terça-feira, 11 de maio de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

SOB(RE) ANCILA - OESTE

Aí vai à frente, meus leitores sacanas – grandessíssimos e inveterados “voyeurs” – o meu conto, a que acrescento um ponto, está claro, obedecendo, assim, à lição machadiana. Se considerardes de saída que sou chegadíssimo numa sacanagem e numa poetagem, estareis com a razão. Se pensais, porém, que neste textículo haverá mais sacanagens e menos metáforas, incorrereis em grosso, desmarcado erro. Preparai, pois, vossas fantasias, vossos olhos, vossos ouvidos. Relaxai e gozai.
Penso que posso e devo estimular vossas cabeças, safados leitores, até porque esta história não passa de uma puta sacanagem, literariamente, e não literalmente, hein, moralistas de plantão! É antes ficção que fricção, cuideis. Mas, alegrai-vos, vede, aí vem a minha, a nossa criança. Quatorze anos, nem mais nem menos. Delicioso um-metro-e-setenta. É, bitelona, sim. Filé, de dar água na boca a um Roman Polanski, a um Woody Allen e a outros pedófilos menos dotados. É loura, onde quer que tenha pelos. Lourice natural. Olhos azuis. Bocas maravilhosas.
Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor a um Enoch.
Um rubi, o umbigo, sempre à mostra. Uma pinta, uma razoável pinta acima do púbis, à direita de quem entra. E crede, povo devasso que me lê, calipígia. Ai, a queda que os brasileiros têm por uma bunda! Eu também estou aí no meio, hein! De minha, digo, nossa ninfeta só falta dizer-vos isto: é goiana, de Montividiu (sic), assim como eu, a Ancila. A que me escraviza com suas bocas e mãos. A que sob mim me domina. A que me cavalga, já que súcubo sou, silenciosamente, mordendo o lábio inferior, e me faz incêndio. Como a seguir, no próximo parágrafo, excitados leitores, como cacei jeito de caçar esta pombinha que me não sai da cabeça. Por enquanto, gozai e relaxai.
Proxeneta, o destino nos destinou mutuamente. Se não, vejamos: Ancila mora na minha rua, a T-4 Setor (Mui) Bueno, aqui em Goiânia. No mesmo prédio em que moro. Vive debaixo de mim. Além de ser montividiuense e minha vizinha, é minha aluna. Faz a oitava série no Hugo de Carvalho Ramos. Aluna boa, boa aluna. NooooooosSenhora!, demais da conta, sô! Aprende com facilidade tudo que lhe ensino. Tem um dom inato, raríssimo, para trabalhar com a língua. E com as mãos também. Uma prestidigitadora, ela.
A mãe dela não me conhece, não sabe que sou professor de Português da filha. Talvez tenhamos nos dado um ou outro bom-dia no elevador. Ela parece mais preocupara com o marido, sozinho lá nas fazendas de Montividiu, do que com as lições e a iniciação da filha comigo. Desconhece, por exemplo, que o vou-estudar-na-casa-de-Laura de todas as tardes, inclusive e sobretudo as dos sábados, é trepar no meu quinto andar. Nem desconfia, coitada, que eu deflorei (iche! que verbo mais fora de moda!) Ancila no começo deste ano, numa chuvosa sexta-feira, depois de lermos, em voz alta, es-can-din-do, os versos de A NOITE DAS NOVE FODAS, soneto de Bocage, e de assistirmos no vídeo ao GARGANTA PROFUNDA e ao ÚLTIMO TANTO EM PARIS. Foram as preliminares do defloramento (iche!) de Ancila. Transa feita com muito vagar, com minúcias, detalhe por detalhe. Trabalho de ourives. Digitando-a, manuseando-a, invadindo-a, explorando-a. Eu, o seu espeleólogo. Eu, comendo o mingau pelas beiradas, para não acabar logo... Aí ela aprendeu o que é clitóris, que não é uma palavra proparoxítona como ela