TREMOÇOS - LESTE
“Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo
Vencido sobre quem se aventura a recompô-lo.”
(José Cardoso Pires. “O delfim”).
Invernosa manhã. Plúmbea. Curitibana. Apesar disso, eu e minha cervejinha dominical. Estupidamente gelada. No MATOSINHO, Praça da Bandeira. Minha toca aos domingos. E segundas, e terças, e quartas, e quintas e... Mania de boteco. Incorrigível. Atração fatal, os pés-sujos. E não só os cariocas e fluminenses, mas também os paranaenses, os catarinenses, os paraenses, os rondonienses, os goianos, os mineiros, os paulistas, os brasis. Bar doce bar. Sim, mas eu e minha cerveja dominical estupidamente gelada. Lá fora, garoa. Frio. Com jeito de Sampa, o Rio. Merda. PERGUNTE PRO SEU CORAÇÃO, o fundo musical aqui dentro. De repente, à minha frente, em cima do balcão, uma generosa porção de tremoços. Ter-mo-ços! Tira-gosto, brinde da casa, José. O bigode e as costeletas do Belarmino, o proprietário do MATOSINHO. Não, não, obrigado, Belarmino. Pois, vai, homem, come! O insistente Belarmino. Certo, certo. Um, dois, três, quarto, dez... Mecanicamente. Mecanicamente. Mecanicamente. Bom, não? Assim, assim, pouco curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes. Saco. Sabor de quê? Sabor já sábido... Amargor. Ora, por causa das casquinhas, José. Não, Belarmino, não por isso... Sabor imperecível. Só meu. Rua Lins de Vasconcelos, 323. Centena impagável... Outra vez na cabeça... Por quê? Casa na ladeira. Casa natal, para mim e para a Irmã. Casa e brinquedo. Casa-oficina do Avô, lusitano como o Belarmino. Casa de móveis, imóvel no tempo. Eu-menino. Sem Avó, sem a filha da Avó, sem o Pai, sem a Irmã. Esses, chamados por Deus, agora no céu. A vontade de Deus. Pois. A vontade de Deus. Ou o edifício e os familiares sob o fogo das águas. Verão de 1966. Pois. O posto, o tirado por Deus. Certo? Não! Eles no Céu, e Eu e o Avô no inferno? Eu, o Avô e o Agregado. Amigo de infância, da mesma aldeia, do mesmo navio imigrante. Outono de 1910. Pois. Agregado, coisa de portuga. O encardido das camisas-de-meia deles. As bainhas das calças listradas, dobradas até as brancas canelas deles. Os tamancos. Os tamancos. Os tamancos. Os dois portugas. Unha-e-carne. Nós três, nós. Sobreviventes. Nós e os tremoços. Bem curtidos... As casquinhas dos grãos entre os dentes (alguns de ouro) do Avô. Raios. As casquinhas dos tremoços do Agregado sempre no chão. Uma imundície bestial. A vermelhona careca dele. O dito Benedito, maldito. Um Judas de marca maior. Na certa, muita inveja da prateada cabeleira do Avô. Meu marceneiro de mágicas mãos. O Agregado, sim, carpinteiro. Dia e noite, noite e dia, o Avô debruçado sobre a bancada. A pua. A grosa. A plaina. O formão. A cola. O pote de tremoços. Sempre ao pé de mim, hem, José! Tremoço, coisa de portuga. O Avô e os meus doze órfãos anos. O Avô no lugar do Genro, da Filha, da Neta. O Avô-professor. O Avô perdedor. Perda e dor. Mais do que Eu, bem mais do que Eu. Pois. A orfandade do Avô. Provações, privações. Privado da Esposa já no Brasil. Do Filho, o primogênito, igualmente José, o desertado, o deserdado (mas nunca esquecido, sempre recordado). Parecido em tudo contigo, José. Da Filha. Do Agregado, o grandessíssimo filho da mãe. Da Neta, o xodó dele, porque a caçula. Do Neto. De mim?! Não! Nunca! De modo algum! O Avô, essência preciosa, possante tristeza. Coisa de família, dos Fernandes? Coisa de portuga? Acordeonista, cantor e inventor, é claro. O Avô no estribo do bonde Lins de Vasconcelos, número 75. O salto do Avô, de costas, o mais difícil, o mais perigoso, defronte da loja-casa. Caramba, Avô! A Tora, a sinagoga do Avô. Na Beneficência Portuguesa, no asilo, o Avô. Por conta própria. Só. Mas por quê? Doença contagiosa. Conversa. Pois. Proibidas as visitas. Mesmo do único parente, do Neto? Inclusivamente. Por quê? Ordens expressas dele. E os tremoços? Não. Proibidos. Dieta rigorosa. Mas por que tudo isso, Avô? Porventura pela semelhança em todos os sentidos com o Tio, o Valdevinos? Talvez por causa daquele leite derramado pelo Avô sobre o meu peito menino, cicatriz significativa no meu corpo e na mente dele. Talvez pela perda do xodó. Talvez porque também órfão de Deus... Não, ele não. Muito íntimo de Deus, o Avô. Talvez porque... O passamento do Avô. No São João Batista, o Avô vestido, velado, enterrado, chorado, somente por mim. Mais tremoços, José? Não! Não, Belarmino, não, obrigado. Xô, travosa memória! Tremoços, remorsos...
VITOR HUGO FERNANDES MARTINS é professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Câmpus de Ipiaú. Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto. Poeta, cronista e contista. vhugofm@yahoo.com.br
sexta-feira, 30 de abril de 2010
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
O MAR E O VELHO - LESTE
Ele. E o mar. O VELHO E O MAR, lembrou. Aquela história de se ganhar e perder tudo conforme os desejos (Ela diria desígnios, mais erudito, mais chique...) do mar. História de pescador, para ele. O Mar, e ele: inimigos figadais. A vírgula e o adjetivo (um dos preferidos dela desde os tempos da universidade) vinham da esposa. Assim como a alusão, a todo momento, ao romance do escritor norte-americano, o romancista de que ela mais gostava, porque escrevia com concretude, sobre o aqui e o agora, telúrico por excelência... (O que ela não contava nunca é que ele escrevia sempre sobre os cachaças, os perdedores, os fodidos pela vida...). Irritava-o já profundamente isto: ouvi-la contar às vizinhas, às visitas, aos parentes que iam vê-los em Cabo Frio, na Praia do Braga: eles são inimigos figadais, o Mar, e o Zé Carlos. Mas por que aquela frescura de escrever mar com eme maiúsculo, caralho?
Sou tarada pelo Mar, ela dizia rindo. Os dentinhos. Clarinhos. Certinhos. Se-pa-ra-di-nhos. Sessenta anos. Eu tenho Mar até na minha cidade natal, gente! Brincava com os amigos dele, sempre bem mais novos do que ele, como se fossem filhos. Os filhos sonhados, nunca tidos. Não por causa dele, fique bem claro. Ela se referia a Mar de Espanha. E continuava, espirituosa: Não, por favor, digam quem parece ser mais de Minas Gerais entre mim e o Zé Carlos, digam!
A esposa. Tinha o Normal, feito no Instituto de Educação, e o curso de Letras, na UERJ. Mas se aposentou mesmo foi pela Caixa Econômica Federal, pois em casa só havia espaço para um romântico, para um nefelibata... Ela pensava que ele era incapaz de atinar para a ofensa, para a agressão, pelo eufemismo, pela ironia. Ela pensava que o dominava, uma vez que o bancava (Como ela usava e abusava desse verbo, caralho!). Ela pensava que conhecia todos os calcanhares-de-aquiles dele. Ela pensava que ele não pensava. Coitada.
A casa. Na Avenida Projetada. O sobradinho, comprado, projetado, construído, decorado, bancado (Lá vem o puto do verbo!) por ela, a esposa. Dona Maria. Foda.
O apartamento do Alto da Boa Vista. Décimo oitavo andar. No meio das nuvens. Literalmente (Maldita palavra que ele acabou assimilando de tanto ouvir da esposa). Não seria metaforicamente? Eu, hein, Zé! Pirou?!. Foda-se. Isso. O apartamento do Alto da Boa Vista, conseguido à custa de muitos vôos, incontáveis vôos, incontáveis vôos, que ele não tinha saco pra contar as horas de vôo, tremenda punheta. Masturbação, onanismo, Zé Carlos. Tanta economia, tanto sacrifício, e para quê? Picas. O apartamento do Alto da Boa Vista, emprestado, “vendido” para o cunhadinho, aquele chupa-sangue. Até porque sofro de acrofocia, nem chego às janelas, um horror! Frescura. A lembrança olfativa do Alto da Boa Vista. Antes, o único senão (Não, senão é demais, Zé! Tem a cara da Dona Maria...) do apartamento, para ele, era aquele cheiro de tabaco que vinha da fábrica vizinha e impregnava em tudo. Agora, somente uma aromática recordação...
A casa. Prisão. Uma prisão-albergue, vá lá. O inimigo de todas as horas ali. À vista. Rebentando nas areias e nos ouvidos dele. Todo dia, o dia todo. Amarga, áspera convivência. O mar, por todos os sentidos. O mar, sem sentido, para ele. O Mar, tudo, para a esposa. O meu Mar, ela dizia. Assim como dizia a minha casa de praia que tanto desejei e na qual vou findar meus dias, o meu Santana Quantum, o meu freezer, o meu cocker spaniel, o meu micro, o meu fax, o meu Hemingway, o meu vargas Lhosa, o meu analista, o meu professor de tênis, o meu celular, o meu, o meu, o meu... O meu caralho, porra! Gostava de irritá-la falando putarias. Obscenidades, meu Ícaro! Ah, Zé Carlos, você e essa sua coprolalia! Dona Maria. Dona Maria. Dona Maria. Mulher de posses. Mulher possessiva... “The possessive case”... As aulas de Inglês do científico, lá da querida, serrana e abandonada Cordeiro, voltando, voltando, voltando... Inclusive a professora, uma portuguesa que vivia dizendo que ele tinha uma ótima pronúncia, um ouvido muito bom, um ouvido de tuberculoso, um ouvido absoluto, uma grande facilidade para o estudo de línguas... Ele tinha era o maior tesão nela, nos seios dela...
No cardápio, carne branca. Azar de ele não comer carne branca, ótima para a digestão. Ele não sabia o que estava perdendo. Cerveja? Jamais, meu Ícaro, jamais, comigo. Somente Matheus Rosé. Na TV, Globo. Sempre a Globo, para espicaçar (Será que esse verbo vem de pica?) o brizolismo dele. Você ainda vai se frustrar com esse caudilho, Zé. Boxe? Nem pensar. Aquilo é uma selvageria, uma carnificina. Esporte da ralé. Haja vista para o tal de Mike Tyson, o estuprador... Sim, camas separadas. Melhor: quartos separados. Embora ela se julgue desfrutável ainda: usa tanga e tudo na praia... mas ele é que na verdade saía ganhando, pois não precisava aturar aquele cigarro intragável dela. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça... Os amigos do bar riam empunhando tulipas, e ele se vingava. Isso.
A casa. A maresia. A ventania. Movediças, as casuarinas, as dunas, as ondas, as gaivotas...
Ele. Estático. Sessenta e três anos. Mas longe da careca, Calva, Zé!, da pança, Ventre, Zé Carlos, por favor!, das próteses, dos infartos, da prostatalgia (Isso não, meu Deus!). Estava inteiro, sim, senhor. É que ele tinha sido quarto-zagueiro do aspirante do América Futebol Clube, apesar de não ter mais do que um metro e setenta e quatro de altura. Naquele tempo... naquele tempo ela, a Dona Maria, gostava de futebol. Não considerava alienado e... (Como é a palavrinha que ela adora? Hã!)... reaça quem gostava de futebol. Ela até ia aos treinos, na Rua Campos Sales, com as outras normalistas. Depois, muito depois é que deu pra implicar com o futebol. E as telenovelas dela? Aquilo, sim, era um ópio, fazia mal ao povo brasileiro. Ele saía de casa. Emputecido. Batendo a porta com força. Só ele sabia como isso a enfurecia e a deixava possessa. Você é um ciclotímico por excelência, Zé Carlos. Tem todas as características de um pícnico, sabia? Ultimamente ele andava com essa conversa... Era preciso procurar no Aurelião o significado daquelas palavras. Ciclotímico. Picnico. Pícnico? Penico ele sabia o que era, caralho, mas pícnico... No bar, com certeza ninguém saberia: aquele pessoal só sabia falar de mulher, futebol e política. Se fosse mais uma ofensa, mais uma agressão, ela veria uma coisa. Veria de uma vez por todas quem era o galo ali. Naquele tempo... quem cantava era ele. Quem bancava era ele. Ouviram bem? Mecânico de vôo. O mais solicitado por todos os comandantes. Por que seria, hem, Dona Maria, por quê? É, mas teve de aterrissar. Aterrissagem forçada. Teve de ir de mala e cuia para o Uruguai. Sim, sem a Dona Maria, lógico. Tudo por amor da Redentora. Mas até que ele vinha recuperando aos poucos alguns direitos e vantagens na aposentadoria, os quais os milicos lhe haviam tomado. Só que agora era tarde. Ele não podia mais decolar, arremeter para bem distante da... dali, do mar. Porra, ele sempre tinha sido do ar, e não do mar. Nem sequer uma amerrissagem ele tinha feito na vida, caralho!
Mas, afinal, o que o Mar lhe fizera? Roubara-lhe algum parente mais próximo, algum amigo de infância, alguma namorada inesquecível, alguma paixão? Qual o crime do Mar em relação a você, Zé? Por que se recusar mesmo a pisar a areia da praia? Você tem de parar de voar, Zé! Tem de pôr um ponto final nesse seu complexo de Ícaro, nessa sua monomania! Aterrissa, homem! Põe os pés no chão! Do contrário, você vai acabar no Pinel...
É, Dona Maria? E quem é que tem acrofobia, claustrofobia, pedofobia, pobrefobia, uma porrada de fobias e é tabagista por excelência, hem? Dona Maria Fumaça, Dona Maria Fumaça? Quem?
O mar. Indiferente. Indo e vindo, vindo e indo, indo e vindo... Libérrimo. Auto-suficiente. Bastando-se a si mesmo.
Caralho.
Ele. E o mar. O VELHO E O MAR, lembrou. Aquela história de se ganhar e perder tudo conforme os desejos (Ela diria desígnios, mais erudito, mais chique...) do mar. História de pescador, para ele. O Mar, e ele: inimigos figadais. A vírgula e o adjetivo (um dos preferidos dela desde os tempos da universidade) vinham da esposa. Assim como a alusão, a todo momento, ao romance do escritor norte-americano, o romancista de que ela mais gostava, porque escrevia com concretude, sobre o aqui e o agora, telúrico por excelência... (O que ela não contava nunca é que ele escrevia sempre sobre os cachaças, os perdedores, os fodidos pela vida...). Irritava-o já profundamente isto: ouvi-la contar às vizinhas, às visitas, aos parentes que iam vê-los em Cabo Frio, na Praia do Braga: eles são inimigos figadais, o Mar, e o Zé Carlos. Mas por que aquela frescura de escrever mar com eme maiúsculo, caralho?
Sou tarada pelo Mar, ela dizia rindo. Os dentinhos. Clarinhos. Certinhos. Se-pa-ra-di-nhos. Sessenta anos. Eu tenho Mar até na minha cidade natal, gente! Brincava com os amigos dele, sempre bem mais novos do que ele, como se fossem filhos. Os filhos sonhados, nunca tidos. Não por causa dele, fique bem claro. Ela se referia a Mar de Espanha. E continuava, espirituosa: Não, por favor, digam quem parece ser mais de Minas Gerais entre mim e o Zé Carlos, digam!
A esposa. Tinha o Normal, feito no Instituto de Educação, e o curso de Letras, na UERJ. Mas se aposentou mesmo foi pela Caixa Econômica Federal, pois em casa só havia espaço para um romântico, para um nefelibata... Ela pensava que ele era incapaz de atinar para a ofensa, para a agressão, pelo eufemismo, pela ironia. Ela pensava que o dominava, uma vez que o bancava (Como ela usava e abusava desse verbo, caralho!). Ela pensava que conhecia todos os calcanhares-de-aquiles dele. Ela pensava que ele não pensava. Coitada.
A casa. Na Avenida Projetada. O sobradinho, comprado, projetado, construído, decorado, bancado (Lá vem o puto do verbo!) por ela, a esposa. Dona Maria. Foda.
O apartamento do Alto da Boa Vista. Décimo oitavo andar. No meio das nuvens. Literalmente (Maldita palavra que ele acabou assimilando de tanto ouvir da esposa). Não seria metaforicamente? Eu, hein, Zé! Pirou?!. Foda-se. Isso. O apartamento do Alto da Boa Vista, conseguido à custa de muitos vôos, incontáveis vôos, incontáveis vôos, que ele não tinha saco pra contar as horas de vôo, tremenda punheta. Masturbação, onanismo, Zé Carlos. Tanta economia, tanto sacrifício, e para quê? Picas. O apartamento do Alto da Boa Vista, emprestado, “vendido” para o cunhadinho, aquele chupa-sangue. Até porque sofro de acrofocia, nem chego às janelas, um horror! Frescura. A lembrança olfativa do Alto da Boa Vista. Antes, o único senão (Não, senão é demais, Zé! Tem a cara da Dona Maria...) do apartamento, para ele, era aquele cheiro de tabaco que vinha da fábrica vizinha e impregnava em tudo. Agora, somente uma aromática recordação...
A casa. Prisão. Uma prisão-albergue, vá lá. O inimigo de todas as horas ali. À vista. Rebentando nas areias e nos ouvidos dele. Todo dia, o dia todo. Amarga, áspera convivência. O mar, por todos os sentidos. O mar, sem sentido, para ele. O Mar, tudo, para a esposa. O meu Mar, ela dizia. Assim como dizia a minha casa de praia que tanto desejei e na qual vou findar meus dias, o meu Santana Quantum, o meu freezer, o meu cocker spaniel, o meu micro, o meu fax, o meu Hemingway, o meu vargas Lhosa, o meu analista, o meu professor de tênis, o meu celular, o meu, o meu, o meu... O meu caralho, porra! Gostava de irritá-la falando putarias. Obscenidades, meu Ícaro! Ah, Zé Carlos, você e essa sua coprolalia! Dona Maria. Dona Maria. Dona Maria. Mulher de posses. Mulher possessiva... “The possessive case”... As aulas de Inglês do científico, lá da querida, serrana e abandonada Cordeiro, voltando, voltando, voltando... Inclusive a professora, uma portuguesa que vivia dizendo que ele tinha uma ótima pronúncia, um ouvido muito bom, um ouvido de tuberculoso, um ouvido absoluto, uma grande facilidade para o estudo de línguas... Ele tinha era o maior tesão nela, nos seios dela...
No cardápio, carne branca. Azar de ele não comer carne branca, ótima para a digestão. Ele não sabia o que estava perdendo. Cerveja? Jamais, meu Ícaro, jamais, comigo. Somente Matheus Rosé. Na TV, Globo. Sempre a Globo, para espicaçar (Será que esse verbo vem de pica?) o brizolismo dele. Você ainda vai se frustrar com esse caudilho, Zé. Boxe? Nem pensar. Aquilo é uma selvageria, uma carnificina. Esporte da ralé. Haja vista para o tal de Mike Tyson, o estuprador... Sim, camas separadas. Melhor: quartos separados. Embora ela se julgue desfrutável ainda: usa tanga e tudo na praia... mas ele é que na verdade saía ganhando, pois não precisava aturar aquele cigarro intragável dela. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça. Dona Maria Fumaça... Os amigos do bar riam empunhando tulipas, e ele se vingava. Isso.
A casa. A maresia. A ventania. Movediças, as casuarinas, as dunas, as ondas, as gaivotas...
Ele. Estático. Sessenta e três anos. Mas longe da careca, Calva, Zé!, da pança, Ventre, Zé Carlos, por favor!, das próteses, dos infartos, da prostatalgia (Isso não, meu Deus!). Estava inteiro, sim, senhor. É que ele tinha sido quarto-zagueiro do aspirante do América Futebol Clube, apesar de não ter mais do que um metro e setenta e quatro de altura. Naquele tempo... naquele tempo ela, a Dona Maria, gostava de futebol. Não considerava alienado e... (Como é a palavrinha que ela adora? Hã!)... reaça quem gostava de futebol. Ela até ia aos treinos, na Rua Campos Sales, com as outras normalistas. Depois, muito depois é que deu pra implicar com o futebol. E as telenovelas dela? Aquilo, sim, era um ópio, fazia mal ao povo brasileiro. Ele saía de casa. Emputecido. Batendo a porta com força. Só ele sabia como isso a enfurecia e a deixava possessa. Você é um ciclotímico por excelência, Zé Carlos. Tem todas as características de um pícnico, sabia? Ultimamente ele andava com essa conversa... Era preciso procurar no Aurelião o significado daquelas palavras. Ciclotímico. Picnico. Pícnico? Penico ele sabia o que era, caralho, mas pícnico... No bar, com certeza ninguém saberia: aquele pessoal só sabia falar de mulher, futebol e política. Se fosse mais uma ofensa, mais uma agressão, ela veria uma coisa. Veria de uma vez por todas quem era o galo ali. Naquele tempo... quem cantava era ele. Quem bancava era ele. Ouviram bem? Mecânico de vôo. O mais solicitado por todos os comandantes. Por que seria, hem, Dona Maria, por quê? É, mas teve de aterrissar. Aterrissagem forçada. Teve de ir de mala e cuia para o Uruguai. Sim, sem a Dona Maria, lógico. Tudo por amor da Redentora. Mas até que ele vinha recuperando aos poucos alguns direitos e vantagens na aposentadoria, os quais os milicos lhe haviam tomado. Só que agora era tarde. Ele não podia mais decolar, arremeter para bem distante da... dali, do mar. Porra, ele sempre tinha sido do ar, e não do mar. Nem sequer uma amerrissagem ele tinha feito na vida, caralho!
