zé Carlos. Tanta economia, tanto sacrifício, e para quê? Picas. O apartamento do Alto da Boa Vista, emprestado, “vendido” para o cunhadinho, aquele chupa-sangue. Até porque sofro de acrofocia, nem chego às janelas, um horror! Frescura. A lembrança olfativa do Alto da Boa Vista. Antes, o único senão (Não, senão é demais, Zé! Tem a cara da Dona Maria...) do apartamento, para ele, era aquele cheiro de tabaco que vinha da fábrica vizinha e impregnava em tudo. Agora, somente uma aromática recordação...
A casa. Prisão. Uma prisão-albergue, vá lá. O inimigo de todas as horas ali. À vista. Rebentando nas areias e nos ouvidos dele. Todo dia, o dia todo. Amarga, áspera convivência. O mar, por todos os sentidos. O mar, sem sentido, para ele. O Mar, tudo, para a esposa. O meu Mar, ela dizia. Assim como dizia a minha casa de praia que tanto desejei e na qual vou findar meus dias, o meu Santana Quantum, o meu freezer, o meu cocker spaniel, o meu micro, o meu fax, o meu Hemingway, o meu vargas Lhosa, o meu analista, o meu professor de tênis, o meu celular, o meu, o meu, o meu... O meu caralho, porra! Gostava de irritá-la falando putarias. Obscenidades, meu Ícaro! Ah, Zé Carlos, você e essa sua coprolalia! Dona Maria. Dona Maria. Dona Maria. Mulher de posses. Mulher possessiva... “The possessive case”... As aulas de Inglês do científico, lá da querida, serrana e abandonada Cordeiro, voltando, voltando, voltando... Inclusive a professora, uma portuguesa que vivia dizendo que ele tinha uma ótima pronúncia, um ouvido muito bom, um ouvido de tuberculoso, um ouvido absoluto, uma grande facilidade para o estudo de línguas... Ele tinha era o maior tesão nela, nos seios dela...
No cardápio, carne branca. Azar de ele não comer carne branca, ótima para a digestão. Ele não sabia o que estava perdendo. Cerveja? Jamais, meu Ícaro, jamais, comigo. Somente Matheus Rosé. Na TV, Globo. Sempre a Globo, para espicaçar (Será que esse verbo vem de pica?) o brizolismo dele. Você ainda vai se frustrar com esse caudilho, Zé. Boxe? Nem pensar. Aquilo é uma selvageria, uma carnificina. Esporte da ralé. Haja vista para o tal de Mike Tyson, o estuprador... Sim, camas separadas. Melhor: quartos separados. Embora ela se julgue desfrutável ainda: usa tanga e tudo na praia... mas ele é que na verdade saía ganhando, pois não precisava aturar aquele cigarro intragável dela. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça... Os amigos do bar riam empunhando tulipas, e ele se vingava. Isso.
A casa. A maresia. A ventania. Movediças, as casuarinas, as dunas, as ondas, as gaivotas...
Ele. Estático. Sessenta e três anos. Mas longe da careca, Calva, Zé!, da pança, Ventre, Zé Carlos, por favor!, das próteses, dos infartos, da prostatalgia (Isso não, meu Deus!). Estava inteiro, sim, senhor. É que ele tinha sido quarto-zagueiro do aspirante do América Futebol Clube, apesar de não ter mais do que um metro e setenta e quatro de altura. Naquele tempo... naquele tempo ela, a Dona Maria, gostava de futebol. Não considerava alienado e... (Como é a palavrinha que ela adora? Hã!)... reaça quem gostava de futebol. Ela até ia aos treinos, na Rua Campos Sales, com as outras normalistas. Depois, muito depois é que deu pra implicar com o futebol. E as telenovelas dela? Aquilo, sim, era um ópio, fazia mal ao povo brasileiro. Ele saía de casa. Emputecido. Batendo a porta com força. Só ele sabia como isso a enfurecia e a deixava possessa. Você é um ciclotímico por excelência, Zé Carlos. Tem todas as características de um pícnico, sabia? Ultimamente ele andava com essa conversa... Era preciso procurar no Aurelião o significado daquelas palavras. Ciclotímico. Picnico. Pícnico? Penico ele sabia o que era, caralho, mas pícnico... No bar, com certeza ninguém saberia: aquele pessoal só sabia falar de mulher, futebol e política. Se fosse mais uma ofensa, mais uma agressão, ela veria uma coisa. Veria de uma vez por todas quem era o galo ali. Naquele tempo... quem cantava era ele. Quem bancava era ele. Ouviram bem? Mecânico de vôo. O mais solicitado por todos os comandantes. Por que seria, hem, Dona Maria, por quê? É, mas teve de aterrissar. Aterrissagem forçada. Teve de ir de mala e cuia para o Uruguai. Sim, sem a Dona Maria, lógico. Tudo por amor da Redentora. Mas até que ele vinha recuperando aos poucos alguns direitos e vantagens na aposentadoria, os quais os milicos lhe haviam tomado. Só que agora era tarde. Ele não podia mais decolar, arremeter para bem distante da... dali, do mar. Porra, ele sempre tinha sido do ar, e não do mar. Nem sequer uma amerrissagem ele tinha feito na vida, caralho!
