Dezembro/2004
O homem do telefone é uma das figuraças de Porto Seguro, tão ou mais conhecido que o Prefeito, recém-eleito, a quem o povo chama de Guaiamum. Encontro-o quase todos os dias, pelas manhãs, deambulando pelas ruas porto-segurenses (e nisso ele é dos meus), principalmente pela Getúlio Vargas – à altura daquele restaurante que tem a melhor feijoada da cidade -, sempre com o seu “celular” jurássico, às vezes vermelho, às vezes preto, colado ao ouvido (e nisso ele não é dos meus), esbravejando e gesticulando sem parar. Quando o vejo, desejo falar-lhe, mas receio interromper a sua fala nervosa, que gira invariavelmente em torno de economia e de política. É, todos neste país, agora, não são mais técnicos de futebol, mas sim economistas e políticos.
Embora ande desgrenhado, meio andrajoso, o homem do telefone não abre mão de um imenso guarda-sol amarelo, esteja o dia chuvoso ou não. Segundo consta, ele mora na Rua da Vala, numa habitação que, infelizmente, rima como a sua grenha e com os seus andrajos. Do seu quintal, a vista pode não ser das melhores e a maresia lá tão aromática, mas pelo menos ele tem o seu caranguejo do dia-a-dia bem à mão. Dizem as más línguas que ele era professor... Para mim, é o caso de dizer-se: “Cherchez la femme!” Se me permitem os puristas e as feministas.
O que me intriga no homem do telefone é saber para onde ele vai diariamente, pela Getúlio Vargas, no sentido do mar e da estátua de Inaiá e quem é o seu eterno interlocutor, do outro lado da linha. Intrigante é igualmente o registro lingüístico dele. É técnico, preciso, num “economês” escorreito, de fazer inveja a qualquer economista da Fundação Getúlio Vargas. Não lhes disse acima que o homem é louco por economia e política? A Rede Globo, que todos os dias entrevista um economista de quem nunca ouvimos falar, por justiça e mérito, deveria entrevistá-lo também.
- Alô, Homem do telefone, você que é meu concidadão, que é um comunicador, que é loquaz por demais, que parece gostar de dialética, por favor, ouça, ouça meu gritante silêncio! Minha voz comunica dor, solidão. Meu inferno, o da incomunicabilidade. Dê linha pra mim, homem do telefone! Eu sou um dos seus!
Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.
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