quinta-feira, 25 de março de 2010

MOURA, O BEIJOQUEIRO - Vitor Hugo Fernandes Martins

Dizem que ele tinha um táxi. Os passageiros recebiam um beijo antes de deixarem o fusquinha, que era só flâmulas, adesivos e fotos do time do Vasco da Gama e, naturalmente, pagarem a corrida, porque ele, o Moura, é um lusitano que está mais para bestial do que para besta, ó pá!

Datam desse tempo os primeiros beijos e tapas, os primeiros socos e dentes quebrados, as primeiras estadas em delegacias, as primeiras reportagens sobre ele em jornais, rádios e tevês. Data daí também o epíteto que o faria conhecido Aqui e Ali. Sim, pois os beijos dele já foram além das divisas da Cidade Maravilhosa. São intermunicipais (um beijinho garotinho no ex-prefeitinho de Campos e futuro governadorzinho do Rio) e internacionais (dizem – vejam bem – dizem que numa mesma noite, em Assunção, o Moura conseguiu a façanha de beijar o Generalíssimo Strossner (à época ditador paraguaio), o nissei Fujimori (à época futuro ditador do Peru) e o milongueiro Menem (à época Senhor Costeletas), num fundo de uma mansión, numa roda de guarânia, regada a muito uísque e tererê.

Mas quem mais foi beijado pelo Moura, quem? Uma lista infindável de nomes, ó pá! Tão grande quanto a dos sonegadores do leão por aqui. E nada de gente chinfrim. Ele é enjoado até, o Moura. Se não, vejamos: João Paulo II (o Santo Padre – não confundir com o lateral-esquerdo reserva do Santos Futebol Clube); Sinatra (É, esse mesmo, o Francisco, o Olhos-Azuis, o que cantava My Way e desafinou e se borrou todo nas calças em pleno Maracá por causa daquele simples beijinho); Brizola (Barbaridade! Cinco vezes, não é verdade, che?); Zico (Somente por amor da Terrinha, donde procedem os Coimbra, fique bem claro!); Pelé (Beijei o Negão pensando no Mane. Foi uma traição, eu cá sei, confessou o Moura ao Jô Soares, que por sua vez ganhou um beijão gordíssimo, extensivo ao quinteto); Joãozinho Trinta (Gente! Trinta lu-xu-o-sís-si-mas beijocas, nem mais nem menos!); Charles (O centro-avantes do Íbis, o ex-pior time do mundo – não confundir com aqueloutro, um que às vezes veste saias, realengo); Collor (O caçador? Digo, o caçado/cassado? Vote!); Fittipaldis (O barão, o Wilsinho, o Emerson, o Cristian), uma carrada de beijos; Maradona (Hombre! Uma carreira de bejos!); José Sarney, Itamar Franco e, por extensão, e simbolicamente, todos os caroneiros do Brasil; FHC (O Presidente-Rei? Perdoai-me, Fernando Pessoas, perdoai-me!); e mais 17.212 (Até a data deste textículo) agraciados com um beijo, que, para o Moura, não é a véspera do escarro, e sim a véspera doutro beijo (Na entrevista ao Jô). À paródia beijoqueira sucedem beijos beijos beijos na sardenta destra do Gordo.

Pergunto-me, então, quais seriam as outras frustrações osculatórias, os outros beijáveis, para o Moura. Ele satisfaz minha curiosidade (Ainda na entrevista ao Jô): Bill Clinton, Myke Tyson, Jack Nicholson, Saddan Hussein, Fidel Castro, Luciano Pavarotti (Melhor, os três tenores, um beijo triplo, bravo!), Nelson Mandela, $$ (Quer dizer, Sílvio Santos), Boris Yeltsen, ACM (Antônio Carlos Malvadeza). Dudaiev (O checheno, lembram?), Barthez (Não condir com Barthes, o semiólogo), Zidane e tantos, tantos, tantos... E lá vai outro beijo, agora na mão esquerda do roliço entrevistador.

– Tu que conheces tão bem esse gajo, dize-me cá; não será ele paneleiro? Pergunta-me o Correia, corretor zoológico, patrício do Moura (De Chaves também?), entre um salaminho e umas cervejas, na Padaria Rio Preto, ali juntinho da Rodoviária.

Finjo ignorar o lusitanismo e respondo com brasileirismos:

– O bicho é pirado, Correia.

– Por homem, está a ver...

Sai dessa, beijoqueiro!


* Professor da UNEB – Câmpus de Ipiaú. Poeta, cronista e contista.

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