Mas, afinal, o que o Mar lhe fizera? Roubara-lhe algum parente mais próximo, algum amigo de infância, alguma namorada inesquecível, alguma paixão? Qual o crime do Mar em relação a você, Zé? Por que se recusar mesmo a pisar a areia da praia? Você tem de parar de voar, Zé! Tem de pôr um ponto final nesse seu complexo de Ícaro, nessa sua monomania! Aterrissa, homem! Põe os pés no chão! Do contrário, você vai acabar no Pinel...
É, Dona Maria? E quem é que tem acrofobia, claustrofobia, pedofobia, pobrefobia, uma porrada de fobias e é tabagista por excelência, hem? Dona Maria Fumaça, Dona Maria Fumaça? Quem?
O mar. Indiferente. Indo e vindo, vindo e indo, indo e vindo... Libérrimo. Auto-suficiente. Bastando-se a si mesmo.
Caralho.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

GULA – LESTE

...ela era gordinhaÉ gordinha era aceitável néDava-lhe uma conotação afetiva carinhosaA mesma que se tem quando se fala neguinha ceguinha etcEla então se sentia menos volumosa na expressão gozadora do primo um volumoso também deixa eleGordinha gordinha é não soava mal nãoBem diferente de gorducha superagressivo genteOu de gordona como preferem e proferem os alunos aqueles pestinhas que adoram conversar em sala de aula e que têm a maior dificuldade em aprender uma simples equaçãozinha de segundo grauAgora anta ela odiava não admitia mesmo dos filhos do síndico vizinhos do 1206 uns súper mal-educados intragáveisAnta não é demaisAs pessoas podiam associar anta à pouca inteligência à pouca racionalidade à pouca lógica dela isso nãoAfinal de contas ela ensinavaMatemáticaE no Imperial Colégio Pedro II seção HumaitáConcursada sim pra quem quiser saberQuadragésimo quarto lugar pro seu governo É ela era sim superintenligente super-racional superlógicaCerebrina pra lembra a palavra do professor de Literatura do Colégio o IagoVolumosinho que só eleSupersimpático superatenioso com elaQue ele anda de olho gordo nela lá isso andaVem sempre com aquela conversa mole de que também ele vive a cometer este pecado capital de que também é um compulsivo de que também assalta a geladeira toda madrugada e que depois enfarado vai dormir cheio de culpa de que também já fez vários anos de análise e dela saiu igualmente com fomes de que também não pode definitivamente não pode viver sem uns cachorros-quentes a maior invenção dos norte-americanos depois do jazzPara ela a maior invenção dos norte-americanos depois dos cachorros-quentes continuava a ser o Marlon BrandoNo fundo tudo isso não passava de um pretexto para ele o colega se aproximar cada vez mais dela grudarnela na cantina na sala dos professores nas reuniões nas assembleias no supermercado no calçadão da Atlântica etcEle até que tem um rosto interessante superparecido como do Marlon Brando o do APOCALIPSE NOW é claro que os homens carecas nossa exerciam um verdadeiro fascínio sobre ela desde os tempos de guria lá no SulFetichismo Neuzinha Freud explicaSim Talvez porque as carecas sejam para você iconicamente grandes glandesNossa Neuza BeatrizSim o PAI era careca simSuperparecido como Yul Brunner sósia mesmoEla andava com o PAI na mente e no coração um tempãoMelhor ela andava com o PAI nalmaQuarentona já e o PAI ainda a patrulhá-la a censurá-la a feri-la a mutilá-la a infernizar-lhe a existênciaAo acordar pelas manhãs olhava-se de-mo-ra-da-men-te no espelho partido ao meio do armário do banheiro a tez branca dela a tez branca dele os dois ela e ele os únicos polacos da família os olhos verdes dela os olhos verdes dele o sinal de boa textura graças a Deus dele o diastema discreto dela o diastema discreto deleA ele tanto amor dedicado a ela tanto ódio dedicadoPor quêPor que não era o piá esperado tão desejado a camisinha do Grêmio até já comprada que chegava mas sim mais uma guria a terceiraPorque ela falavarindo principalmente à mesa o que irritava o PAI barbaridadeDaí ele um pimentão a açoitava com os verdes do olharOu então ardiloso oferecia-lhe dinheiro para que ela não falasse mais durante a refeiçãoDaí ela comiacomiacomiaEla só merecia um sorriso dele quando tocava ADEUS (CINCO LETRAS QUE CHORAM) no acordeão que as irmãs detestavamAssim mesmo era um sorriso de canto de boca o direito o do sinal de nascença nossa os dentes mal apareciam e nada parecido com as gargalhadas dele dadas às irmãs e que os vizinhos conheciam de tão es-tron-do-sasÉ o professor Iago sabe mesmo transver sabe mesmo decifrar angústias pelo menos as alheiasDe repente e com sutileza ele tinha jogado as iscas certas para ela e tinha conseguido pescar a chave delaPudera ela era