Mas, afinal, o que o Mar lhe fizera? Roubara-lhe algum parente mais próximo, algum amigo de infância, alguma namorada inesquecível, alguma paixão? Qual o crime do Mar em relação a você, Zé? Por que se recusar mesmo a pisar a areia da praia? Você tem de parar de voar, Zé! Tem de pôr um ponto final nesse seu complexo de Ícaro, nessa sua monomania! Aterrissa, homem! Põe os pés no chão! Do contrário, você vai acabar no Pinel...
É, Dona Maria? E quem é que tem acrofobia, claustrofobia, pedofobia, pobrefobia, uma porrada de fobias e é tabagista por excelência, hem? Dona Maria Fumaça, Dona Maria Fumaça? Quem?
O mar. Indiferente. Indo e vindo, vindo e indo, indo e vindo... Libérrimo. Auto-suficiente. Bastando-se a si mesmo.
Caralho.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
GULA – LESTE
...ela era gordinhaÉ gordinha era aceitável néDava-lhe uma conotação afetiva carinhosaA mesma que se tem quando se fala neguinha ceguinha etcEla então se sentia menos volumosa na expressão gozadora do primo um volumoso também deixa eleGordinha gordinha é não soava mal nãoBem diferente de gorducha superagressivo genteOu de gordona como preferem e proferem os alunos aqueles pestinhas que adoram conversar em sala de aula e que têm a maior dificuldade em aprender uma simples equaçãozinha de segundo grauAgora anta ela odiava não admitia mesmo dos filhos do síndico vizinhos do 1206 uns súper mal-educados intragáveisAnta não é demaisAs pessoas podiam associar anta à pouca inteligência à pouca racionalidade à pouca lógica dela isso nãoAfinal de contas ela ensinavaMatemáticaE no Imperial Colégio Pedro II seção HumaitáConcursada sim pra quem quiser saberQuadragésimo quarto lugar pro seu governo É ela era sim superintenligente super-racional superlógicaCerebrina pra lembra a palavra do professor de Literatura do Colégio o IagoVolumosinho que só eleSupersimpático superatenioso com elaQue ele anda de olho gordo nela lá isso andaVem sempre com aquela conversa mole de que também ele vive a cometer este pecado capital de que também é um compulsivo de que também assalta a geladeira toda madrugada e que depois enfarado vai dormir cheio de culpa de que também já fez vários anos de análise e dela saiu igualmente com fomes de que também não pode definitivamente não pode viver sem uns cachorros-quentes a maior invenção dos norte-americanos depois do jazzPara ela a maior invenção dos norte-americanos depois dos cachorros-quentes continuava a ser o Marlon BrandoNo fundo tudo isso não passava de um pretexto para ele o colega se aproximar cada vez mais dela grudarnela na cantina na sala dos professores nas reuniões nas assembleias no supermercado no calçadão da Atlântica etcEle até que tem um rosto interessante superparecido como do Marlon Brando o do APOCALIPSE NOW é claro que os homens carecas nossa exerciam um verdadeiro fascínio sobre ela desde os tempos de guria lá no SulFetichismo Neuzinha Freud explicaSim Talvez porque as carecas sejam para você iconicamente grandes glandesNossa Neuza BeatrizSim o PAI era careca simSuperparecido como Yul Brunner sósia mesmoEla andava com o PAI na mente e no coração um tempãoMelhor ela andava com o PAI nalmaQuarentona já e o PAI ainda a patrulhá-la a censurá-la a feri-la a mutilá-la a infernizar-lhe a existênciaAo acordar pelas manhãs olhava-se de-mo-ra-da-men-te no espelho partido ao meio do armário do banheiro a tez branca dela a tez branca dele os dois ela e ele os únicos polacos da família os olhos verdes dela os olhos verdes dele o sinal de boa textura graças a Deus dele o diastema discreto dela o diastema discreto deleA ele tanto amor dedicado a ela tanto ódio dedicadoPor quêPor que não era o piá esperado tão desejado a camisinha do Grêmio até já comprada que chegava mas sim mais uma guria a terceiraPorque ela falavarindo principalmente à mesa o que irritava o PAI barbaridadeDaí ele um pimentão a açoitava com os verdes do olharOu então ardiloso oferecia-lhe dinheiro para que ela não falasse mais durante a refeiçãoDaí ela comiacomiacomiaEla só merecia um sorriso dele quando tocava ADEUS (CINCO LETRAS QUE CHORAM) no acordeão que as irmãs detestavamAssim mesmo era um sorriso de canto de boca o direito o do sinal de nascença nossa os dentes mal apareciam e nada parecido com as gargalhadas dele dadas às irmãs e que os vizinhos conheciam de tão es-tron-do-sasÉ o professor Iago sabe mesmo transver sabe mesmo decifrar angústias pelo menos as alheiasDe repente e com sutileza ele tinha jogado as iscas certas para ela e tinha conseguido pescar a chave delaPudera ela era piscianaTinha mais é que viver e morrer pela bocaMas por que ela não era como a irmã mais velha e preferida da mãe com aqueles gestos e modos e palavras superestudados supermedidos superelogiados pelas professorasDe verdadeira você não tem nada Vera LúciaQuem não te conhece que te compreSoberba também é pecado capital sabiaOu por que não seguia os passos da irmã do meio a preferida do PAI sempre com aquela frescura de falar tudo en francais pas vraiGrandes merdasQueria ver é você contar pro PAI en portugais que o Lico aquele teu namorado de Formigueiro gostava de morder os mamilos dos teus seios lá no alpendre coisa de que você gostava barbaridade porque sempre ia aos encontros sem sutiã chérieVocê é rainha sim mas é pra tuas negas Regina CelliLuxúria não é pecado venial nãoÈ ela não era como as irmãsO PAI dizia que ela falava pelos cotovelos que falava mais que o homem da cobraSomente bem depois já nos pesadelos dela nos quais ela invariavelmente caía despencava de lugares altíssimos qual o significado disso professor Iago e o PAI gargalhava a mãe e as irmãs esquecidas dela ela normalista batendo pernas no Largo do Machado no tempo em que o metrô era apenas uma cratera cercada por telas a atrair a atenção dos desocupados e curiosos é que ela veio conhecer o homem da cobra e a entender para ela cobra significava falo nossa Neuza Beatriz a comparação do PAI lá atrás em Porto AlegreO correto talvez fosse dizer Porto TristeSim porque as duas queridinhas do PAI e da mãe tinham de tudo e do melhor agora a ela só cabiam os restos os refugosSe depender dela jamais desembarcará naquele porto outra vezA salvação dela foi a tia irmã do PAI chama-la para vir morar no Rio de JaneiroDo contrário o patinho feio teria ficado mais feio aindaEla inclusive perdera completamente o sotaque nem falava mais Bah! Preferia o É ruin hein? dos cariocasO chimarrão nem pensar as mulheres com a bomba passando de boca em boca aquilo era tão super anti-higiênico e nossa tão obsceno ela as via como excitadas felatiadoras outra palavra do professor IagoMas um churrasco podia ser até de gato e um carreteiro ai ela não dispensava nãoE também a ambrosia o manjar dos deuses como dizia o PAI e que só ela e ele comiamO professor Iago dizia que eles agora era uma cariúchaUm superanalista ele e de graça gentePor causa dele desitira da SABRINA das telenovelas do cigarro da coca-cola do torresmo aiPena que ele era superbaixinho supergordinhoPenaUm potinho mas cheio de jóias raras raríssimas e que seduzem qualquer mulherPorém como os dois poderiam dançar de maneira que ela gosta superjuntinhos rostoscoladinhos nossa Neuza Beatriz se a cabeça batia aqui ó nos seios delaOs dois no meio do salão umgrudadonooutro seriam ridículos nossaEla sabia dançar dava “show” modéstia à parteNão podia ouvir um bolero que lhe vinha um desejo incontrolável de dançarPuxara ao PAI o maior pé-de-valsa de Porto Alegre podiam perguntarO PAI “apenas” não dançava com ela mas com as outras duas filhas especialmente com a “rainha” Agora à mesa entre uns chopinhos e uns salgadinhos ele o professor Iago era imenso um poço de sabedoria desvelava a ela tantos mistérios tantos enigmas “Neuza” por exemplo ela não sabia vem do grego e significa a que nada e “Beatriz” significa a que é feliz ou a que faz alguém felizPra falar a verdade ela abominava “Neuza”Ainda por cima com zêParecia-lhe nome de cozinheira cruzes Neuza Beatriz que preconceito hemAchava achava não tinha certeza de que era mais uma vingança do PAIAgora porém que sabia o significado do nome nutria uma certa simpatia por elePor aí se explicaria então por que ela gostava tanto do mar e saboreava-o todos os diasBastava mesmo abrir a janela que o mar invadia o quarto-e-sala da Prado Júnior penetrando-a fundo e levando-a ao gozoAlém do mais a primeira-dama do Estado não era “Neuza” aliás conterrâneaSó que era “Neusa” com esse e não com zê que ela sempre associava ao zê de zebra nossa Neuza Beatriz não se subestimeQuanto a ser feliz ou fazer alguém feliz isso era muito improvável dada a automutilação para o aniquilamento para o esvaziamentoSim no caso dela era urgente a transformação do totem em TABU segundo o professor IagoPorque o PAI era-lhe uma recorrência nocenteE ela precisava esquecê-lo para recordá-loPrecisava que o PAI se tornasse paiPrecisava ser necessariamente uma parricidaPrecisava imolar o PAIPrecisava vomitar o PAI e ao fazê-lo vomitar-se já que tinha tanta gula de vida já que tinha sido voraz em demasia para com a vidaSenão restaria a ela a dor do nada e ela restaria nadificada e
Só.
...ela era gordinhaÉ gordinha era aceitável néDava-lhe uma conotação afetiva carinhosaA mesma que se tem quando se fala neguinha ceguinha etcEla então se sentia menos volumosa na expressão gozadora do primo um volumoso também deixa eleGordinha gordinha é não soava mal nãoBem diferente de gorducha superagressivo genteOu de gordona como preferem e proferem os alunos aqueles pestinhas que adoram conversar em sala de aula e que têm a maior dificuldade em aprender uma simples equaçãozinha de segundo grauAgora anta ela odiava não admitia mesmo dos filhos do síndico vizinhos do 1206 uns súper mal-educados intragáveisAnta não é demaisAs pessoas podiam associar anta à pouca inteligência à pouca racionalidade à pouca lógica dela isso nãoAfinal de contas ela ensinavaMatemáticaE no Imperial Colégio Pedro II seção HumaitáConcursada sim pra quem quiser saberQuadragésimo quarto lugar pro seu governo É ela era sim superintenligente super-racional superlógicaCerebrina pra lembra a palavra do professor de Literatura do Colégio o IagoVolumosinho que só eleSupersimpático superatenioso com elaQue ele anda de olho gordo nela lá isso andaVem sempre com aquela conversa mole de que também ele vive a cometer este pecado capital de que também é um compulsivo de que também assalta a geladeira toda madrugada e que depois enfarado vai dormir cheio de culpa de que também já fez vários anos de análise e dela saiu igualmente com fomes de que também não pode definitivamente não pode viver sem uns cachorros-quentes a maior invenção dos norte-americanos depois do jazzPara ela a maior invenção dos norte-americanos depois dos cachorros-quentes continuava a ser o Marlon BrandoNo fundo tudo isso não passava de um pretexto para ele o colega se aproximar cada vez mais dela grudarnela na cantina na sala dos professores nas reuniões nas assembleias no supermercado no calçadão da Atlântica etcEle até que tem um rosto interessante superparecido como do Marlon Brando o do APOCALIPSE NOW é claro que os homens carecas nossa exerciam um verdadeiro fascínio sobre ela desde os tempos de guria lá no SulFetichismo Neuzinha Freud explicaSim Talvez porque as carecas sejam para você iconicamente grandes glandesNossa Neuza BeatrizSim o PAI era careca simSuperparecido como Yul Brunner sósia mesmoEla andava com o PAI na mente e no coração um tempãoMelhor ela andava com o PAI nalmaQuarentona já e o PAI ainda a patrulhá-la a censurá-la a feri-la a mutilá-la a infernizar-lhe a existênciaAo acordar pelas manhãs olhava-se de-mo-ra-da-men-te no espelho partido ao meio do armário do banheiro a tez branca dela a tez branca dele os dois ela e ele os únicos polacos da família os olhos verdes dela os olhos verdes dele o sinal de boa textura graças a Deus dele o diastema discreto dela o diastema discreto deleA ele tanto amor dedicado a ela tanto ódio dedicadoPor quêPor que não era o piá esperado tão desejado a camisinha do Grêmio até já comprada que chegava mas sim mais uma guria a terceiraPorque ela falavarindo principalmente à mesa o que irritava o PAI barbaridadeDaí ele um pimentão a açoitava com os verdes do olharOu então ardiloso oferecia-lhe dinheiro para que ela não falasse mais durante a refeiçãoDaí ela comiacomiacomiaEla só merecia um sorriso dele quando tocava ADEUS (CINCO LETRAS QUE CHORAM) no acordeão que as irmãs detestavamAssim mesmo era um sorriso de canto de boca o direito o do sinal de nascença nossa os dentes mal apareciam e nada parecido com as gargalhadas dele dadas às irmãs e que os vizinhos conheciam de tão es-tron-do-sasÉ o professor Iago sabe mesmo transver sabe mesmo decifrar angústias pelo menos as alheiasDe repente e com sutileza ele tinha jogado as iscas certas para ela e tinha conseguido pescar a chave delaPudera ela era piscianaTinha mais é que viver e morrer pela bocaMas por que ela não era como a irmã mais velha e preferida da mãe com aqueles gestos e modos e palavras superestudados supermedidos superelogiados pelas professorasDe verdadeira você não tem nada Vera LúciaQuem não te conhece que te compreSoberba também é pecado capital sabiaOu por que não seguia os passos da irmã do meio a preferida do PAI sempre com aquela frescura de falar tudo en francais pas vraiGrandes merdasQueria ver é você contar pro PAI en portugais que o Lico aquele teu namorado de Formigueiro gostava de morder os mamilos dos teus seios lá no alpendre coisa de que você gostava barbaridade porque sempre ia aos encontros sem sutiã chérieVocê é rainha sim mas é pra tuas negas Regina CelliLuxúria não é pecado venial nãoÈ ela não era como as irmãsO PAI dizia que ela falava pelos cotovelos que falava mais que o homem da cobraSomente bem depois já nos pesadelos dela nos quais ela invariavelmente caía despencava de lugares altíssimos qual o significado disso professor Iago e o PAI gargalhava a mãe e as irmãs esquecidas dela ela normalista batendo pernas no Largo do Machado no tempo em que o metrô era apenas uma cratera cercada por telas a atrair a atenção dos desocupados e curiosos é que ela veio conhecer o homem da cobra e a entender para ela cobra significava falo nossa Neuza Beatriz a comparação do PAI lá atrás em Porto AlegreO correto talvez fosse dizer Porto TristeSim porque as duas queridinhas do PAI e da mãe tinham de tudo e do melhor agora a ela só cabiam os restos os refugosSe depender dela jamais desembarcará naquele porto outra vezA salvação dela foi a tia irmã do PAI chama-la para vir morar no Rio de JaneiroDo contrário o patinho feio teria ficado mais feio aindaEla inclusive perdera completamente o sotaque nem falava mais Bah! Preferia o É ruin hein? dos cariocasO chimarrão nem pensar as mulheres com a bomba passando de boca em boca aquilo era tão super anti-higiênico e nossa tão obsceno ela as via como excitadas felatiadoras outra palavra do professor IagoMas um churrasco podia ser até de gato e um carreteiro ai ela não dispensava nãoE também a ambrosia o manjar dos deuses como dizia o PAI e que só ela e ele comiamO professor Iago dizia que eles agora era uma cariúchaUm superanalista ele e de graça gentePor causa dele desitira da SABRINA das telenovelas do cigarro da coca-cola do torresmo aiPena que ele era superbaixinho supergordinhoPenaUm potinho mas cheio de jóias raras raríssimas e que seduzem qualquer mulherPorém como os dois poderiam dançar de maneira que ela gosta superjuntinhos rostoscoladinhos nossa Neuza Beatriz se a cabeça batia aqui ó nos seios delaOs dois no meio do salão umgrudadonooutro seriam ridículos nossaEla sabia dançar dava “show” modéstia à parteNão podia ouvir um bolero que lhe vinha um desejo incontrolável de dançarPuxara ao PAI o maior pé-de-valsa de Porto Alegre podiam perguntarO PAI “apenas” não dançava com ela mas com as outras duas filhas especialmente com a “rainha” Agora à mesa entre uns chopinhos e uns salgadinhos ele o professor Iago era imenso um poço de sabedoria desvelava a ela tantos mistérios tantos enigmas “Neuza” por exemplo ela não sabia vem do grego e significa a que nada e “Beatriz” significa a que é feliz ou a que faz alguém felizPra falar a verdade ela abominava “Neuza”Ainda por cima com zêParecia-lhe nome de cozinheira cruzes Neuza Beatriz que preconceito hemAchava achava não tinha certeza de que era mais uma vingança do PAIAgora porém que sabia o significado do nome nutria uma certa simpatia por elePor aí se explicaria então por que ela gostava tanto do mar e saboreava-o todos os diasBastava mesmo abrir a janela que o mar invadia o quarto-e-sala da Prado Júnior penetrando-a fundo e levando-a ao gozoAlém do mais a primeira-dama do Estado não era “Neuza” aliás conterrâneaSó que era “Neusa” com esse e não com zê que ela sempre associava ao zê de zebra nossa Neuza Beatriz não se subestimeQuanto a ser feliz ou fazer alguém feliz isso era muito improvável dada a automutilação para o aniquilamento para o esvaziamentoSim no caso dela era urgente a transformação do totem em TABU segundo o professor IagoPorque o PAI era-lhe uma recorrência nocenteE ela precisava esquecê-lo para recordá-loPrecisava que o PAI se tornasse paiPrecisava ser necessariamente uma parricidaPrecisava imolar o PAIPrecisava vomitar o PAI e ao fazê-lo vomitar-se já que tinha tanta gula de vida já que tinha sido voraz em demasia para com a vidaSenão restaria a ela a dor do nada e ela restaria nadificada e
Só.
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
O SEQUESTRO - LESTE
Dioniso da Silva, aliás, o “Bonito”, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé? Só podia ser por causa do “Lance”. E desde quando o “Lance” tinha pintado na vida dele? Sabia-se lá, parceiro! O que se sabia era que o passado do “Bonito” era feio adoidado, isso era. Uma droga de vida. Uma vida de droga. Tanto fazia, né? Trinta e três anos. A idade de Cristo, e ele numa pior, numa deprê doida. Sem uma merreca. Sem um barraco. Sem uma nega. Sem um rango. Sem um bagulho. Cem vezes sem. Num preju dos grandes. Chutando lata, como na música do Rei, o maior de todos pra ele, o “Bonito”. E pagando mico, aí. Veja você. Então, pra sujar de vez, pintou o “Lance”. Pura piração, parceiro!
O “Lance” tinha dezessete anos. Priscilla. Assim mesmo, com dois eles. Estava lá, a ouro, na gargantilha. Jóia. A gargantilha ou o pescoço? Priscilla. Nome de riquinha. Nome de artista de cinema norte-americano. Vista, desejada, amada. Bonitamente. Um brotinho. Geleguinha. Sardenta pacas! Verdes, as butucas. Os seios dela – tacinhas, tacinhas – cabendo nas mãos dele, como uma luva, como uma luva, assim ó. E cada coxa, cara!