pensava e pronunciava, clitóris; aprendeu, NoooooosSenhora!, como aprendeu, o que é felação; aprendeu a diferença enter quiromancia (ela vibrou com a palavra), onanismo (achou massa a história de Onan) e siririca (iche! eu palavra mais “démodé”! na verdade, nada mais “démodé” que a palavra “démodé”, não achais, lúbricos leitores?); aprendeu um numeral muito especial, o sessenta-e-nove, e uma variação dele, o noventa-e-seis, não pensa noutra coisa; aprendeu a ser penetrada com manteiga (exige que eu chame de Maria Schineider); aprendeu coisas pra caralho. No outro dia, no sábado, ela trouxe todas as lições na ponta da língua. Estais aí ainda, leitores luxuriosos? Melhor fazermos uma pausa, certo? Eu aqui; vós, aí. Ufa! Mas vem mais, aguardai.
Há quase um ano venho ensinando, cevando, comendo Ancila. UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES. Lições amatórias, muitas, muitas. E, como costuma ocorrer, quem aprende, termina ensinando. MESTRE É QUEM DE REPENTE APRENDE. Ou quem recorre à APRENDIZAGEM DE DESAPRENDER. O que tenho dado para Ancila? – me perguntais, desejando mais devassidão do que citação, mais sexo do que nexo e plexo, leitores libertinos. Serenai, eu vos respondo: banhos pro-lon-ga-da-men-te gostosos; duros exercícios com duros instrumentos de gozo; e ração diária (incluindo algumas tardes dominicais) de carinho-e-delicadeza, uai! Sabei que coisamos ainda nos entardeceres goianienses, coisamo, sim. Ô terém danado de gozozo! Agora, a verdade seja dita, recebo mais do que dou. Ancila é que me ensina, me ceva, me come. ESTE DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE, temo e tremo só de pensar em perde-lo, e sei que vou perde-lo breve, breve. Afinal, ela já sabe bater asas, já sabe voar. Afinal, tenho, segundo ela, a mesma barriguinha dos quarentões, a mesma mania de olhar por cima das lentes dos óculos e, o que é pior, a mesma idade do pai dela. Quem carece de alforria, pois, não é Ancila, mas sim eu. Por ora, entretanto, ela me diz que não pertencerá a mais ninguém, nunca jamais. Leréia, leréia, eu sei. Diz, após o orgasmo, depois de colar o ouvido no meu CORAÇÃO DISPARADO, tirando o louro cabelo do rosto suado e rosado, meu trem!, e eu chego outra vez ao Éden. Para mim, será custoso demais da conta não mais introduzirmenela, edernizarmenela, eternizarmenela. Anoitecerão dolorosamente as minhas tardes, a minha vida. Debruçado sobre a T-4, sem o meu ancilar gozo, estarei plenamente vazio. Descerei rápido para o poço de mim, sem minha Lolita. “Professores frágeis sempre se apaixonam por alunas fortes”, onde li isso, meu Deus?
Quereis saber mais, mixóscopos leitores? Quereis antes trepadas que depressões? Simples: comprai o próximo número desta revista. Aí talvez possais ver se ainda estou sob(re) a Ancila. Pelejei que só para contar-vos, com engenho e arte e erotismo, a história de uma ninfeta goiana, e vos daí, desse lado, com essa vossa puta má-vontade, com essa vossa puta indiferença, com essa vossa puta insensibilidade, sempre insatisfeitos, com essa vossa puta pulsão escópica que vai além da normalidade, querendo mais e mais e mais... Ide vós todos aos pés, que é como dizemos aqui em Goiás, o que quer dizer, na verdade, ide vós todos à merda! Basta. Cansei. Ficai com a putaria; eu fico com a poetagem. Ou vossa excitação vos impediu de inferir deste textículo o quanto quero estar próximo de vós?

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