piscianaTinha mais é que viver e morrer pela bocaMas por que ela não era como a irmã mais velha e preferida da mãe com aqueles gestos e modos e palavras superestudados supermedidos superelogiados pelas professorasDe verdadeira você não tem nada Vera LúciaQuem não te conhece que te compreSoberba também é pecado capital sabiaOu por que não seguia os passos da irmã do meio a preferida do PAI sempre com aquela frescura de falar tudo en francais pas vraiGrandes merdasQueria ver é você contar pro PAI en portugais que o Lico aquele teu namorado de Formigueiro gostava de morder os mamilos dos teus seios lá no alpendre coisa de que você gostava barbaridade porque sempre ia aos encontros sem sutiã chérieVocê é rainha sim mas é pra tuas negas Regina CelliLuxúria não é pecado venial nãoÈ ela não era como as irmãsO PAI dizia que ela falava pelos cotovelos que falava mais que o homem da cobraSomente bem depois já nos pesadelos dela nos quais ela invariavelmente caía despencava de lugares altíssimos qual o significado disso professor Iago e o PAI gargalhava a mãe e as irmãs esquecidas dela ela normalista batendo pernas no Largo do Machado no tempo em que o metrô era apenas uma cratera cercada por telas a atrair a atenção dos desocupados e curiosos é que ela veio conhecer o homem da cobra e a entender para ela cobra significava falo nossa Neuza Beatriz a comparação do PAI lá atrás em Porto AlegreO correto talvez fosse dizer Porto TristeSim porque as duas queridinhas do PAI e da mãe tinham de tudo e do melhor agora a ela só cabiam os restos os refugosSe depender dela jamais desembarcará naquele porto outra vezA salvação dela foi a tia irmã do PAI chama-la para vir morar no Rio de JaneiroDo contrário o patinho feio teria ficado mais feio aindaEla inclusive perdera completamente o sotaque nem falava mais Bah! Preferia o É ruin hein? dos cariocasO chimarrão nem pensar as mulheres com a bomba passando de boca em boca aquilo era tão super anti-higiênico e nossa tão obsceno ela as via como excitadas felatiadoras outra palavra do professor IagoMas um churrasco podia ser até de gato e um carreteiro ai ela não dispensava nãoE também a ambrosia o manjar dos deuses como dizia o PAI e que só ela e ele comiamO professor Iago dizia que eles agora era uma cariúchaUm superanalista ele e de graça gentePor causa dele desitira da SABRINA das telenovelas do cigarro da coca-cola do torresmo aiPena que ele era superbaixinho supergordinhoPenaUm potinho mas cheio de jóias raras raríssimas e que seduzem qualquer mulherPorém como os dois poderiam dançar de maneira que ela gosta superjuntinhos rostoscoladinhos nossa Neuza Beatriz se a cabeça batia aqui ó nos seios delaOs dois no meio do salão umgrudadonooutro seriam ridículos nossaEla sabia dançar dava “show” modéstia à parteNão podia ouvir um bolero que lhe vinha um desejo incontrolável de dançarPuxara ao PAI o maior pé-de-valsa de Porto Alegre podiam perguntarO PAI “apenas” não dançava com ela mas com as outras duas filhas especialmente com a “rainha” Agora à mesa entre uns chopinhos e uns salgadinhos ele o professor Iago era imenso um poço de sabedoria desvelava a ela tantos mistérios tantos enigmas “Neuza” por exemplo ela não sabia vem do grego e significa a que nada e “Beatriz” significa a que é feliz ou a que faz alguém felizPra falar a verdade ela abominava “Neuza”Ainda por cima com zêParecia-lhe nome de cozinheira cruzes Neuza Beatriz que preconceito hemAchava achava não tinha certeza de que era mais uma vingança do PAIAgora porém que sabia o significado do nome nutria uma certa simpatia por elePor aí se explicaria então por que ela gostava tanto do mar e saboreava-o todos os diasBastava mesmo abrir a janela que o mar invadia o quarto-e-sala da Prado Júnior penetrando-a fundo e levando-a ao gozoAlém do mais a primeira-dama do Estado não era “Neuza” aliás conterrâneaSó que era “Neusa” com esse e não com zê que ela sempre associava ao zê de zebra nossa Neuza Beatriz não se subestimeQuanto a ser feliz ou fazer alguém feliz isso era muito improvável dada a automutilação para o aniquilamento para o esvaziamentoSim no caso dela era urgente a transformação do totem em TABU segundo o professor IagoPorque o PAI era-lhe uma recorrência nocenteE ela precisava esquecê-lo para recordá-loPrecisava que o PAI se tornasse paiPrecisava ser necessariamente uma parricidaPrecisava imolar o PAIPrecisava vomitar o PAI e ao fazê-lo vomitar-se já que tinha tanta gula de vida já que tinha sido voraz em demasia para com a vidaSenão restaria a ela a dor do nada e ela restaria nadificada e
Só.

