quarta-feira, 28 de abril de 2010

PONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

VINGANÇA - SUL

- Guria!
A voz gorda da mãe, ralhando, ralhando, ralhando, machucando feito a chinelada dela. Mas porém só pra ela, Bernadete; pros manos, não, né? Eles podiam tudo. Quem mandou ela ser a única guria no meio dos quatro piás?
- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria! Tu quer me enlouquecer, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
Ela apanhava sem chorar, nem uma lagrimazinha. Quem sabe não era isso que deixava a mãe mais braba, vermelhona, descabelada, quase sem respiração, depois das tundas que ela dava? Os manos riam. Todos, não, que o Bê não ria, até chorava por ela. E não era por medo dela, não.
- Tu tá dentro do meu coração, Bê. Até o fim do mundo, tá?
A mãe sofria dos nervos. Tomava um montão de remédios. Mas porém tinha uma força, bah! Todo mês a mãe inventava de arrastar, sozinha, braba, vermelhona, descabelada, o piano pela sala. A mãe tinha aquela mania de mudar de coisas, os móveis de lugar, a cor lá dos cabelos dela... A mãe mudava muito, né? Por que a mãe fazia aquilo ninguém sabia, não. O pai não gostava mas porém ficava calado.
- Outra vez descabelada? Parece um piá de rua! Ainda corto esse teu cabelo e te deixo careca, viu? Aí tu vai parecer mesmo piá, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
É, a mãe não gostava dela. Nem um tiquinho assim, ó. Só sabia chamar gritando:
- Guria! Guria lazarenta! Guria, desce das grimpas! Guria, para com essa função! Guria, vai tomar banho! Guria, tu quer me enlouquecer, né?
Por que a mãe não chamava feito o pai?
- Bernadete, por favor, meu benzinho, alcança aquele livrinho ali pro paizinho, sim?
Livrinho? Tá bom, jacaré! O pai ria que ria da imitação dela. E dava milhões de beijos nela.
Ou feito ao vô que morava com eles?
- Dedeta, senta aqui no colo do vô, que eu vou te contar uma história de bruxa. Esta tu ainda não ouviu, não... Então, era uma vez uma bruxa gorda, braba, vermelhona, descabelada, malvada barbaridade...
Ou feito o irmão caçula?
- Deta, tu viu o sorriso do vô Benício no copo d’água na mesinha da cama dele, viu?
- Ô, Bê, tu tem cada uma, piá!
Ou feito a tia do grupo?
- Bernadete, traga o seu ditado para a tia ver, sim, querida.
O pai, a mãe dizia que o pai era um banana. Como o pai podia ser uma banana? Quem sabe era porque o pai era muito gozado, grande e meio torto, feito uma banana d’água? O pai tinha até as pintas da banana d’água na cara. O pai, magrinho, magrinho. Feito o bigodinho dele. É, tudo no pai era magrinho. Menos os livros dele. Bah! Cada livrão! Um tal de código disso, um tal de código daquilo... A casa, cheinha de livros. A mãe dizia que os livros eram a comida do pai. O pai não gostava mas porém ficava calado, lendo, nem era com ele. Os olhos dele é que riam. Riam pra quem? Pra Bernadete, o benzinho dele, né? O pai gostava barbaridade de B. Bruno, Bráulio,, Bernardo, Bernadete, Benício. O pai e o vô também eram Benício. Mas porém o pai do pai era outro, morava longe e só andava numa cadeira de rodas. Duas rodonas e duas rodinhas, as pernas do vô Justino. O pai era advogado e queria ser juiz feito o pai dele. Daí o pai estudar esse tanto, né?
Um domingo, no oitavo aniversário de Bernadete, vô Benício de banho tomado, o cabelo penteado até, bah!, com a camisa nova, na cabeceira da mesa.
- Dedeta, vem cá no colo do vô! Vem, polaquinha do vô, vem!
A sala inteira olhando pra ela. A Dona Inveja suspirando, né?
- Tu quando crescer que ser o quê, Dedeta?
- Bah! Vô, piá, né?
- Guria! – fez a mãe, rindo, mas porém sem querer, com a gente toda.
Quando a parentada foi embora, a mãe não quis nem saber da sujeira que tinha ficado na casa depois daquela função. Quis saber foi de chinelada, chinelada, chinelada...
- Onde já se viu uma guria expor a sua mãe assim ao ridículo e na frente de todo o mundo?! Tu quer me enlouquecer mesmo, né?
Daí a mãe fazia aquele barulhão lá com os dentes dela. Era outra mania da mãe fazer aquilo quando ficava braba. O pai dizia que aquilo era brux... brux... bruxismo, uma palavra difícil, né, gente?