Aí deu pra azarar ela. Fissuradão. Sabia tudo dela. Tomou posse da vida dela, parceiro. O pai, grande empresário na baixada. Podre de rico. A mãe, gringa. Filha única, a Priscilla. Vegetariana, veja. Virgem. E não era só de signo, não. O “Bonito” apostaria com quem quisesse. Torcia pelo Mengão. De botar o manto sagrado pra ir no Maraca nos domingos. Bom, isso. Fazia cursinho no largo do Humaitá. Queria ser dentista. Também com aqueles dentões! “Bonito” lembrou-se dos seus, em petição de miséria. Como tudo o mais dele, em petição de miséria. Ele, justamente ele que aos dezoito anos vendia saúde. Todos os dentes na boca. Nenhuma cicatriz. Nenhuma tosse. Nenhuma hepatite. E com o segundo grau completinho, cumpádi! Prontinho pra ser bombeiro. O valoroso soldado do fogo, ele! Diziam até que ele era muito parecido com aquele ator norte-americano, um negro famoso, que vivia comendo as galegas. Como é o nome dele? É, esse mesmo, Sidney Poittier. Sim, porque ele era negro mas um negro bonito. Daí o apelido, né, parceiro? Naquele filme, OS ACORRENTADOS, que foi visto uma porrada de vezes, ele, o “Bonito”, era bem mais o Sidney Poittier do que o outro, como é o nome do outro? Hã! Tony Curtis, é. Sim, o branquelo azedo, que só tem topete. Acontece que de repente veio o mau destino, como dizia o padrinho, e desgraçou tudo. O pai pendurado no galho da jaqueira, no meio da Praça dos Garis, pra todo mundo ver. A língua de fora. Chocante, parceiro, chocante. A troco de quê? A troco de quê? O pai, ferroviário, com a sueca, com o dominó, como cavaquinho, com a “branquinha”, parecendo tão feliz, tão amado, tão de ferro... Depois, a mãe, no hospital do Engenho de Dentro. Pra sempre. É remorso dela... O “Bonito” tinha ouvido a madrinha cochichando com o padrinho no enterro do pai, no cemitério do Caju. A mãe estaria viva ainda? Por que não deixavam que ela recebesse visitas? Pinel! Era como chamavam a mãe. Pinel! Aí nasceu nele o ódio à mãe, ao pai, ao padrinho, à madrinha, a si, à vida, ao mundo, a Deus. Porra, logo na semana dele se apresentar nos bombeiros do Méier! Agora não ia mais usar aquele quepe esperto. Nem aquele cinto diferentão. Nem aquela farda joinha, joinha. E adeus, escada magirus! Aquela casa do Encantado era um desencanto, paisano. É, ele precisava sumir e se vingar de tudo aquilo, do mau destino, que parecia algemar ele à dor.
Priscilla era de poucas palavras, de poucos amigos. Também não havia nenhum vagabundo azarando a mansão da Avenida Epitácio Pessoa. “Bonito” tinha absoluta certeza disso, pois não dava mole na campana, não. Passava por um flanelinha a mais do outro lado da Avenida. Fizesse sol de rachar ou desabasse um dilúvio, lá estavam os olhos bonitos e Priscilla, prisioneira deles. Existia, é verdade, o motorista particular, um tal de Orlando, que ia e vinha com a Priscillinha no banco de trás do MERCEDES branco, todo empolgado. Pavão. Aquele Paraíba estava merecendo uns trancos. Quem ele estava pensando que era? O rei da cocada branca? Quantas sacanagens o Orlando não sonharia em fazer com a Pris? A brancura das coxas dela chupada pelo olho-retrovisor do Orlando diariamente. É, não ia demorar muito e aquele babaca do Orlando ia amanhecer com a boca cheia de formigas. Presuntão. Bastava só o “Bonito” baixar no Dona Marta e dar um toque na galera. O “Paulinho Cecê”, o “Boca-do-Mato”, o “Dá-Uma”. Aqueles três fariam qualquer coisa por ele, até vender a mãe. Aprenderam a temer e a seguir o “Bonito”, depois da temporada e da fuga da FREI CANECA. Juntos, os quatro aprontaram: roubaram, assaltaram, traficaram, estupraram, mataram. Pintaram e bordaram. Pois bem, ele iria à procura deles. Deviam estar malocados, armando uma “mineira” pra cima de algum portuga bundão. Eles detonavam rapidinho aquele Mané do Orlando, um sujeito que era só perfume, e dos mais enjoativos que já inventaram. O que eles não podiam saber nunca – principalmente o “Dá-Uma” – era da existência da Cilla. A refém. Só dele, do “Bonito”. Ela na mente dele, sempremente.
Não, ele não manteria contatos com a família dela. Por quê? Porra, ele já possuía aquele louro objeto de desejo. Também não exigiria nenhum dinheiro para o resgate. Cillinha era agora irresgatável. Não existia mesmo no mundo uma quantidade de dólares suficiente que libertasse a sequestrada, que livrasse Cill do cativeiro dela, o coração dele. E nenhuma Divisão Anti-Sequestro chegaria àquele cárcere privadíssimo, a paixão bonita. Cillinha seria bem-tratada, respeitada, alimentada na base do mais puro, sadio e inofensivo amor. Que todos soubessem disso. Priscilla. O “Lance”. A cativa dele. Ou era ele, o “Bonito”, o cativo dela? É, no fundo, ele não passava realmente de um sequestrador...
Dioniso da Silva, aliás, o “Bonito”, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé? Só podia ser por causa do “Lance”. E desde quando o “Lance” tinha pintado na vida dele? Sabia-se lá, parceiro! O que se sabia era que o passado do “Bonito” era feio adoidado, isso era. Uma droga de vida. Uma vida de droga. Tanto fazia, né? Trinta e três anos. A idade de Cristo, e ele numa pior, numa deprê doida. Sem uma merreca. Sem um barraco. Sem uma nega. Sem um rango. Sem um bagulho. Cem vezes sem. Num preju dos grandes. Chutando lata, como na música do Rei, o maior de todos pra ele, o “Bonito”. E pagando mico, aí. Veja você. Então, pra sujar de vez, pintou o “Lance”. Pura piração, parceiro!
O “Lance” tinha dezessete anos. Priscilla. Assim mesmo, com dois eles. Estava lá, a ouro, na gargantilha. Jóia. A gargantilha ou o pescoço? Priscilla. Nome de riquinha. Nome de artista de cinema norte-americano. Vista, desejada, amada. Bonitamente. Um brotinho. Geleguinha. Sardenta pacas! Verdes, as butucas. Os seios dela – tacinhas, tacinhas – cabendo nas mãos dele, como uma luva, como uma luva, assim ó. E cada coxa, cara!
Aí deu pra azarar ela. Fissuradão. Sabia tudo dela. Tomou posse da vida dela, parceiro. O pai, grande empresário na baixada. Podre de rico. A mãe, gringa. Filha única, a Priscilla. Vegetariana, veja. Virgem. E não era só de signo, não. O “Bonito” apostaria com quem quisesse. Torcia pelo Mengão. De botar o manto sagrado pra ir no Maraca nos domingos. Bom, isso. Fazia cursinho no largo do Humaitá. Queria ser dentista. Também com aqueles dentões! “Bonito” lembrou-se dos seus, em petição de miséria. Como tudo o mais dele, em petição de miséria. Ele, justamente ele que aos dezoito anos vendia saúde. Todos os dentes na boca. Nenhuma cicatriz. Nenhuma tosse. Nenhuma hepatite. E com o segundo grau completinho, cumpádi! Prontinho pra ser bombeiro. O valoroso soldado do fogo, ele! Diziam até que ele era muito parecido com aquele ator norte-americano, um negro famoso, que vivia comendo as galegas. Como é o nome dele? É, esse mesmo, Sidney Poittier. Sim, porque ele era negro mas um negro bonito. Daí o apelido, né, parceiro? Naquele filme, OS ACORRENTADOS, que foi visto uma porrada de vezes, ele, o “Bonito”, era bem mais o Sidney Poittier do que o outro, como é o nome do outro? Hã! Tony Curtis, é. Sim, o branquelo azedo, que só tem topete. Acontece que de repente veio o mau destino, como dizia o padrinho, e desgraçou tudo. O pai pendurado no galho da jaqueira, no meio da Praça dos Garis, pra todo mundo ver. A língua de fora. Chocante, parceiro, chocante. A troco de quê? A troco de quê? O pai, ferroviário, com a sueca, com o dominó, como cavaquinho, com a “branquinha”, parecendo tão feliz, tão amado, tão de ferro... Depois, a mãe, no hospital do Engenho de Dentro. Pra sempre. É remorso dela... O “Bonito” tinha ouvido a madrinha cochichando com o padrinho no enterro do pai, no cemitério do Caju. A mãe estaria viva ainda? Por que não deixavam que ela recebesse visitas? Pinel! Era como chamavam a mãe. Pinel! Aí nasceu nele o ódio à mãe, ao pai, ao padrinho, à madrinha, a si, à vida, ao mundo, a Deus. Porra, logo na semana dele se apresentar nos bombeiros do Méier! Agora não ia mais usar aquele quepe esperto. Nem aquele cinto diferentão. Nem aquela farda joinha, joinha. E adeus, escada magirus! Aquela casa do Encantado era um desencanto, paisano. É, ele precisava sumir e se vingar de tudo aquilo, do mau destino, que parecia algemar ele à dor.
Priscilla era de poucas palavras, de poucos amigos. Também não havia nenhum vagabundo azarando a mansão da Avenida Epitácio Pessoa. “Bonito” tinha absoluta certeza disso, pois não dava mole na campana, não. Passava por um flanelinha a mais do outro lado da Avenida. Fizesse sol de rachar ou desabasse um dilúvio, lá estavam os olhos bonitos e Priscilla, prisioneira deles. Existia, é verdade, o motorista particular, um tal de Orlando, que ia e vinha com a Priscillinha no banco de trás do MERCEDES branco, todo empolgado. Pavão. Aquele Paraíba estava merecendo uns trancos. Quem ele estava pensando que era? O rei da cocada branca? Quantas sacanagens o Orlando não sonharia em fazer com a Pris? A brancura das coxas dela chupada pelo olho-retrovisor do Orlando diariamente. É, não ia demorar muito e aquele babaca do Orlando ia amanhecer com a boca cheia de formigas. Presuntão. Bastava só o “Bonito” baixar no Dona Marta e dar um toque na galera. O “Paulinho Cecê”, o “Boca-do-Mato”, o “Dá-Uma”. Aqueles três fariam qualquer coisa por ele, até vender a mãe. Aprenderam a temer e a seguir o “Bonito”, depois da temporada e da fuga da FREI CANECA. Juntos, os quatro aprontaram: roubaram, assaltaram, traficaram, estupraram, mataram. Pintaram e bordaram. Pois bem, ele iria à procura deles. Deviam estar malocados, armando uma “mineira” pra cima de algum portuga bundão. Eles detonavam rapidinho aquele Mané do Orlando, um sujeito que era só perfume, e dos mais enjoativos que já inventaram. O que eles não podiam saber nunca – principalmente o “Dá-Uma” – era da existência da Cilla. A refém. Só dele, do “Bonito”. Ela na mente dele, sempremente.
Não, ele não manteria contatos com a família dela. Por quê? Porra, ele já possuía aquele louro objeto de desejo. Também não exigiria nenhum dinheiro para o resgate. Cillinha era agora irresgatável. Não existia mesmo no mundo uma quantidade de dólares suficiente que libertasse a sequestrada, que livrasse Cill do cativeiro dela, o coração dele. E nenhuma Divisão Anti-Sequestro chegaria àquele cárcere privadíssimo, a paixão bonita. Cillinha seria bem-tratada, respeitada, alimentada na base do mais puro, sadio e inofensivo amor. Que todos soubessem disso. Priscilla. O “Lance”. A cativa dele. Ou era ele, o “Bonito”, o cativo dela? É, no fundo, ele não passava realmente de um sequestrador...
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
O ALBATROZ DE BAUDELAIRE - SUL
Para Fernando Julio Cabrera
Chovia, e muito, era agosto, o teatro onde ele apresentaria ficava do outro lado da cidade, em relação ao meu bairro, e, como se tudo isso fosse pouco, o ingresso era caríssimo. Mas lá estava eu, expectante, naquele aquoso sábado, para adorar o Mito. Antegozava. Sim, eu, semelhantemente àquela personagem de POR VOLTA DA MEIA-NOITE. Quer dizer, jazzmaníaco.
Assisti à apresentação dele privilegiadamente, quase junto ao piano. O que ele, o Mito, tocou – peças do mais puro êxtase – tocou-me (-nos) para sempre. Os vôos dele ao teclado só cabem numa palavra: inefáveis. Jamais vi alguém ser tão etéreo ao fazer algo tão chão.
Quando terminou o espetáculo, exatamente como o Français de POR VOLTA DA MEIA-NOITE, ainda extático, fiquei à espera do Mito: desejava um autógrafo no meu vade-mécum, RAYUELA, na jaqueta. Se ganhei o autógrafo? Não. Perdi-o. Mais: perdi o Mito, para ganhar o homem. Ele, desmitificado, saiu trôpego do teatro, arrastado por dois homens que riam dele e o despejaram, fardo, dentro do táxi. Como na rua podia ser tão outro do que fora no palco?
Voltando a pé para o meu longínquo bairro, já dentro do domingo, que também se liquefazia, ia com o corpo encharcado e a alma ruminando, até que compreendi: era o albatroz de Baudelaire!
Para Fernando Julio Cabrera
Chovia, e muito, era agosto, o teatro onde ele apresentaria ficava do outro lado da cidade, em relação ao meu bairro, e, como se tudo isso fosse pouco, o ingresso era caríssimo. Mas lá estava eu, expectante, naquele aquoso sábado, para adorar o Mito. Antegozava. Sim, eu, semelhantemente àquela personagem de POR VOLTA DA MEIA-NOITE. Quer dizer, jazzmaníaco.
Assisti à apresentação dele privilegiadamente, quase junto ao piano. O que ele, o Mito, tocou – peças do mais puro êxtase – tocou-me (-nos) para sempre. Os vôos dele ao teclado só cabem numa palavra: inefáveis. Jamais vi alguém ser tão etéreo ao fazer algo tão chão.
Quando terminou o espetáculo, exatamente como o Français de POR VOLTA DA MEIA-NOITE, ainda extático, fiquei à espera do Mito: desejava um autógrafo no meu vade-mécum, RAYUELA, na jaqueta. Se ganhei o autógrafo? Não. Perdi-o. Mais: perdi o Mito, para ganhar o homem. Ele, desmitificado, saiu trôpego do teatro, arrastado por dois homens que riam dele e o despejaram, fardo, dentro do táxi. Como na rua podia ser tão outro do que fora no palco?
Voltando a pé para o meu longínquo bairro, já dentro do domingo, que também se liquefazia, ia com o corpo encharcado e a alma ruminando, até que compreendi: era o albatroz de Baudelaire!
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
OS JARDINS DO NADA - SUL
“Nos deixes res
Per caminhar i mirar fins al ponent
Car not, em um moment,
Et será pres.”
(Salvador Espriu)
Morria. Sim, morria, esse era o verbo preciso. Nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Sentado no banco. Parecia um sobrevivente da manhã. Um deus abandonado, caído, homem, pois: impotente. Ali, ele ilhado pelos pombos. Tão intenso que se tornava uma inconveniência para os nossos olhos acostumados a olhar, e não ver o que é necessário ver. Uma acusação à nossa humanidade, ele. Tinha a alma em dor: o corpo dele nos dizia isso. Os cabelos – sedoso negror – caíam, caíam, insistentemente caíam sobre a fronte. Tentava esconder, em vão, que morria. A morte dele, pública, perspícua, atrás dos óculos escuros. Chamava-se Maximiliano. Que nome os pais lhe haviam inventado! Os pais, não. “Maximiliano”, no fundo, ele sabia melhor do que ninguém, era mais uma invenção da Mãe, a “senyora” Vicenta: sanguínea, vulcânica, dominadora, vencedora (não é isso que significa “Vicenta”?) em todas as questões, ainda as mais insignificantes, enfim, a palavra final, sempre, sempre, sempre... O pai... aquele era vulnerável, tímido, cotidiano, sem vôos, sem apetites, sem... Maxiliano! Que agridoce ironia, hem, “senyora” Vicenta?! Maximiliano... De máximo nele, só mesmo aquele nome imenso, megalômano... e, em plena Barcelona, sábado, o mais abrumado de todos os trinta e oito anos dele. Com todas as veras, sentia-se pequeno, mínimo, nada. Estava, sim, à beira do abismo.
Max – todos o chamavam assim, exceto, é claro, a “senyora” Vicenta, que pronunciava a todo instante, e com que prazer! Todas aquelas intermináveis sílabas: Ma-xi-mi-li-a-no! Bem, Max viera à terra natal da Mãe e dos avós maternos em busca de luz. Não no sentido metafórico, tampouco esotérico que “luz” nos pode sugerir. Não, entendamos logo. O sentido era científico, médico, oftalmológico. La clínica Barraquer fa miracles si, Centa. Hi els metges són estupends. Si, que vingut el cosi Maximilià. Já li vaig arreglar uma habitació estupenda, la més bonica del pis. Hi há uma finestra projectada vers els JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Els plàtans comencen a verdejar. És um pasatge estupend, Centa. El cosi s’encatarà per cert. Per què, em fi, tu també no venís, Centa? Essas palavras de Esperança, a prima da “senyora” Vicenta, ajudaram-no a decidir-se de uma vez por todas a vir a Barcelona. No Brasil, onde ele, Max, havia nascido e vivido toda a sua vida, sempre ouvira dizer (e dito pelos próprios patrícios) que os brasileiros eram profissionais da esperança. Não obstante, isso nunca lhe passar pela cabeça, que ele tivesse aquela “profissão”... A verdade, porém, é que ele viera sim a Barcelona – e só Deus o sabia – com que máxima esperança (não foi obra do cálculo senão do inconsciente, do azar, juro aos que me lêem) viera, só, do Brasil, da muito querida (e, verdade seja dita, também abrumadora) Curitiba; daquele bairro longínquo, o Boqueirão, em cujo cemitério descansavam os queridos Jordi e Arsènia, os avós maternos, aqueles dois catalães que, fugindo, com a filha pequena, de colo, de um ditador espanhol, digo, galego, acabaram por encontrar outro ditador no Brasil; da Rua Bom Pastor, casa n. 202, esta casa ocre, assobradada, que não lhe saía do coração, de suas reti... Maria, a esposa, ficara no Brasil. É claro, havia o consultório, os pacientes; a viuvez e as estratégicas vertigens depressivas da sogra, D. Eva, invariavelmente tecendo bordados e intrigas; os cachorros; e, sobretudo, havia Luz e seus cinco anos. Sim, Luz... Luz... Luz... A Luz dos olhos dele... Luz... Luz... Se ela soubesse como ele estava agora em trevas! Ela, Luz... ele. Escuridão... Sim, ele viera e tudo resultou inútil. Viagem vã. La seva cel.lulite havia estat profunda. La córnia te uma úlcera. La parpella inferior fou destruita, caldrà reconstruíla, hi há um glaucoma secundari. Um cas molt difícil el seu, Max. De manera que li recomendem l’evisceració. E-vis-ce-ra-cão! A palavra, em si mesma, nas lâminas de sua fonética, já lacerava, já estripava, já e-vis-ce-ra-va... Nunca mais ele a pronunciaria; em contrapartida, nunca mais a esqueceria...
Bem, Max, nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU, el poeta de PERDUT EN UM PAISATGE DE PELEGRÍ CLAVÉ, um poema estupend, tu tens de llegri-ho, Max! A prima Esperança fizera Filologia Catalana. Estava agora jubilada como professora, porém, a todo momento, tinha um livro às mãos, invariavelmente um livro de poemas, invariavelmente um livro de poemas de Salvador Espriu. Sim, ele, Max, recordava-se daquele poema, principalmente dos últimos versos: Inutillmente cridarás al desert /el desesper del teu dolor de cec. / car no retorna al naixement del dia / el que se’n va per nit ardente. Sim, ele recordava-se, recordava-se de tudo, e lutava para sair de dentro daquele áspero pesadelo, fazia força para entende-lo. Não, não conseguia entender... Nunca fora diabético nem havia história de diabéticos e glaucoma na família dele e, a despeito disso, ele perdia a vista e o olho direitos... assim, da noite para o dia... De repente lhe ocorria encontrar a chave para aquela perda. Sim, porque efetivamente havia ali um simbolismo, o qual devia ser decifrado. Necessariamente, urgentemente. Ele não teria olhado maximamente para fora e minimamente para dentro de si?... Era isso então o famoso conhece-te a ti mesmo? A aprendizagem de si, urgia-lhe conhece-la, e ele aprendia, de súbito, a contragosto, e pela angústia, uma mestra pouco buscada mas muito reveladora. As trevas de fora se tornariam luzes dentro dele. A sua cegueira, em verdade, fazia-o lúcido para si. Seria mesmo isso?...
