sexta-feira, 30 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O MAR E O VELHO - LESTE

Ele. E o mar. O VELHO E O MAR, lembrou. Aquela história de se ganhar e perder tudo conforme os desejos (Ela diria desígnios, mais erudito, mais chique...) do mar. História de pescador, para ele. O Mar, e ele: inimigos figadais. A vírgula e o adjetivo (um dos preferidos dela desde os tempos da universidade) vinham da esposa. Assim como a alusão, a todo momento, ao romance do escritor norte-americano, o romancista de que ela mais gostava, porque escrevia com concretude, sobre o aqui e o agora, telúrico por excelência... (O que ela não contava nunca é que ele escrevia sempre sobre os cachaças, os perdedores, os fodidos pela vida...). Irritava-o já profundamente isto: ouvi-la contar às vizinhas, às visitas, aos parentes que iam vê-los em Cabo Frio, na Praia do Braga: eles são inimigos figadais, o Mar, e o Zé Carlos. Mas por que aquela frescura de escrever mar com eme maiúsculo, caralho?
Sou tarada pelo Mar, ela dizia rindo. Os dentinhos. Clarinhos. Certinhos. Se-pa-ra-di-nhos. Sessenta anos. Eu tenho Mar até na minha cidade natal, gente! Brincava com os amigos dele, sempre bem mais novos do que ele, como se fossem filhos. Os filhos sonhados, nunca tidos. Não por causa dele, fique bem claro. Ela se referia a Mar de Espanha. E continuava, espirituosa: Não, por favor, digam quem parece ser mais de Minas Gerais entre mim e o Zé Carlos, digam!
A esposa. Tinha o Normal, feito no Instituto de Educação, e o curso de Letras, na UERJ. Mas se aposentou mesmo foi pela Caixa Econômica Federal, pois em casa só havia espaço para um romântico, para um nefelibata... Ela pensava que ele era incapaz de atinar para a ofensa, para a agressão, pelo eufemismo, pela ironia. Ela pensava que o dominava, uma vez que o bancava (Como ela usava e abusava desse verbo, caralho!). Ela pensava que conhecia todos os calcanhares-de-aquiles dele. Ela pensava que ele não pensava. Coitada.
A casa. Na Avenida Projetada. O sobradinho, comprado, projetado, construído, decorado, bancado (Lá vem o puto do verbo!) por ela, a esposa. Dona Maria. Foda.
O apartamento do Alto da Boa Vista. Décimo oitavo andar. No meio das nuvens. Literalmente (Maldita palavra que ele acabou assimilando de tanto ouvir da esposa). Não seria metaforicamente? Eu, hein, Zé! Pirou?!. Foda-se. Isso. O apartamento do Alto da Boa Vista, conseguido à custa de muitos vôos, incontáveis vôos, incontáveis vôos, que ele não tinha saco pra contar as horas de vôo, tremenda punheta. Masturbação, onanismo, Zé Carlos. Tanta economia, tanto sacrifício, e para quê? Picas. O apartamento do Alto da Boa Vista, emprestado, “vendido” para o cunhadinho, aquele chupa-sangue. Até porque sofro de acrofocia, nem chego às janelas, um horror! Frescura. A lembrança olfativa do Alto da Boa Vista. Antes, o único senão (Não, senão é demais, Zé! Tem a cara da Dona Maria...) do apartamento, para ele, era aquele cheiro de tabaco que vinha da fábrica vizinha e impregnava em tudo. Agora, somente uma aromática recordação...
A casa. Prisão. Uma prisão-albergue, vá lá. O inimigo de todas as horas ali. À vista. Rebentando nas areias e nos ouvidos dele. Todo dia, o dia todo. Amarga, áspera convivência. O mar, por todos os sentidos. O mar, sem sentido, para ele. O Mar, tudo, para a esposa. O meu Mar, ela dizia. Assim como dizia a minha casa de praia que tanto desejei e na qual vou findar meus dias, o meu Santana Quantum, o meu freezer, o meu cocker spaniel, o meu micro, o meu fax, o meu Hemingway, o meu vargas Lhosa, o meu analista, o meu professor de tênis, o meu celular, o meu, o meu, o meu... O meu caralho, porra! Gostava de irritá-la falando putarias. Obscenidades, meu Ícaro! Ah, Zé Carlos, você e essa sua coprolalia! Dona Maria. Dona Maria. Dona Maria. Mulher de posses. Mulher possessiva... “The possessive case”... As aulas de Inglês do científico, lá da querida, serrana e abandonada Cordeiro, voltando, voltando, voltando... Inclusive a professora, uma portuguesa que vivia dizendo que ele tinha uma ótima pronúncia, um ouvido muito bom, um ouvido de tuberculoso, um ouvido absoluto, uma grande facilidade para o estudo de línguas... Ele tinha era o maior tesão nela, nos seios dela...