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O SEQUESTRO - LESTE

Dioniso da Silva, aliás, o “Bonito”, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé? Só podia ser por causa do “Lance”. E desde quando o “Lance” tinha pintado na vida dele? Sabia-se lá, parceiro! O que se sabia era que o passado do “Bonito” era feio adoidado, isso era. Uma droga de vida. Uma vida de droga. Tanto fazia, né? Trinta e três anos. A idade de Cristo, e ele numa pior, numa deprê doida. Sem uma merreca. Sem um barraco. Sem uma nega. Sem um rango. Sem um bagulho. Cem vezes sem. Num preju dos grandes. Chutando lata, como na música do Rei, o maior de todos pra ele, o “Bonito”. E pagando mico, aí. Veja você. Então, pra sujar de vez, pintou o “Lance”. Pura piração, parceiro!
O “Lance” tinha dezessete anos. Priscilla. Assim mesmo, com dois eles. Estava lá, a ouro, na gargantilha. Jóia. A gargantilha ou o pescoço? Priscilla. Nome de riquinha. Nome de artista de cinema norte-americano. Vista, desejada, amada. Bonitamente. Um brotinho. Geleguinha. Sardenta pacas! Verdes, as butucas. Os seios dela – tacinhas, tacinhas – cabendo nas mãos dele, como uma luva, como uma luva, assim ó. E cada coxa, cara!
Aí deu pra azarar ela. Fissuradão. Sabia tudo dela. Tomou posse da vida dela, parceiro. O pai, grande empresário na baixada. Podre de rico. A mãe, gringa. Filha única, a Priscilla. Vegetariana, veja. Virgem. E não era só de signo, não. O “Bonito” apostaria com quem quisesse. Torcia pelo Mengão. De botar o manto sagrado pra ir no Maraca nos domingos. Bom, isso. Fazia cursinho no largo do Humaitá. Queria ser dentista. Também com aqueles dentões! “Bonito” lembrou-se dos seus, em petição de miséria. Como tudo o mais dele, em petição de miséria. Ele, justamente ele que aos dezoito anos vendia saúde. Todos os dentes na boca. Nenhuma cicatriz. Nenhuma tosse. Nenhuma hepatite. E com o segundo grau completinho, cumpádi! Prontinho pra ser bombeiro. O valoroso soldado do fogo, ele! Diziam até que ele era muito parecido com aquele ator norte-americano, um negro famoso, que vivia comendo as galegas. Como é o nome dele? É, esse mesmo, Sidney Poittier. Sim, porque ele era negro mas um negro bonito. Daí o apelido, né, parceiro? Naquele filme, OS ACORRENTADOS, que foi visto uma porrada de vezes, ele, o “Bonito”, era bem mais o Sidney Poittier do que o outro, como é o nome do outro? Hã! Tony Curtis, é. Sim, o branquelo azedo, que só tem topete. Acontece que de repente veio o mau destino, como dizia o padrinho, e desgraçou tudo. O pai pendurado no galho da jaqueira, no meio da Praça dos Garis, pra todo mundo ver. A língua de fora. Chocante, parceiro, chocante. A troco de quê? A troco de quê? O pai, ferroviário, com a sueca, com o dominó, como cavaquinho, com a “branquinha”, parecendo tão feliz, tão amado, tão de ferro... Depois, a mãe, no hospital do Engenho de Dentro. Pra sempre. É remorso dela... O “Bonito” tinha ouvido a madrinha cochichando com o padrinho no enterro do pai, no cemitério do Caju. A mãe estaria viva ainda? Por que não deixavam que ela recebesse visitas? Pinel! Era como chamavam a mãe. Pinel! Aí nasceu nele o ódio à mãe, ao pai, ao padrinho, à madrinha, a si, à vida, ao mundo, a Deus. Porra, logo na semana dele se apresentar nos bombeiros do Méier! Agora não ia mais usar aquele quepe esperto. Nem aquele cinto diferentão. Nem aquela farda joinha, joinha. E adeus, escada magirus! Aquela casa do Encantado era um desencanto, paisano. É, ele precisava sumir e se vingar de tudo aquilo, do mau destino, que parecia algemar ele à dor.
Priscilla era de poucas palavras, de poucos amigos. Também não havia nenhum vagabundo azarando a mansão da Avenida Epitácio Pessoa. “Bonito” tinha absoluta certeza disso, pois não dava mole na campana, não. Passava por um flanelinha a mais do outro lado da Avenida. Fizesse sol de rachar ou desabasse um dilúvio, lá estavam os olhos bonitos e Priscilla, prisioneira deles. Existia, é verdade, o motorista particular, um tal de Orlando, que ia e vinha com a Priscillinha no banco de trás do MERCEDES branco, todo empolgado. Pavão. Aquele Paraíba estava merecendo uns trancos. Quem ele estava pensando que era? O rei da cocada branca? Quantas sacanagens o Orlando não sonharia em fazer com a Pris? A brancura das coxas dela chupada pelo olho-retrovisor do Orlando diariamente. É, não ia demorar muito e aquele babaca do Orlando ia amanhecer com a boca cheia de formigas. Presuntão. Bastava só o “Bonito” baixar no Dona Marta e dar um toque na galera. O “Paulinho Cecê”, o “Boca-do-Mato”, o “Dá-Uma”. Aqueles três fariam qualquer coisa por ele, até vender a mãe. Aprenderam a temer e a seguir o “Bonito”, depois da temporada e da fuga da FREI CANECA. Juntos, os quatro aprontaram: roubaram, assaltaram, traficaram, estupraram, mataram. Pintaram e bordaram. Pois bem, ele iria à procura deles. Deviam estar malocados, armando uma “mineira” pra cima de algum portuga bundão. Eles detonavam rapidinho aquele Mané do Orlando, um sujeito que era só perfume, e dos mais enjoativos que já inventaram. O que eles não podiam saber nunca – principalmente o “Dá-Uma” – era da existência da Cilla. A refém. Só dele, do “Bonito”. Ela na mente dele, sempremente.