Pelo olho esquerdo (a que hemisfério pertencerá: o da razão ou o da emoção?) divisou a prima Esperança no ático do PASSEIG DE GRÀCIA. Ela lhe fazia sinais para que ele subisse para o almoço. O que ele diria agora à prima estupendamente amorosa e lírica? E com que cara ele diria a derrota dele para a “senyora” Vicenta, a vencedora? O que diria à esposa? E à Luz dos olhos dele? E o que ele faria com os pacientes? É certo, Maria poderia ficar com eles. Depois, quem confiaria num dentista cego? Vostè será d’ara endavant un monoftalmo. Amb determinades adaptacions, podrà continuar treballant... Uma porra, monoftalmo, uma porra! Era bonito, sofisticado, o eufemismo daquele médico que parecia peruano, o Dr. Ajeno ou Alejo?, que custava o olho da cara (que amargo trocadilho, hem?) e que gostava de usar termos técnicos. Porém, de quem era o o... tenebroso? Seria muito interessante ver o Dr. Ajeno ou Alejo, monoftalmo, fazer as cirurgias dele somentecom o olho esquerdo...
Pois bem, pelo olho esquerdo, o das luzes, Max via a manhã e os plátanos saturarem-se; o verde vencer o gris. Pelo olho direito, o das trevas, o nada.
Enquanto isso, a primavera nascia.
“Nos deixes res
Per caminhar i mirar fins al ponent
Car not, em um moment,
Et será pres.”
(Salvador Espriu)
Morria. Sim, morria, esse era o verbo preciso. Nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Sentado no banco. Parecia um sobrevivente da manhã. Um deus abandonado, caído, homem, pois: impotente. Ali, ele ilhado pelos pombos. Tão intenso que se tornava uma inconveniência para os nossos olhos acostumados a olhar, e não ver o que é necessário ver. Uma acusação à nossa humanidade, ele. Tinha a alma em dor: o corpo dele nos dizia isso. Os cabelos – sedoso negror – caíam, caíam, insistentemente caíam sobre a fronte. Tentava esconder, em vão, que morria. A morte dele, pública, perspícua, atrás dos óculos escuros. Chamava-se Maximiliano. Que nome os pais lhe haviam inventado! Os pais, não. “Maximiliano”, no fundo, ele sabia melhor do que ninguém, era mais uma invenção da Mãe, a “senyora” Vicenta: sanguínea, vulcânica, dominadora, vencedora (não é isso que significa “Vicenta”?) em todas as questões, ainda as mais insignificantes, enfim, a palavra final, sempre, sempre, sempre... O pai... aquele era vulnerável, tímido, cotidiano, sem vôos, sem apetites, sem... Maxiliano! Que agridoce ironia, hem, “senyora” Vicenta?! Maximiliano... De máximo nele, só mesmo aquele nome imenso, megalômano... e, em plena Barcelona, sábado, o mais abrumado de todos os trinta e oito anos dele. Com todas as veras, sentia-se pequeno, mínimo, nada. Estava, sim, à beira do abismo.
Max – todos o chamavam assim, exceto, é claro, a “senyora” Vicenta, que pronunciava a todo instante, e com que prazer! Todas aquelas intermináveis sílabas: Ma-xi-mi-li-a-no! Bem, Max viera à terra natal da Mãe e dos avós maternos em busca de luz. Não no sentido metafórico, tampouco esotérico que “luz” nos pode sugerir. Não, entendamos logo. O sentido era científico, médico, oftalmológico. La clínica Barraquer fa miracles si, Centa. Hi els metges són estupends. Si, que vingut el cosi Maximilià. Já li vaig arreglar uma habitació estupenda, la més bonica del pis. Hi há uma finestra projectada vers els JARDINS DE SALVADOR ESPRIU. Els plàtans comencen a verdejar. És um pasatge estupend, Centa. El cosi s’encatarà per cert. Per què, em fi, tu també no venís, Centa? Essas palavras de Esperança, a prima da “senyora” Vicenta, ajudaram-no a decidir-se de uma vez por todas a vir a Barcelona. No Brasil, onde ele, Max, havia nascido e vivido toda a sua vida, sempre ouvira dizer (e dito pelos próprios patrícios) que os brasileiros eram profissionais da esperança. Não obstante, isso nunca lhe passar pela cabeça, que ele tivesse aquela “profissão”... A verdade, porém, é que ele viera sim a Barcelona – e só Deus o sabia – com que máxima esperança (não foi obra do cálculo senão do inconsciente, do azar, juro aos que me lêem) viera, só, do Brasil, da muito querida (e, verdade seja dita, também abrumadora) Curitiba; daquele bairro longínquo, o Boqueirão, em cujo cemitério descansavam os queridos Jordi e Arsènia, os avós maternos, aqueles dois catalães que, fugindo, com a filha pequena, de colo, de um ditador espanhol, digo, galego, acabaram por encontrar outro ditador no Brasil; da Rua Bom Pastor, casa n. 202, esta casa ocre, assobradada, que não lhe saía do coração, de suas reti... Maria, a esposa, ficara no Brasil. É claro, havia o consultório, os pacientes; a viuvez e as estratégicas vertigens depressivas da sogra, D. Eva, invariavelmente tecendo bordados e intrigas; os cachorros; e, sobretudo, havia Luz e seus cinco anos. Sim, Luz... Luz... Luz... A Luz dos olhos dele... Luz... Luz... Se ela soubesse como ele estava agora em trevas! Ela, Luz... ele. Escuridão... Sim, ele viera e tudo resultou inútil. Viagem vã. La seva cel.lulite havia estat profunda. La córnia te uma úlcera. La parpella inferior fou destruita, caldrà reconstruíla, hi há um glaucoma secundari. Um cas molt difícil el seu, Max. De manera que li recomendem l’evisceració. E-vis-ce-ra-cão! A palavra, em si mesma, nas lâminas de sua fonética, já lacerava, já estripava, já e-vis-ce-ra-va... Nunca mais ele a pronunciaria; em contrapartida, nunca mais a esqueceria...
Bem, Max, nos JARDINS DE SALVADOR ESPRIU, el poeta de PERDUT EN UM PAISATGE DE PELEGRÍ CLAVÉ, um poema estupend, tu tens de llegri-ho, Max! A prima Esperança fizera Filologia Catalana. Estava agora jubilada como professora, porém, a todo momento, tinha um livro às mãos, invariavelmente um livro de poemas, invariavelmente um livro de poemas de Salvador Espriu. Sim, ele, Max, recordava-se daquele poema, principalmente dos últimos versos: Inutillmente cridarás al desert /el desesper del teu dolor de cec. / car no retorna al naixement del dia / el que se’n va per nit ardente. Sim, ele recordava-se, recordava-se de tudo, e lutava para sair de dentro daquele áspero pesadelo, fazia força para entende-lo. Não, não conseguia entender... Nunca fora diabético nem havia história de diabéticos e glaucoma na família dele e, a despeito disso, ele perdia a vista e o olho direitos... assim, da noite para o dia... De repente lhe ocorria encontrar a chave para aquela perda. Sim, porque efetivamente havia ali um simbolismo, o qual devia ser decifrado. Necessariamente, urgentemente. Ele não teria olhado maximamente para fora e minimamente para dentro de si?... Era isso então o famoso conhece-te a ti mesmo? A aprendizagem de si, urgia-lhe conhece-la, e ele aprendia, de súbito, a contragosto, e pela angústia, uma mestra pouco buscada mas muito reveladora. As trevas de fora se tornariam luzes dentro dele. A sua cegueira, em verdade, fazia-o lúcido para si. Seria mesmo isso?...
Pelo olho esquerdo (a que hemisfério pertencerá: o da razão ou o da emoção?) divisou a prima Esperança no ático do PASSEIG DE GRÀCIA. Ela lhe fazia sinais para que ele subisse para o almoço. O que ele diria agora à prima estupendamente amorosa e lírica? E com que cara ele diria a derrota dele para a “senyora” Vicenta, a vencedora? O que diria à esposa? E à Luz dos olhos dele? E o que ele faria com os pacientes? É certo, Maria poderia ficar com eles. Depois, quem confiaria num dentista cego? Vostè será d’ara endavant un monoftalmo. Amb determinades adaptacions, podrà continuar treballant... Uma porra, monoftalmo, uma porra! Era bonito, sofisticado, o eufemismo daquele médico que parecia peruano, o Dr. Ajeno ou Alejo?, que custava o olho da cara (que amargo trocadilho, hem?) e que gostava de usar termos técnicos. Porém, de quem era o o... tenebroso? Seria muito interessante ver o Dr. Ajeno ou Alejo, monoftalmo, fazer as cirurgias dele somentecom o olho esquerdo...
Pois bem, pelo olho esquerdo, o das luzes, Max via a manhã e os plátanos saturarem-se; o verde vencer o gris. Pelo olho direito, o das trevas, o nada.
Enquanto isso, a primavera nascia.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
POLACA – SUL
Bem, digamos que tudo se passou por aí mesmo, algures. Mas, pensando melhor, ponhamos lá, por exemplo, Curitiba. Cidade brasileira de primeiro mundo, dizem. É, até para dar um pouco de verossimilhança à coisa, digo, história. O argumento de sempre, a tão cobrada “cor local”. Embora, hoje, a paisagem externa valha menos que a interna. É, hoje, repito.
Quanto ao tempo, deixemo-lo indefinido. Serve, assim, para imprimir à narrativa certa modernidade, instigando quem me ler. Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski? Talvez possamos datar desta maneira: era no tempo dos generais. Os de quatro estrelas. É, era. Pretérito imperfeito do indicativo...
Passemos, então, à heroína deste conto, se é que o que escrevo é um conto. Porém, o “turista aprendiz” não disse algures (peço-lhes desde já vênia pelo recorrente “algures” e também pelo extemporâneo “vênia”, tiques do meu incorrigíveo estilo forense) que conto seria tudo o que o autor chamasse de conto? Macunaíma sabedoria, essa, não? Depois gosto de mixórdias. “Mixórdias”? Fica.
Rosane, melhor, Polaca, como ela ficou para mim, era uma cabecinha maravilhosa. Tinha dezenove anos e era do tamanho da minha procura.
Conheci-a na casa do Murilo, um amigo comum nosso, com fumos de intelectual de esquerda (“intelectual de esquerda” não será uma redundância?). Daqueles que, tempos atrás, pertenciam à “esquerda festiva”. Ele apreciava reunir o pessoal em seu apertamento, aos sábados, à tardinha, para tomar umas e outras, pichar a democradura – se me permitem mais um dos inesgotáveis e insuportáveis trocadilhos do carilho do anfitrião -, falar sobre arte, especialmente o teatro, e transar todas, que ali não havia espaços para censuras, ali, não! Eu, confesso-lhes, ia lá mais por causa da vodka e das ninfetas candidatas a bailarinas do Guaíra do que por qualquer outra coisa.
Sim, como eu dizia, conheci a Polaca num sábado, no Murilo. Não esperava encontrar muita gente, por causa do frio, mas não suportava mais a minha companhia. Carecia do Outro (vivíamos então de Sartre). Se fosse Outra, melhor ainda. E foi. Polaca lia, se não me falha a memória visual, A FOLHA DE S. PAULO. Alguma coisa sobre cinema, uma das raras paixões dela. Ela era muito racional, a Polaca.
Levei tempo para descobri-la. Concordo que sou meio autista ou autista e meio, conforme o Murilo. Sei lá. Concordo que demorei para perceber-lhe o diastema, as orelhas, de abano, que a Polaca parecia querer mostrar de tanto que as tocava com os dedos finos e unhas grandes e cuidadíssimas, a estrelinha do PT, que ela trazia consigo aonde quer que fosse etc. Demorei, é verdade, para perceber o que ela valia, o seu real significado. Mas ela também sabia se esconder como ninguém, quando queria. Uma cebola, ela.
Polaca falava pouco, como acontece com as pessoas tristes e tímidas. Só que ela não era triste, não, nem tampouco tímida. Ela ria, sem excessos, é claro. Um riso inesquecível: docemente amargo. E fresco. E mudo. Um riso que eu não sabia ler, pronto. Uma vez, depois que nós nos amamos, vi a lágrima que deslizou pelo rosado quente de sua face esquerda e creditei aquilo ao prazer. Ela riu-me e deu-me as costas sardentas, adormecendo. Quando acordei, no outro dia, ela havia-me deixado. Para sempre. Não posso amá-lo menos do que você merece, Pedro. Acabou. Não me procure mais. Adeus. Rosane.
- Qual o melhor filme brasileiro, para você? – indaguei-lhe buscando aproximação.
- VIDAS SECAS. E para você?
- A CASA ASSASSINADA. Viu?
- Não. Você tem bom gosto.
- Você também – devolvi.
Ficamos assim durante um longo tempo, próximos e cúmplices. Com as horas, o assunto e a afeição cresceram. Falávamos sobre política, por iniciativa dela, petista roxa, quando o Murilo irrompeu na sala.
- Pelo que vejo, vocês já se acharam, hem? Veja se você dá um jeito nesse reacionariozinho aqui, Rô.
O pegajoso anfitrião, cheio de mãos para mim e piscadas para a Polaca. Não contente, sentou-se conosco. No chão, à apache. Dose, aturá-lo. Não sei como a Polaca conseguia fazê-lo. O Murilo, mais teatral, mais gestual que personagem de Eça de Queirós. Ainda, sempre, as mãos em mim e os olhos na polaquinha de Campo Largo. E falava, falava, falava. Ou melhor, gesticulava, gesticulava, gesticulava. Falava com o corpo. Sobretudo com o rosto, com os ombros, com as mãos. A todo instante riscava o ar com os dois indicadores, para enfatizar sua expressão preferida: entre aspas. Um ruído, um muro de Berlim (penitencio-me por essa tão gasta e, portanto, inócua metáfora, mas fica também...), entre mim e a Polaca, o Murilo. Eram trocadilhos infames, comentários maledicentes, invejosos, mesmices, o diabo. Murilo e sua histrionice pareciam-nos eternos. Até que fomos salvos pelo telefone. Aproveitamos para fugir dali, daquele pegajoso ser que se tornava inóspito por causa precisamente de sua excessiva hospitalidade. Data daí, da nossa fuga do Murilo, a nossa história de amor, que, como convém às verdadeiras histórias de amor, acabou mal.
Fazia três que nós transávamos. As rugas e as rusgas começaram a aparecer. Uma noite, bebíamos num bar vazio, no Largo da Ordem. Polaca tomava vinho; eu, vodka. Aí o curioso da situação, pois ela é que vinha dos polacos e eu, dos italianos. Ela fazia observações sobre a fotografia do E.T., que acabáramos de ver, quando eu a interrompi e disse que estava morrendo de fome. Ela desistiu mesmo de levar o copo à boca, colocou-o sobre a mesa, ajeitou com os dedos finos os cabelos por trás das orelhas de abano, serena, e disse que eu às vezes era uma pessoa muito, mas muito inconveniente, que eu não sabia ouvir, que eu pertencia à mesma raça do Murilo, que eu soubesse disso. Levantou-se calmamente e foi embora, devagar, sem sequer olhar para trás. Fiquei sozinho no bar, comendo batatinha frita com ódio. Meu Deus, naquele dia eu a esganaria e regaria depois minhas plantas com muito amor, tranquilamente.
Outra vez, estávamos na Santos Andrade, nossa praça querida. Ela olhava para a esquerda, moderna (Guaíra); eu, para a direita, neoclássico (Universidade). Havíamos brigado, para variar um pouco... Creio que foi por causa do futebol, uma das minhas inúmeras paixões. Nós ali, dezenove horas, encharcados de silêncio. Ela, mineral, olhando sem ver, distante; eu, ódio puro, im-plo-din-do.
- Pedro, você já reparou quanto EU há em você? Já procurou reparar que há o NÓS também?
Eu, quase vencido, ouvindo, sem palavras.
- Outro dia, sabe, cheguei à conclusão que escrever é coisa de gente solitária, egoísta. Serve bem para você, né?
- Eu... quero dizer, escrevo porque busco o Outro, Polaca – consegui ainda articular.
- O Outro que é você mesmo, Pedro. Você sai de você um segundo e já volta correndo. Não cansa de olhar o próprio umbigo...
- Eu... até não gosto muito de mim...
- Imaginei se gostasse...
- Você não tem aula agora? – tentei encerrar pacificamente a questão.
Ela olhou para o pulso esquerdo, riu amargo, ajeitou os cabelos para trás das orelhas de abano e:
- Você não tem cura, Pedro...
Polaca era mesmo uma pessoinha querida. O meu amorezinho. Como fui perde-la? Se é que eu a achei na verdade... A calça desbotada. O louro do cabelo. O rosto sempre sem pintura, para satisfazer a minha vontade. Apenas o rosado natural, quando fazia frio, ou tomava vinho, ou ficava excitada, conforme me confessou uma noite, cheia de pejo. Um rosado quente. A penugem dourada no alto das coxas. O castanho impenetrável dos olhos. A boca tão amargamente doce. A coragem de enfrentar-se e enfrentar o mundo, porque dona de seu próprio destino, porque de posse de um sentido para a vida. É, era uma pessoinha querida barbaridade. Era, sim, pretérito imperfeito do indicativo... Por isso escrevo sobre ela. Não quero perde-la mais uma vez. Não quero que ela me seja pretérito perfeito, mais-que-perfeito. Não sou grande no que escrevo. Aliás, não sou grande em nada. Mas ela, a Polaca, é a minha única matéria-prima. Ainda. Sempre. É uma fantasma que eu quero, não posso, não devo, não sei exorcizar. Ela estava certa, certíssima, quando disse que escrever tinha a ver com solidão e egoísmo. A bem da verdade, ela nunca errava. Mas escrever, Polaca, é maneira também de recuperar o perdido e achar-me. Recordo e resgato e possuo você, agora, pela vida da arte, já que na arte da vida eu fracassei...
Ouvi dizer que a Polaca foi para a Dinamarca, casada. Pode ter ido mas está aqui comigo neste instante em que é a minha escritura. Ela ri para mim e ainda vejo beleza e dor nisso. Nós juntinhos comemos pipoca e vamos às exposições do Scliar na Marechal Deodoro. Ela faz Comunicação Visual na Federal. Nós nos interessamos cada vez mais por Machado de Assis e Semiótica. Ela mora num quarto-e-sala da Treze de Maio, lugar prazeroso barbaridade. O endereço da minha felicidade, ai! Ela me ama mais do que eu a amo, se é que isso é possível. Eu já tenho em mim isso de quebrar tudo quanto toque. Eu, ela...
Bem, digamos que tudo se passou por aí mesmo, algures. Mas, pensando melhor, ponhamos lá, por exemplo, Curitiba. Cidade brasileira de primeiro mundo, dizem. É, até para dar um pouco de verossimilhança à coisa, digo, história. O argumento de sempre, a tão cobrada “cor local”. Embora, hoje, a paisagem externa valha menos que a interna. É, hoje, repito.
Quanto ao tempo, deixemo-lo indefinido. Serve, assim, para imprimir à narrativa certa modernidade, instigando quem me ler. Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski? Talvez possamos datar desta maneira: era no tempo dos generais. Os de quatro estrelas. É, era. Pretérito imperfeito do indicativo...
Passemos, então, à heroína deste conto, se é que o que escrevo é um conto. Porém, o “turista aprendiz” não disse algures (peço-lhes desde já vênia pelo recorrente “algures” e também pelo extemporâneo “vênia”, tiques do meu incorrigíveo estilo forense) que conto seria tudo o que o autor chamasse de conto? Macunaíma sabedoria, essa, não? Depois gosto de mixórdias. “Mixórdias”? Fica.
Rosane, melhor, Polaca, como ela ficou para mim, era uma cabecinha maravilhosa. Tinha dezenove anos e era do tamanho da minha procura.
Conheci-a na casa do Murilo, um amigo comum nosso, com fumos de intelectual de esquerda (“intelectual de esquerda” não será uma redundância?). Daqueles que, tempos atrás, pertenciam à “esquerda festiva”. Ele apreciava reunir o pessoal em seu apertamento, aos sábados, à tardinha, para tomar umas e outras, pichar a democradura – se me permitem mais um dos inesgotáveis e insuportáveis trocadilhos do carilho do anfitrião -, falar sobre arte, especialmente o teatro, e transar todas, que ali não havia espaços para censuras, ali, não! Eu, confesso-lhes, ia lá mais por causa da vodka e das ninfetas candidatas a bailarinas do Guaíra do que por qualquer outra coisa.
Sim, como eu dizia, conheci a Polaca num sábado, no Murilo. Não esperava encontrar muita gente, por causa do frio, mas não suportava mais a minha companhia. Carecia do Outro (vivíamos então de Sartre). Se fosse Outra, melhor ainda. E foi. Polaca lia, se não me falha a memória visual, A FOLHA DE S. PAULO. Alguma coisa sobre cinema, uma das raras paixões dela. Ela era muito racional, a Polaca.
