segunda-feira, 10 de maio de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

HISTÓRIA - OESTE

“Toda história é remorso.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Ele lecionava-nos História. História do Brasil. OS DONOS DO PODER – a Bíblia dele – sempre debaixo do braço esquerdo, nas mãos de dedos nodosos, sob os olhos com óculos de lentes grossas feito fundo de garrafa. Os dois volumes. Lidos. Relidos. Treslidos. Surradíssimos. As capas, esmaecidas. Como o terno azul-marinho de todas as aulas, que de tão justo já não abotoava mais. A camisa, branquinha, branquinha, trazia o colarinho puído. A gravata, a eterna gravata, também de um azul-marinho desbotado, curta. Saliente, o ventre dele, o que o fazia mais baixo do que era na verdade. Obeso, ele andava com dificuldade. Raras vezes ia à lousa. À cátedra, empedernido. Gostava era de que lêssemos em voz alta, que comentássemos, que discutíssemos, palavras, expressões, frases, períodos, parágrafos, capítulos de OS DONOS DO PODER, de Raymundo Faoro. Dizia-nos que dava aulas dialéticas, que usava a estratégia de Sócrates, a maiêutica. Senhorita Vera Lúcia, por que “o coronel converte o freio jurídico do governo em buçal caboclo”? Senhor Marcos Lúcio, qual o seu comentário a respeito da citação de Raymundo Faoro e que o senhor acabou de ler? Pelo que vejo o Cleiton Luís discorda da interpretação dada pelo senhor Wendell Sullivan à expressão “criatura domesticada” e deseja intervir. Estou certo, senhor Cleiton Luís?
Ele tinha um ar de cansaço, de fastio, de amargura. O nodoso médio da mão esquerda teimava em ajeitar os óculos bem no meio da armação. De imediato, silenciávamos. Ele olhava-nos, devassava-nos. Desde o nosso primeiro dia de aula, nós sabíamos que íamos amá-lo. Também sabíamos que ele vivia à base de vinho, de ódio. Negro, ele era negro.
O professor Amaro deixou-nos cicatrizes indeléveis. À sombra da nossa confidente munguba, nós o víamos chegar todas as manhãs, a pé, pela Rua 22. Vagarosamente. Penosamente. Odiosamente. À beira da calçada, ele ajeitava os óculos. Esperava, com uma feroz tranquilidade, que os carros passassem para poder atravessar a Rua 21. Logo começava a suar. À claridade do sol, ele negrejava. Vinha vindo. Raymundo Faoro na axila esquerda, claro. Na mão direita, os diários de classe. Ante a sua iminente e eminente presença, parávamos a discussão sobre Zico, sobre Reinaldo. Calávamo-nos, intimidados. Bons-dias, senhores. Entrava no Lyceu pontualmente às 6h55min. Não ia para a sala dos professores, não. As retinas estavam fartas daquelas cópias chinfrins, como a da Santa Ceia, a do Homem com moça no barco, a da Mona Lisa e, sobretudo, a do Beijo de Judas em Cristo. Aquela sala também estava cheia de gente chinfrim e de Judas... Atravessava o pátio. Lançava, sim, um tímido olhar para os seios da Índia, à esquerda, palavras do Turco, o Nacif, o maior cê-dê-efe do Lyceu, que não sabia mentir. Com uma dor patente, com um rancor latente, subia aquela ingrata escadaria que levava à sala 18, a nossa. A mão esquerda sobre o joelho da perna esquerda, a que coxeava levemente. No patamar, esbaforido, tirava os óculos, limpava o suor do rosto com o lenço azul-marinho, embranquecido como o terno, como a gravata. Às 7h, ao toque do sinal, entrava em sala, fechava a porta. Bons-dias. Depois que ele entrasse, ninguém mais entrava. Podia ser o Queixada, o Fernando, o filho da professora Iná, a Diretora, que não entrava, não. É, ele era opiniático até, o professor Amaro.
Aprendemos muito com ele. Às aulas de História do Brasil dele ninguém faltava. Mesmo o Quasímodo, o Hércules, o mais baixinho da nossa turma, o gazeteiro-mor do Lyceu, não perdia uma aula sequer do professor Amaro. Por quê? Porque eram aulas iniciáticas, reveladoras da História do Brasil. Quer dizer, não da História Oficial do Brasil, mas sim da História marginal, proibida. Os porões, os vazios, os interditos da história do País aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. A anti-história. Aquele homem negro de alma negra, tão indignado, tão indiciado, tão injuriado, não apenas nos informava, mas principalmente nos formava. Vocês trouxeram consigo o artigo de O POPULAR que eu lhes pedi na última aula, estou certo? Vamos lê-lo, então. Senhorita Myrian Ruth, por favor, leia, sim.