Não, ele não manteria contatos com a família dela. Por quê? Porra, ele já possuía aquele louro objeto de desejo. Também não exigiria nenhum dinheiro para o resgate. Cillinha era agora irresgatável. Não existia mesmo no mundo uma quantidade de dólares suficiente que libertasse a sequestrada, que livrasse Cill do cativeiro dela, o coração dele. E nenhuma Divisão Anti-Sequestro chegaria àquele cárcere privadíssimo, a paixão bonita. Cillinha seria bem-tratada, respeitada, alimentada na base do mais puro, sadio e inofensivo amor. Que todos soubessem disso. Priscilla. O “Lance”. A cativa dele. Ou era ele, o “Bonito”, o cativo dela? É, no fundo, ele não passava realmente de um sequestrador...

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O ALBATROZ DE BAUDELAIRE - SUL

Para Fernando Julio Cabrera

Chovia, e muito, era agosto, o teatro onde ele apresentaria ficava do outro lado da cidade, em relação ao meu bairro, e, como se tudo isso fosse pouco, o ingresso era caríssimo. Mas lá estava eu, expectante, naquele aquoso sábado, para adorar o Mito. Antegozava. Sim, eu, semelhantemente àquela personagem de POR VOLTA DA MEIA-NOITE. Quer dizer, jazzmaníaco.
Assisti à apresentação dele privilegiadamente, quase junto ao piano. O que ele, o Mito, tocou – peças do mais puro êxtase – tocou-me (-nos) para sempre. Os vôos dele ao teclado só cabem numa palavra: inefáveis. Jamais vi alguém ser tão etéreo ao fazer algo tão chão.
Quando terminou o espetáculo, exatamente como o Français de POR VOLTA DA MEIA-NOITE, ainda extático, fiquei à espera do Mito: desejava um autógrafo no meu vade-mécum, RAYUELA, na jaqueta. Se ganhei o autógrafo? Não. Perdi-o. Mais: perdi o Mito, para ganhar o homem. Ele, desmitificado, saiu trôpego do teatro, arrastado por dois homens que riam dele e o despejaram, fardo, dentro do táxi. Como na rua podia ser tão outro do que fora no palco?
Voltando a pé para o meu longínquo bairro, já dentro do domingo, que também se liquefazia, ia com o corpo encharcado e a alma ruminando, até que compreendi: era o albatroz de Baudelaire!

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

OS JARDINS DO NADA - SUL

“Nos deixes res
Per caminhar i mirar fins al ponent
Car not, em um moment,
Et será pres.”
(Salvador Espriu)

Morria. Sim, morria, esse era o verbo preciso. Nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Sentado no banco. Parecia um sobrevivente da manhã. Um deus abandonado, caído, homem, pois: impotente. Ali, ele ilhado pelos pombos. Tão intenso que se tornava uma inconveniência para os nossos olhos acostumados a olhar, e não ver o que é necessário ver. Uma acusação à nossa humanidade, ele. Tinha a alma em dor: o corpo dele nos dizia isso. Os cabelos – sedoso negror – caíam, caíam, insistentemente caíam sobre a fronte. Tentava esconder, em vão, que morria. A morte dele, pública, perspícua, atrás dos óculos escuros. Chamava-se Maximiliano. Que nome os pais lhe haviam inventado! Os pais, não. “Maximiliano”, no fundo, ele sabia melhor do que ninguém, era mais uma invenção da Mãe, a “senyora” Vicenta: sanguínea, vulcânica, dominadora, vencedora (não é isso que significa “Vicenta”?) em todas as questões, ainda as mais insignificantes, enfim, a palavra final, sempre, sempre, sempre... O pai... aquele era vulnerável, tímido, cotidiano, sem vôos, sem apetites, sem... Maxiliano! Que agridoce ironia, hem, “senyora” Vicenta?! Maximiliano... De máximo nele, só mesmo aquele nome imenso, megalômano... e, em plena Barcelona, sábado, o mais abrumado de todos os trinta e oito anos dele. Com todas as veras, sentia-se pequeno, mínimo, nada. Estava, sim, à beira do abismo.