Levei tempo para descobri-la. Concordo que sou meio autista ou autista e meio, conforme o Murilo. Sei lá. Concordo que demorei para perceber-lhe o diastema, as orelhas, de abano, que a Polaca parecia querer mostrar de tanto que as tocava com os dedos finos e unhas grandes e cuidadíssimas, a estrelinha do PT, que ela trazia consigo aonde quer que fosse etc. Demorei, é verdade, para perceber o que ela valia, o seu real significado. Mas ela também sabia se esconder como ninguém, quando queria. Uma cebola, ela.
Polaca falava pouco, como acontece com as pessoas tristes e tímidas. Só que ela não era triste, não, nem tampouco tímida. Ela ria, sem excessos, é claro. Um riso inesquecível: docemente amargo. E fresco. E mudo. Um riso que eu não sabia ler, pronto. Uma vez, depois que nós nos amamos, vi a lágrima que deslizou pelo rosado quente de sua face esquerda e creditei aquilo ao prazer. Ela riu-me e deu-me as costas sardentas, adormecendo. Quando acordei, no outro dia, ela havia-me deixado. Para sempre. Não posso amá-lo menos do que você merece, Pedro. Acabou. Não me procure mais. Adeus. Rosane.
- Qual o melhor filme brasileiro, para você? – indaguei-lhe buscando aproximação.
- VIDAS SECAS. E para você?
- A CASA ASSASSINADA. Viu?
- Não. Você tem bom gosto.
- Você também – devolvi.
Ficamos assim durante um longo tempo, próximos e cúmplices. Com as horas, o assunto e a afeição cresceram. Falávamos sobre política, por iniciativa dela, petista roxa, quando o Murilo irrompeu na sala.
- Pelo que vejo, vocês já se acharam, hem? Veja se você dá um jeito nesse reacionariozinho aqui, Rô.
O pegajoso anfitrião, cheio de mãos para mim e piscadas para a Polaca. Não contente, sentou-se conosco. No chão, à apache. Dose, aturá-lo. Não sei como a Polaca conseguia fazê-lo. O Murilo, mais teatral, mais gestual que personagem de Eça de Queirós. Ainda, sempre, as mãos em mim e os olhos na polaquinha de Campo Largo. E falava, falava, falava. Ou melhor, gesticulava, gesticulava, gesticulava. Falava com o corpo. Sobretudo com o rosto, com os ombros, com as mãos. A todo instante riscava o ar com os dois indicadores, para enfatizar sua expressão preferida: entre aspas. Um ruído, um muro de Berlim (penitencio-me por essa tão gasta e, portanto, inócua metáfora, mas fica também...), entre mim e a Polaca, o Murilo. Eram trocadilhos infames, comentários maledicentes, invejosos, mesmices, o diabo. Murilo e sua histrionice pareciam-nos eternos. Até que fomos salvos pelo telefone. Aproveitamos para fugir dali, daquele pegajoso ser que se tornava inóspito por causa precisamente de sua excessiva hospitalidade. Data daí, da nossa fuga do Murilo, a nossa história de amor, que, como convém às verdadeiras histórias de amor, acabou mal.
Fazia três que nós transávamos. As rugas e as rusgas começaram a aparecer. Uma noite, bebíamos num bar vazio, no Largo da Ordem. Polaca tomava vinho; eu, vodka. Aí o curioso da situação, pois ela é que vinha dos polacos e eu, dos italianos. Ela fazia observações sobre a fotografia do E.T., que acabáramos de ver, quando eu a interrompi e disse que estava morrendo de fome. Ela desistiu mesmo de levar o copo à boca, colocou-o sobre a mesa, ajeitou com os dedos finos os cabelos por trás das orelhas de abano, serena, e disse que eu às vezes era uma pessoa muito, mas muito inconveniente, que eu não sabia ouvir, que eu pertencia à mesma raça do Murilo, que eu soubesse disso. Levantou-se calmamente e foi embora, devagar, sem sequer olhar para trás. Fiquei sozinho no bar, comendo batatinha frita com ódio. Meu Deus, naquele dia eu a esganaria e regaria depois minhas plantas com muito amor, tranquilamente.
Outra vez, estávamos na Santos Andrade, nossa praça querida. Ela olhava para a esquerda, moderna (Guaíra); eu, para a direita, neoclássico (Universidade). Havíamos brigado, para variar um pouco... Creio que foi por causa do futebol, uma das minhas inúmeras paixões. Nós ali, dezenove horas, encharcados de silêncio. Ela, mineral, olhando sem ver, distante; eu, ódio puro, im-plo-din-do.
- Pedro, você já reparou quanto EU há em você? Já procurou reparar que há o NÓS também?
Eu, quase vencido, ouvindo, sem palavras.
- Outro dia, sabe, cheguei à conclusão que escrever é coisa de gente solitária, egoísta. Serve bem para você, né?
- Eu... quero dizer, escrevo porque busco o Outro, Polaca – consegui ainda articular.
- O Outro que é você mesmo, Pedro. Você sai de você um segundo e já volta correndo. Não cansa de olhar o próprio umbigo...
- Eu... até não gosto muito de mim...
- Imaginei se gostasse...
- Você não tem aula agora? – tentei encerrar pacificamente a questão.
Ela olhou para o pulso esquerdo, riu amargo, ajeitou os cabelos para trás das orelhas de abano e:
- Você não tem cura, Pedro...
Polaca era mesmo uma pessoinha querida. O meu amorezinho. Como fui perde-la? Se é que eu a achei na verdade... A calça desbotada. O louro do cabelo. O rosto sempre sem pintura, para satisfazer a minha vontade. Apenas o rosado natural, quando fazia frio, ou tomava vinho, ou ficava excitada, conforme me confessou uma noite, cheia de pejo. Um rosado quente. A penugem dourada no alto das coxas. O castanho impenetrável dos olhos. A boca tão amargamente doce. A coragem de enfrentar-se e enfrentar o mundo, porque dona de seu próprio destino, porque de posse de um sentido para a vida. É, era uma pessoinha querida barbaridade. Era, sim, pretérito imperfeito do indicativo... Por isso escrevo sobre ela. Não quero perde-la mais uma vez. Não quero que ela me seja pretérito perfeito, mais-que-perfeito. Não sou grande no que escrevo. Aliás, não sou grande em nada. Mas ela, a Polaca, é a minha única matéria-prima. Ainda. Sempre. É uma fantasma que eu quero, não posso, não devo, não sei exorcizar. Ela estava certa, certíssima, quando disse que escrever tinha a ver com solidão e egoísmo. A bem da verdade, ela nunca errava. Mas escrever, Polaca, é maneira também de recuperar o perdido e achar-me. Recordo e resgato e possuo você, agora, pela vida da arte, já que na arte da vida eu fracassei...
Ouvi dizer que a Polaca foi para a Dinamarca, casada. Pode ter ido mas está aqui comigo neste instante em que é a minha escritura. Ela ri para mim e ainda vejo beleza e dor nisso. Nós juntinhos comemos pipoca e vamos às exposições do Scliar na Marechal Deodoro. Ela faz Comunicação Visual na Federal. Nós nos interessamos cada vez mais por Machado de Assis e Semiótica. Ela mora num quarto-e-sala da Treze de Maio, lugar prazeroso barbaridade. O endereço da minha felicidade, ai! Ela me ama mais do que eu a amo, se é que isso é possível. Eu já tenho em mim isso de quebrar tudo quanto toque. Eu, ela...
PONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
VINGANÇA - SUL
- Guria!
A voz gorda da mãe, ralhando, ralhando, ralhando, machucando feito a chinelada dela. Mas porém só pra ela, Bernadete; pros manos, não, né? Eles podiam tudo. Quem mandou ela ser a única guria no meio dos quatro piás?
- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria! Tu quer me enlouquecer, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
Ela apanhava sem chorar, nem uma lagrimazinha. Quem sabe não era isso que deixava a mãe mais braba, vermelhona, descabelada, quase sem respiração, depois das tundas que ela dava? Os manos riam. Todos, não, que o Bê não ria, até chorava por ela. E não era por medo dela, não.
- Tu tá dentro do meu coração, Bê. Até o fim do mundo, tá?
A mãe sofria dos nervos. Tomava um montão de remédios. Mas porém tinha uma força, bah! Todo mês a mãe inventava de arrastar, sozinha, braba, vermelhona, descabelada, o piano pela sala. A mãe tinha aquela mania de mudar de coisas, os móveis de lugar, a cor lá dos cabelos dela... A mãe mudava muito, né? Por que a mãe fazia aquilo ninguém sabia, não. O pai não gostava mas porém ficava calado.
- Outra vez descabelada? Parece um piá de rua! Ainda corto esse teu cabelo e te deixo careca, viu? Aí tu vai parecer mesmo piá, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
É, a mãe não gostava dela. Nem um tiquinho assim, ó. Só sabia chamar gritando:
- Guria! Guria lazarenta! Guria, desce das grimpas! Guria, para com essa função! Guria, vai tomar banho! Guria, tu quer me enlouquecer, né?
Por que a mãe não chamava feito o pai?
- Bernadete, por favor, meu benzinho, alcança aquele livrinho ali pro paizinho, sim?
Livrinho? Tá bom, jacaré! O pai ria que ria da imitação dela. E dava milhões de beijos nela.
Ou feito ao vô que morava com eles?
- Dedeta, senta aqui no colo do vô, que eu vou te contar uma história de bruxa. Esta tu ainda não ouviu, não... Então, era uma vez uma bruxa gorda, braba, vermelhona, descabelada, malvada barbaridade...
Ou feito o irmão caçula?
- Deta, tu viu o sorriso do vô Benício no copo d’água na mesinha da cama dele, viu?
- Ô, Bê, tu tem cada uma, piá!
Ou feito a tia do grupo?
- Bernadete, traga o seu ditado para a tia ver, sim, querida.
O pai, a mãe dizia que o pai era um banana. Como o pai podia ser uma banana? Quem sabe era porque o pai era muito gozado, grande e meio torto, feito uma banana d’água? O pai tinha até as pintas da banana d’água na cara. O pai, magrinho, magrinho. Feito o bigodinho dele. É, tudo no pai era magrinho. Menos os livros dele. Bah! Cada livrão! Um tal de código disso, um tal de código daquilo... A casa, cheinha de livros. A mãe dizia que os livros eram a comida do pai. O pai não gostava mas porém ficava calado, lendo, nem era com ele. Os olhos dele é que riam. Riam pra quem? Pra Bernadete, o benzinho dele, né? O pai gostava barbaridade de B. Bruno, Bráulio,, Bernardo, Bernadete, Benício. O pai e o vô também eram Benício. Mas porém o pai do pai era outro, morava longe e só andava numa cadeira de rodas. Duas rodonas e duas rodinhas, as pernas do vô Justino. O pai era advogado e queria ser juiz feito o pai dele. Daí o pai estudar esse tanto, né?
Um domingo, no oitavo aniversário de Bernadete, vô Benício de banho tomado, o cabelo penteado até, bah!, com a camisa nova, na cabeceira da mesa.
- Dedeta, vem cá no colo do vô! Vem, polaquinha do vô, vem!
A sala inteira olhando pra ela. A Dona Inveja suspirando, né?
- Tu quando crescer que ser o quê, Dedeta?
- Bah! Vô, piá, né?
- Guria! – fez a mãe, rindo, mas porém sem querer, com a gente toda.
Quando a parentada foi embora, a mãe não quis nem saber da sujeira que tinha ficado na casa depois daquela função. Quis saber foi de chinelada, chinelada, chinelada...
- Onde já se viu uma guria expor a sua mãe assim ao ridículo e na frente de todo o mundo?! Tu quer me enlouquecer mesmo, né?
Daí a mãe fazia aquele barulhão lá com os dentes dela. Era outra mania da mãe fazer aquilo quando ficava braba. O pai dizia que aquilo era brux... brux... bruxismo, uma palavra difícil, né, gente?
O pai ouviu tudinho mas porém ficou calado, lá no meio dos livrões dele. Bernadete foi para o quarto, dela e do caçula.
- Bê, pára de chorar. Não tá doendo, não, piá. Eu nem tô chorando, tô?
- Por que tu nunca chora, Deta? Como é que tu faz isso? Olha, teu braço tá vermelhão. Não tá doendo, não, Deta?
O Bê chorava por ela, pela tundas que ela levava todo dia, só o Bê. Os outros manos? Tá bom, jacaré! Não ligavam pra ela, não. Nem pro Bê. Nem pro pai. Nem pro vô Benício. Mas porém eles ligavam pra mãe, sim. Agora judiação era com aqueles três. De primeiro, judiação com os gatos. Depois com os cachorros. Eles ajudavam os homens da carrocinha até, aqueles pestinhas!
A mãe só batia nos braços de Bernadete. Eles ficavam roxinhos no dia seguinte. As marcas da chinela de couro. O pai não gostava mas porém ficava calado. Parecia que o pai tinha medo da mãe. Parecia que o vô Benício também tinha medo da mãe. Um pai ter medo da filha, como é que podia uma coisa assim? O vô, a mãe dizia que o vô era um traste. Tá certo, o vô tinha um cheiro velho, tinha, fazia um barulhão quando tomava a sopa, fazia, vivia mexendo na bunda das empregadas da cozinha, vivia, mas porém todo dia tinha uma história de bruxa pra contar. A bruxa aparecia que aparecia nos sonhos de Bernadete. Cada dia a bruxa ia ficando mais real... É, e só uma pessoa ouvia as histórias de bruxa do vô Benício. Adivinha quem? Ela, Bernadete, né? Quem que podia de ser? O Bê também ouvia mas porém tinha um medão lá com ele. Ficava junto, tampando os ouvidos, fechando os olhinhos, que era pra não ouvir a voz do vô, que era pra não ver as caras que o vô fazia. O Bê tem cada uma!
Bernadete tava uma boniteza que só naquele vestidinho azul com a guriazinha com duas trancinhas com a flor amarela bem no meio do peito. Tá certo, ele tava ficando curto pra ela, tava, a flor tava quase branca, tava, tinha já um furinho bem no meio da flor da guriazinha, tinha, mas porém ela cada vez mais gostava dele. Será que era porque o pai é que tinha dado ele pra ela? Claro, Clara! A coleguinha e vizinha, a Dona Inveja, dava mais um suspiro. Mas porém chegou a mãe:
- Guria! Quê que tu tá fazendo com esse vestido aí? Eu não te disse pra ti ponhar o macaquinho preto?
- Mãe, eu quero ir na festa do grupo com o meu vestidinho azul com a gurizinha com trancinhas com a flor amarela, né?
- Guria, tira esse vestido já! – gritou a mãe.
- Não tiro, não, nunca.
A mãe mandou a Clara ir pra casa dela. A mãe não tava de chinela no pé, não. Tava bonitona até, o cabelo num rabo-de-cavalo, pintada, o vestido verde feito os olhos dela. A mãe quis tirar o vestidinho na força. Bernadete não deixou, não. Mas porém a mãe pegou o bracinho esquerdo de Bernadete e mordeu grande. Tão grande que saiu sangue. As marcas dos dentões da mãe no bracinho da filha. Pareciam um coraçãozinho até! Bernadete chorou? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Quem chorou foi a mãe, vermelhona, se descabelando, malvada, correndo pro banheiro. O Bê, a mãe dizia que o Bê era um piá de bosta. Tá certo, o Bê fazia xixi toda noite na cama, fazia, não gostava de tomar banho, não, não gostava, vivia sumindo com as bombas do pai, vivia, ô piá danado! Mas porém só o Bê tinha muitos carinhos nas mãozinhas e só ele chorava por ela. Ô piá querido barbaridade! De noite, o pai e o vô Benício conversaram que conversaram no escritório do pai. Vô Benício fez que sim com a cabeça e chorou. Daí o pai ligou pro pai dele:
- Pai, eu... eu vou internar a Malvina...
Daí o pai ligou de novo. Chegou um carro branco. Três homens pretos de roupa branca arrombaram com o pai a porta do banheiro e botaram na mãe uma camisa branca com muitas mangas e apertada barbaridade! A mãe gritava que gritava, chorava que chorava, mas porém o pai ficou calado. A cara da mãe, toda borrada. Bah! Feito uma bruxa, a mãe! Daí a noite chegou e engoliu o carro branco. O vô e os manos e as empregadas e a Clara e os pais da Clara e um montão de gente choravam na calçada. Bernadete? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Riu até, com uma maldade guria. Um sorriso meio banguela, feito o da Dona Inveja.
- Guria!
- Guria!
A voz gorda da mãe, ralhando, ralhando, ralhando, machucando feito a chinelada dela. Mas porém só pra ela, Bernadete; pros manos, não, né? Eles podiam tudo. Quem mandou ela ser a única guria no meio dos quatro piás?
- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria! Tu quer me enlouquecer, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
Ela apanhava sem chorar, nem uma lagrimazinha. Quem sabe não era isso que deixava a mãe mais braba, vermelhona, descabelada, quase sem respiração, depois das tundas que ela dava? Os manos riam. Todos, não, que o Bê não ria, até chorava por ela. E não era por medo dela, não.
- Tu tá dentro do meu coração, Bê. Até o fim do mundo, tá?
A mãe sofria dos nervos. Tomava um montão de remédios. Mas porém tinha uma força, bah! Todo mês a mãe inventava de arrastar, sozinha, braba, vermelhona, descabelada, o piano pela sala. A mãe tinha aquela mania de mudar de coisas, os móveis de lugar, a cor lá dos cabelos dela... A mãe mudava muito, né? Por que a mãe fazia aquilo ninguém sabia, não. O pai não gostava mas porém ficava calado.
- Outra vez descabelada? Parece um piá de rua! Ainda corto esse teu cabelo e te deixo careca, viu? Aí tu vai parecer mesmo piá, né?
Chinelada, chinelada, chinelada.
É, a mãe não gostava dela. Nem um tiquinho assim, ó. Só sabia chamar gritando:
- Guria! Guria lazarenta! Guria, desce das grimpas! Guria, para com essa função! Guria, vai tomar banho! Guria, tu quer me enlouquecer, né?
Por que a mãe não chamava feito o pai?
- Bernadete, por favor, meu benzinho, alcança aquele livrinho ali pro paizinho, sim?
Livrinho? Tá bom, jacaré! O pai ria que ria da imitação dela. E dava milhões de beijos nela.
Ou feito ao vô que morava com eles?
- Dedeta, senta aqui no colo do vô, que eu vou te contar uma história de bruxa. Esta tu ainda não ouviu, não... Então, era uma vez uma bruxa gorda, braba, vermelhona, descabelada, malvada barbaridade...
Ou feito o irmão caçula?
- Deta, tu viu o sorriso do vô Benício no copo d’água na mesinha da cama dele, viu?
- Ô, Bê, tu tem cada uma, piá!
Ou feito a tia do grupo?
- Bernadete, traga o seu ditado para a tia ver, sim, querida.
O pai, a mãe dizia que o pai era um banana. Como o pai podia ser uma banana? Quem sabe era porque o pai era muito gozado, grande e meio torto, feito uma banana d’água? O pai tinha até as pintas da banana d’água na cara. O pai, magrinho, magrinho. Feito o bigodinho dele. É, tudo no pai era magrinho. Menos os livros dele. Bah! Cada livrão! Um tal de código disso, um tal de código daquilo... A casa, cheinha de livros. A mãe dizia que os livros eram a comida do pai. O pai não gostava mas porém ficava calado, lendo, nem era com ele. Os olhos dele é que riam. Riam pra quem? Pra Bernadete, o benzinho dele, né? O pai gostava barbaridade de B. Bruno, Bráulio,, Bernardo, Bernadete, Benício. O pai e o vô também eram Benício. Mas porém o pai do pai era outro, morava longe e só andava numa cadeira de rodas. Duas rodonas e duas rodinhas, as pernas do vô Justino. O pai era advogado e queria ser juiz feito o pai dele. Daí o pai estudar esse tanto, né?
Um domingo, no oitavo aniversário de Bernadete, vô Benício de banho tomado, o cabelo penteado até, bah!, com a camisa nova, na cabeceira da mesa.
- Dedeta, vem cá no colo do vô! Vem, polaquinha do vô, vem!
A sala inteira olhando pra ela. A Dona Inveja suspirando, né?
- Tu quando crescer que ser o quê, Dedeta?
- Bah! Vô, piá, né?
- Guria! – fez a mãe, rindo, mas porém sem querer, com a gente toda.
Quando a parentada foi embora, a mãe não quis nem saber da sujeira que tinha ficado na casa depois daquela função. Quis saber foi de chinelada, chinelada, chinelada...
- Onde já se viu uma guria expor a sua mãe assim ao ridículo e na frente de todo o mundo?! Tu quer me enlouquecer mesmo, né?
Daí a mãe fazia aquele barulhão lá com os dentes dela. Era outra mania da mãe fazer aquilo quando ficava braba. O pai dizia que aquilo era brux... brux... bruxismo, uma palavra difícil, né, gente?
O pai ouviu tudinho mas porém ficou calado, lá no meio dos livrões dele. Bernadete foi para o quarto, dela e do caçula.
