terça-feira, 27 de abril de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

NORTE
AMARGO FEITO SORVETE

Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios. Sexta-feira. O dia internacional da cachaça. Sexta-feira, 13. Lua cheia. Quando os lunáticos são chamados. Os da terra. Os da água. Os do ar. Tudo, todos sob o fascínio lunar.
O FORASTEIRO, talvez pra desmentir a semântica, repleto de caras conhecidas. A maioria, garimpeiros. Bamdurrados, é claro. Áureas, as mentes, os dentes, os pescoços, os pulsos, os dedos. Acolá, mais na penumbra, as damas da noite, as flores do mal... Sempre solidárias, nunca solitárias. Não no “trottoir”, que não carece mais, vulgar demais. Mas sim nas “chaises longues”. Aqui, eu, o manso. A incomunicabilidade, o meu inferno. Blefado. Blefadíssimo. Hermann Hesse na alma, três Machados no bolso. Fazer o quê, sócios?
Uma tortura, a música. Lambada, lambada,lambada. Uma dessas geringonças eletrônicas – porque hoje tudo tem de ser eletrônico, não é verdade, sócios? – que mais parece, mas não é, piano, guitarra, baixo, bateria, saxofone, o escambau! O pior é que o “músico” canta...
Pressurosos, os garçons patinam com estilo, driblando mesas, fregueses, bêbados chatos (relevem a redundância, sócios), pequenos vendedores de rosas vermelhas. De quando em quando, aproximam-se, as mãos para trás:
- Mais uma cerpinha aí, doutor?
Doutor, eu? Tem muita graça mesmo isso. Se ele soubesse que eu não passo de um brabo a mais no trecho, pinguço inveterado, com um coração maior que a Amazônia, com muita queda para viagens, garimpagens, ruminações, livros, sofreduras...
A noite inchando, O RORASTEIRO esvaziando. Alguns casais deixando-se ficar ainda, enredados certamente em promessas amorosas. Amor aqui é gema, digo, grama...
A distância, bandeirinhas esgrimem:
- Três!
- Dois!
- Lona, porra!
Repentinamente um vento varre a Avenida Guanabara, levantando uma longa nuvem de poeira. Vento lento. Leviano. Todos nós, os habitantes da noite, excitamo-nos. Como que à espera do que viesse depois do vento. Vento vem de Deus, vento vem do Demo. Vento constrói, vento destrói. O que veio depois do vento, no fundo, não destruiu a noite de muitos forasteiros. Somente a de dois.
Vozes de crianças, de mulher chegaram até mim. Com nitidez:
- Boa pra casa, mãe!
- É, mãezinha, bora lá!
- Eita! Que raça de meninos mais pentelhos eu fui arranjar, hem! Todo dia é a mesma coisa, nós chegamos e vocês já querem ir embora! Égua de meninos!
Posicionei-me melhor. Descobri-os, os dois meninos, a mãe. O mais velho, onze louros anos, talvez doze. O mais novo, uns cinco anos. Curumim. A mãe, balzaca. Desbotada morenez. Acriana, sem erro. Os olhos mais para os carros que passavam cupidamente que para a prole. Justíssima, curtíssima, a malha azul. Emanava dela uma onda adocicada, um perfume de pecado e perfídia. Patchuli, sim, sócios.
A noite madura. Passava já das 23h, o menino mais velho resistia ao sono, embora cabeceasse a todo instante. O curumim é que já dormia. Cruzou os bracinhos sobre a mesa. Travesseirinhos, eles. Ressonava feliz. Então a mãe ergueu-se de repente, falando ao mais velho:
- Não sai daqui, Tiago! Toma de conta do Willian! A mãe volta agorinha.
O menino abriu os olhos o mais que pôde: sofreu.
A mãe dirigiu-se até a calçada junto à qual estacionara um carro. Arrodeou-o. Debruçou-se sobre a janela do motorista. Mercadoria.
O menino mais novo dormia profundamente. Encostara-se agora no espaldar da cadeira. A cabecinha pendia para frente. Uma babinha descia num fiozinho sobre o Batman da camiseta desbotadinha. O menino mais velho, por seu turno, tentava desgarrar-se do sono: não queria dormir! Não podia dormir!
Quando a mãe voltou, encontrou-o cabeceando, sonolento. Ela vinha com outra mulher, riam, riam, riam. Ele esfregou os olhos. Era a Gina, aquela biscatona! Sim, a Gina, aquela... Na ausência da mãe, a Gina gostava de beijar a orelha dele, a língua lá dentro e... as sacanagens que ela falava, ela ensinava pra ele, se ele quisesse... seria o segredo deles... porque ela tinha um xodó nele, o galeguinho dela... Biscatona da porra!
A mãe pegou-lhe o braço. Sacudiu-o. Que ele acordasse, prestasse atenção. A Gina afagou-lhe os cabelos. Ele refugou de imediato a carícia:
- Eita!
A mãe, ternurosa:
- Tiago, você e o Willian vão ficar aqui com a Gina. Ela vai tomar de contar de vocês, tá? Mãezinha vai ali com o tio. Um instantinho só e a mãezinha volta logo.
- Mas, mãezinha, outra vez?
- Merda! Eu não falei que volto logo? Fica aí com a Gina e olha o Willian, hem! Toma dinheiro pra comprar sorvete.
Azulou. Radiante, entrou no carro. Ela ria, fazia carinhos na cabeça do homem, do “tio”, quando o Chevette partiu. Ele viu tudinho, tudinho. Quantos “tios” ele tinha? Uma porrada! Pai é que nenhum... Nem ele nem o Índio.
A perda, o vazio, o nada, para o menino. Com a mãozinha direita apertava as notas, com a mãozinha esquerda enxugava as primeiras lágrimas. Soluçava baixinho, inutilmente.
- Não vai, mezinha! Não vai mãezinha! Não vai, mãezinha!
Os ouvidos da Gina há muito acostumados com aquelas palavras meninas, ferinas. Os meus, não. Ela acendeu um cigarro. Libertinamente. Bebericou a caipirinha. Cruzou as pernas, liberando a fumaça pelas narinas em cima do menino mais velho. Eita! Perguntou a ele se não queria tomar o sorvete de cupuaçu de sempre. Sorvete, uma porra! Quem mais que ele sabia o amargor do sorvete de cupuaçu das sextas-feiras, quem? Olhou para o irmãozinho, que, ao lado, dormia sorrindo, os olhinhos semicerrados. Devia de estar sonhando com beiju e açaí, a tara dele, ou então que estava numa voadeira no Madeirão. Uma inveja da porra dos cinco anos do Índio, como ele chamava o irmão, cada vez mais parecido com a mãe, cada vez mais diferente dele...
Depois, sócios? Depois, o sábado. Morremos. Ele, o Tiago, bem mais que eu, claro.

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