Para Fernando Fortes
Faz mais de trinta anos, escrevi uma crônica sobre um Rei. Não resisto à tentação de escrever outra hoje, ainda sobre esta mesma régia figura. Não porque eu seja monarquista, como parece ser boa parte do povo brasileiro, esclareço logo. Não. Mas sim porque Sua Majestade é meu vizinho, morador da Urca, este país de solitários. Mais: porque o Rei é melancólico, o “Príncipe da Melancolia” – para me valer da felicíssima expressão de uma raposa fluminense, um misto de político, intelectual e escritor. E nós, a raposa aludida e eu, também não ficamos imunes à Melancolia. Se tudo isso for pouco, confesso que escrevo esta crônica porque o Rei e o seu alter-ego carioca já me (nos) ofertaram algumas jóias da MPB, como, por exemplo, OLHA, inefável na leitura de uma cantora baiana de boca e voz esplêndidas.
Nem tudo tem sido branco e azul para o Rei, que vem convivendo com pedras (perdas) há muito tempo. Daí por que ser morador da Urca – que não é cura só anagramaticamente. O sentimento de perda, que lhe apontei na crônica lá atrás, de Curitiba, permanece em seus olhos, em seus sorrisos, em seus depoimentos, letras e canções. É-lhe inerente. A última perda, melhor, a Perda, a do Amor, quase nos faz perde-lo de vez. Provocou-lhe um câncer n’alma. Fê-lo, então, o Rei da Melancolia, raposa fluminense. Felizmente, o Rei desmorreu, aprendeu (com os esotéricos) que é preciso morrer para viver. Afinal, não foi esse mesmo o ensinamento do Rei dos Reis?
Sê rei de ti mesmo, propõe-nos um poeta lusíada,singular e plural, pela voz heterônima de um médico e monarquista, seu conterrâneo. O Rei a que aludo – com o seu dizer (haverá na MPB uma voz mais popular, mais carismática do que a dele?) e o seu fazer (haja vista para a sua coerência de homem artista) – propõe-nos sermos reis do Outro. É Rei, realmente. O único que reconheço no Brasil, embora não pertença à dinastia dos nobres da Coroa Portuguesa, petropolitanos. A nobreza desse Rei vem de seus gestos, não de seus títulos. Seu reinado, sim, é vitalício. PARA SEMPRE. A propósito, o Rei chama-se Roberto Carlos.
VITOR HUGO FERNANDES MARTINS é professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Câmpus de Ipiaú. Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto. Poeta, cronista e contista. vhugofm@yahoo.com.br
quinta-feira, 13 de maio de 2010
O AMOR - Vitor Hugo Fernandes Martins
“Meu Deus, como o amor impede a morte!”
(Clarice Lispector – Uma amizade sincera)
O Amor, juro, bateu à minha porta. A casa e eu (há muito fechados) fizemos uma concessão: a-bri-mo-nos. Retirei o aviso tomado a Hesse, o lobo da estepe: Aqui não há ninguém. Nunca. E PENETRAMONOS.
Assentido, assentado, o Amor recusa, amavelmente, a cervejinha que lhe ofereço. Não vim aqui para receber, vim para dar, que é o que sei fazer de melhor. “Mas por que euzinho?” – pergunto-lhe, limpando com o dorso da mão esquerda meu bigode de espuma. Porque te negas a viver, porque te negas a amar. Doravante, ensinar-te-ei a viver, eninar-te-ei a amar. Sorrio, não do Amor, mas do “doravante” e das mesóclises dele. Que amor mais parnasiano este!
Na cama, porém, nem Madonna... Aí a linguagem do Amor deixa de ser parnasiana. É, eu diria, pós-moderna, já que tem todas as posturas, todos os estilos. É sem preconceitos, SUBLIMEGROTESCO. Com ele, nem Ovídio conseguiria competir na arte de amar. O Amor é fogo, erotomaníaco que só!