- Bê, pára de chorar. Não tá doendo, não, piá. Eu nem tô chorando, tô?
- Por que tu nunca chora, Deta? Como é que tu faz isso? Olha, teu braço tá vermelhão. Não tá doendo, não, Deta?
O Bê chorava por ela, pela tundas que ela levava todo dia, só o Bê. Os outros manos? Tá bom, jacaré! Não ligavam pra ela, não. Nem pro Bê. Nem pro pai. Nem pro vô Benício. Mas porém eles ligavam pra mãe, sim. Agora judiação era com aqueles três. De primeiro, judiação com os gatos. Depois com os cachorros. Eles ajudavam os homens da carrocinha até, aqueles pestinhas!
A mãe só batia nos braços de Bernadete. Eles ficavam roxinhos no dia seguinte. As marcas da chinela de couro. O pai não gostava mas porém ficava calado. Parecia que o pai tinha medo da mãe. Parecia que o vô Benício também tinha medo da mãe. Um pai ter medo da filha, como é que podia uma coisa assim? O vô, a mãe dizia que o vô era um traste. Tá certo, o vô tinha um cheiro velho, tinha, fazia um barulhão quando tomava a sopa, fazia, vivia mexendo na bunda das empregadas da cozinha, vivia, mas porém todo dia tinha uma história de bruxa pra contar. A bruxa aparecia que aparecia nos sonhos de Bernadete. Cada dia a bruxa ia ficando mais real... É, e só uma pessoa ouvia as histórias de bruxa do vô Benício. Adivinha quem? Ela, Bernadete, né? Quem que podia de ser? O Bê também ouvia mas porém tinha um medão lá com ele. Ficava junto, tampando os ouvidos, fechando os olhinhos, que era pra não ouvir a voz do vô, que era pra não ver as caras que o vô fazia. O Bê tem cada uma!
Bernadete tava uma boniteza que só naquele vestidinho azul com a guriazinha com duas trancinhas com a flor amarela bem no meio do peito. Tá certo, ele tava ficando curto pra ela, tava, a flor tava quase branca, tava, tinha já um furinho bem no meio da flor da guriazinha, tinha, mas porém ela cada vez mais gostava dele. Será que era porque o pai é que tinha dado ele pra ela? Claro, Clara! A coleguinha e vizinha, a Dona Inveja, dava mais um suspiro. Mas porém chegou a mãe:
- Guria! Quê que tu tá fazendo com esse vestido aí? Eu não te disse pra ti ponhar o macaquinho preto?
- Mãe, eu quero ir na festa do grupo com o meu vestidinho azul com a gurizinha com trancinhas com a flor amarela, né?
- Guria, tira esse vestido já! – gritou a mãe.
- Não tiro, não, nunca.
A mãe mandou a Clara ir pra casa dela. A mãe não tava de chinela no pé, não. Tava bonitona até, o cabelo num rabo-de-cavalo, pintada, o vestido verde feito os olhos dela. A mãe quis tirar o vestidinho na força. Bernadete não deixou, não. Mas porém a mãe pegou o bracinho esquerdo de Bernadete e mordeu grande. Tão grande que saiu sangue. As marcas dos dentões da mãe no bracinho da filha. Pareciam um coraçãozinho até! Bernadete chorou? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Quem chorou foi a mãe, vermelhona, se descabelando, malvada, correndo pro banheiro. O Bê, a mãe dizia que o Bê era um piá de bosta. Tá certo, o Bê fazia xixi toda noite na cama, fazia, não gostava de tomar banho, não, não gostava, vivia sumindo com as bombas do pai, vivia, ô piá danado! Mas porém só o Bê tinha muitos carinhos nas mãozinhas e só ele chorava por ela. Ô piá querido barbaridade! De noite, o pai e o vô Benício conversaram que conversaram no escritório do pai. Vô Benício fez que sim com a cabeça e chorou. Daí o pai ligou pro pai dele:
- Pai, eu... eu vou internar a Malvina...
Daí o pai ligou de novo. Chegou um carro branco. Três homens pretos de roupa branca arrombaram com o pai a porta do banheiro e botaram na mãe uma camisa branca com muitas mangas e apertada barbaridade! A mãe gritava que gritava, chorava que chorava, mas porém o pai ficou calado. A cara da mãe, toda borrada. Bah! Feito uma bruxa, a mãe! Daí a noite chegou e engoliu o carro branco. O vô e os manos e as empregadas e a Clara e os pais da Clara e um montão de gente choravam na calçada. Bernadete? Tá bom, jacaré! Chorou nada. Riu até, com uma maldade guria. Um sorriso meio banguela, feito o da Dona Inveja.
- Guria!
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
DIVINO 45 - NORTE
(para Laércio Nora Bacelar)
Diz-que ele veio com as chuvas, com as enchentes, com o inverno. Época em que os garimpos esvaziam, as fofocas rareiam, as corruptelas murcham. Época de vir para a cidade. De batear parentes e aderentes. De sufoco, para quem não conseguiu juntar o seu ourinho. De esmolar. De banditar. De guaxebar.
De onde ele veio? Mistério. Para uns, é goiano ou mineiro. Por amor do nome, Divino. Não existe a Festa do Divino em Goiás? Não existe Divinópolis em Minas Gerais? Depois, vive calado, pegando tudo com os olhos, os ouvidos. Mineirando. Para outros, aquele um veio mais é dos quintos. Sim, o Divino podia proceder mesmo de Deus.
O sobrenome é 45. Só. Diz-que que não chega a um metro e sessenta de altura. Não ri nunca. É magro. Não fuma. Não bebe. Não joga. Até hoje ninguém o viu por aí com alguma trombadinha zoneando. Quando vai às corrutelas, é a serviço. Não tem boroca. Nem capanga. Ando sozinho. Parceiro de Deus, sócio! Atrás dos óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. O 45? Já faz parte da anatomia dele. Não sai do corpo nem quando ele vai banhar.
Diz-que é canhoto. Outra semelhança com o Cão? A cabeça, o alvo. Divina pontaria. E se benze antes e depois dos serviços, os quais são contratados no MIRANTE III, um barzinho a cavaleiro para o Madeira e que nos dá a medida exata da beleza avermelhada do rio. Ou então em alguma das incontáveis casas de compra e venda de ouro da Avenida Sete de Setembro, a WALL STREET porto-velhense.
Divino vive bem. Quatrocentos gramas, o preço. De ouro, naturalmente. Coca, nem refrigerante. Ele não tolera vícios. Embora, a bem da verdade, tenha um. Um único vício. Letal. Diz-que é dono de muitas casas em Rondônia e de uma fazenda na Bolívia. Só aceita um serviço por mês. Nada contra mulher ou criança. Somente contra bicho macho, adulto. É sistemático que só, o Divino, sô!
Diz-que estuda os serviços antes de executá-los. Por isso mesmo nunca falha. Nenhum serviço dele ficou incompleto, insolúvel. Malícia e perícia, a receita. Sim, profissional. O melhor que já andou por estas margens do Madeira. Diz-que os serviços dele já passam de setenta. Eita! Com os anos, cada vez mais perfeitos. Se pegou serviços difíceis? Bastantes. Houve um que lhe deu uma canseira da porra! Além de deixa-lo meio guenzo do lado direito para o resto da vida. Assim: Divino tomou conhecimento do Gaúcho. Esse, o nome do serviço. Perdigueiro, Divino farejou-o. Sombra, acompanhou-o, mediu-o bem. O Gaúcho era grande. Demais da conta, sô! Parecia não acabar mais. Ria e falava alto. Como todo bom gaúcho, pensou Divino com o zíper da jaqueta de couro recentemente transada com os muambeiros da Praça Jônathas Pedrosa. O gaúcho enroscava-se na trombadinha com jeito de catarina. Lambuzava-a de beijos. Ele tinha bamburrado, via-se. A F-1000 zerada, as grossas correntes pepitadas, parando no VILA RICA, o único cinco-estrelas de Rondônia, os litros de CHIVAS REGAL 12, jorrando na mesa... É, as dragas do Gaúcho estavam fazendo ouro, muito ouro. Corria que ele já detonara cinco peões, inclusive um guaxeba. Corria também que ele estava jurado pelos federais. Andava sempre berrado. Três oitão. Sem guarda-costas. Divino estudava-o da outra mesa da churrascaria. Beliscava o rodízio enquanto devorava com os olhos o Gaúcho. As antenas divinas captando o mínimo tique do outro. Divino nineirando ao sabor do pudim de leite, deleite. Divino diabólico. No estacionamento do hotel, fazendo as vezes de guardador de carros. Dentro da madrugada, à espera do serviço. O amarelo da F-1000 entrando no pátio. Estacionando. O Gaúcho em pé, atrás da porta aberta. Remexendo alguma coisa no assento da caminhonete. Voltando-se. Dando de cara com o Divino. Crescido. Próximo. Abaixado, o vidro fumê do lado do volante. O tórax do Gaúcho esquadriado pela janela da F-1000. O Gaúcho esquadrinhando. A voz divina. Sibilante. Sibilina:
- Sô!
E o Gaúcho:
- Pára aí mesmo, chê! A menos que tu queiras comer chumbo do grosso!
- Uai, sô! Eu sou do hotel!
- Hotel é? Pois toma hotel, seu leso!
Divino recebeu o projétil à altura do ombro direito. Sentiu a clavícula quebrar-se. Caindo, sacou o 45: três disparos contra o peito do Gaúcho. As balas passaram por entre a janela da F-1000. Jogaram o Gaúcho para dentro da caminhonete. Impassível, sem nenhum esgar, Divino levantou-se. Deu uns passos. Apontou o 45 para a cabeça do Gaúcho, que ainda estrebuchava e dizia coisas sem sentido. Divino lembrou-se do sinal-da-cruz. Mas como se o lado direito parecia não existir? Ele carecia era de apurar logo aquilo! Já demorara demais da conta, sô!
- Deus não quer que cê viva mais, sócio!
Detonada a cabeça do Gaúcho, Divino fez o da-cruz. Pôs o 45 dentro da jaqueta. Voltou-se. Agora, sim, a custo. O trem doido, doído, sô! Avançou a pé, madrugada adentro, sob as janelas curiosas do cinco-estrelas.Guenzamente.
Sim, muito perigoso, insalubre, o ofício do Divino. Sem INSS, sem Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Ofício maldito. Porque quem caça, um dia acaba caçado. Como sucedeu certa vez com o Divino. E sucederá de novo, ele sabe. O Divino não tendo o serviço; o Divino sendo o serviço. Eita! Mas como esquecer aquele um, o Ofélio Cascavel? É, duas vezes cobra, sócios! Um cabra sarará. Cabelo de fogo. Fogoiô, como dizem. Bexiguento. Com olho azul aquoso. Todos no toco da lâmina. Peixeira. A dita tendo até nome de gente, Tiana. Pode uma coisa assim, sócios? Pondo o de-dentro do cabra para fora. E na tocaia, como reza a praxe guaxeba. Ofélio Cascavel caçando, fuçando o Divino. E cadê o abestado? Nem cheiro daquele mundiça! Onde pararia aquele filho duma égua? Porto Velho vasculhada, vigiada pelo aguado azul dos olhos do Ofélio, cascavel rastreado a presa, armando o arremesso. Divino? Menino, brincando de esconde-esconde.
Diz-que está na OUROMINAS, queimando um ourinho.
- Está?
- Não. Acabou de sair, mano.
Diz-que foi visto na OUROLÂNDIA.
- Viu?
- Vi. Mas já foi. Tomou um cafezinho e subiu a Sete.
Diz-que entrou na ELDORADO.
- Entrou?
- Entrou, sim. Saiu há pouquinho. Vai aí na frente. Você não trombou com ele, não?
Diz-que está no MIRANTE II, saboreando um queijinho e o Madeirão, duas perdições do Divino.
- Está?
- Esteve. Só quis uma água mineral. Foi logo embora, levando com ele a garrafinha.
- Fuleragem!
Ofélio ofegante, ofendendo-se. Fazia três meses que ele perseguia aquele excomungado! Nada do peste! Divino? Na dele, calmo que só. Em recesso. De férias. Só no tacacá. Só no dindim de cupuaçu. Ô trem bom, sô! Divino ubíquo. Visto por todos. Menos por um, o Ofélio, que começava a tresandar, cegar-se de tanto ódio. Fuleragem! Até já pensava em não matar mais o Divino. Apenas torar-lhe a munheca canhoteira. A boa. A temida. A famigerada. Melhor torar também a direita, que aquele Cão podia virar destro: aí ia querer vingança. Por que não torar logo os pés? Não tinha um cabra lá no Ceará que usava os dedos dos pés nos gatilhos das bacamartes? Ah, queria ver aquele abestado do Divino ser guaxeba depois! É, o Divino terminando os dias dele esmoler na Sete de Setembro... Sem o 45. Sem mãos. Sem pés. Sem aqueles óculos escuros que escondem um baitolão; É, um baitolão. Ele que espere, o Divino! O dele não tarda, já está encomendado. Não é verdade, Tiana?
Mas, rapaz! Diz-que o Ofélio Cascavel entornava uns cajuás num brega do Roque, nada são. Tinha até dado umas cafungadas a mais, quando o Divino apareceu – ninguém sabe de onde e como. Sibilou no ouvido direito do cearense:
- Cê tá me caçando, sócio? Dá teus pulos!
Ofélio viajava ainda. Apoiara a cabeça no balcão. Com dificuldade, ergueu-a: o azul líquido contra o fundo branco e vermelho descobria o Divino. O serviço, afinal. O excomungado! O filho duma égua! O mundiça! O abestado! O Cão! A Morte. Eita! Sob o cinto, do lado esquerdo, Tiana. Íntima. Vibrátil. Excitadíssima.
Divino sibilou novamente, num quase-sorriso:
- Reza, sócio! Teu dia chegou!
Ofélio Cascavel tentando esboçar uma reação, um bote. Recuando a fim de socorrer-se da inseparável e afiada amiga. Ruindo, noiadão. Entregue. À mercê do Divino 45. A cabeça do cearense explodindo. O chapisco de sangue nas mesas, no povo. Guaxeba que mata guaxeba tem cem anos de perdão, com mais serviços no mês que vem, filosofou Divino consigo. Em seguida, fez o da-cruz. Guardou o 45 sob a camisa estampada, que o engolia. Caminhou para o que restava da tarde de sábado. Indiferente e oblíquo. Divinamente.
Diz-que Divino descia, outro dia, a Sete de Setembro: ia fazer lâmina. Amarelo-malária que só. Diz-que foi a Cascavel, a outra, a do Paraná. A serviço. Diz-que trocou o 45 pela Bíblia. E engordou. E casou. E arranjou um punhado de filhos. Diz-que não usa mais óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. Ostenta agora um bigodinho à Hitler. Eita! Diz-que se mata para viver. Diz-que vive de matar.
(para Laércio Nora Bacelar)
Diz-que ele veio com as chuvas, com as enchentes, com o inverno. Época em que os garimpos esvaziam, as fofocas rareiam, as corruptelas murcham. Época de vir para a cidade. De batear parentes e aderentes. De sufoco, para quem não conseguiu juntar o seu ourinho. De esmolar. De banditar. De guaxebar.
De onde ele veio? Mistério. Para uns, é goiano ou mineiro. Por amor do nome, Divino. Não existe a Festa do Divino em Goiás? Não existe Divinópolis em Minas Gerais? Depois, vive calado, pegando tudo com os olhos, os ouvidos. Mineirando. Para outros, aquele um veio mais é dos quintos. Sim, o Divino podia proceder mesmo de Deus.
O sobrenome é 45. Só. Diz-que que não chega a um metro e sessenta de altura. Não ri nunca. É magro. Não fuma. Não bebe. Não joga. Até hoje ninguém o viu por aí com alguma trombadinha zoneando. Quando vai às corrutelas, é a serviço. Não tem boroca. Nem capanga. Ando sozinho. Parceiro de Deus, sócio! Atrás dos óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. O 45? Já faz parte da anatomia dele. Não sai do corpo nem quando ele vai banhar.
Diz-que é canhoto. Outra semelhança com o Cão? A cabeça, o alvo. Divina pontaria. E se benze antes e depois dos serviços, os quais são contratados no MIRANTE III, um barzinho a cavaleiro para o Madeira e que nos dá a medida exata da beleza avermelhada do rio. Ou então em alguma das incontáveis casas de compra e venda de ouro da Avenida Sete de Setembro, a WALL STREET porto-velhense.
Divino vive bem. Quatrocentos gramas, o preço. De ouro, naturalmente. Coca, nem refrigerante. Ele não tolera vícios. Embora, a bem da verdade, tenha um. Um único vício. Letal. Diz-que é dono de muitas casas em Rondônia e de uma fazenda na Bolívia. Só aceita um serviço por mês. Nada contra mulher ou criança. Somente contra bicho macho, adulto. É sistemático que só, o Divino, sô!
Diz-que estuda os serviços antes de executá-los. Por isso mesmo nunca falha. Nenhum serviço dele ficou incompleto, insolúvel. Malícia e perícia, a receita. Sim, profissional. O melhor que já andou por estas margens do Madeira. Diz-que os serviços dele já passam de setenta. Eita! Com os anos, cada vez mais perfeitos. Se pegou serviços difíceis? Bastantes. Houve um que lhe deu uma canseira da porra! Além de deixa-lo meio guenzo do lado direito para o resto da vida. Assim: Divino tomou conhecimento do Gaúcho. Esse, o nome do serviço. Perdigueiro, Divino farejou-o. Sombra, acompanhou-o, mediu-o bem. O Gaúcho era grande. Demais da conta, sô! Parecia não acabar mais. Ria e falava alto. Como todo bom gaúcho, pensou Divino com o zíper da jaqueta de couro recentemente transada com os muambeiros da Praça Jônathas Pedrosa. O gaúcho enroscava-se na trombadinha com jeito de catarina. Lambuzava-a de beijos. Ele tinha bamburrado, via-se. A F-1000 zerada, as grossas correntes pepitadas, parando no VILA RICA, o único cinco-estrelas de Rondônia, os litros de CHIVAS REGAL 12, jorrando na mesa... É, as dragas do Gaúcho estavam fazendo ouro, muito ouro. Corria que ele já detonara cinco peões, inclusive um guaxeba. Corria também que ele estava jurado pelos federais. Andava sempre berrado. Três oitão. Sem guarda-costas. Divino estudava-o da outra mesa da churrascaria. Beliscava o rodízio enquanto devorava com os olhos o Gaúcho. As antenas divinas captando o mínimo tique do outro. Divino nineirando ao sabor do pudim de leite, deleite. Divino diabólico. No estacionamento do hotel, fazendo as vezes de guardador de carros. Dentro da madrugada, à espera do serviço. O amarelo da F-1000 entrando no pátio. Estacionando. O Gaúcho em pé, atrás da porta aberta. Remexendo alguma coisa no assento da caminhonete. Voltando-se. Dando de cara com o Divino. Crescido. Próximo. Abaixado, o vidro fumê do lado do volante. O tórax do Gaúcho esquadriado pela janela da F-1000. O Gaúcho esquadrinhando. A voz divina. Sibilante. Sibilina:
- Sô!
E o Gaúcho:
- Pára aí mesmo, chê! A menos que tu queiras comer chumbo do grosso!
- Uai, sô! Eu sou do hotel!
- Hotel é? Pois toma hotel, seu leso!
Divino recebeu o projétil à altura do ombro direito. Sentiu a clavícula quebrar-se. Caindo, sacou o 45: três disparos contra o peito do Gaúcho. As balas passaram por entre a janela da F-1000. Jogaram o Gaúcho para dentro da caminhonete. Impassível, sem nenhum esgar, Divino levantou-se. Deu uns passos. Apontou o 45 para a cabeça do Gaúcho, que ainda estrebuchava e dizia coisas sem sentido. Divino lembrou-se do sinal-da-cruz. Mas como se o lado direito parecia não existir? Ele carecia era de apurar logo aquilo! Já demorara demais da conta, sô!
- Deus não quer que cê viva mais, sócio!
Detonada a cabeça do Gaúcho, Divino fez o da-cruz. Pôs o 45 dentro da jaqueta. Voltou-se. Agora, sim, a custo. O trem doido, doído, sô! Avançou a pé, madrugada adentro, sob as janelas curiosas do cinco-estrelas.Guenzamente.
Sim, muito perigoso, insalubre, o ofício do Divino. Sem INSS, sem Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Ofício maldito. Porque quem caça, um dia acaba caçado. Como sucedeu certa vez com o Divino. E sucederá de novo, ele sabe. O Divino não tendo o serviço; o Divino sendo o serviço. Eita! Mas como esquecer aquele um, o Ofélio Cascavel? É, duas vezes cobra, sócios! Um cabra sarará. Cabelo de fogo. Fogoiô, como dizem. Bexiguento. Com olho azul aquoso. Todos no toco da lâmina. Peixeira. A dita tendo até nome de gente, Tiana. Pode uma coisa assim, sócios? Pondo o de-dentro do cabra para fora. E na tocaia, como reza a praxe guaxeba. Ofélio Cascavel caçando, fuçando o Divino. E cadê o abestado? Nem cheiro daquele mundiça! Onde pararia aquele filho duma égua? Porto Velho vasculhada, vigiada pelo aguado azul dos olhos do Ofélio, cascavel rastreado a presa, armando o arremesso. Divino? Menino, brincando de esconde-esconde.