O pai ouviu tudinho mas porém ficou calado, lá no meio dos livrões dele. Bernadete foi para o quarto, dela e do caçula.
- Bê, pára de chorar. Não tá doendo, não, piá. Eu nem tô chorando, tô?
- Por que tu nunca chora, Deta? Como é que tu faz isso? Olha, teu braço tá vermelhão. Não tá doendo, não, Deta?
O Bê chorava por ela, pela tundas que ela levava todo dia, só o Bê. Os outros manos? Tá bom, jacaré! Não ligavam pra ela, não. Nem pro Bê. Nem pro pai. Nem pro vô Benício. Mas porém eles ligavam pra mãe, sim. Agora judiação era com aqueles três. De primeiro, judiação com os gatos. Depois com os cachorros. Eles ajudavam os homens da carrocinha até, aqueles pestinhas!
A mãe só batia nos braços de Bernadete. Eles ficavam roxinhos no dia seguinte. As marcas da chinela de couro. O pai não gostava mas porém ficava calado. Parecia que o pai tinha medo da mãe. Parecia que o vô Benício também tinha medo da mãe. Um pai ter medo da filha, como é que podia uma coisa assim? O vô, a mãe dizia que o vô era um traste. Tá certo, o vô tinha um cheiro velho, tinha, fazia um barulhão quando tomava a sopa, fazia, vivia mexendo na bunda das empregadas da cozinha, vivia, mas porém todo dia tinha uma história de bruxa pra contar. A bruxa aparecia que aparecia nos sonhos de Bernadete. Cada dia a bruxa ia ficando mais real... É, e só uma pessoa ouvia as histórias de bruxa do vô Benício. Adivinha quem? Ela, Bernadete, né? Quem que podia de ser? O Bê também ouvia mas porém tinha um medão lá com ele. Ficava junto, tampando os ouvidos, fechando os olhinhos, que era pra não ouvir a voz do vô, que era pra não ver as caras que o vô fazia. O Bê tem cada uma!
Bernadete tava uma boniteza que só naquele vestidinho azul com a guriazinha com duas trancinhas com a flor amarela bem no meio do peito. Tá certo, ele tava ficando curto pra ela, tava, a flor tava quase branca, tava, tinha já um furinho bem no meio da flor da guriazinha, tinha, mas porém ela cada vez mais gostava dele. Será que era porque o pai é que tinha dado ele pra ela? Claro, Clara! A coleguinha e vizinha, a Dona Inveja, dava mais um suspiro. Mas porém chegou a mãe:
- Guria! Quê que tu tá fazendo com esse vestido aí? Eu não te disse pra ti ponhar o macaquinho preto?
- Mãe, eu quero ir na festa do grupo com o meu vestidinho azul com a gurizinha com trancinhas com a flor amarela, né?
- Guria, tira esse vestido já! – gritou a mãe.
- Não tiro, não, nunca.
A mãe mandou a Clara ir pra casa dela. A mãe não tava de chinela no pé, não. Tava bonitona até, o cabelo num rabo-de-cavalo, pintada, o vestido verde feito os olhos dela. A mãe quis tirar o vestidinho na força. Bernadete não deixou, não. Mas porém a mãe pegou o bracinho esquerdo de Bernadete e mordeu grande. Tão grande que saiu sangue. As marcas dos dentões da mãe no bracinho da filha. Pareciam um coraçãozinho até! Bernadete chorou? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Quem chorou foi a mãe, vermelhona, se descabelando, malvada, correndo pro banheiro. O Bê, a mãe dizia que o Bê era um piá de bosta. Tá certo, o Bê fazia xixi toda noite na cama, fazia, não gostava de tomar banho, não, não gostava, vivia sumindo com as bombas do pai, vivia, ô piá danado! Mas porém só o Bê tinha muitos carinhos nas mãozinhas e só ele chorava por ela. Ô piá querido barbaridade! De noite, o pai e o vô Benício conversaram que conversaram no escritório do pai. Vô Benício fez que sim com a cabeça e chorou. Daí o pai ligou pro pai dele:
- Pai, eu... eu vou internar a Malvina...
Daí o pai ligou de novo. Chegou um carro branco. Três homens pretos de roupa branca arrombaram com o pai a porta do banheiro e botaram na mãe uma camisa branca com muitas mangas e apertada barbaridade! A mãe gritava que gritava, chorava que chorava, mas porém o pai ficou calado. A cara da mãe, toda borrada. Bah! Feito uma bruxa, a mãe! Daí a noite chegou e engoliu o carro branco. O vô e os manos e as empregadas e a Clara e os pais da Clara e um montão de gente choravam na calçada. Bernadete? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Riu até, com uma maldade guria. Um sorriso meio banguela, feito o da Dona Inveja.
- Guria!

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