RODA MUNDO 2009 - ANTOLOGIA INTERNACIONAL ANO 6
Organizador – Douglas Lara
O CATARINA E EU
João é ninguém e todos nós. João, faz tempo, o meu vizinho do quarto 35. O que tem 67 anos, uma cabeleira branca impecável e um orgulho dos diabos. Posto que mora em hotel, a solidão é inerente. Aí João sai cedinho, dentro de um eterno e indefectível terno branco (para combinar com a cabeleira, eu sei), no usufruto de sua iníqua e inócua aposentadoria: vai perdigar.
Em sua travessia, desce e sobe e sobe e sobe e desce a mais carioca das nossas ruas. Passa ao largo pelos sebos. Seduzido, sim, pelo cartaz do Cine Íris, excita-se, coça-se e esfrega as mãos freneticamente: PENETRAÇÕES EM ABUNDÂNCIA. Hesita. Acalma-se. Olha para os lados. Dois dedos, o indicador e o médio direitos, salivados, sobre as sobrancelhas, gesto recorrente. Conserta a gravata e segue em frente, trauteando, sempre alguma coisa do Nélson Gonçalves. Entra no Luiz, parada matinal obrigatória. “Um remédio e um chope. Sem colarinho, ouviram?”
Depois, esbaforido, os bofes e a alma pela boca. “Também! Um sprinter daqueles, e a balzaca oxigenada, nada...”. Senta-se no banco preferido. Reconhece os habitues do pedaço, os seus pares, os que não sabem o que fazer com a manhã e a liberdade em plena Praça Tiradentes. Levanta a cabeça para o seu pétreo e diário interlocutor: “D. Pedro I – A gratidão dos pombos brasileiros!”
E ri de sacurdir-se, de lagrimar, de avermelhar-se todo feito um peru, com a própria chalaça. Tira o lenço marrom (da mesma cor da gravata, do cinto, das meias, dos sapatos) do bolso traseiro da calça e enxuga as lágrimas dos olhos vermelhos de pitu, o remédio. E recompõe-se.
Morta a que o matava, e lá vai a nossa personagem, palito entre os dentes, dando tapinhas no figueiredo velho de guerra. Avança para o Campo de Santana: fazer a digestão perdigueira. Galegas pacas, professor!
Bem mais tarde, estará abrindo a Estudantina. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair da gafieira. Já tem até mesinha cativa. “Uma deferência especial do gerente ao degas aqui”. E João dança, dança, dança. E bebe, bebe, bebe. “A dar com o pau!”.
A volta para o Rio Hotel, para o nosso terceiro andar, João sabe como o faz, mas volta sempre. Em sua cela, escancara a janela que dá para o João Caetano, tira o paletó, a gravata, a camisa. Afrouxa o cinto. Toma (me desculpe, João!), digo, bebe a boa e desmorona na cama. Desacorçoado. A mala, em cima do guarda-roupa, chama-o, convida-o novamente a partir...
Não, não se mate, João! Eu estou aqui ao lado, solitário/solidário. Vamos pituzar, vamos! Ou falemos da galega Madonna, a quem você gostaria de dar uma boneca, certo? Ou pichemos o Governo, que nunca rima com povo, não é verdade? Que tal fazermos uma fezinha, botarmos tudo no veado? Que tal uma raspadinha? Por que essa angústia noturna a corroer-lhe a existência, João? É, concordo, às vezes, mesmo para nós, tupiniquins, profissionais da esperança, fica difícil contestar que o Brasil não é um ´país sério...
A despeito disso, não se mate, João! Venha ouvir Vitor Assis Brasil, ou Paulo Moura, ou Robero Sion, comigo. O jazz também nos impede de jazer, sabia? Venha, sim, que eu quero ler alguma coisa para você. Alguma coisa daquele luminoso negro do Desterro, seu conterrâneo. Então você vai saber o que é DOR. Venha, que eu sou despreconceituoso. Se quiser dizer safadezas, diga, eu gosto também delas. Só não me chame professor: eu brigo. A vida é que ensina e as melhores e inesquecíveis lições quase sempre vêm de nãos.
Não, não se mate, João! Você, que é tão desertado, não me deserte. Há tantas galegas para as nossas fantasias! Há tantos bailes ainda para você, pé-de-valsa! Há tantos pés-sujos para dessedentá-lo! Afinal, por que cultivar a morte no quarto, na mala? Jogue fora o três-oitão! Melhor, vamos barganha-lo na feira de Acari, vamos! Com o dinheiro, zonearemos a dar com o pau! Tudo em nome de Baco, pois Tânatos nós já cultuamos demais.
Não, não se mate, João! Você já se esqueceu do Carnaval, quer dizer, do vale a carne? Por que é que temos Carnaval, João? É para lembrarmo-nos de que estamos vivos, de que chegou a hora de tirarmos as máscaras cotidianas e gozarmos (em todos os sentidos) a vida, meu agridoce catarina. Mesmo porque “morrer é ininterrupto”, conforme uma ucraniano-carioca.
Não, não se mate, João! Antes é necessário conhecer o metrô, Sou lá tatu pra andar debaixo da terra!, boquejar contra a filha (o que você plantou e agora tem de arrancar?), perder os dentes, ganhar mais tiques e acabar pelo fundo como panela...
Não, não se mate, João! Eu ainda não falei em Deus, reparou? E tenho de fazê-lo: é Ele, por meio dos homens, que me dá uma vontade danada. Homens, por exemplo, como o Cidadão (com todos os efes e erres) Herbert de Souza, o Betinho e sua Sociologia da Caridade, a mostrarem-nos que podemos ricos do Outro, sim Senhor.
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