terça-feira, 27 de abril de 2010

PONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

O GRINGO

(para Rafael Bresller)

É terra de ninguém e de todo mundo, o garimpo. É, sócios, no garimpo dá de tudo. Aí vi coisas incontáveis. Coisas garimpeiras. Exemplo? Gente defecando, às escondidas, dentro da noite madura, o roubo, o ouro, que engolira de dia. Prostitutas de oito e de oitenta anos. Gauxebas, quer dizer, matadores profissionais. Vi chineses, árabes, nigerianos, peruanos, polacos, gregos e goianos, alemães, norte-americanos, portugueses, colombianos, angolanos, artentinos, o Diabo bem mais que Deus, acreditem. E ex-professor, ex-promotor de justiça, ex-vereador, ex-gerente de banco, ex-médico, ex-gente. Eu era também um ex-. Assim como ele, o herói desta história, o Gringo. O meu amigo de todas as horas. O que conhecia todos os garimpos do Madeirão. Do Belmonte ao Embrapa. O que sabia rastrear ouro como ninguém. O que é sem nome. Só fama. Mito. Como quase tudo aqui na Amazônia. O Gringo. Que já se garimpeirou. Que já se rondonizou. Que já se amazonizou. Que já se abrasileirou. Gringo, anti-malárico. Argentino-judeu. Melhor: judeu-argentino-brasileiro. Ex-engenheiro naval. Construindo dragas e poemas. E foi isso que nos juntou, mais estes do que aquelas, confesso a vocês, sócios. Eu conto.
Corria o bamburro de 1983. Todos tínhamos ouro e couro. Os aspirantes a garimpeiros enxameavam a Rodoviária de Cuiabá. A rodovia para o Eldorado brasileiro, a 364. Lá vínhamos também nós, paranaenses, catarinenses, gaúchos, os do Sul, e a nossa fome do nada vil metal, do nosso ourinho-de-cada-dia. A minha fome era outra, tinha outra cor. Deixara o Sul pelo Norte. Curitiba pelo Sovaco-da-Velha. A advocacia pela garimpagem. No fundo, bateando bem as coisas, corria em busca de mim.
Voltando ao Gringo, que é o que importa aqui. Cruzando-nos no GOD’S GOLD, um brega do Abunã. O domingo dera chuvoso. Quando entrei, o Gringo, junto à janela, parecia cantar ou declamar. Gesticulava para ninguém. Ainda pude ver-lhe o braço esquerdo erguido. Deixou-o cair violentamente sobre a mesa. A garrafa de vodka e o copo saltaram mas ele os pegou no ar com muito reflexo. Olhos azuis, pequenos, buscaram-me. Declamou novamente, alto, virado para mim, como que querendo que eu o ouvisse:
- “J’ai plus de souvenirs que si j’avais Mille ans.”
Pasmei. Eu não podia acreditar no que ouvia. Aquilo era Francês, ainda que com um acento estranho, aquilo era “Spleen”, aquilo era Baudelaire, “Mon Dieu!”. Sorri para o seu sorriso barbudo. Ele:
- “Qué te parece?”
- Bom, muito bom. Mas prefiro “L’albatros”.
- “Entonces vos sos também un baudelairiano?”
- Gosto dele barbaridade.
- “No me digas que vos sos poeta, no?”
- Quem não cometeu um verso na vida?
- “Essa me gustó! No querés tornar un vodka conmigo?”
- Eu sou mais do fermentado.
- “Por qué no destilado y fermentado?”
- Por que não?
-“Es ruso, legítimo. Lo estoy trayendo de Bolivia. Tengo una caja ahí en el jeep.”
Peguei minha boroca do balcão e fui até a mesa dele. Sentei-me. O Gringo gritou para o homem do brega:
- “Traeme outro vaso y uma cerveja helada, Jacaré!”
Secamos três garrafas de vodka e dúzias de cervejas. Baudelairizamos o garimpo, a vida.
No Engesa bem esmerilhado, na estrada para Porto Velho, eu me biografei. Depois, foi a vez dele. Era de Buenos Aires. Casado. Cinco filhos, cinco valentes, nenhuma dama, gozou. O caçula era brasileiro. Gostava era de vagabundear. No Brasil, criara raízes, vinte anos. Vinte anos garimpeiros. Vinte anos amazônicos. Os outros quatro filhos espalhados no mundo. Nova Iorque, Paris, Sidnei, Montevidéu, lugares onde ele morava. O caçula, Charles, em homenagem a Baudelaire, claro, com a mãe, também portenha, em Manaus. Ele já passava dos sessenta anos. Podia ser meu pai. Tinha um quê, ou muito, de Hemingway. Talvez apenas um pouco mais baixo. Mas a mesma barba branca. O mesmo peso. A mesma sede. O mesmo amor às carabinas e ao sangue. A mesma filoginia. O mesmo telurismo. O mesmo urso branco. Carbonário barbaridade. Falei-lhe das semelhanças. Ele, surpreendentemente num perfeito Português:
- Certo. Já me falaram isso. Mas quem me habita é um homicida, e não um suicida. Não se esqueça disso.
Fizemo-nos amigos. Mais do que devíamos, avalio hoje. Virei gente dele. Gerente. Ele bamvurrava, eu bamburrava. Aí esbanjávamos. Nossos, a cidade e o mundo. Ele a lua, eu a sombra. Ele brocava, eu brocava, Arroz, arroz, arroz. Sobremesa: arroz-doce. “Jogo duro, sócios”, como dizia um carioca do Mundo, professor de Literatura e de Melancolia, amigo comum nosso.
O Gringo e eu às voltas com as dragas, maracás, abacaxis, bombas, mangueiras, motores, versos, estrofes, metáforas, romances, Khlebnikov, Bukowski, o Gingo era tarado em Bukowski, Bakunin etc. O garimpo e a literatura. O ouro e a palavra. O ouro da palavra. O ouro de tolo.
-“Escribir es garimpar, Bachiller!”
Dera para me chamar assim, “Bachiller”. Sempre pai, nunca patrão, o Gringo. E não só comigo mas com todos os empregados. Não podendo viver sem sorvete, sem tango, de Gardel, não de Piazzolla (e aí residia a nossa única discordância), sem “uma menininha” (o Gringo era um pedófilo dos diabos), sem uma “canabis sativa”, sem uma “cafungada”.
- Não se assuste, Bachiller, sou um haxixeiro bissexto. “Mis paraísos no son artificiales, como los de Baudelaire, sino naturales, las menininhas, menininhas, menininhas.”
E dava risadas. Argentinamente.
- “Bachiller, a um hombre que ya pasó la casa de los sesenta, todo es permitido, sobretodo aquí en el garimpo. Nadie llega impunemente a los sesenta. Lo vas a ver cuando llegue tu vez.”
Eu o provocava:
- E você já permitiu tudo, Gringo?
- “Casi todo, Bachiller. Hay algo que todavia no hice: entregar el rosquete. Es que tengo miedo que me guste.”
Argentina, rascante, vermelha, a gargalhada dele.
Tinha outra tara, o tarô. Ele, na verdade, era um iniciado, o Gringo. Isso de ser esotérico seduzia ainda mais os meus olhos exotéricos. Transformava-o em bruxo. Nunca quis deitar carta para mim.
- - “Yo ya conosco todos los tus arcanos, Bachiller.”
- Porra, mas eu não!
Ele:
- “A veces, es mejor ignorar lo que seremos, lo que haremos…
E desconversava:
- “Qué tal una costillita de tambaqui en el FLUTUANTE, Bachiller?”
Eu insistia:
- Então leia a minha mão, Fúria!
Ele cedia. Gostava que o chamasse de Fúria, melhor ainda, de Jorge Fúria. Era assim que ele assinava os poemas. Jorge Fúria, pseudônimo ou heterônimo?
- “Dejame ver. La línea de la vida... El amor… El juego. El amor y el juego no son para vos, Bachiller. Vos vas a ser un perdedor en los dos – dijo sibilinamente.”
- Não, Fúria!
- “Su palma, su alma, Bachiller. Lo siento. En compensación, vos me vas a sobrevivir…”
- E quanto à vida, Fúria?
- “Vas a ser um gañador.”
Foi quando veio o Grande Blefe, na décda de 90, que quebrou os garimpos, Porto Velho, Rondônia. Nem o Gringo escapou a ele. E olha que o Gringo tinha um ourinho guardado, muito ourinho, diria eu, pois o vi, assim como a carabina de cano duplo, que dormia com ele na cama, o seu nome civil, na carteira de identidade, Rafael Kossing, e o último poema.
O ourinho, repito, era muito mas estava nas mãos dos outros. A carabina com que ele se matou ganhei da família dele. Da mesma forma que o último poema, que ele não me havia mostrado ainda. Tive o privilégio de privar com o Gringo e com Jorge Fúria mas não com Rafael Kossing. Agora entendo melhor, não só a origem mas também o destino da tragédia. Não há Apolo sem Dioniso. E vice-versa. Quanto ao último poema, sem título, prefiro transcrevê-lo a comentá-lo. Ei-lo:
Y los pájaros se fueron...
Y los pájaros dejaron
Sus nidos,
Como los sueños,
Mis realidades.

Los pájaros se fueron…
Como se fueron mis años…
Los pájaros se fueron…

Las marcas de los pájaros en el cielo,
La marca de tu nombre
En mi amor,
Los pájaros se fueron…

Dei-lhe o título de “La búsqueda”. Pareceu-me apropriado. Assim o entenderam a viúva e os cinco valetes. Tenho buscado incessantemente o Gringo nele mas só encontro a mim.
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