quarta-feira, 28 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

POLACA – SUL

Bem, digamos que tudo se passou por aí mesmo, algures. Mas, pensando melhor, ponhamos lá, por exemplo, Curitiba. Cidade brasileira de primeiro mundo, dizem. É, até para dar um pouco de verossimilhança à coisa, digo, história. O argumento de sempre, a tão cobrada “cor local”. Embora, hoje, a paisagem externa valha menos que a interna. É, hoje, repito.
Quanto ao tempo, deixemo-lo indefinido. Serve, assim, para imprimir à narrativa certa modernidade, instigando quem me ler. Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski? Talvez possamos datar desta maneira: era no tempo dos generais. Os de quatro estrelas. É, era. Pretérito imperfeito do indicativo...
Passemos, então, à heroína deste conto, se é que o que escrevo é um conto. Porém, o “turista aprendiz” não disse algures (peço-lhes desde já vênia pelo recorrente “algures” e também pelo extemporâneo “vênia”, tiques do meu incorrigíveo estilo forense) que conto seria tudo o que o autor chamasse de conto? Macunaíma sabedoria, essa, não? Depois gosto de mixórdias. “Mixórdias”? Fica.
Rosane, melhor, Polaca, como ela ficou para mim, era uma cabecinha maravilhosa. Tinha dezenove anos e era do tamanho da minha procura.
Conheci-a na casa do Murilo, um amigo comum nosso, com fumos de intelectual de esquerda (“intelectual de esquerda” não será uma redundância?). Daqueles que, tempos atrás, pertenciam à “esquerda festiva”. Ele apreciava reunir o pessoal em seu apertamento, aos sábados, à tardinha, para tomar umas e outras, pichar a democradura – se me permitem mais um dos inesgotáveis e insuportáveis trocadilhos do carilho do anfitrião -, falar sobre arte, especialmente o teatro, e transar todas, que ali não havia espaços para censuras, ali, não! Eu, confesso-lhes, ia lá mais por causa da vodka e das ninfetas candidatas a bailarinas do Guaíra do que por qualquer outra coisa.
Sim, como eu dizia, conheci a Polaca num sábado, no Murilo. Não esperava encontrar muita gente, por causa do frio, mas não suportava mais a minha companhia. Carecia do Outro (vivíamos então de Sartre). Se fosse Outra, melhor ainda. E foi. Polaca lia, se não me falha a memória visual, A FOLHA DE S. PAULO. Alguma coisa sobre cinema, uma das raras paixões dela. Ela era muito racional, a Polaca.
Levei tempo para descobri-la. Concordo que sou meio autista ou autista e meio, conforme o Murilo. Sei lá. Concordo que demorei para perceber-lhe o diastema, as orelhas, de abano, que a Polaca parecia querer mostrar de tanto que as tocava com os dedos finos e unhas grandes e cuidadíssimas, a estrelinha do PT, que ela trazia consigo aonde quer que fosse etc. Demorei, é verdade, para perceber o que ela valia, o seu real significado. Mas ela também sabia se esconder como ninguém, quando queria. Uma cebola, ela.
Polaca falava pouco, como acontece com as pessoas tristes e tímidas. Só que ela não era triste, não, nem tampouco tímida. Ela ria, sem excessos, é claro. Um riso inesquecível: docemente amargo. E fresco. E mudo. Um riso que eu não sabia ler, pronto. Uma vez, depois que nós nos amamos, vi a lágrima que deslizou pelo rosado quente de sua face esquerda e creditei aquilo ao prazer. Ela riu-me e deu-me as costas sardentas, adormecendo. Quando acordei, no outro dia, ela havia-me deixado. Para sempre. Não posso amá-lo menos do que você merece, Pedro. Acabou. Não me procure mais. Adeus. Rosane.
- Qual o melhor filme brasileiro, para você? – indaguei-lhe buscando aproximação.
- VIDAS SECAS. E para você?
- A CASA ASSASSINADA. Viu?
- Não. Você tem bom gosto.
- Você também – devolvi.
Ficamos assim durante um longo tempo, próximos e cúmplices. Com as horas, o assunto e a afeição cresceram. Falávamos sobre política, por iniciativa dela, petista roxa, quando o Murilo irrompeu na sala.
- Pelo que vejo, vocês já se acharam, hem? Veja se você dá um jeito nesse reacionariozinho aqui, Rô.
O pegajoso anfitrião, cheio de mãos para mim e piscadas para a Polaca. Não contente, sentou-se conosco. No chão, à apache. Dose, aturá-lo. Não sei como a Polaca conseguia fazê-lo. O Murilo, mais teatral, mais gestual que personagem de Eça de Queirós. Ainda, sempre, as mãos em mim e os olhos na polaquinha de Campo Largo. E falava, falava, falava. Ou melhor, gesticulava, gesticulava, gesticulava. Falava com o corpo. Sobretudo com o rosto, com os ombros, com as mãos. A todo instante riscava o ar com os dois indicadores, para enfatizar sua expressão preferida: entre aspas. Um ruído, um muro de Berlim (penitencio-me por essa tão gasta e, portanto, inócua metáfora, mas fica também...), entre mim e a Polaca, o Murilo. Eram trocadilhos infames, comentários maledicentes, invejosos, mesmices, o diabo. Murilo e sua histrionice pareciam-nos eternos. Até que fomos salvos pelo telefone. Aproveitamos para fugir dali, daquele pegajoso ser que se tornava inóspito por causa precisamente de sua excessiva hospitalidade. Data daí, da nossa fuga do Murilo, a nossa história de amor, que, como convém às verdadeiras histórias de amor, acabou mal.
