sexta-feira, 26 de março de 2010

IPIAÚ E EU - Vitor Hugo Fernandes Martins


Maio/2005

Ainda não sei o significado da palavra Ipiaú que, com certeza, é mais um tupinismo e um anagrama de Piauí, terra esta do caju e de dois poetas maiores da nossa literatura, Mário Faustino e Torquato Neto, mas já sei o que significa para mim, para a minha existência, esta cidade de Ipiaú, que ora passo a habitar, percorrer, escreviver.
Desde que cheguei aqui, tudo em Ipiaú me chama, me ama: a família de miquinhos da Praça Rui Barbosa (mais uma na minha vida) me assovia, querendo atenção. Os sinos da Matriz fazem-me pensar na grandeza da minha pobreza existencial, fazem-me pensar antes no meu ser que no meu ter, no lá antes que no aqui e em como estou em dívida com Deus! As pessoas também têm sido generosas por demais (gosto imenso desse sintagma bainês) comigo. Em especial, o Sr. João, meu guia na cidade e cujo táxi, que anda pela bola sete -, leva-me aonde me leva minha curiosidade a respeito do que há em Ipiaú. Sr. João é daqueles raros taxistas que saem do volante para abrir a porta para o passageiro entrar. Pode? Pôde. A par disso, Sr. João, para a minha (in)felicidade, faz as vezes de corretor zoológico... Sinto muito, leitores amigos, mas não vou traduzir-lhes esse último sintagma. Assim, ficamos, ele, o Sr. João, e eu, algo protegidos da sanha da maledicência alheia e da polícia. Sem dúvida, esta incomoda bem menos que aquela. Na nossa primeira corrida (qualquer corrida aqui custa R$ 5,00), perguntei, meio sem jeito:
- Seu João... Ipiaú... tem jogo?
Ele, de pronto, sem nenhum tipo de saia-justa:
- Iche! Tem dia que tem quatro vezes!
- Quatro?!
- Roleta, Para-todos, Federal e Corujinha...
“Se a vida é teatro, em Ipiaú, é jogo!” – filosofei comigo, enquanto o Sr. João coçava a cabeça e ria, como que lendo o meu pensamento.
Os leitores espertos e compreensivos poderão inferir daquilo que leram aqui que o cronista que lhes fala é um ser lúdico, um carioca, pois. Não estarão errados. Mas se inferirem que eu prefiro o jogo à cidade, é que não perceberam que esta crônica é, antes de tudo, uma delcaração de amor a Ipiaú. A primeira delas. Haverá outras, ipiauenses. Afinal, crônica, quase sempre, implica paixão urbana. Nesse sentido, não sou nada romântico: para mim, o verdadeiro amor é o último, nunca o primeiro.

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

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