Max – todos o chamavam assim, exceto, é claro, a “senyora” Vicenta, que pronunciava a todo instante, e com que prazer! Todas aquelas intermináveis sílabas: Ma-xi-mi-li-a-no! Bem, Max viera à terra natal da Mãe e dos avós maternos em busca de luz. Não no sentido metafórico, tampouco esotérico que “luz” nos pode sugerir. Não, entendamos logo. O sentido era científico, médico, oftalmológico. La clínica Barraquer fa miracles si, Centa. Hi els metges són estupends. Si, que vingut el cosi Maximilià. Já li vaig arreglar uma habitació estupenda, la més bonica del pis. Hi há uma finestra projectada vers els JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Els plàtans comencen a verdejar. És um pasatge estupend, Centa. El cosi s’encatarà per cert. Per què, em fi, tu també no venís, Centa? Essas palavras de Esperança, a prima da “senyora” Vicenta, ajudaram-no a decidir-se de uma vez por todas a vir a Barcelona. No Brasil, onde ele, Max, havia nascido e vivido toda a sua vida, sempre ouvira dizer (e dito pelos próprios patrícios) que os brasileiros eram profissionais da esperança. Não obstante, isso nunca lhe passar pela cabeça, que ele tivesse aquela “profissão”... A verdade, porém, é que ele viera sim a Barcelona – e só Deus o sabia – com que máxima esperança (não foi obra do cálculo senão do inconsciente, do azar, juro aos que me lêem) viera, só, do Brasil, da muito querida (e, verdade seja dita, também abrumadora) Curitiba; daquele bairro longínquo, o Boqueirão, em cujo cemitério descansavam os queridos Jordi e Arsènia, os avós maternos, aqueles dois catalães que, fugindo, com a filha pequena, de colo, de um ditador espanhol, digo, galego, acabaram por encontrar outro ditador no Brasil; da Rua Bom Pastor, casa n. 202, esta casa ocre, assobradada, que não lhe saía do coração, de suas reti... Maria, a esposa, ficara no Brasil. É claro, havia o consultório, os pacientes; a viuvez e as estratégicas vertigens depressivas da sogra, D. Eva, invariavelmente tecendo bordados e intrigas; os cachorros; e, sobretudo, havia Luz e seus cinco anos. Sim, Luz... Luz... Luz... A Luz dos olhos dele... Luz... Luz... Se ela soubesse como ele estava agora em trevas! Ela, Luz... ele. Escuridão... Sim, ele viera e tudo resultou inútil. Viagem vã. La seva cel.lulite havia estat profunda. La córnia te uma úlcera. La parpella inferior fou destruita, caldrà reconstruíla, hi há um glaucoma secundari. Um cas molt difícil el seu, Max. De manera que li recomendem l’evisceració. E-vis-ce-ra-cão! A palavra, em si mesma, nas lâminas de sua fonética, já lacerava, já estripava, já e-vis-ce-ra-va... Nunca mais ele a pronunciaria; em contrapartida, nunca mais a esqueceria...
Bem, Max, nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU, el poeta de PERDUT EN UM PAISATGE DE PELEGRÍ CLAVÉ, um poema estupend, tu tens de llegri-ho, Max! A prima Esperança fizera Filologia Catalana. Estava agora jubilada como professora, porém, a todo momento, tinha um livro às mãos, invariavelmente um livro de poemas, invariavelmente um livro de poemas de Salvador Espriu. Sim, ele, Max, recordava-se daquele poema, principalmente dos últimos versos: Inutillmente cridarás al desert /el desesper del teu dolor de cec. / car no retorna al naixement del dia / el que se’n va per nit ardente. Sim, ele recordava-se, recordava-se de tudo, e lutava para sair de dentro daquele áspero pesadelo, fazia força para entende-lo. Não, não conseguia entender... Nunca fora diabético nem havia história de diabéticos e glaucoma na família dele e, a despeito disso, ele perdia a vista e o olho direitos... assim, da noite para o dia... De repente lhe ocorria encontrar a chave para aquela perda. Sim, porque efetivamente havia ali um simbolismo, o qual devia ser decifrado. Necessariamente, urgentemente. Ele não teria olhado maximamente para fora e minimamente para dentro de si?... Era isso então o famoso conhece-te a ti mesmo? A aprendizagem de si, urgia-lhe conhece-la, e ele aprendia, de súbito, a contragosto, e pela angústia, uma mestra pouco buscada mas muito reveladora. As trevas de fora se tornariam luzes dentro dele. A sua cegueira, em verdade, fazia-o lúcido para si. Seria mesmo isso?...
Pelo olho esquerdo (a que hemisfério pertencerá: o da razão ou o da emoção?) divisou a prima Esperança no ático do PASSEIG DE GRÀCIA. Ela lhe fazia sinais para que ele subisse para o almoço. O que ele diria agora à prima estupendamente amorosa e lírica? E com que cara ele diria a derrota dele para a “senyora” Vicenta, a vencedora? O que diria à esposa? E à Luz dos olhos dele? E o que ele faria com os pacientes? É certo, Maria poderia ficar com eles. Depois, quem confiaria num dentista cego? Vostè será d’ara endavant un monoftalmo. Amb determinades adaptacions, podrà continuar treballant... Uma porra, monoftalmo, uma porra! Era bonito, sofisticado, o eufemismo daquele médico que parecia peruano, o Dr. Ajeno ou Alejo?, que custava o olho da cara (que amargo trocadilho, hem?) e que gostava de usar termos técnicos. Porém, de quem era o o... tenebroso? Seria muito interessante ver o Dr. Ajeno ou Alejo, monoftalmo, fazer as cirurgias dele somentecom o olho esquerdo...