Fazia três que nós transávamos. As rugas e as rusgas começaram a aparecer. Uma noite, bebíamos num bar vazio, no Largo da Ordem. Polaca tomava vinho; eu, vodka. Aí o curioso da situação, pois ela é que vinha dos polacos e eu, dos italianos. Ela fazia observações sobre a fotografia do E.T., que acabáramos de ver, quando eu a interrompi e disse que estava morrendo de fome. Ela desistiu mesmo de levar o copo à boca, colocou-o sobre a mesa, ajeitou com os dedos finos os cabelos por trás das orelhas de abano, serena, e disse que eu às vezes era uma pessoa muito, mas muito inconveniente, que eu não sabia ouvir, que eu pertencia à mesma raça do Murilo, que eu soubesse disso. Levantou-se calmamente e foi embora, devagar, sem sequer olhar para trás. Fiquei sozinho no bar, comendo batatinha frita com ódio. Meu Deus, naquele dia eu a esganaria e regaria depois minhas plantas com muito amor, tranquilamente.
Outra vez, estávamos na Santos Andrade, nossa praça querida. Ela olhava para a esquerda, moderna (Guaíra); eu, para a direita, neoclássico (Universidade). Havíamos brigado, para variar um pouco... Creio que foi por causa do futebol, uma das minhas inúmeras paixões. Nós ali, dezenove horas, encharcados de silêncio. Ela, mineral, olhando sem ver, distante; eu, ódio puro, im-plo-din-do.
- Pedro, você já reparou quanto EU há em você? Já procurou reparar que há o NÓS também?
Eu, quase vencido, ouvindo, sem palavras.
- Outro dia, sabe, cheguei à conclusão que escrever é coisa de gente solitária, egoísta. Serve bem para você, né?
- Eu... quero dizer, escrevo porque busco o Outro, Polaca – consegui ainda articular.
- O Outro que é você mesmo, Pedro. Você sai de você um segundo e já volta correndo. Não cansa de olhar o próprio umbigo...
- Eu... até não gosto muito de mim...
- Imaginei se gostasse...
- Você não tem aula agora? – tentei encerrar pacificamente a questão.
Ela olhou para o pulso esquerdo, riu amargo, ajeitou os cabelos para trás das orelhas de abano e:
- Você não tem cura, Pedro...
Polaca era mesmo uma pessoinha querida. O meu amorezinho. Como fui perde-la? Se é que eu a achei na verdade... A calça desbotada. O louro do cabelo. O rosto sempre sem pintura, para satisfazer a minha vontade. Apenas o rosado natural, quando fazia frio, ou tomava vinho, ou ficava excitada, conforme me confessou uma noite, cheia de pejo. Um rosado quente. A penugem dourada no alto das coxas. O castanho impenetrável dos olhos. A boca tão amargamente doce. A coragem de enfrentar-se e enfrentar o mundo, porque dona de seu próprio destino, porque de posse de um sentido para a vida. É, era uma pessoinha querida barbaridade. Era, sim, pretérito imperfeito do indicativo... Por isso escrevo sobre ela. Não quero perde-la mais uma vez. Não quero que ela me seja pretérito perfeito, mais-que-perfeito. Não sou grande no que escrevo. Aliás, não sou grande em nada. Mas ela, a Polaca, é a minha única matéria-prima. Ainda. Sempre. É uma fantasma que eu quero, não posso, não devo, não sei exorcizar. Ela estava certa, certíssima, quando disse que escrever tinha a ver com solidão e egoísmo. A bem da verdade, ela nunca errava. Mas escrever, Polaca, é maneira também de recuperar o perdido e achar-me. Recordo e resgato e possuo você, agora, pela vida da arte, já que na arte da vida eu fracassei...
Ouvi dizer que a Polaca foi para a Dinamarca, casada. Pode ter ido mas está aqui comigo neste instante em que é a minha escritura. Ela ri para mim e ainda vejo beleza e dor nisso. Nós juntinhos comemos pipoca e vamos às exposições do Scliar na Marechal Deodoro. Ela faz Comunicação Visual na Federal. Nós nos interessamos cada vez mais por Machado de Assis e Semiótica. Ela mora num quarto-e-sala da Treze de Maio, lugar prazeroso barbaridade. O endereço da minha felicidade, ai! Ela me ama mais do que eu a amo, se é que isso é possível. Eu já tenho em mim isso de quebrar tudo quanto toque. Eu, ela...

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