segunda-feira, 10 de maio de 2010

CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS

ELES - OESTE

Nada. Mais uma vez ele chegava sem nada. O olhar vazio. As mãos vazias. O estômago vazio. Se fosse só isso, ele não se nadificaria. O que lhe esvaziava a existência, o que o mortificava era isto: a fome da mulher, da filha. Estes seres queridos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos... pela madrugada adentro, dentro dos ouvidos dele, acusando-o, recriminando-o, penalizando-o. Elas, a vida dele; ele, a morte delas. Não, desta vez ele não chegaria com as mãos vazias. Hoje, sim, ele se tornaria um criminoso. ELES veriam só...
A vidraça, es-ti-lha-ça-da com o soco. Es-ti-lha-ça-da, o escuro silêncio. Ele corria, corria, corria. Fugia dos apitos policiais. As mãos sangravam mas não estavam vazias: apertavam o pão ao coração. Ele ria, ria , ria que chorava. Elas agora estavam salvas, viveriam.
Apenado, ele só pensava nelas, no que elas penavam. Elas, à própria sorte neste momento. Sim, mais um crime que ele cometia contra elas. Será que elas, pelo menos elas, entenderiam que, naquele estado, o que ele fizera fora uma necessidade? Se ele...
A fome comeu elas, tadinhas, disse-lhe a vizinha, talvez a próxima vítima dELES, digo, da fome. Ele levou as mãos à boca: queria vomitar-se. Pensou em entregar-se ao primeiro policial que visse: Sou o foragido que vocês procuram. Levem-me, encarcerem-me, executem-me, por favor!
Porém, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Apesar disso, ele desvivia. Noturnamente, esgueirava-se, rato, esgueirava-se. Sim, porque ELES o perseguiam. ELES o perseguiam a vida inteira. Javermente. Não, não era delírio persecutório, como disse a psicóloga. Não. No fundo, ele é que devia persegui-LOS.
Ele penou, penou, penou. Foi então que ele cruzou com Deus. Ele nunca tinha provado Deus. Um sabor que só vendo, só se tendo, Deus. Com toda certeza, ELES nunca tinham cruzado com Deus. Então comeu o pão que Deus cozeu: sabia melhor que o que ele comera antes, sabia, sim.

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