Pois bem, pelo olho esquerdo, o das luzes, Max via a manhã e os plátanos saturarem-se; o verde vencer o gris. Pelo olho direito, o das trevas, o nada.
Enquanto isso, a primavera nascia.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

POLACA – SUL

Bem, digamos que tudo se passou por aí mesmo, algures. Mas, pensando melhor, ponhamos lá, por exemplo, Curitiba. Cidade brasileira de primeiro mundo, dizem. É, até para dar um pouco de verossimilhança à coisa, digo, história. O argumento de sempre, a tão cobrada “cor local”. Embora, hoje, a paisagem externa valha menos que a interna. É, hoje, repito.
Quanto ao tempo, deixemo-lo indefinido. Serve, assim, para imprimir à narrativa certa modernidade, instigando quem me ler. Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski? Talvez possamos datar desta maneira: era no tempo dos generais. Os de quatro estrelas. É, era. Pretérito imperfeito do indicativo...
Passemos, então, à heroína deste conto, se é que o que escrevo é um conto. Porém, o “turista aprendiz” não disse algures (peço-lhes desde já vênia pelo recorrente “algures” e também pelo extemporâneo “vênia”, tiques do meu incorrigíveo estilo forense) que conto seria tudo o que o autor chamasse de conto? Macunaíma sabedoria, essa, não? Depois gosto de mixórdias. “Mixórdias”? Fica.
Rosane, melhor, Polaca, como ela ficou para mim, era uma cabecinha maravilhosa. Tinha dezenove anos e era do tamanho da minha procura.
Conheci-a na casa do Murilo, um amigo comum nosso, com fumos de intelectual de esquerda (“intelectual de esquerda” não será uma redundância?). Daqueles que, tempos atrás, pertenciam à “esquerda festiva”. Ele apreciava reunir o pessoal em seu apertamento, aos sábados, à tardinha, para tomar umas e outras, pichar a democradura – se me permitem mais um dos inesgotáveis e insuportáveis trocadilhos do carilho do anfitrião -, falar sobre arte, especialmente o teatro, e transar todas, que ali não havia espaços para censuras, ali, não! Eu, confesso-lhes, ia lá mais por causa da vodka e das ninfetas candidatas a bailarinas do Guaíra do que por qualquer outra coisa.
Sim, como eu dizia, conheci a Polaca num sábado, no Murilo. Não esperava encontrar muita gente, por causa do frio, mas não suportava mais a minha companhia. Carecia do Outro (vivíamos então de Sartre). Se fosse Outra, melhor ainda. E foi. Polaca lia, se não me falha a memória visual, A FOLHA DE S. PAULO. Alguma coisa sobre cinema, uma das raras paixões dela. Ela era muito racional, a Polaca.
Levei tempo para descobri-la. Concordo que sou meio autista ou autista e meio, conforme o Murilo. Sei lá. Concordo que demorei para perceber-lhe o diastema, as orelhas, de abano, que a Polaca parecia querer mostrar de tanto que as tocava com os dedos finos e unhas grandes e cuidadíssimas, a estrelinha do PT, que ela trazia consigo aonde quer que fosse etc. Demorei, é verdade, para perceber o que ela valia, o seu real significado. Mas ela também sabia se esconder como ninguém, quando queria. Uma cebola, ela.
Polaca falava pouco, como acontece com as pessoas tristes e tímidas. Só que ela não era triste, não, nem tampouco tímida. Ela ria, sem excessos, é claro. Um riso inesquecível: docemente amargo. E fresco. E mudo. Um riso que eu não sabia ler, pronto. Uma vez, depois que nós nos amamos, vi a lágrima que deslizou pelo rosado quente de sua face esquerda e creditei aquilo ao prazer. Ela riu-me e deu-me as costas sardentas, adormecendo. Quando acordei, no outro dia, ela havia-me deixado. Para sempre. Não posso amá-lo menos do que você merece, Pedro. Acabou. Não me procure mais. Adeus. Rosane.
- Qual o melhor filme brasileiro, para você? – indaguei-lhe buscando aproximação.
- VIDAS SECAS. E para você?
- A CASA ASSASSINADA. Viu?
- Não. Você tem bom gosto.
- Você também – devolvi.
Ficamos assim durante um longo tempo, próximos e cúmplices. Com as horas, o assunto e a afeição cresceram. Falávamos sobre política, por iniciativa dela, petista roxa, quando o Murilo irrompeu na sala.
- Pelo que vejo, vocês já se acharam, hem? Veja se você dá um jeito nesse reacionariozinho aqui, Rô.
