
Agosto/2003
Mar à vista!
Assim, contrariando o “Terra à vista” daquele grumete ou vigia de Cabral, quando do achamento deste pedaço da Bahia, pedaço do Brasil, destinei-me a Porto Seguro, ou foi o Destino que me trouxe até aqui (como trouxe Cabral e sua esquadra quatrocentista, quase quinhentista)? É sempre assim, o homem põe, Deus dispõe. Por que seria diferente comigo?
O fato é que aqui aportei, faz apenas três semanas. E não há como não amar Porto Seguro de imediato. A cada nova manhã, mais amo esta cidade que hoje se tornou meu lar, minha oficina e minha musa. Desejo tanto escrivivê-la. Mas como pôr Porto Seguro em crônica depois que Caminha o fez? O que registrou lá na Carta, quinhentos anos atrás, vejo aqui à minha frente, ao vivo e em cores. Que grande cronista ele foi, como soube ler tão bem as gentes, as coisas, os lugares daqui em escassos dez dias! Um cronista-mor, ele, sem dúvida.
Mas voltemos ao meu achamento, Porto Seguro, onde espero me achar, depois de perdas, perdas, perdas. A hospitalidade baiana, conhecia-a de oitiva. Não, minto. Conhecia-a em Barreiras, e bem, durante duas semanas, com alunos que me ensinaram a ciência de ver (sem terem lido mestre Alberto Caeiro, sublinhemos). Mas a daqui é insuperável, agora o sei. Deve ser por amor do mar. Do que eu gosto do jeitinho sestroso do baiano é a saudação carinhosa “- Ô, meu rei!”. Aquele Nicolau Coelho, o primeiro português a “conversar” com os indígenas de Porto Seguro, não a ouviu de seu batel “por o mar quebrar na costa”, de acordo com o primeiro cronista desta terra. Um ruído – a voz do mar -, diria hoje um teórico da comunicação, impediu assim que o portuga ouvisse do pataxó o tão gentil “Ô, meu rei!”. Naturalmente, na língua pataxó. Se o mar estivesse mudo àquela hora, ainda assim haveria outro ruído certamene. Enfim, naquela manhã de quinta-feira de 1500, a fala gestual bastou e tudo acabou em escambo, guarapijópi, jocana (baicá ou baixu) e folgar, claro, muito folgar. E tudo veio dar em nós. Nós? Sim, porque agora faço parte da tribo pataxó. Acredite, “ô, meu rei” que me lê.
Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.
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