sexta-feira, 30 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

TREMOÇOS - LESTE

“Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo
Vencido sobre quem se aventura a recompô-lo.”
(José Cardoso Pires. “O delfim”).


Invernosa manhã. Plúmbea. Curitibana. Apesar disso, eu e minha cervejinha dominical. Estupidamente gelada. No MATOSINHO, Praça da Bandeira. Minha toca aos domingos. E segundas, e terças, e quartas, e quintas e... Mania de boteco. Incorrigível. Atração fatal, os pés-sujos. E não só os cariocas e fluminenses, mas também os paranaenses, os catarinenses, os paraenses, os rondonienses, os goianos, os mineiros, os paulistas, os brasis. Bar doce bar. Sim, mas eu e minha cerveja dominical estupidamente gelada. Lá fora, garoa. Frio. Com jeito de Sampa, o Rio. Merda. PERGUNTE PRO SEU CORAÇÃO, o fundo musical aqui dentro. De repente, à minha frente, em cima do balcão, uma generosa porção de tremoços. Ter-mo-ços! Tira-gosto, brinde da casa, José. O bigode e as costeletas do Belarmino, o proprietário do MATOSINHO. Não, não, obrigado, Belarmino. Pois, vai, homem, come! O insistente Belarmino. Certo, certo. Um, dois, três, quarto, dez... Mecanicamente. Mecanicamente. Mecanicamente. Bom, não? Assim, assim, pouco curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes. Saco. Sabor de quê? Sabor já sábido... Amargor. Ora, por causa das casquinhas, José. Não, Belarmino, não por isso... Sabor imperecível. Só meu. Rua Lins de Vasconcelos, 323. Centena impagável... Outra vez na cabeça... Por quê? Casa na ladeira. Casa natal, para mim e para a Irmã. Casa e brinquedo. Casa-oficina do Avô, lusitano como o Belarmino. Casa de móveis, imóvel no tempo. Eu-menino. Sem Avó, sem a filha da Avó, sem o Pai, sem a Irmã. Esses, chamados por Deus, agora no céu. A vontade de Deus. Pois. A vontade de Deus. Ou o edifício e os familiares sob o fogo das águas. Verão de 1966. Pois. O posto, o tirado por Deus. Certo? Não! Eles no Céu, e Eu e o Avô no inferno? Eu, o Avô e o Agregado. Amigo de infância, da mesma aldeia, do mesmo navio imigrante. Outono de 1910. Pois. Agregado, coisa de portuga. O encardido das camisas-de-meia deles. As bainhas das calças listradas, dobradas até as brancas canelas deles. Os tamancos. Os tamancos. Os tamancos. Os dois portugas. Unha-e-carne. Nós três, nós. Sobreviventes. Nós e os tremoços. Bem curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes (alguns de ouro) do Avô. Raios. As casquinhas dos tremoços do Agregado sempre no chão. Uma imundície bestial. A vermelhona careca dele. O dito Benedito, maldito. Um Judas de marca maior. Na certa, muita inveja da prateada cabeleira do Avô. Meu marceneiro de mágicas mãos. O Agregado, sim, carpinteiro. Dia e noite, noite e dia, o Avô debruçado sobre a bancada. A pua. A grosa. A plaina. O formão. A cola. O pote de tremoços. Sempre ao pé de mim, hem, José! Tremoço, coisa de portuga. O Avô e os meus doze órfãos anos. O Avô no lugar do Genro, da Filha, da Neta. O Avô-professor. O Avô perdedor. Perda e dor. Mais do que Eu, bem mais do que Eu. Pois. A orfandade do Avô. Provações, privações. Privado da Esposa já no Brasil. Do Filho, o primogênito, igualmente José, o desertado, o deserdado (mas nunca esquecido, sempre recordado). Parecido em tudo contigo, José. Da Filha. Do Agregado, o grandessíssimo filho da mãe. Da Neta, o xodó dele, porque a caçula. Do Neto. De mim?! Não! Nunca! De modo algum! O Avô, essência preciosa, possante tristeza. Coisa de família, dos Fernandes? Coisa de portuga? Acordeonista, cantor e inventor, é claro. O Avô no estribo do bonde Lins de Vasconcelos, número 75. O salto do Avô, de costas, o mais difícil, o mais perigoso, defronte da loja-casa. Caramba, Avô! A Tora, a sinagoga do Avô. Na Beneficência Portuguesa, no asilo, o Avô. Por conta própria. Só. Mas por quê? Doença contagiosa. Conversa. Pois. Proibidas as visitas. Mesmo do único parente, do Neto? Inclusivamente. Por quê? Ordens expressas dele. E os tremoços? Não. Proibidos. Dieta rigorosa. Mas por que tudo isso, Avô? Porventura pela semelhança em todos os sentidos com o Tio, o Valdevinos? Talvez por causa daquele leite derramado pelo Avô sobre o meu peito menino, cicatriz significativa no meu corpo e na mente dele. Talvez pela perda do xodó. Talvez porque também órfão de Deus... Não, ele não. Muito íntimo de Deus, o Avô. Talvez porque... O passamento do Avô. No São João Batista, o Avô vestido, velado, enterrado, chorado, somente por mim. Mais tremoços, José? Não! Não, Belarmino, não, obrigado. Xô, travosa memória! Tremoços, remorsos...

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