O Amor, como é ele? Nortista. Rondoniense. Cunhantã. Anda na idade do prazer. Tem um sabor, um odor, uma cor, um ardor! Cupuaçu. Já provaram, manos? O Amor, sobre mim, hábil amazona. Suas lições amatórias, eita! Fazem-me desmorrer, sim! De suas bocas, de seus seios, de suas mãos, de seu corpo, extraio o mel da vida. Que se dane a minha hiperglicemia!
Adormecemos. Desnecessitamos de sonhar: gozamos a realidade à exaustão.
Amanhece. O Amor, em pelo, faz café e uns ovos mexidos para mim. Isto pode não ser lá muito higiênico, mas que é estético, é, acreditem. Que fêmea e erótica arquitetura!
Sim, mas também o Amor – quem diria? – tem hora, tem de ir. Para onde? Para quem? Para o meu palácio, para a minha mãe, responde-me o Amor, cupidamente. Diz que volta. Basta que tu queiras viver, basta que tu queiras amar. Banha-se, veste-se, beija-me, voa. Deixa-me a Volúpia. Leva as chaves da casa e da minha alma.
(Clarice Lispector – Uma amizade sincera)
O Amor, juro, bateu à minha porta. A casa e eu (há muito fechados) fizemos uma concessão: a-bri-mo-nos. Retirei o aviso tomado a Hesse, o lobo da estepe: Aqui não há ninguém. Nunca. E PENETRAMONOS.
Assentido, assentado, o Amor recusa, amavelmente, a cervejinha que lhe ofereço. Não vim aqui para receber, vim para dar, que é o que sei fazer de melhor. “Mas por que euzinho?” – pergunto-lhe, limpando com o dorso da mão esquerda meu bigode de espuma. Porque te negas a viver, porque te negas a amar. Doravante, ensinar-te-ei a viver, eninar-te-ei a amar. Sorrio, não do Amor, mas do “doravante” e das mesóclises dele. Que amor mais parnasiano este!
Na cama, porém, nem Madonna... Aí a linguagem do Amor deixa de ser parnasiana. É, eu diria, pós-moderna, já que tem todas as posturas, todos os estilos. É sem preconceitos, SUBLIMEGROTESCO. Com ele, nem Ovídio conseguiria competir na arte de amar. O Amor é fogo, erotomaníaco que só!
O Amor, como é ele? Nortista. Rondoniense. Cunhantã. Anda na idade do prazer. Tem um sabor, um odor, uma cor, um ardor! Cupuaçu. Já provaram, manos? O Amor, sobre mim, hábil amazona. Suas lições amatórias, eita! Fazem-me desmorrer, sim! De suas bocas, de seus seios, de suas mãos, de seu corpo, extraio o mel da vida. Que se dane a minha hiperglicemia!
Adormecemos. Desnecessitamos de sonhar: gozamos a realidade à exaustão.
Amanhece. O Amor, em pelo, faz café e uns ovos mexidos para mim. Isto pode não ser lá muito higiênico, mas que é estético, é, acreditem. Que fêmea e erótica arquitetura!
Sim, mas também o Amor – quem diria? – tem hora, tem de ir. Para onde? Para quem? Para o meu palácio, para a minha mãe, responde-me o Amor, cupidamente. Diz que volta. Basta que tu queiras viver, basta que tu queiras amar. Banha-se, veste-se, beija-me, voa. Deixa-me a Volúpia. Leva as chaves da casa e da minha alma.
SOB(RE) MEU PAI - Vitor Hugo Fernandes Martins
para Alaor Ignácio dos Santos Júnior
O comércio exulta, antegoza, há uma semana: é tempo de algarismarmos, uma vez mais, nossos sentimentos. Amanhã, 13 de agosto, comemorar-se-à o Dia dos Pais. É certo, não se vende tanto aí como no Dia das Mães, o que é uma prova cabal de que as velhas estão em primeiro lugar em nossos corações. “Pai, você é uma mãe!”. Não é assim que se diz? Vem por último em tudo o pai. Puta injustiça, essa.
