quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

OS JARDINS DO NADA - SUL

“Nos deixes res
Per caminhar i mirar fins al ponent
Car not, em um moment,
Et será pres.”
(Salvador Espriu)

Morria. Sim, morria, esse era o verbo preciso. Nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Sentado no banco. Parecia um sobrevivente da manhã. Um deus abandonado, caído, homem, pois: impotente. Ali, ele ilhado pelos pombos. Tão intenso que se tornava uma inconveniência para os nossos olhos acostumados a olhar, e não ver o que é necessário ver. Uma acusação à nossa humanidade, ele. Tinha a alma em dor: o corpo dele nos dizia isso. Os cabelos – sedoso negror – caíam, caíam, insistentemente caíam sobre a fronte. Tentava esconder, em vão, que morria. A morte dele, pública, perspícua, atrás dos óculos escuros. Chamava-se Maximiliano. Que nome os pais lhe haviam inventado! Os pais, não. “Maximiliano”, no fundo, ele sabia melhor do que ninguém, era mais uma invenção da Mãe, a “senyora” Vicenta: sanguínea, vulcânica, dominadora, vencedora (não é isso que significa “Vicenta”?) em todas as questões, ainda as mais insignificantes, enfim, a palavra final, sempre, sempre, sempre... O pai... aquele era vulnerável, tímido, cotidiano, sem vôos, sem apetites, sem... Maxiliano! Que agridoce ironia, hem, “senyora” Vicenta?! Maximiliano... De máximo nele, só mesmo aquele nome imenso, megalômano... e, em plena Barcelona, sábado, o mais abrumado de todos os trinta e oito anos dele. Com todas as veras, sentia-se pequeno, mínimo, nada. Estava, sim, à beira do abismo.
Max – todos o chamavam assim, exceto, é claro, a “senyora” Vicenta, que pronunciava a todo instante, e com que prazer! Todas aquelas intermináveis sílabas: Ma-xi-mi-li-a-no! Bem, Max viera à terra natal da Mãe e dos avós maternos em busca de luz. Não no sentido metafórico, tampouco esotérico que “luz” nos pode sugerir. Não, entendamos logo. O sentido era científico, médico, oftalmológico. La clínica Barraquer fa miracles si, Centa. Hi els metges són estupends. Si, que vingut el cosi Maximilià. Já li vaig arreglar uma habitació estupenda, la més bonica del pis. Hi há uma finestra projectada vers els JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Els plàtans comencen a verdejar. És um pasatge estupend, Centa. El cosi s’encatarà per cert. Per què, em fi, tu també no venís, Centa? Essas palavras de Esperança, a prima da “senyora” Vicenta, ajudaram-no a decidir-se de uma vez por todas a vir a Barcelona. No Brasil, onde ele, Max, havia nascido e vivido toda a sua vida, sempre ouvira dizer (e dito pelos próprios patrícios) que os brasileiros eram profissionais da esperança. Não obstante, isso nunca lhe passar pela cabeça, que ele tivesse aquela “profissão”... A verdade, porém, é que ele viera sim a Barcelona – e só Deus o sabia – com que máxima esperança (não foi obra do cálculo senão do inconsciente, do azar, juro aos que me lêem) viera, só, do Brasil, da muito querida (e, verdade seja dita, também abrumadora) Curitiba; daquele bairro longínquo, o Boqueirão, em cujo cemitério descansavam os queridos Jordi e Arsènia, os avós maternos, aqueles dois catalães que, fugindo, com a filha pequena, de colo, de um ditador espanhol, digo, galego, acabaram por encontrar outro ditador no Brasil; da Rua Bom Pastor, casa n. 202, esta casa ocre, assobradada, que não lhe saía do coração, de suas reti... Maria, a esposa, ficara no Brasil. É claro, havia o consultório, os pacientes; a viuvez e as estratégicas vertigens depressivas da sogra, D. Eva, invariavelmente tecendo bordados e intrigas; os cachorros; e, sobretudo, havia Luz e seus cinco anos. Sim, Luz... Luz... Luz... A Luz dos olhos dele... Luz... Luz... Se ela soubesse como ele estava agora em trevas! Ela, Luz... ele. Escuridão... Sim, ele viera e tudo resultou inútil. Viagem vã. La seva cel.lulite havia estat profunda. La córnia te uma úlcera. La parpella inferior fou destruita, caldrà reconstruíla, hi há um glaucoma secundari. Um cas molt difícil el seu, Max. De manera que li recomendem l’evisceració. E-vis-ce-ra-cão! A palavra, em si mesma, nas lâminas de sua fonética, já lacerava, já estripava, já e-vis-ce-ra-va... Nunca mais ele a pronunciaria; em contrapartida, nunca mais a esqueceria...
Bem, Max, nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU, el poeta de PERDUT EN UM PAISATGE DE PELEGRÍ CLAVÉ, um poema estupend, tu tens de llegri-ho, Max! A prima Esperança fizera Filologia Catalana. Estava agora jubilada como professora, porém, a todo momento, tinha um livro às mãos, invariavelmente um livro de poemas, invariavelmente um livro de poemas de Salvador Espriu. Sim, ele, Max, recordava-se daquele poema, principalmente dos últimos versos: Inutillmente cridarás al desert /el desesper del teu dolor de cec. / car no retorna al naixement del dia / el que se’n va per nit ardente. Sim, ele recordava-se, recordava-se de tudo, e lutava para sair de dentro daquele áspero pesadelo, fazia força para entende-lo. Não, não conseguia entender... Nunca fora diabético nem havia história de diabéticos e glaucoma na família dele e, a despeito disso, ele perdia a vista e o olho direitos... assim, da noite para o dia... De repente lhe ocorria encontrar a chave para aquela perda. Sim, porque efetivamente havia ali um simbolismo, o qual devia ser decifrado. Necessariamente, urgentemente. Ele não teria olhado maximamente para fora e minimamente para dentro de si?... Era isso então o famoso conhece-te a ti mesmo? A aprendizagem de si, urgia-lhe conhece-la, e ele aprendia, de súbito, a contragosto, e pela angústia, uma mestra pouco buscada mas muito reveladora. As trevas de fora se tornariam luzes dentro dele. A sua cegueira, em verdade, fazia-o lúcido para si. Seria mesmo isso?...
Pelo olho esquerdo (a que hemisfério pertencerá: o da razão ou o da emoção?) divisou a prima Esperança no ático do PASSEIG DE GRÀCIA. Ela lhe fazia sinais para que ele subisse para o almoço. O que ele diria agora à prima estupendamente amorosa e lírica? E com que cara ele diria a derrota dele para a “senyora” Vicenta, a vencedora? O que diria à esposa? E à Luz dos olhos dele? E o que ele faria com os pacientes? É certo, Maria poderia ficar com eles. Depois, quem confiaria num dentista cego? Vostè será d’ara endavant un monoftalmo. Amb determinades adaptacions, podrà continuar treballant... Uma porra, monoftalmo, uma porra! Era bonito, sofisticado, o eufemismo daquele médico que parecia peruano, o Dr. Ajeno ou Alejo?, que custava o olho da cara (que amargo trocadilho, hem?) e que gostava de usar termos técnicos. Porém, de quem era o o... tenebroso? Seria muito interessante ver o Dr. Ajeno ou Alejo, monoftalmo, fazer as cirurgias dele somentecom o olho esquerdo...
Pois bem, pelo olho esquerdo, o das luzes, Max via a manhã e os plátanos saturarem-se; o verde vencer o gris. Pelo olho direito, o das trevas, o nada.
Enquanto isso, a primavera nascia.

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