DIVINO 45 - NORTE
(para Laércio Nora Bacelar)
Diz-que ele veio com as chuvas, com as enchentes, com o inverno. Época em que os garimpos esvaziam, as fofocas rareiam, as corruptelas murcham. Época de vir para a cidade. De batear parentes e aderentes. De sufoco, para quem não conseguiu juntar o seu ourinho. De esmolar. De banditar. De guaxebar.
De onde ele veio? Mistério. Para uns, é goiano ou mineiro. Por amor do nome, Divino. Não existe a Festa do Divino em Goiás? Não existe Divinópolis em Minas Gerais? Depois, vive calado, pegando tudo com os olhos, os ouvidos. Mineirando. Para outros, aquele um veio mais é dos quintos. Sim, o Divino podia proceder mesmo de Deus.
O sobrenome é 45. Só. Diz-que que não chega a um metro e sessenta de altura. Não ri nunca. É magro. Não fuma. Não bebe. Não joga. Até hoje ninguém o viu por aí com alguma trombadinha zoneando. Quando vai às corrutelas, é a serviço. Não tem boroca. Nem capanga. Ando sozinho. Parceiro de Deus, sócio! Atrás dos óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. O 45? Já faz parte da anatomia dele. Não sai do corpo nem quando ele vai banhar.
Diz-que é canhoto. Outra semelhança com o Cão? A cabeça, o alvo. Divina pontaria. E se benze antes e depois dos serviços, os quais são contratados no MIRANTE III, um barzinho a cavaleiro para o Madeira e que nos dá a medida exata da beleza avermelhada do rio. Ou então em alguma das incontáveis casas de compra e venda de ouro da Avenida Sete de Setembro, a WALL STREET porto-velhense.
Divino vive bem. Quatrocentos gramas, o preço. De ouro, naturalmente. Coca, nem refrigerante. Ele não tolera vícios. Embora, a bem da verdade, tenha um. Um único vício. Letal. Diz-que é dono de muitas casas em Rondônia e de uma fazenda na Bolívia. Só aceita um serviço por mês. Nada contra mulher ou criança. Somente contra bicho macho, adulto. É sistemático que só, o Divino, sô!
Diz-que estuda os serviços antes de executá-los. Por isso mesmo nunca falha. Nenhum serviço dele ficou incompleto, insolúvel. Malícia e perícia, a receita. Sim, profissional. O melhor que já andou por estas margens do Madeira. Diz-que os serviços dele já passam de setenta. Eita! Com os anos, cada vez mais perfeitos. Se pegou serviços difíceis? Bastantes. Houve um que lhe deu uma canseira da porra! Além de deixa-lo meio guenzo do lado direito para o resto da vida. Assim: Divino tomou conhecimento do Gaúcho. Esse, o nome do serviço. Perdigueiro, Divino farejou-o. Sombra, acompanhou-o, mediu-o bem. O Gaúcho era grande. Demais da conta, sô! Parecia não acabar mais. Ria e falava alto. Como todo bom gaúcho, pensou Divino com o zíper da jaqueta de couro recentemente transada com os muambeiros da Praça Jônathas Pedrosa. O gaúcho enroscava-se na trombadinha com jeito de catarina. Lambuzava-a de beijos. Ele tinha bamburrado, via-se. A F-1000 zerada, as grossas correntes pepitadas, parando no VILA RICA, o único cinco-estrelas de Rondônia, os litros de CHIVAS REGAL 12, jorrando na mesa... É, as dragas do Gaúcho estavam fazendo ouro, muito ouro. Corria que ele já detonara cinco peões, inclusive um guaxeba. Corria também que ele estava jurado pelos federais. Andava sempre berrado. Três oitão. Sem guarda-costas. Divino estudava-o da outra mesa da churrascaria. Beliscava o rodízio enquanto devorava com os olhos o Gaúcho. As antenas divinas captando o mínimo tique do outro. Divino nineirando ao sabor do pudim de leite, deleite. Divino diabólico. No estacionamento do hotel, fazendo as vezes de guardador de carros. Dentro da madrugada, à espera do serviço. O amarelo da F-1000 entrando no pátio. Estacionando. O Gaúcho em pé, atrás da porta aberta. Remexendo alguma coisa no assento da caminhonete. Voltando-se. Dando de cara com o Divino. Crescido. Próximo. Abaixado, o vidro fumê do lado do volante. O tórax do Gaúcho esquadriado pela janela da F-1000. O Gaúcho esquadrinhando. A voz divina. Sibilante. Sibilina:
- Sô!
E o Gaúcho:
- Pára aí mesmo, chê! A menos que tu queiras comer chumbo do grosso!
- Uai, sô! Eu sou do hotel!
- Hotel é? Pois toma hotel, seu leso!
Divino recebeu o projétil à altura do ombro direito. Sentiu a clavícula quebrar-se. Caindo, sacou o 45: três disparos contra o peito do Gaúcho. As balas passaram por entre a janela da F-1000. Jogaram o Gaúcho para dentro da caminhonete. Impassível, sem nenhum esgar, Divino levantou-se. Deu uns passos. Apontou o 45 para a cabeça do Gaúcho, que ainda estrebuchava e dizia coisas sem sentido. Divino lembrou-se do sinal-da-cruz. Mas como se o lado direito parecia não existir? Ele carecia era de apurar logo aquilo! Já demorara demais da conta, sô!
- Deus não quer que cê viva mais, sócio!
Detonada a cabeça do Gaúcho, Divino fez o da-cruz. Pôs o 45 dentro da jaqueta. Voltou-se. Agora, sim, a custo. O trem doido, doído, sô! Avançou a pé, madrugada adentro, sob as janelas curiosas do cinco-estrelas.Guenzamente.
Sim, muito perigoso, insalubre, o ofício do Divino. Sem INSS, sem Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Ofício maldito. Porque quem caça, um dia acaba caçado. Como sucedeu certa vez com o Divino. E sucederá de novo, ele sabe. O Divino não tendo o serviço; o Divino sendo o serviço. Eita! Mas como esquecer aquele um, o Ofélio Cascavel? É, duas vezes cobra, sócios! Um cabra sarará. Cabelo de fogo. Fogoiô, como dizem. Bexiguento. Com olho azul aquoso. Todos no toco da lâmina. Peixeira. A dita tendo até nome de gente, Tiana. Pode uma coisa assim, sócios? Pondo o de-dentro do cabra para fora. E na tocaia, como reza a praxe guaxeba. Ofélio Cascavel caçando, fuçando o Divino. E cadê o abestado? Nem cheiro daquele mundiça! Onde pararia aquele filho duma égua? Porto Velho vasculhada, vigiada pelo aguado azul dos olhos do Ofélio, cascavel rastreado a presa, armando o arremesso. Divino? Menino, brincando de esconde-esconde.
Diz-que está na OUROMINAS, queimando um ourinho.
- Está?
- Não. Acabou de sair, mano.
Diz-que foi visto na OUROLÂNDIA.
- Viu?
- Vi. Mas já foi. Tomou um cafezinho e subiu a Sete.
Diz-que entrou na ELDORADO.
- Entrou?
- Entrou, sim. Saiu há pouquinho. Vai aí na frente. Você não trombou com ele, não?
Diz-que está no MIRANTE II, saboreando um queijinho e o Madeirão, duas perdições do Divino.
- Está?
- Esteve. Só quis uma água mineral. Foi logo embora, levando com ele a garrafinha.
- Fuleragem!
Ofélio ofegante, ofendendo-se. Fazia três meses que ele perseguia aquele excomungado! Nada do peste! Divino? Na dele, calmo que só. Em recesso. De férias. Só no tacacá. Só no dindim de cupuaçu. Ô trem bom, sô! Divino ubíquo. Visto por todos. Menos por um, o Ofélio, que começava a tresandar, cegar-se de tanto ódio. Fuleragem! Até já pensava em não matar mais o Divino. Apenas torar-lhe a munheca canhoteira. A boa. A temida. A famigerada. Melhor torar também a direita, que aquele Cão podia virar destro: aí ia querer vingança. Por que não torar logo os pés? Não tinha um cabra lá no Ceará que usava os dedos dos pés nos gatilhos das bacamartes? Ah, queria ver aquele abestado do Divino ser guaxeba depois! É, o Divino terminando os dias dele esmoler na Sete de Setembro... Sem o 45. Sem mãos. Sem pés. Sem aqueles óculos escuros que escondem um baitolão; É, um baitolão. Ele que espere, o Divino! O dele não tarda, já está encomendado. Não é verdade, Tiana?
Mas, rapaz! Diz-que o Ofélio Cascavel entornava uns cajuás num brega do Roque, nada são. Tinha até dado umas cafungadas a mais, quando o Divino apareceu – ninguém sabe de onde e como. Sibilou no ouvido direito do cearense:
- Cê tá me caçando, sócio? Dá teus pulos!
Ofélio viajava ainda. Apoiara a cabeça no balcão. Com dificuldade, ergueu-a: o azul líquido contra o fundo branco e vermelho descobria o Divino. O serviço, afinal. O excomungado! O filho duma égua! O mundiça! O abestado! O Cão! A Morte. Eita! Sob o cinto, do lado esquerdo, Tiana. Íntima. Vibrátil. Excitadíssima.
Divino sibilou novamente, num quase-sorriso:
- Reza, sócio! Teu dia chegou!
Ofélio Cascavel tentando esboçar uma reação, um bote. Recuando a fim de socorrer-se da inseparável e afiada amiga. Ruindo, noiadão. Entregue. À mercê do Divino 45. A cabeça do cearense explodindo. O chapisco de sangue nas mesas, no povo. Guaxeba que mata guaxeba tem cem anos de perdão, com mais serviços no mês que vem, filosofou Divino consigo. Em seguida, fez o da-cruz. Guardou o 45 sob a camisa estampada, que o engolia. Caminhou para o que restava da tarde de sábado. Indiferente e oblíquo. Divinamente.
Diz-que Divino descia, outro dia, a Sete de Setembro: ia fazer lâmina. Amarelo-malária que só. Diz-que foi a Cascavel, a outra, a do Paraná. A serviço. Diz-que trocou o 45 pela Bíblia. E engordou. E casou. E arranjou um punhado de filhos. Diz-que não usa mais óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. Ostenta agora um bigodinho à Hitler. Eita! Diz-que se mata para viver. Diz-que vive de matar.
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