Meu pai, meu pequeno grande pai, perdi-o faz mais de dez anos. Perdi-o? Não. Ele, nunca ele esteve tão comigo, tão presente, ausente. Meu pai, confesso-lhes, amava-o perdidamente. Amava-o tanto que ele se tornou um obstáculo à minha plenitude, à minha felicidade, à minha vida. É que eu não sabia então que até o amor em excesso faz mal. Urge, assim, que eu esqueça meu pai para recordá-lo.
Falando em coração, foi este que o matou. Fulminantemente. O coração também me matará. Pro-lon-ga-da-men-te. Não dou conta de matar em mim o amor demais da conta por meu pai. Sou um masoquista, pois. Não quero me salvar, não quero fugir do amor por meu pai, como o fez Kafka em relação ao pai dele, embora esse atormentado theco tivesse lá seus motivos e os metamorfoseasse literariamente, como ninguém. Meus textos também tratam de meu pai. Neles, ele, inevitavelmente, embutiu-se. A sombra, eterna em minha escrevivência. Meu pai, infinita presença.
Bem, minha intenção era fazer uma crônica sobre o Dia dos Pais. Acabei recordando meu pai. Ele é referência, recorrência, para mim. Desculpem-me por tê-los frustrado. Para me redimir um pouco, aqui vai uma sugestão para vocês que me lêem neste domingo, 13 de agosto: que tal sentimentalizarmos nossos algarismos? Dêem Quase memória, de Carlos Heitor Cony, a seus pais. É o que eu daria a meu pai. E estaria, seria presente.
Bom Dia dos Pais para vocês!
O comércio exulta, antegoza, há uma semana: é tempo de algarismarmos, uma vez mais, nossos sentimentos. Amanhã, 13 de agosto, comemorar-se-à o Dia dos Pais. É certo, não se vende tanto aí como no Dia das Mães, o que é uma prova cabal de que as velhas estão em primeiro lugar em nossos corações. “Pai, você é uma mãe!”. Não é assim que se diz? Vem por último em tudo o pai. Puta injustiça, essa.
Meu pai, meu pequeno grande pai, perdi-o faz mais de dez anos. Perdi-o? Não. Ele, nunca ele esteve tão comigo, tão presente, ausente. Meu pai, confesso-lhes, amava-o perdidamente. Amava-o tanto que ele se tornou um obstáculo à minha plenitude, à minha felicidade, à minha vida. É que eu não sabia então que até o amor em excesso faz mal. Urge, assim, que eu esqueça meu pai para recordá-lo.
Falando em coração, foi este que o matou. Fulminantemente. O coração também me matará. Pro-lon-ga-da-men-te. Não dou conta de matar em mim o amor demais da conta por meu pai. Sou um masoquista, pois. Não quero me salvar, não quero fugir do amor por meu pai, como o fez Kafka em relação ao pai dele, embora esse atormentado theco tivesse lá seus motivos e os metamorfoseasse literariamente, como ninguém. Meus textos também tratam de meu pai. Neles, ele, inevitavelmente, embutiu-se. A sombra, eterna em minha escrevivência. Meu pai, infinita presença.
Bem, minha intenção era fazer uma crônica sobre o Dia dos Pais. Acabei recordando meu pai. Ele é referência, recorrência, para mim. Desculpem-me por tê-los frustrado. Para me redimir um pouco, aqui vai uma sugestão para vocês que me lêem neste domingo, 13 de agosto: que tal sentimentalizarmos nossos algarismos? Dêem Quase memória, de Carlos Heitor Cony, a seus pais. É o que eu daria a meu pai. E estaria, seria presente.
Bom Dia dos Pais para vocês!
Vitor Hugo Fernandes Martins
RODA MUNDO 2009 - ANTOLOGIA INTERNACIONAL ANO 6
Organizador – Douglas Lara
O CATARINA E EU
João é ninguém e todos nós. João, faz tempo, o meu vizinho do quarto 35. O que tem 67 anos, uma cabeleira branca impecável e um orgulho dos diabos. