O SEQUESTRO - LESTE
Dioniso da Silva, aliás, o “Bonito”, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé? Só podia ser por causa do “Lance”. E desde quando o “Lance” tinha pintado na vida dele? Sabia-se lá, parceiro! O que se sabia era que o passado do “Bonito” era feio adoidado, isso era. Uma droga de vida. Uma vida de droga. Tanto fazia, né? Trinta e três anos. A idade de Cristo, e ele numa pior, numa deprê doida. Sem uma merreca. Sem um barraco. Sem uma nega. Sem um rango. Sem um bagulho. Cem vezes sem. Num preju dos grandes. Chutando lata, como na música do Rei, o maior de todos pra ele, o “Bonito”. E pagando mico, aí. Veja você. Então, pra sujar de vez, pintou o “Lance”. Pura piração, parceiro!
O “Lance” tinha dezessete anos. Priscilla. Assim mesmo, com dois eles. Estava lá, a ouro, na gargantilha. Jóia. A gargantilha ou o pescoço? Priscilla. Nome de riquinha. Nome de artista de cinema norte-americano. Vista, desejada, amada. Bonitamente. Um brotinho. Geleguinha. Sardenta pacas! Verdes, as butucas. Os seios dela – tacinhas, tacinhas – cabendo nas mãos dele, como uma luva, como uma luva, assim ó. E cada coxa, cara!
Aí deu pra azarar ela. Fissuradão. Sabia tudo dela. Tomou posse da vida dela, parceiro. O pai, grande empresário na baixada. Podre de rico. A mãe, gringa. Filha única, a Priscilla. Vegetariana, veja. Virgem. E não era só de signo, não. O “Bonito” apostaria com quem quisesse. Torcia pelo Mengão. De botar o manto sagrado pra ir no Maraca nos domingos. Bom, isso. Fazia cursinho no largo do Humaitá. Queria ser dentista. Também com aqueles dentões! “Bonito” lembrou-se dos seus, em petição de miséria. Como tudo o mais dele, em petição de miséria. Ele, justamente ele que aos dezoito anos vendia saúde. Todos os dentes na boca. Nenhuma cicatriz. Nenhuma tosse. Nenhuma hepatite. E com o segundo grau completinho, cumpádi! Prontinho pra ser bombeiro. O valoroso soldado do fogo, ele! Diziam até que ele era muito parecido com aquele ator norte-americano, um negro famoso, que vivia comendo as galegas. Como é o nome dele? É, esse mesmo, Sidney Poittier. Sim, porque ele era negro mas um negro bonito. Daí o apelido, né, parceiro? Naquele filme, OS ACORRENTADOS, que foi visto uma porrada de vezes, ele, o “Bonito”, era bem mais o Sidney Poittier do que o outro, como é o nome do outro? Hã! Tony Curtis, é. Sim, o branquelo azedo, que só tem topete. Acontece que de repente veio o mau destino, como dizia o padrinho, e desgraçou tudo. O pai pendurado no galho da jaqueira, no meio da Praça dos Garis, pra todo mundo ver. A língua de fora. Chocante, parceiro, chocante. A troco de quê? A troco de quê? O pai, ferroviário, com a sueca, com o dominó, como cavaquinho, com a “branquinha”, parecendo tão feliz, tão amado, tão de ferro... Depois, a mãe, no hospital do Engenho de Dentro. Pra sempre. É remorso dela... O “Bonito” tinha ouvido a madrinha cochichando com o padrinho no enterro do pai, no cemitério do Caju. A mãe estaria viva ainda? Por que não deixavam que ela recebesse visitas? Pinel! Era como chamavam a mãe. Pinel! Aí nasceu nele o ódio à mãe, ao pai, ao padrinho, à madrinha, a si, à vida, ao mundo, a Deus. Porra, logo na semana dele se apresentar nos bombeiros do Méier! Agora não ia mais usar aquele quepe esperto. Nem aquele cinto diferentão. Nem aquela farda joinha, joinha. E adeus, escada magirus! Aquela casa do Encantado era um desencanto, paisano. É, ele precisava sumir e se vingar de tudo aquilo, do mau destino, que parecia algemar ele à dor.
Priscilla era de poucas palavras, de poucos amigos. Também não havia nenhum vagabundo azarando a mansão da Avenida Epitácio Pessoa. “Bonito” tinha absoluta certeza disso, pois não dava mole na campana, não. Passava por um flanelinha a mais do outro lado da Avenida. Fizesse sol de rachar ou desabasse um dilúvio, lá estavam os olhos bonitos e Priscilla, prisioneira deles. Existia, é verdade, o motorista particular, um tal de Orlando, que ia e vinha com a Priscillinha no banco de trás do MERCEDES branco, todo empolgado. Pavão. Aquele Paraíba estava merecendo uns trancos. Quem ele estava pensando que era? O rei da cocada branca? Quantas sacanagens o Orlando não sonharia em fazer com a Pris? A brancura das coxas dela chupada pelo olho-retrovisor do Orlando diariamente. É, não ia demorar muito e aquele babaca do Orlando ia amanhecer com a boca cheia de formigas. Presuntão. Bastava só o “Bonito” baixar no Dona Marta e dar um toque na galera. O “Paulinho Cecê”, o “Boca-do-Mato”, o “Dá-Uma”. Aqueles três fariam qualquer coisa por ele, até vender a mãe. Aprenderam a temer e a seguir o “Bonito”, depois da temporada e da fuga da FREI CANECA. Juntos, os quatro aprontaram: roubaram, assaltaram, traficaram, estupraram, mataram. Pintaram e bordaram. Pois bem, ele iria à procura deles. Deviam estar malocados, armando uma “mineira” pra cima de algum portuga bundão. Eles detonavam rapidinho aquele Mané do Orlando, um sujeito que era só perfume, e dos mais enjoativos que já inventaram. O que eles não podiam saber nunca – principalmente o “Dá-Uma” – era da existência da Cilla. A refém. Só dele, do “Bonito”. Ela na mente dele, sempremente.
Não, ele não manteria contatos com a família dela. Por quê? Porra, ele já possuía aquele louro objeto de desejo. Também não exigiria nenhum dinheiro para o resgate. Cillinha era agora irresgatável. Não existia mesmo no mundo uma quantidade de dólares suficiente que libertasse a sequestrada, que livrasse Cill do cativeiro dela, o coração dele. E nenhuma Divisão Anti-Sequestro chegaria àquele cárcere privadíssimo, a paixão bonita. Cillinha seria bem-tratada, respeitada, alimentada na base do mais puro, sadio e inofensivo amor. Que todos soubessem disso. Priscilla. O “Lance”. A cativa dele. Ou era ele, o “Bonito”, o cativo dela? É, no fundo, ele não passava realmente de um sequestrador...
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