quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O ALBATROZ DE BAUDELAIRE - SUL

Para Fernando Julio Cabrera

Chovia, e muito, era agosto, o teatro onde ele apresentaria ficava do outro lado da cidade, em relação ao meu bairro, e, como se tudo isso fosse pouco, o ingresso era caríssimo. Mas lá estava eu, expectante, naquele aquoso sábado, para adorar o Mito. Antegozava. Sim, eu, semelhantemente àquela personagem de POR VOLTA DA MEIA-NOITE. Quer dizer, jazzmaníaco.
Assisti à apresentação dele privilegiadamente, quase junto ao piano. O que ele, o Mito, tocou – peças do mais puro êxtase – tocou-me (-nos) para sempre. Os vôos dele ao teclado só cabem numa palavra: inefáveis. Jamais vi alguém ser tão etéreo ao fazer algo tão chão.
Quando terminou o espetáculo, exatamente como o Français de POR VOLTA DA MEIA-NOITE, ainda extático, fiquei à espera do Mito: desejava um autógrafo no meu vade-mécum, RAYUELA, na jaqueta. Se ganhei o autógrafo? Não. Perdi-o. Mais: perdi o Mito, para ganhar o homem. Ele, desmitificado, saiu trôpego do teatro, arrastado por dois homens que riam dele e o despejaram, fardo, dentro do táxi. Como na rua podia ser tão outro do que fora no palco?
Voltando a pé para o meu longínquo bairro, já dentro do domingo, que também se liquefazia, ia com o corpo encharcado e a alma ruminando, até que compreendi: era o albatroz de Baudelaire!

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