O pegajoso anfitrião, cheio de mãos para mim e piscadas para a Polaca. Não contente, sentou-se conosco. No chão, à apache. Dose, aturá-lo. Não sei como a Polaca conseguia fazê-lo. O Murilo, mais teatral, mais gestual que personagem de Eça de Queirós. Ainda, sempre, as mãos em mim e os olhos na polaquinha de Campo Largo. E falava, falava, falava. Ou melhor, gesticulava, gesticulava, gesticulava. Falava com o corpo. Sobretudo com o rosto, com os ombros, com as mãos. A todo instante riscava o ar com os dois indicadores, para enfatizar sua expressão preferida: entre aspas. Um ruído, um muro de Berlim (penitencio-me por essa tão gasta e, portanto, inócua metáfora, mas fica também...), entre mim e a Polaca, o Murilo. Eram trocadilhos infames, comentários maledicentes, invejosos, mesmices, o diabo. Murilo e sua histrionice pareciam-nos eternos. Até que fomos salvos pelo telefone. Aproveitamos para fugir dali, daquele pegajoso ser que se tornava inóspito por causa precisamente de sua excessiva hospitalidade. Data daí, da nossa fuga do Murilo, a nossa história de amor, que, como convém às verdadeiras histórias de amor, acabou mal.
Fazia três que nós transávamos. As rugas e as rusgas começaram a aparecer. Uma noite, bebíamos num bar vazio, no Largo da Ordem. Polaca tomava vinho; eu, vodka. Aí o curioso da situação, pois ela é que vinha dos polacos e eu, dos italianos. Ela fazia observações sobre a fotografia do E.T., que acabáramos de ver, quando eu a interrompi e disse que estava morrendo de fome. Ela desistiu mesmo de levar o copo à boca, colocou-o sobre a mesa, ajeitou com os dedos finos os cabelos por trás das orelhas de abano, serena, e disse que eu às vezes era uma pessoa muito, mas muito inconveniente, que eu não sabia ouvir, que eu pertencia à mesma raça do Murilo, que eu soubesse disso. Levantou-se calmamente e foi embora, devagar, sem sequer olhar para trás. Fiquei sozinho no bar, comendo batatinha frita com ódio. Meu Deus, naquele dia eu a esganaria e regaria depois minhas plantas com muito amor, tranquilamente.
Outra vez, estávamos na Santos Andrade, nossa praça querida. Ela olhava para a esquerda, moderna (Guaíra); eu, para a direita, neoclássico (Universidade). Havíamos brigado, para variar um pouco... Creio que foi por causa do futebol, uma das minhas inúmeras paixões. Nós ali, dezenove horas, encharcados de silêncio. Ela, mineral, olhando sem ver, distante; eu, ódio puro, im-plo-din-do.
- Pedro, você já reparou quanto EU há em você? Já procurou reparar que há o NÓS também?
Eu, quase vencido, ouvindo, sem palavras.
- Outro dia, sabe, cheguei à conclusão que escrever é coisa de gente solitária, egoísta. Serve bem para você, né?
- Eu... quero dizer, escrevo porque busco o Outro, Polaca – consegui ainda articular.
- O Outro que é você mesmo, Pedro. Você sai de você um segundo e já volta correndo. Não cansa de olhar o próprio umbigo...
- Eu... até não gosto muito de mim...
- Imaginei se gostasse...
- Você não tem aula agora? – tentei encerrar pacificamente a questão.
Ela olhou para o pulso esquerdo, riu amargo, ajeitou os cabelos para trás das orelhas de abano e:
- Você não tem cura, Pedro...
Polaca era mesmo uma pessoinha querida. O meu amorezinho. Como fui perde-la? Se é que eu a achei na verdade... A calça desbotada. O louro do cabelo. O rosto sempre sem pintura, para satisfazer a minha vontade. Apenas o rosado natural, quando fazia frio, ou tomava vinho, ou ficava excitada, conforme me confessou uma noite, cheia de pejo. Um rosado quente. A penugem dourada no alto das coxas. O castanho impenetrável dos olhos. A boca tão amargamente doce. A coragem de enfrentar-se e enfrentar o mundo, porque dona de seu próprio destino, porque de posse de um sentido para a vida. É, era uma pessoinha querida barbaridade. Era, sim, pretérito imperfeito do indicativo... Por isso escrevo sobre ela. Não quero perde-la mais uma vez. Não quero que ela me seja pretérito perfeito, mais-que-perfeito. Não sou grande no que escrevo. Aliás, não sou grande em nada. Mas ela, a Polaca, é a minha única matéria-prima. Ainda. Sempre. É uma fantasma que eu quero, não posso, não devo, não sei exorcizar. Ela estava certa, certíssima, quando disse que escrever tinha a ver com solidão e egoísmo. A bem da verdade, ela nunca errava. Mas escrever, Polaca, é maneira também de recuperar o perdido e achar-me. Recordo e resgato e possuo você, agora, pela vida da arte, já que na arte da vida eu fracassei...
Ouvi dizer que a Polaca foi para a Dinamarca, casada. Pode ter ido mas está aqui comigo neste instante em que é a minha escritura. Ela ri para mim e ainda vejo beleza e dor nisso. Nós juntinhos comemos pipoca e vamos às exposições do Scliar na Marechal Deodoro. Ela faz Comunicação Visual na Federal. Nós nos interessamos cada vez mais por Machado de Assis e Semiótica. Ela mora num quarto-e-sala da Treze de Maio, lugar prazeroso barbaridade. O endereço da minha felicidade, ai! Ela me ama mais do que eu a amo, se é que isso é possível. Eu já tenho em mim isso de quebrar tudo quanto toque. Eu, ela...