“De São Paulo a Minas, meditei sobre os imprevistos caminhos dos povos. O jovem Pedro do Ipiranga era neto da mesma Maria que, 30 anos antes, sancionara as condenações de Tiradentes e seus companheiros.
Tais são os caprichos da história que, poucos anos depois, o mesmo príncipe sonharia reunir numa só duas pátrias. A D. Pedro pareceu natural juntar o título de rei de Portugal ao de imperador do Brasil.
Caprichos da história, talvez. Ou então indício da índole dos brasileiros, que, em menino, Pedro absorvera. Pois nós somos, como os mineiros tão bem exemplificam, pela conciliação. A mão estendida. O milagre de uma gente para quem o dia de glória é o do perdão e do esquecimento, e não o dia da ira, o dia da violência.”
“Caprichos da história”, como quer o nosso intelectualismo General-Presidente, significam o mesmo que caprichos do homem, senhor Geraldo Magela? A seu ver, senhorita Sônia Maria, o brasileiro tem mesmo índole cordial, conciliatória? Certo, senhor Cleiton Luís. De fato, não podemos, não devemos confundir “esquecimento” com impunidade. Brilhante, o seu aparte. Parabéns.
Sim, aprendemos demais com o professor Amaro. Com ele aprendemos mais Português e Literatura que com os nossos professores de Português e Literatura, que, por sinal, eram muito bons, façamos justiça. Mas nosso inesquecível mestre de História do Brasil ensinou-nos a amar as palavras, a nos amar pelas palavras. Ensinou-nos a ler as entrelinhas da VIDA, este texto tão acessível a todos. Aprendemos o significado de palavras como dignidade, coerência, justeza, solidariedade, desalienação, cadeia da legalidade, constituição humanismo anistia... aprendemos o que é ser digno, coerente, justo, solidário, desalienado, humanista, anistiado, amaro...
Pela grossa aliança no anular esquerdo, sabíamo-lo casado. Porém, ninguém o via com a esposa. Ninguém, vírgula. A linguaruda da Dalila, aquela sardenta que escrevia notas chistosas em O LYCEU, espalhou que tinha visto a mulher do professor Amaro, uma loura de fechar o comércio, gente. Disse mais: tinha visto o casal e uma escadinha de filhos, três meninos e uma menina, todos louros, louríssimos, gente, a loura, que não era oxigenada, não, tinha um decote... um sábado, no Mutirama. Apenas mais um detalhe, gente: o professor Amaro estava vestido com o seu inseparável terno azul-marinho... Seria verdade da Dalila? Aquela sardenta sabia mentir como ninguém. Era o oposto do Nacif. O nome se ajustava bem à pessoa. Ela já havia espalhado que ele, o professor Amaro, fedia a vinho... E nisso ela infelizmente não mentia. Com toda certeza, ela estava se vingando dele, pois fora reprovada por ele. Era ainda uma segundanista. Nós aí nos vingamos dela: batizamo-la de “Ferrugem”. Pronto. E não é que pegou.
Este 1979, que recuperamos agora nesta história, alimenta-nos. É matéria de memória. Sempre recordamos o professor Amaro, sua natureza atrabiliária, a última palavra que lhe ouvimos, quando da nossa despedida. Sim, lá estava ele, com o mesmo terno azul-marinho desbotado, o mesmo tique com os óculos, suando, um nadinha de vinho na boca. Só, na sua doce cólera. Sem saber o que fazer com as mãos, que talvez sentissem falta de Raymundo Faoro. Ele, o professor Amaro, nosso substrato. Nossos pais choravam por nós, por nossa formatura. Nós chorávamos por ele. Temíamos não tê-lo amado como ele merecia ser amado. Como nós o amávamos, meu Deus! Levou-o de nós uma hepatólise, faz três anos. Trazem-no de volta a nós suas lições: ainda hoje sabemo-las de cor.

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