quinta-feira, 25 de março de 2010

NO CADINHO DA CULTURA BAIANA - Vitor Hugo Fernandes Martins



para Serjão Macunaíma Alves dos Santos

“Estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também os verdadeiros primeiros brasileiros.”(João Ubaldo Ribeiro, “Viva o povo brasileiro”, in A Tarde, Salvador, Caderno 2, 24/04/2005, p. 9

Não é difícil, ainda para uma pessoa menos esclarecida, compreender que a cultura brasileira nasce baiana e seus formadores são, a princípio, o indígena, o português e o negro. Isso é já um truísmo. Vale dizer, o primeiro elemento, americano, autóctone, e os outros dois, europeu e africano, respectivamente, alóctones. Certo, com o passar do tempo, outros elementos, também alóctones e bem estrategicamente situados em determinadas regiões do País, vão integrar-se aos três retrocitados e fazer parte assim do cadinho da cultura brasileira. Não é dessa maneira que no Recife (PE) o frevo surge da fusão da eslava polca com a indígenanegra capoeira? Não é desse modo também que em Araraquara (SP) um rapsodo tupi amulatado tange, na rede, muito ma-cu-na-i-mi-ca-men-te, seu alaúde, depois de palmilhar, ver, cheirar, ouvir, comer (e digerir) os Brasis? E não é dessa mesma forma que na fria e branca Curitiba (PR) nasce um poeta vulcanicamente criativo, filho de polaco e negra, chamado Paulo Leminski (1944-1989)? Quer dizer, mestiçagem pura (relevem o oxímoro).

A indignação da oportuníssima crônica de João Ubaldo Ribeiro a respeito da formação do homem brasileiro serviu-me não apenas como epígrafe; serviu-me como deflagrador de reflexão e de discussão para este ensaio, mediante a literatura, sobre os elementos formadores da cultura brasileira e, mais especificamente, da baiana. Oxalá, essa reflexão e essa discussão levem-nos à ação.

No caso da cultura baiana, é interessante notar, por exemplo, já que me referi a alaúde, linhas acima, a presença do árabe e sua loquacidade, sua sensualidade e sua mercancia, mais notadamente em Salvador, em Ilhéus e em Itabuna. Haja vista para os “turcos” da ficção do autor de Gabriela, cravo e canela (1958), romance transcodificado para a telenovela (1961, TV Tupi, RJ, direção de Maurício Sherman / 1975, TV Globo, RJ, direção de Walter Avancini) e para o cinema (1983, direção de Bruno Barreto), como o impagável Nacib. Haja vista para o “turco” Jamil Bichara de A conquista da América pelos turcos (1994), um dos últimos textos de Jorge Amado (1912-2001). Talvez por ter sido ele, um emérito criador de tipos sociais da Literatura Brasileira, também um “turco”, um primo [brimu], a julgarmos pelo prenome, Jorge, muito freqüente entre os brasileiros descendentes de árabes e pelo biotipo (sobretudo o rosto), quando homem adulto e mesmo na terceira idade. Haja vista e coração para Wally Salomão (1944-2003), síriosertanejo, este poeta vulcanicamente criativo, que nos deixou há pouco, parenteaderente do não menos vulcanicamente criativo e conterrâneo (mas não de Jequié, e sim de Irará), Tom Zé.

A cultura da Bahia é (como de resto em todo o País), pois, miscigenada desde a origem, mas aqui, na terra do ministro da Cultura, faz-se ainda mais geléia geral – para recordarmos outro poeta vulcanicamente criativo, o piauiense Torquato Neto (1944-1972), muito embora ao contrário dos três já citados, vulnerável, bastante vulnerável (vulnerabilidade prenunciada na antológica canção “Pra dizer adeus”, de parceria com Edu Lobo). É precisamente esse fusionismo – palavra cara à gente pós-modernista – que faz a cultura baiana cada vez mais peculiar, mais rica, mais viva. O “axé-music” é a melhor prova do que digo. Não resisto à tentação de citar, a propósito, o soneto de Gregório de Matos (1636-1696) “À Fidalguia do Brasil”, no qual o Boca do Inferno recorre ao trilingüismo, isto é, a africanismos, lusitanismos e tupinismos, o que vai ao encontro do fusionismo tão desejado e alardeado pelo Pós-Modernismo, ainda que o poeta baiano (também vulcanicamente criativo, a seu modo e em adequação ao seu contexto espácio-temporal) visasse, com o trilingüismo mixórdico, à iconização (“avant la lettre”) da crítica à “fidalguia” da época da “Nossa Senhora da Bahia”. Quer dizer, o significado no significante.

Ora, se estamos reconhecendo na miscigenação dos elementos referidos fator importante e caracterizador da gente e da sociedade baianas (bem como das demais do País, repitamos), a cultura, porque atividade essencialmente humana e social, vai revelá-lo. Desse modo, não tem sentido privilegiar-se um desses elementos em detrimento dos outros. Ser brasileiro é ser branconegrovermelhoamarelo... Ao apartá-los, descaracterizamos o brasileiro, praticamos o nosso “apartheid”, mais visivelmente. Como, por exemplo, quando vemos, no teatro, no cinema e nas telenovelas, atores e atrizes negros fazendo o papel de personagens secundárias – quando não de oponentes. Certo, esses atores e atrizes ultimamente vêm deixando as cozinhas e os eitos e vindo para as salas, para os alpendres: tornaram-se protagonistas. Deixaram o fundo do palco e vieram para o proscênio. Haja vista para Lázaro Ramos e Camila Pitanga, filha do grande e, infelizmente, pouco reconhecido soteropolitano Antônio Pitanga. Aplaudamos. Mas essa visibilidade ainda é tímida e, às vezes, falaz, reconheçamos.

Se nos ativermos apenas ao estudo dos três primeiros elementos da nossa formação étnica, constataremos que o negro é o único deles que ainda não foi devidamente valorizado. Pelo brasileiro e, o que é pior, pelo brasileiro mais afro, o baiano. Digo isso em relação a todos os setores da vida nacional, mesmo o do Esporte e da Arte (nos quais esse elemento encontra a maior visibilidade) e principalmente o da Política (em que encontra a menor visibilidade). Isso só tem um nome: alienação. Quer dizer, a perda se si para o outro. Alienação econômica, social, política, intelectual, cultural, existencial. Nada espanta, portanto, que poucos jovens negros freqüentem teatro, comprem livros, sejam bem-sucedidos nos vestibulares das universidades públicas às quais vão sempre de ônibus e, não raro, a pé, nunca de carros próprios etc. Não espanta mas indigna e repugna a quem acredita que somos todos iguais, pertencentes a uma mesma família, a da humanidade.

A história é esta: primeiro foi o branco, colonizador, aventureiro, herói, que se impôs politicamente e, como sói acontecer, culturalmente. Ao vencedor, as batatas. Daí logo ocorrer de o elemento autóctone ouvir a missa do alóctone; mas não o contrário. Ontem, lá em Porto Seguro e hoje, aqui, no Brasil lulista. O olhar mercantil do herói branco sobre o Eldorado americano substituiu imediatamente o olhar de alumbramento da “visão do paraíso”. Não é invenção nossa, está na Carta de Caminha, com todos os efes e erres. Dessa maneira, os indígenas foram aculturados. Conseqüência disso? Isto: perderam-se, porque perderam sua cultura, sua língua, sua identidade. Provam-no, à perfeição, na literatura, o “desplazado” Avá de Mayra (1976), de Darcy Ribeiro (1922-1997); e, na vida, o não menos “desplazado” xavante Juruna, morto de diabetes, antes das sessenta luas, na taba chamada Brasília. Quem se acultura, aliena-se, inevitavelmente. Integrar-se é uma coisa; entregar-se, outra, completamente diferente.

Depois, foi o indígena. Daí Juca-Pirama, Peri, Iracema, Ubirajara etc. Antropônimos adotados por inúmeros “curumins” e “cunhãs”, cujos pais disso se orgulhavam, porque os viam como mais brasileirinhos e brasileirinhas do que os outros de nomes José, Maria etc. Tais pais nacionalistas ignoravam, entretanto, que “Brasil” e “pau-brasil” não vinham do Tupi. Certo, o Pré-Modernismo (por exemplo, de Monteiro Lobato, com todo o seu reacionarismo), o Modernismo (por exemplo, de Antônio Callado e sua ficção empenhadíssima) e o Pós-Modernismo (por exemplo, de Márcio Souza e sua narrativa parodística) brasileiros reviram o índio árcade e romântico, o elemento nativo, o “brasileiro por excelência”, o “primeiro brasileiro”, o orgulho nacional. Colocaram os pingos nos is. Quer dizer, revelaram, com o auxílio dos indigenistas e antropólogos, o “indígena indigente”, o quanto havia de falsidade no índio do Arcadismo e do Romantismo, sobretudo deste, falsidade no conteúdo, na forma, enfim, falsidade, porque ideologia do elemento dominador e, como tal, ocultando o dominado, o terceiro elemento, o negro. Entendamos a estratégia ideológica dos românticos em sua ficção: mostravam os índios, para dar a aparência de realidade e de indivisão social e racial dos “brasileiros”, mas escondiam os negros, até porque eram “peças-da-índia, e não homens”, conforme perspicaz anotação de João Ubaldo Ribeiro em sua crônica aqui citada. Não é gratuito, portanto, que José de Alencar (1829-1877), sabidamente escravagista, não tematizasse o negro em seus romances. E é essa também a explicação para o fato de Gonçalves Dias (1823-1864) preferir os índios; ao passo que Castro Alves (1847-1871), os negros. Este era um poeta maldito (relevem a redundância), assim como Sousândrade (1833-1902), que tematizava os índios pan-americanos, e não apenas os “brasileiros”; aquele, um poeta oficial, bancado pelo Imperador Pedro II, à sombra do poder, pois.

Certo, a questão está agora em sabermos por que o negro não entra como herói da nacionalidade nas literaturas pré-modernista, modernista e pós-modernista do País. Ora, a razão é a mesma acima apontada. Trata-se, infelizmente, do saber do poder, não do poder do saber. Assim, antes mesmo do Pré-Modernismo, Adolfo Caminha (1867-1897) escrevera O Bom crioulo (1895), romance protagonizado pelo negro Amaro, o que seria algo de se louvar, não fosse a concepção determinista, mecanicista, a partir da qual o romancista cearense compõe sua personagem, que se move apenas e tão-somente por um instinto biológico, genético, hereditário, nunca por um móvel social, histórico, dialético. Quer dizer, Amaro é fruto das ciências naturais, não das ciências sociais. Nesse sentido, o Naturalismo falsificou tanto quanto o Romantismo.

A despeito de Lima Barreto (1881-1922), grande injustiçado da Literatura Brasileira, que tem duplo mérito, uma vez que era um criador negro tematizando criaturas negras – algo que antes dele só havia acontecido com o soteropolitano Luís Gama (1830-1882), outro grande injustiçado da nossa literatura, que tinha, aliás, outro “defeito”, para o Romantismo, não era lírico nem épico nem trágico (como o conterrâneo Castro Alves), mas satírico, o que aponta para o cômico –; do tupi amulatado, Mário de Andrade (1893-1945), de Adonias Filho (1915-1990), cujas personagens estão mais para o segundo elemento do que para o terceiro e têm um caráter antes mítico que histórico, qual o(a) ficcionista/poeta assumidamente negro(a) que se destacou nos últimos cinqüenta anos na Literatura Brasileira? Mais: qual a nossa (não somente baiana mas também brasileira) personagem literária negra de destaque? O leitor erudito poderá responder-me: Orfeu da Conceição, que dá título ao texto de Vinícius de Moraes (1913-1980), o “branco mais negro do Brasil”. Certo, mas convém que esse mesmo leitor erudito observe que, primeiro, a “tragédia carioca” faz, neste 2005, precisamente cinqüenta anos; e, segundo, referi-me à “personagem literária negra”, o que não é o caso de Orfeu da Conceição. Voltará, então, o referido leitor e me questionará a respeito das personagens do romance Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins. Quer dizer, criaturas e criador negros. Não há dúvida de que se trata de uma extraordinária revelação literária, a desse misto de romancista-professor-antropólogo carioca. E, ainda que isolada no panorama cultural brasileiro, bem salutar, porque exemplar para os nossos jovens negros.

O criador e a criatura negros estão ausentes na Literatura Brasileira, infelizmente. E não há como compreendê-lo, na medida em que metade da população brasileira é negra. Não cabe, portanto, falar-se, no Brasil, em minoria para os negros (como também para as mulheres), como se fala em relação aos índios. Ora, se é assim, por que os negros não estão representados, não se representam literariamente? Por causa dos donos do poder. Penso que temos de exigir destes, urgentemente, a carta de alforria econômica, política, social, intelectual dos negros. Carta de alforria para se tornarem efetivamente humanos, brasileiros, nordestinos, baianos, ipiauenses. Na mesma exata proporção dos outros elementos, com os quais se integrem. Porque é a mestiçagem que nos caracteriza, que nos perde e nos salva, que nos faz, enfim, brasileiros, como está no Macunaíma. Fique, para terminar, o bordão de Darcy Ribeiro, ainda não de todo ouvido e compreendido pelo povo brasileiro: “O mestiço é que é bom”.

Ipiaú, BA, junho de 2005.

* Vitor Hugo Fernandes Martins é professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Câmpus de Ipiaú. Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto. Poeta, cronista e contista. vhugofm@yahoo.com.br

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