No cardápio, carne branca. Azar de ele não comer carne branca, ótima para a digestão. Ele não sabia o que estava perdendo. Cerveja? Jamais, meu Ícaro, jamais, comigo. Somente Matheus Rosé. Na TV, Globo. Sempre a Globo, para espicaçar (Será que esse verbo vem de pica?) o brizolismo dele. Você ainda vai se frustrar com esse caudilho, Zé. Boxe? Nem pensar. Aquilo é uma selvageria, uma carnificina. Esporte da ralé. Haja vista para o tal de Mike Tyson, o estuprador... Sim, camas separadas. Melhor: quartos separados. Embora ela se julgue desfrutável ainda: usa tanga e tudo na praia... mas ele é que na verdade saía ganhando, pois não precisava aturar aquele cigarro intragável dela. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça... Os amigos do bar riam empunhando tulipas, e ele se vingava. Isso.
A casa. A maresia. A ventania. Movediças, as casuarinas, as dunas, as ondas, as gaivotas...
Ele. Estático. Sessenta e três anos. Mas longe da careca, Calva, Zé!, da pança, Ventre, Zé Carlos, por favor!, das próteses, dos infartos, da prostatalgia (Isso não, meu Deus!). Estava inteiro, sim, senhor. É que ele tinha sido quarto-zagueiro do aspirante do América Futebol Clube, apesar de não ter mais do que um metro e setenta e quatro de altura. Naquele tempo... naquele tempo ela, a Dona Maria, gostava de futebol. Não considerava alienado e... (Como é a palavrinha que ela adora? Hã!)... reaça quem gostava de futebol. Ela até ia aos treinos, na Rua Campos Sales, com as outras normalistas. Depois, muito depois é que deu pra implicar com o futebol. E as telenovelas dela? Aquilo, sim, era um ópio, fazia mal ao povo brasileiro. Ele saía de casa. Emputecido. Batendo a porta com força. Só ele sabia como isso a enfurecia e a deixava possessa. Você é um ciclotímico por excelência, Zé Carlos. Tem todas as características de um pícnico, sabia? Ultimamente ele andava com essa conversa... Era preciso procurar no Aurelião o significado daquelas palavras. Ciclotímico. Picnico. Pícnico? Penico ele sabia o que era, caralho, mas pícnico... No bar, com certeza ninguém saberia: aquele pessoal só sabia falar de mulher, futebol e política. Se fosse mais uma ofensa, mais uma agressão, ela veria uma coisa. Veria de uma vez por todas quem era o galo ali. Naquele tempo... quem cantava era ele. Quem bancava era ele. Ouviram bem? Mecânico de vôo. O mais solicitado por todos os comandantes. Por que seria, hem, Dona Maria, por quê? É, mas teve de aterrissar. Aterrissagem forçada. Teve de ir de mala e cuia para o Uruguai. Sim, sem a Dona Maria, lógico. Tudo por amor da Redentora. Mas até que ele vinha recuperando aos poucos alguns direitos e vantagens na aposentadoria, os quais os milicos lhe haviam tomado. Só que agora era tarde. Ele não podia mais decolar, arremeter para bem distante da... dali, do mar. Porra, ele sempre tinha sido do ar, e não do mar. Nem sequer uma amerrissagem ele tinha feito na vida, caralho!
Mas, afinal, o que o Mar lhe fizera? Roubara-lhe algum parente mais próximo, algum amigo de infância, alguma namorada inesquecível, alguma paixão? Qual o crime do Mar em relação a você, Zé? Por que se recusar mesmo a pisar a areia da praia? Você tem de parar de voar, Zé! Tem de pôr um ponto final nesse seu complexo de Ícaro, nessa sua monomania! Aterrissa, homem! Põe os pés no chão! Do contrário, você vai acabar no Pinel...
É, Dona Maria? E quem é que tem acrofobia, claustrofobia, pedofobia, pobrefobia, uma porrada de fobias e é tabagista por excelência, hem? Dona Maria Fumaça, Dona Maria Fumaça? Quem?
O mar. Indiferente. Indo e vindo, vindo e indo, indo e vindo... Libérrimo. Auto-suficiente. Bastando-se a si mesmo.
Caralho.

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