Diz-que está na OUROMINAS, queimando um ourinho.
- Está?
- Não. Acabou de sair, mano.
Diz-que foi visto na OUROLÂNDIA.
- Viu?
- Vi. Mas já foi. Tomou um cafezinho e subiu a Sete.
Diz-que entrou na ELDORADO.
- Entrou?
- Entrou, sim. Saiu há pouquinho. Vai aí na frente. Você não trombou com ele, não?
Diz-que está no MIRANTE II, saboreando um queijinho e o Madeirão, duas perdições do Divino.
- Está?
- Esteve. Só quis uma água mineral. Foi logo embora, levando com ele a garrafinha.
- Fuleragem!
Ofélio ofegante, ofendendo-se. Fazia três meses que ele perseguia aquele excomungado! Nada do peste! Divino? Na dele, calmo que só. Em recesso. De férias. Só no tacacá. Só no dindim de cupuaçu. Ô trem bom, sô! Divino ubíquo. Visto por todos. Menos por um, o Ofélio, que começava a tresandar, cegar-se de tanto ódio. Fuleragem! Até já pensava em não matar mais o Divino. Apenas torar-lhe a munheca canhoteira. A boa. A temida. A famigerada. Melhor torar também a direita, que aquele Cão podia virar destro: aí ia querer vingança. Por que não torar logo os pés? Não tinha um cabra lá no Ceará que usava os dedos dos pés nos gatilhos das bacamartes? Ah, queria ver aquele abestado do Divino ser guaxeba depois! É, o Divino terminando os dias dele esmoler na Sete de Setembro... Sem o 45. Sem mãos. Sem pés. Sem aqueles óculos escuros que escondem um baitolão; É, um baitolão. Ele que espere, o Divino! O dele não tarda, já está encomendado. Não é verdade, Tiana?
Mas, rapaz! Diz-que o Ofélio Cascavel entornava uns cajuás num brega do Roque, nada são. Tinha até dado umas cafungadas a mais, quando o Divino apareceu – ninguém sabe de onde e como. Sibilou no ouvido direito do cearense:
- Cê tá me caçando, sócio? Dá teus pulos!
Ofélio viajava ainda. Apoiara a cabeça no balcão. Com dificuldade, ergueu-a: o azul líquido contra o fundo branco e vermelho descobria o Divino. O serviço, afinal. O excomungado! O filho duma égua! O mundiça! O abestado! O Cão! A Morte. Eita! Sob o cinto, do lado esquerdo, Tiana. Íntima. Vibrátil. Excitadíssima.
Divino sibilou novamente, num quase-sorriso:
- Reza, sócio! Teu dia chegou!
Ofélio Cascavel tentando esboçar uma reação, um bote. Recuando a fim de socorrer-se da inseparável e afiada amiga. Ruindo, noiadão. Entregue. À mercê do Divino 45. A cabeça do cearense explodindo. O chapisco de sangue nas mesas, no povo. Guaxeba que mata guaxeba tem cem anos de perdão, com mais serviços no mês que vem, filosofou Divino consigo. Em seguida, fez o da-cruz. Guardou o 45 sob a camisa estampada, que o engolia. Caminhou para o que restava da tarde de sábado. Indiferente e oblíquo. Divinamente.
Diz-que Divino descia, outro dia, a Sete de Setembro: ia fazer lâmina. Amarelo-malária que só. Diz-que foi a Cascavel, a outra, a do Paraná. A serviço. Diz-que trocou o 45 pela Bíblia. E engordou. E casou. E arranjou um punhado de filhos. Diz-que não usa mais óculos de armação dourada e lentes verde-escuras. Ostenta agora um bigodinho à Hitler. Eita! Diz-que se mata para viver. Diz-que vive de matar.
terça-feira, 27 de abril de 2010
PONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
O GRINGO
(para Rafael Bresller)
É terra de ninguém e de todo mundo, o garimpo. É, sócios, no garimpo dá de tudo. Aí vi coisas incontáveis. Coisas garimpeiras. Exemplo? Gente defecando, às escondidas, dentro da noite madura, o roubo, o ouro, que engolira de dia. Prostitutas de oito e de oitenta anos. Gauxebas, quer dizer, matadores profissionais. Vi chineses, árabes, nigerianos, peruanos, polacos, gregos e goianos, alemães, norte-americanos, portugueses, colombianos, angolanos, artentinos, o Diabo bem mais que Deus, acreditem. E ex-professor, ex-promotor de justiça, ex-vereador, ex-gerente de banco, ex-médico, ex-gente. Eu era também um ex-. Assim como ele, o herói desta história, o Gringo. O meu amigo de todas as horas. O que conhecia todos os garimpos do Madeirão. Do Belmonte ao Embrapa. O que sabia rastrear ouro como ninguém. O que é sem nome. Só fama. Mito. Como quase tudo aqui na Amazônia. O Gringo. Que já se garimpeirou. Que já se rondonizou. Que já se amazonizou. Que já se abrasileirou. Gringo, anti-malárico. Argentino-judeu. Melhor: judeu-argentino-brasileiro. Ex-engenheiro naval. Construindo dragas e poemas. E foi isso que nos juntou, mais estes do que aquelas, confesso a vocês, sócios. Eu conto.
Corria o bamburro de 1983. Todos tínhamos ouro e couro. Os aspirantes a garimpeiros enxameavam a Rodoviária de Cuiabá. A rodovia para o Eldorado brasileiro, a 364. Lá vínhamos também nós, paranaenses, catarinenses, gaúchos, os do Sul, e a nossa fome do nada vil metal, do nosso ourinho-de-cada-dia. A minha fome era outra, tinha outra cor. Deixara o Sul pelo Norte. Curitiba pelo Sovaco-da-Velha. A advocacia pela garimpagem. No fundo, bateando bem as coisas, corria em busca de mim.
Voltando ao Gringo, que é o que importa aqui. Cruzando-nos no GOD’S GOLD, um brega do Abunã. O domingo dera chuvoso. Quando entrei, o Gringo, junto à janela, parecia cantar ou declamar. Gesticulava para ninguém. Ainda pude ver-lhe o braço esquerdo erguido. Deixou-o cair violentamente sobre a mesa. A garrafa de vodka e o copo saltaram mas ele os pegou no ar com muito reflexo. Olhos azuis, pequenos, buscaram-me. Declamou novamente, alto, virado para mim, como que querendo que eu o ouvisse:
- “J’ai plus de souvenirs que si j’avais Mille ans.”
Pasmei. Eu não podia acreditar no que ouvia. Aquilo era Francês, ainda que com um acento estranho, aquilo era “Spleen”, aquilo era Baudelaire, “Mon Dieu!”. Sorri para o seu sorriso barbudo. Ele:
- “Qué te parece?”
- Bom, muito bom. Mas prefiro “L’albatros”.
- “Entonces vos sos também un baudelairiano?”
- Gosto dele barbaridade.
- “No me digas que vos sos poeta, no?”
- Quem não cometeu um verso na vida?
- “Essa me gustó! No querés tornar un vodka conmigo?”
- Eu sou mais do fermentado.
- “Por qué no destilado y fermentado?”
- Por que não?
-“Es ruso, legítimo. Lo estoy trayendo de Bolivia. Tengo una caja ahí en el jeep.”
Peguei minha boroca do balcão e fui até a mesa dele. Sentei-me. O Gringo gritou para o homem do brega:
- “Traeme outro vaso y uma cerveja helada, Jacaré!”
Secamos três garrafas de vodka e dúzias de cervejas. Baudelairizamos o garimpo, a vida.
No Engesa bem esmerilhado, na estrada para Porto Velho, eu me biografei. Depois, foi a vez dele. Era de Buenos Aires. Casado. Cinco filhos, cinco valentes, nenhuma dama, gozou. O caçula era brasileiro. Gostava era de vagabundear. No Brasil, criara raízes, vinte anos. Vinte anos garimpeiros. Vinte anos amazônicos. Os outros quatro filhos espalhados no mundo. Nova Iorque, Paris, Sidnei, Montevidéu, lugares onde ele morava. O caçula, Charles, em homenagem a Baudelaire, claro, com a mãe, também portenha, em Manaus. Ele já passava dos sessenta anos. Podia ser meu pai. Tinha um quê, ou muito, de Hemingway. Talvez apenas um pouco mais baixo. Mas a mesma barba branca. O mesmo peso. A mesma sede. O mesmo amor às carabinas e ao sangue. A mesma filoginia. O mesmo telurismo. O mesmo urso branco. Carbonário barbaridade. Falei-lhe das semelhanças. Ele, surpreendentemente num perfeito Português:
- Certo. Já me falaram isso. Mas quem me habita é um homicida, e não um suicida. Não se esqueça disso.
Fizemo-nos amigos. Mais do que devíamos, avalio hoje. Virei gente dele. Gerente. Ele bamvurrava, eu bamburrava. Aí esbanjávamos. Nossos, a cidade e o mundo. Ele a lua, eu a sombra. Ele brocava, eu brocava, Arroz, arroz, arroz. Sobremesa: arroz-doce. “Jogo duro, sócios”, como dizia um carioca do Mundo, professor de Literatura e de Melancolia, amigo comum nosso.
O Gringo e eu às voltas com as dragas, maracás, abacaxis, bombas, mangueiras, motores, versos, estrofes, metáforas, romances, Khlebnikov, Bukowski, o Gingo era tarado em Bukowski, Bakunin etc. O garimpo e a literatura. O ouro e a palavra. O ouro da palavra. O ouro de tolo.
-“Escribir es garimpar, Bachiller!”
Dera para me chamar assim, “Bachiller”. Sempre pai, nunca patrão, o Gringo. E não só comigo mas com todos os empregados. Não podendo viver sem sorvete, sem tango, de Gardel, não de Piazzolla (e aí residia a nossa única discordância), sem “uma menininha” (o Gringo era um pedófilo dos diabos), sem uma “canabis sativa”, sem uma “cafungada”.
- Não se assuste, Bachiller, sou um haxixeiro bissexto. “Mis paraísos no son artificiales, como los de Baudelaire, sino naturales, las menininhas, menininhas, menininhas.”
E dava risadas. Argentinamente.
- “Bachiller, a um hombre que ya pasó la casa de los sesenta, todo es permitido, sobretodo aquí en el garimpo. Nadie llega impunemente a los sesenta. Lo vas a ver cuando llegue tu vez.”
Eu o provocava:
- E você já permitiu tudo, Gringo?
- “Casi todo, Bachiller. Hay algo que todavia no hice: entregar el rosquete. Es que tengo miedo que me guste.”
Argentina, rascante, vermelha, a gargalhada dele.
Tinha outra tara, o tarô. Ele, na verdade, era um iniciado, o Gringo. Isso de ser esotérico seduzia ainda mais os meus olhos exotéricos. Transformava-o em bruxo. Nunca quis deitar carta para mim.
- - “Yo ya conosco todos los tus arcanos, Bachiller.”
- Porra, mas eu não!
Ele:
- “A veces, es mejor ignorar lo que seremos, lo que haremos…
E desconversava:
- “Qué tal una costillita de tambaqui en el FLUTUANTE, Bachiller?”
Eu insistia:
- Então leia a minha mão, Fúria!
Ele cedia. Gostava que o chamasse de Fúria, melhor ainda, de Jorge Fúria. Era assim que ele assinava os poemas. Jorge Fúria, pseudônimo ou heterônimo?
- “Dejame ver. La línea de la vida... El amor… El juego. El amor y el juego no son para vos, Bachiller. Vos vas a ser un perdedor en los dos – dijo sibilinamente.”
- Não, Fúria!
- “Su palma, su alma, Bachiller. Lo siento. En compensación, vos me vas a sobrevivir…”
- E quanto à vida, Fúria?
- “Vas a ser um gañador.”
Foi quando veio o Grande Blefe, na décda de 90, que quebrou os garimpos, Porto Velho, Rondônia. Nem o Gringo escapou a ele. E olha que o Gringo tinha um ourinho guardado, muito ourinho, diria eu, pois o vi, assim como a carabina de cano duplo, que dormia com ele na cama, o seu nome civil, na carteira de identidade, Rafael Kossing, e o último poema.
O ourinho, repito, era muito mas estava nas mãos dos outros. A carabina com que ele se matou ganhei da família dele. Da mesma forma que o último poema, que ele não me havia mostrado ainda. Tive o privilégio de privar com o Gringo e com Jorge Fúria mas não com Rafael Kossing. Agora entendo melhor, não só a origem mas também o destino da tragédia. Não há Apolo sem Dioniso. E vice-versa. Quanto ao último poema, sem título, prefiro transcrevê-lo a comentá-lo. Ei-lo:
Y los pájaros se fueron...
Y los pájaros dejaron
Sus nidos,
Como los sueños,
Mis realidades.
Los pájaros se fueron…
Como se fueron mis años…
Los pájaros se fueron…
Las marcas de los pájaros en el cielo,
La marca de tu nombre
En mi amor,
Los pájaros se fueron…
Dei-lhe o título de “La búsqueda”. Pareceu-me apropriado. Assim o entenderam a viúva e os cinco valetes. Tenho buscado incessantemente o Gringo nele mas só encontro a mim.
-
(para Rafael Bresller)
É terra de ninguém e de todo mundo, o garimpo. É, sócios, no garimpo dá de tudo. Aí vi coisas incontáveis. Coisas garimpeiras. Exemplo? Gente defecando, às escondidas, dentro da noite madura, o roubo, o ouro, que engolira de dia. Prostitutas de oito e de oitenta anos. Gauxebas, quer dizer, matadores profissionais. Vi chineses, árabes, nigerianos, peruanos, polacos, gregos e goianos, alemães, norte-americanos, portugueses, colombianos, angolanos, artentinos, o Diabo bem mais que Deus, acreditem. E ex-professor, ex-promotor de justiça, ex-vereador, ex-gerente de banco, ex-médico, ex-gente. Eu era também um ex-. Assim como ele, o herói desta história, o Gringo. O meu amigo de todas as horas. O que conhecia todos os garimpos do Madeirão. Do Belmonte ao Embrapa. O que sabia rastrear ouro como ninguém. O que é sem nome. Só fama. Mito. Como quase tudo aqui na Amazônia. O Gringo. Que já se garimpeirou. Que já se rondonizou. Que já se amazonizou. Que já se abrasileirou. Gringo, anti-malárico. Argentino-judeu. Melhor: judeu-argentino-brasileiro. Ex-engenheiro naval. Construindo dragas e poemas. E foi isso que nos juntou, mais estes do que aquelas, confesso a vocês, sócios. Eu conto.
Corria o bamburro de 1983. Todos tínhamos ouro e couro. Os aspirantes a garimpeiros enxameavam a Rodoviária de Cuiabá. A rodovia para o Eldorado brasileiro, a 364. Lá vínhamos também nós, paranaenses, catarinenses, gaúchos, os do Sul, e a nossa fome do nada vil metal, do nosso ourinho-de-cada-dia. A minha fome era outra, tinha outra cor. Deixara o Sul pelo Norte. Curitiba pelo Sovaco-da-Velha. A advocacia pela garimpagem. No fundo, bateando bem as coisas, corria em busca de mim.
Voltando ao Gringo, que é o que importa aqui. Cruzando-nos no GOD’S GOLD, um brega do Abunã. O domingo dera chuvoso. Quando entrei, o Gringo, junto à janela, parecia cantar ou declamar. Gesticulava para ninguém. Ainda pude ver-lhe o braço esquerdo erguido. Deixou-o cair violentamente sobre a mesa. A garrafa de vodka e o copo saltaram mas ele os pegou no ar com muito reflexo. Olhos azuis, pequenos, buscaram-me. Declamou novamente, alto, virado para mim, como que querendo que eu o ouvisse:
- “J’ai plus de souvenirs que si j’avais Mille ans.”
Pasmei. Eu não podia acreditar no que ouvia. Aquilo era Francês, ainda que com um acento estranho, aquilo era “Spleen”, aquilo era Baudelaire, “Mon Dieu!”. Sorri para o seu sorriso barbudo. Ele:
- “Qué te parece?”
- Bom, muito bom. Mas prefiro “L’albatros”.
- “Entonces vos sos também un baudelairiano?”
- Gosto dele barbaridade.
- “No me digas que vos sos poeta, no?”
- Quem não cometeu um verso na vida?
- “Essa me gustó! No querés tornar un vodka conmigo?”
- Eu sou mais do fermentado.
- “Por qué no destilado y fermentado?”
- Por que não?
-“Es ruso, legítimo. Lo estoy trayendo de Bolivia. Tengo una caja ahí en el jeep.”
Peguei minha boroca do balcão e fui até a mesa dele. Sentei-me. O Gringo gritou para o homem do brega:
- “Traeme outro vaso y uma cerveja helada, Jacaré!”
Secamos três garrafas de vodka e dúzias de cervejas. Baudelairizamos o garimpo, a vida.
No Engesa bem esmerilhado, na estrada para Porto Velho, eu me biografei. Depois, foi a vez dele. Era de Buenos Aires. Casado. Cinco filhos, cinco valentes, nenhuma dama, gozou. O caçula era brasileiro. Gostava era de vagabundear. No Brasil, criara raízes, vinte anos. Vinte anos garimpeiros. Vinte anos amazônicos. Os outros quatro filhos espalhados no mundo. Nova Iorque, Paris, Sidnei, Montevidéu, lugares onde ele morava. O caçula, Charles, em homenagem a Baudelaire, claro, com a mãe, também portenha, em Manaus. Ele já passava dos sessenta anos. Podia ser meu pai. Tinha um quê, ou muito, de Hemingway. Talvez apenas um pouco mais baixo. Mas a mesma barba branca. O mesmo peso. A mesma sede. O mesmo amor às carabinas e ao sangue. A mesma filoginia. O mesmo telurismo. O mesmo urso branco. Carbonário barbaridade. Falei-lhe das semelhanças. Ele, surpreendentemente num perfeito Português:
- Certo. Já me falaram isso. Mas quem me habita é um homicida, e não um suicida. Não se esqueça disso.
Fizemo-nos amigos. Mais do que devíamos, avalio hoje. Virei gente dele. Gerente. Ele bamvurrava, eu bamburrava. Aí esbanjávamos. Nossos, a cidade e o mundo. Ele a lua, eu a sombra. Ele brocava, eu brocava, Arroz, arroz, arroz. Sobremesa: arroz-doce. “Jogo duro, sócios”, como dizia um carioca do Mundo, professor de Literatura e de Melancolia, amigo comum nosso.
O Gringo e eu às voltas com as dragas, maracás, abacaxis, bombas, mangueiras, motores, versos, estrofes, metáforas, romances, Khlebnikov, Bukowski, o Gingo era tarado em Bukowski, Bakunin etc. O garimpo e a literatura. O ouro e a palavra. O ouro da palavra. O ouro de tolo.
-“Escribir es garimpar, Bachiller!”
Dera para me chamar assim, “Bachiller”. Sempre pai, nunca patrão, o Gringo. E não só comigo mas com todos os empregados. Não podendo viver sem sorvete, sem tango, de Gardel, não de Piazzolla (e aí residia a nossa única discordância), sem “uma menininha” (o Gringo era um pedófilo dos diabos), sem uma “canabis sativa”, sem uma “cafungada”.
- Não se assuste, Bachiller, sou um haxixeiro bissexto. “Mis paraísos no son artificiales, como los de Baudelaire, sino naturales, las menininhas, menininhas, menininhas.”
E dava risadas. Argentinamente.
- “Bachiller, a um hombre que ya pasó la casa de los sesenta, todo es permitido, sobretodo aquí en el garimpo. Nadie llega impunemente a los sesenta. Lo vas a ver cuando llegue tu vez.”
Eu o provocava:
- E você já permitiu tudo, Gringo?
- “Casi todo, Bachiller. Hay algo que todavia no hice: entregar el rosquete. Es que tengo miedo que me guste.”
Argentina, rascante, vermelha, a gargalhada dele.
Tinha outra tara, o tarô. Ele, na verdade, era um iniciado, o Gringo. Isso de ser esotérico seduzia ainda mais os meus olhos exotéricos. Transformava-o em bruxo. Nunca quis deitar carta para mim.
- - “Yo ya conosco todos los tus arcanos, Bachiller.”
- Porra, mas eu não!
Ele:
- “A veces, es mejor ignorar lo que seremos, lo que haremos…
E desconversava:
- “Qué tal una costillita de tambaqui en el FLUTUANTE, Bachiller?”
Eu insistia:
- Então leia a minha mão, Fúria!
Ele cedia. Gostava que o chamasse de Fúria, melhor ainda, de Jorge Fúria. Era assim que ele assinava os poemas. Jorge Fúria, pseudônimo ou heterônimo?
- “Dejame ver. La línea de la vida... El amor… El juego. El amor y el juego no son para vos, Bachiller. Vos vas a ser un perdedor en los dos – dijo sibilinamente.”
- Não, Fúria!
- “Su palma, su alma, Bachiller. Lo siento. En compensación, vos me vas a sobrevivir…”
- E quanto à vida, Fúria?
- “Vas a ser um gañador.”
Foi quando veio o Grande Blefe, na décda de 90, que quebrou os garimpos, Porto Velho, Rondônia. Nem o Gringo escapou a ele. E olha que o Gringo tinha um ourinho guardado, muito ourinho, diria eu, pois o vi, assim como a carabina de cano duplo, que dormia com ele na cama, o seu nome civil, na carteira de identidade, Rafael Kossing, e o último poema.
O ourinho, repito, era muito mas estava nas mãos dos outros. A carabina com que ele se matou ganhei da família dele. Da mesma forma que o último poema, que ele não me havia mostrado ainda. Tive o privilégio de privar com o Gringo e com Jorge Fúria mas não com Rafael Kossing. Agora entendo melhor, não só a origem mas também o destino da tragédia. Não há Apolo sem Dioniso. E vice-versa. Quanto ao último poema, sem título, prefiro transcrevê-lo a comentá-lo. Ei-lo:
Y los pájaros se fueron...
Y los pájaros dejaron
Sus nidos,
Como los sueños,
Mis realidades.
Los pájaros se fueron…
Como se fueron mis años…
Los pájaros se fueron…
Las marcas de los pájaros en el cielo,
La marca de tu nombre
En mi amor,
Los pájaros se fueron…
Dei-lhe o título de “La búsqueda”. Pareceu-me apropriado. Assim o entenderam a viúva e os cinco valetes. Tenho buscado incessantemente o Gringo nele mas só encontro a mim.
-
NORTE - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
DIANA-CHUPETA
Diana. Oito anos. Órfã. Boca-acriana. Analfabeta. Estrábica. Prognata. Piaba. Periquitinha. Menina de rua. Cheira-cola. Cheira-rola. Desfrutável. Estuprável. Coisinha-de-todos. Brocada que só! Debaixo da ponte. Usada. Sodomizada. Cafetizada. Dos picadoces. De fogo. Chincheira. Do melado. Do brilho. Cafungadeira. Craque no crack. Trombadinha. Surrada. Chupetinha. Candiruzinho. Capadeira, olha! Procurada. Na ronda. Sentenciada. Internada. Primeira temporada no inferno.
Diana. Libérrima. De-maior. Doméstica. Do patrão e do batalhão. Na amargura da rua. Blefada que só! Biscate. Buchuda. Mãe solteira. Nas bocas. No Roque. Gata muito doida, olha! Da 364. Dos bandeirinhas. Dos garimpos. Rainha do Prainha. No Bom-Futuro. No Pau-do-Guarda. Na Serra-sem-Calça. No Cai-n’Água. No Araras. A fama da cama. Cozinhando. Lavando. Passando. Trepando. Ourando. Das corruptelas. Dos barrancos. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Trinta e três vezes malárica. Telúrica. Volátil. Anfíbia. Ambidestra. Mão-de-seda. Prestidigitadora. Mil-dedos. Lábios-de-mel. Boca-de-ouro. Boca bendita. Garganta profunda. Engole-homem. Exímia na lambida, na lambada. Cantariz. Bamba do samba. Mítica. Mística. De Zeus e de Mateus. Caçadora. Caça. Da cidade e do mundo. Em Porto Velho. Em Guajará-Mirim. “En Guayaramerin”. Européia. Ouropéia. Dollorizada. Bamburrada que só. Gordinha. Sob o gringo. Sobre o Gringo. Casada. Buchuda. Abortiva. Largada-do-marido. Sangrando. Dentrosa. Dentuda. Navalha. Vira-bicho. Candiru. Segunda temporada no inferno.
Na Penal. Esotérica. Aluna. Líder. Lulista. Blefada que só. Cabeleireira. Chupeta. Três-bocas. Boceta de Pandora. Hábil. Tátil. Labiodental. Uvular. Lúcida. Lúdica. Ritualista. Simbólica. Dramática. Poética. Inexaurível. Irrepetível. Inesquecível. Pedra noventa, sócios! Deusa da felação. Única. Comigo. Contigo. Conosco. Com todos. De Raimundo Nonato. Madrasta. Tomando de conta de José de Ribamar. Jocasta. Nêmesis. Raimundocida. Terceira temporadano inferno.
Indultada. Absorvida. Funcionária pública municipal. Sexagenariamente. Avó. Chupetando ainda, olha! De rocha, sócios! Sem enteado. Entediada. Terminal. Soropositiva. Poita noturna no Madeirão.
Dá dó.
Diana. Oito anos. Órfã. Boca-acriana. Analfabeta. Estrábica. Prognata. Piaba. Periquitinha. Menina de rua. Cheira-cola. Cheira-rola. Desfrutável. Estuprável. Coisinha-de-todos. Brocada que só! Debaixo da ponte. Usada. Sodomizada. Cafetizada. Dos picadoces. De fogo. Chincheira. Do melado. Do brilho. Cafungadeira. Craque no crack. Trombadinha. Surrada. Chupetinha. Candiruzinho. Capadeira, olha! Procurada. Na ronda. Sentenciada. Internada. Primeira temporada no inferno.
Diana. Libérrima. De-maior. Doméstica. Do patrão e do batalhão. Na amargura da rua. Blefada que só! Biscate. Buchuda. Mãe solteira. Nas bocas. No Roque. Gata muito doida, olha! Da 364. Dos bandeirinhas. Dos garimpos. Rainha do Prainha. No Bom-Futuro. No Pau-do-Guarda. Na Serra-sem-Calça. No Cai-n’Água. No Araras. A fama da cama. Cozinhando. Lavando. Passando. Trepando. Ourando. Das corruptelas. Dos barrancos. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Malárica. Trinta e três vezes malárica. Telúrica. Volátil. Anfíbia. Ambidestra. Mão-de-seda. Prestidigitadora. Mil-dedos. Lábios-de-mel. Boca-de-ouro. Boca bendita. Garganta profunda. Engole-homem. Exímia na lambida, na lambada. Cantariz. Bamba do samba. Mítica. Mística. De Zeus e de Mateus. Caçadora. Caça. Da cidade e do mundo. Em Porto Velho. Em Guajará-Mirim. “En Guayaramerin”. Européia. Ouropéia. Dollorizada. Bamburrada que só. Gordinha. Sob o gringo. Sobre o Gringo. Casada. Buchuda. Abortiva. Largada-do-marido. Sangrando. Dentrosa. Dentuda. Navalha. Vira-bicho. Candiru. Segunda temporada no inferno.
Na Penal. Esotérica. Aluna. Líder. Lulista. Blefada que só. Cabeleireira. Chupeta. Três-bocas. Boceta de Pandora. Hábil. Tátil. Labiodental. Uvular. Lúcida. Lúdica. Ritualista. Simbólica. Dramática. Poética. Inexaurível. Irrepetível. Inesquecível. Pedra noventa, sócios! Deusa da felação. Única. Comigo. Contigo. Conosco. Com todos. De Raimundo Nonato. Madrasta. Tomando de conta de José de Ribamar. Jocasta. Nêmesis. Raimundocida. Terceira temporadano inferno.
Indultada. Absorvida. Funcionária pública municipal. Sexagenariamente. Avó. Chupetando ainda, olha! De rocha, sócios! Sem enteado. Entediada. Terminal. Soropositiva. Poita noturna no Madeirão.
Dá dó.
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
NORTE
AMARGO FEITO SORVETE
Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios. Sexta-feira. O dia internacional da cachaça. Sexta-feira, 13. Lua cheia. Quando os lunáticos são chamados. Os da terra. Os da água. Os do ar. Tudo, todos sob o fascínio lunar.
O FORASTEIRO, talvez pra desmentir a semântica, repleto de caras conhecidas. A maioria, garimpeiros. Bamdurrados, é claro. Áureas, as mentes, os dentes, os pescoços, os pulsos, os dedos. Acolá, mais na penumbra, as damas da noite, as flores do mal... Sempre solidárias, nunca solitárias. Não no “trottoir”, que não carece mais, vulgar demais. Mas sim nas “chaises longues”. Aqui, eu, o manso. A incomunicabilidade, o meu inferno. Blefado. Blefadíssimo. Hermann Hesse na alma, três Machados no bolso. Fazer o quê, sócios?
Uma tortura, a música. Lambada, lambada,lambada. Uma dessas geringonças eletrônicas – porque hoje tudo tem de ser eletrônico, não é verdade, sócios? – que mais parece, mas não é, piano, guitarra, baixo, bateria, saxofone, o escambau! O pior é que o “músico” canta...
Pressurosos, os garçons patinam com estilo, driblando mesas, fregueses, bêbados chatos (relevem a redundância, sócios), pequenos vendedores de rosas vermelhas. De quando em quando, aproximam-se, as mãos para trás:
- Mais uma cerpinha aí, doutor?
Doutor, eu? Tem muita graça mesmo isso. Se ele soubesse que eu não passo de um brabo a mais no trecho, pinguço inveterado, com um coração maior que a Amazônia, com muita queda para viagens, garimpagens, ruminações, livros, sofreduras...
A noite inchando, O RORASTEIRO esvaziando. Alguns casais deixando-se ficar ainda, enredados certamente em promessas amorosas. Amor aqui é gema, digo, grama...
A distância, bandeirinhas esgrimem:
- Três!
- Dois!
- Lona, porra!
Repentinamente um vento varre a Avenida Guanabara, levantando uma longa nuvem de poeira. Vento lento. Leviano. Todos nós, os habitantes da noite, excitamo-nos. Como que à espera do que viesse depois do vento. Vento vem de Deus, vento vem do Demo. Vento constrói, vento destrói. O que veio depois do vento, no fundo, não destruiu a noite de muitos forasteiros. Somente a de dois.
Vozes de crianças, de mulher chegaram até mim. Com nitidez:
- Boa pra casa, mãe!
- É, mãezinha, bora lá!
- Eita! Que raça de meninos mais pentelhos eu fui arranjar, hem! Todo dia é a mesma coisa, nós chegamos e vocês já querem ir embora! Égua de meninos!
Posicionei-me melhor. Descobri-os, os dois meninos, a mãe. O mais velho, onze louros anos, talvez doze. O mais novo, uns cinco anos. Curumim. A mãe, balzaca. Desbotada morenez. Acriana, sem erro. Os olhos mais para os carros que passavam cupidamente que para a prole. Justíssima, curtíssima, a malha azul. Emanava dela uma onda adocicada, um perfume de pecado e perfídia. Patchuli, sim, sócios.
A noite madura. Passava já das 23h, o menino mais velho resistia ao sono, embora cabeceasse a todo instante. O curumim é que já dormia. Cruzou os bracinhos sobre a mesa. Travesseirinhos, eles. Ressonava feliz. Então a mãe ergueu-se de repente, falando ao mais velho:
- Não sai daqui, Tiago! Toma de conta do Willian! A mãe volta agorinha.
O menino abriu os olhos o mais que pôde: sofreu.
A mãe dirigiu-se até a calçada junto à qual estacionara um carro. Arrodeou-o. Debruçou-se sobre a janela do motorista. Mercadoria.
O menino mais novo dormia profundamente. Encostara-se agora no espaldar da cadeira. A cabecinha pendia para frente. Uma babinha descia num fiozinho sobre o Batman da camiseta desbotadinha. O menino mais velho, por seu turno, tentava desgarrar-se do sono: não queria dormir! Não podia dormir!
Quando a mãe voltou, encontrou-o cabeceando, sonolento. Ela vinha com outra mulher, riam, riam, riam. Ele esfregou os olhos. Era a Gina, aquela biscatona! Sim, a Gina, aquela... Na ausência da mãe, a Gina gostava de beijar a orelha dele, a língua lá dentro e... as sacanagens que ela falava, ela ensinava pra ele, se ele quisesse... seria o segredo deles... porque ela tinha um xodó nele, o galeguinho dela... Biscatona da porra!
A mãe pegou-lhe o braço. Sacudiu-o. Que ele acordasse, prestasse atenção. A Gina afagou-lhe os cabelos. Ele refugou de imediato a carícia:
- Eita!
A mãe, ternurosa:
- Tiago, você e o Willian vão ficar aqui com a Gina. Ela vai tomar de contar de vocês, tá? Mãezinha vai ali com o tio. Um instantinho só e a mãezinha volta logo.
- Mas, mãezinha, outra vez?
- Merda! Eu não falei que volto logo? Fica aí com a Gina e olha o Willian, hem! Toma dinheiro pra comprar sorvete.
Azulou. Radiante, entrou no carro. Ela ria, fazia carinhos na cabeça do homem, do “tio”, quando o Chevette partiu. Ele viu tudinho, tudinho. Quantos “tios” ele tinha? Uma porrada! Pai é que nenhum... Nem ele nem o Índio.
A perda, o vazio, o nada, para o menino. Com a mãozinha direita apertava as notas, com a mãozinha esquerda enxugava as primeiras lágrimas. Soluçava baixinho, inutilmente.
- Não vai, mezinha! Não vai mãezinha! Não vai, mãezinha!
Os ouvidos da Gina há muito acostumados com aquelas palavras meninas, ferinas. Os meus, não. Ela acendeu um cigarro. Libertinamente. Bebericou a caipirinha. Cruzou as pernas, liberando a fumaça pelas narinas em cima do menino mais velho. Eita! Perguntou a ele se não queria tomar o sorvete de cupuaçu de sempre. Sorvete, uma porra! Quem mais que ele sabia o amargor do sorvete de cupuaçu das sextas-feiras, quem? Olhou para o irmãozinho, que, ao lado, dormia sorrindo, os olhinhos semicerrados. Devia de estar sonhando com beiju e açaí, a tara dele, ou então que estava numa voadeira no Madeirão. Uma inveja da porra dos cinco anos do Índio, como ele chamava o irmão, cada vez mais parecido com a mãe, cada vez mais diferente dele...
Depois, sócios? Depois, o sábado. Morremos. Ele, o Tiago, bem mais que eu, claro.
AMARGO FEITO SORVETE
Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios. Sexta-feira. O dia internacional da cachaça. Sexta-feira, 13. Lua cheia. Quando os lunáticos são chamados. Os da terra. Os da água. Os do ar. Tudo, todos sob o fascínio lunar.
O FORASTEIRO, talvez pra desmentir a semântica, repleto de caras conhecidas. A maioria, garimpeiros. Bamdurrados, é claro. Áureas, as mentes, os dentes, os pescoços, os pulsos, os dedos. Acolá, mais na penumbra, as damas da noite, as flores do mal... Sempre solidárias, nunca solitárias. Não no “trottoir”, que não carece mais, vulgar demais. Mas sim nas “chaises longues”. Aqui, eu, o manso. A incomunicabilidade, o meu inferno. Blefado. Blefadíssimo. Hermann Hesse na alma, três Machados no bolso. Fazer o quê, sócios?
Uma tortura, a música. Lambada, lambada,lambada. Uma dessas geringonças eletrônicas – porque hoje tudo tem de ser eletrônico, não é verdade, sócios? – que mais parece, mas não é, piano, guitarra, baixo, bateria, saxofone, o escambau! O pior é que o “músico” canta...
Pressurosos, os garçons patinam com estilo, driblando mesas, fregueses, bêbados chatos (relevem a redundância, sócios), pequenos vendedores de rosas vermelhas. De quando em quando, aproximam-se, as mãos para trás:
- Mais uma cerpinha aí, doutor?
Doutor, eu? Tem muita graça mesmo isso. Se ele soubesse que eu não passo de um brabo a mais no trecho, pinguço inveterado, com um coração maior que a Amazônia, com muita queda para viagens, garimpagens, ruminações, livros, sofreduras...
A noite inchando, O RORASTEIRO esvaziando. Alguns casais deixando-se ficar ainda, enredados certamente em promessas amorosas. Amor aqui é gema, digo, grama...
A distância, bandeirinhas esgrimem:
- Três!
- Dois!
- Lona, porra!
Repentinamente um vento varre a Avenida Guanabara, levantando uma longa nuvem de poeira. Vento lento. Leviano. Todos nós, os habitantes da noite, excitamo-nos. Como que à espera do que viesse depois do vento. Vento vem de Deus, vento vem do Demo. Vento constrói, vento destrói. O que veio depois do vento, no fundo, não destruiu a noite de muitos forasteiros. Somente a de dois.
Vozes de crianças, de mulher chegaram até mim. Com nitidez:
- Boa pra casa, mãe!
- É, mãezinha, bora lá!
- Eita! Que raça de meninos mais pentelhos eu fui arranjar, hem! Todo dia é a mesma coisa, nós chegamos e vocês já querem ir embora! Égua de meninos!
Posicionei-me melhor. Descobri-os, os dois meninos, a mãe. O mais velho, onze louros anos, talvez doze. O mais novo, uns cinco anos. Curumim. A mãe, balzaca. Desbotada morenez. Acriana, sem erro. Os olhos mais para os carros que passavam cupidamente que para a prole. Justíssima, curtíssima, a malha azul. Emanava dela uma onda adocicada, um perfume de pecado e perfídia. Patchuli, sim, sócios.
A noite madura. Passava já das 23h, o menino mais velho resistia ao sono, embora cabeceasse a todo instante. O curumim é que já dormia. Cruzou os bracinhos sobre a mesa. Travesseirinhos, eles. Ressonava feliz. Então a mãe ergueu-se de repente, falando ao mais velho:
- Não sai daqui, Tiago! Toma de conta do Willian! A mãe volta agorinha.
O menino abriu os olhos o mais que pôde: sofreu.
A mãe dirigiu-se até a calçada junto à qual estacionara um carro. Arrodeou-o. Debruçou-se sobre a janela do motorista. Mercadoria.
O menino mais novo dormia profundamente. Encostara-se agora no espaldar da cadeira. A cabecinha pendia para frente. Uma babinha descia num fiozinho sobre o Batman da camiseta desbotadinha. O menino mais velho, por seu turno, tentava desgarrar-se do sono: não queria dormir! Não podia dormir!
Quando a mãe voltou, encontrou-o cabeceando, sonolento. Ela vinha com outra mulher, riam, riam, riam. Ele esfregou os olhos. Era a Gina, aquela biscatona! Sim, a Gina, aquela... Na ausência da mãe, a Gina gostava de beijar a orelha dele, a língua lá dentro e... as sacanagens que ela falava, ela ensinava pra ele, se ele quisesse... seria o segredo deles... porque ela tinha um xodó nele, o galeguinho dela... Biscatona da porra!
A mãe pegou-lhe o braço. Sacudiu-o. Que ele acordasse, prestasse atenção. A Gina afagou-lhe os cabelos. Ele refugou de imediato a carícia:
- Eita!
A mãe, ternurosa:
- Tiago, você e o Willian vão ficar aqui com a Gina. Ela vai tomar de contar de vocês, tá? Mãezinha vai ali com o tio. Um instantinho só e a mãezinha volta logo.
- Mas, mãezinha, outra vez?
- Merda! Eu não falei que volto logo? Fica aí com a Gina e olha o Willian, hem! Toma dinheiro pra comprar sorvete.
Azulou. Radiante, entrou no carro. Ela ria, fazia carinhos na cabeça do homem, do “tio”, quando o Chevette partiu. Ele viu tudinho, tudinho. Quantos “tios” ele tinha? Uma porrada! Pai é que nenhum... Nem ele nem o Índio.
A perda, o vazio, o nada, para o menino. Com a mãozinha direita apertava as notas, com a mãozinha esquerda enxugava as primeiras lágrimas. Soluçava baixinho, inutilmente.
- Não vai, mezinha! Não vai mãezinha! Não vai, mãezinha!
Os ouvidos da Gina há muito acostumados com aquelas palavras meninas, ferinas. Os meus, não. Ela acendeu um cigarro. Libertinamente. Bebericou a caipirinha. Cruzou as pernas, liberando a fumaça pelas narinas em cima do menino mais velho. Eita! Perguntou a ele se não queria tomar o sorvete de cupuaçu de sempre. Sorvete, uma porra! Quem mais que ele sabia o amargor do sorvete de cupuaçu das sextas-feiras, quem? Olhou para o irmãozinho, que, ao lado, dormia sorrindo, os olhinhos semicerrados. Devia de estar sonhando com beiju e açaí, a tara dele, ou então que estava numa voadeira no Madeirão. Uma inveja da porra dos cinco anos do Índio, como ele chamava o irmão, cada vez mais parecido com a mãe, cada vez mais diferente dele...
Depois, sócios? Depois, o sábado. Morremos. Ele, o Tiago, bem mais que eu, claro.
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