Para Fernando Fortes
Faz mais de trinta anos, escrevi uma crônica sobre um Rei. Não resisto à tentação de escrever outra hoje, ainda sobre esta mesma régia figura. Não porque eu seja monarquista, como parece ser boa parte do povo brasileiro, esclareço logo. Não. Mas sim porque Sua Majestade é meu vizinho, morador da Urca, este país de solitários. Mais: porque o Rei é melancólico, o “Príncipe da Melancolia” – para me valer da felicíssima expressão de uma raposa fluminense, um misto de político, intelectual e escritor. E nós, a raposa aludida e eu, também não ficamos imunes à Melancolia. Se tudo isso for pouco, confesso que escrevo esta crônica porque o Rei e o seu alter-ego carioca já me (nos) ofertaram algumas jóias da MPB, como, por exemplo, OLHA, inefável na leitura de uma cantora baiana de boca e voz esplêndidas.
Nem tudo tem sido branco e azul para o Rei, que vem convivendo com pedras (perdas) há muito tempo. Daí por que ser morador da Urca – que não é cura só anagramaticamente. O sentimento de perda, que lhe apontei na crônica lá atrás, de Curitiba, permanece em seus olhos, em seus sorrisos, em seus depoimentos, letras e canções. É-lhe inerente. A última perda, melhor, a Perda, a do Amor, quase nos faz perde-lo de vez. Provocou-lhe um câncer n’alma. Fê-lo, então, o Rei da Melancolia, raposa fluminense. Felizmente, o Rei desmorreu, aprendeu (com os esotéricos) que é preciso morrer para viver. Afinal, não foi esse mesmo o ensinamento do Rei dos Reis?
Sê rei de ti mesmo, propõe-nos um poeta lusíada,singular e plural, pela voz heterônima de um médico e monarquista, seu conterrâneo. O Rei a que aludo – com o seu dizer (haverá na MPB uma voz mais popular, mais carismática do que a dele?) e o seu fazer (haja vista para a sua coerência de homem artista) – propõe-nos sermos reis do Outro. É Rei, realmente. O único que reconheço no Brasil, embora não pertença à dinastia dos nobres da Coroa Portuguesa, petropolitanos. A nobreza desse Rei vem de seus gestos, não de seus títulos. Seu reinado, sim, é vitalício. PARA SEMPRE. A propósito, o Rei chama-se Roberto Carlos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário