Julho/2003
“Eu desenhava, obrigado, com a mão direita, mas coloria com a mão esquerda: revanche da pulsão.” (Roland Barthes)
Canhotos, nós... Sim, desde muito cedo, quantos preconceitos, quantos obstáculos, quantas amputações para as nossas sinistras, ao comermos, ao escrevermos, ao pegarmos as coisas às avessas! Canhotos tendem a ser precoces e pirrônicos. A propósito, sinistra (do Latim “sinistra”), mau agouro, fúnebre, funesto, terrível, desastre, incêndio, ruína, enfim, toda uma conotação depreciativa, pejorativa, negativa, marginal. Está no Aurélião, confiram. Canhoto, outro nome do diabo, cruzes!
Canhotos e meninos, lá atrás, sofríamos, apanhávamos nas mãos de nossas mães, de nossas professoras. Em nossos dias, elas é que sofreriam, que apanhariam nas mãos dos promotores da Delegacia da Criança e do Adolescente e das psicólogas e pedagogas hodiernas. Nem por isso, porém, esta Ruth, cada vez mais semita, silente e minha, e a professora Wilma, paixão menina, que me viciou em Machado de Assis, traumatizaram-me, cindiram-me a alma e merecem meu ódio hoje. Ao contrário, seqüestrei-as no meu coração, para sempre.
Meninos e tijucanos e peladeiros, aos canhestros apontávamos e ordenávamos: “ – Ponta-esquerda!” Pior que isso só ir para o gol, só ter a mãe xingada. Depois é que vieram canhoteiros geniais (e geniosos): Gérson, Tostão, Rivelino, Mário Sérgio, Neto, Maradona, Djalminha... Canhotos esses que só dão autógrafos com a mão direita. “Revanche da pulsão?” Por que os canhotos (futebolistas) quase sempre têm muito controle de bola, mas não de bola?
Tornei-me ambidestro. O que não quer dizer estar em-cima-do-muro. Escrevo com a destra, o mais só com a sestra. O hemisfério dominante, o direito, já que sou canhoto, já que sou verbal, já que sou memória. Seduz-me antes Cronos que Topos. Canhoto politicamente (mas não da esquerda festiva): a rosa vermelha sempre sinistra(mente), o que implicou, é claro, pedras e perdas no meio do caminho. “Gauche” tenho sido na vida, Carlos.
Esquerdismo não é doença; é vida, desvio da morte. Haja vista para a mão esquerda e impressionista de Lúcio Cardoso.
Canhotos, nós... a contrapelo, contramaré, ainda em Canhotinho (PE). (Mal)dito, eis o que quer dizer ser canhoto, para respondermos à pergunta de Roland Barthes, um canhoto tão enrustido quanto seus textos.
Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.
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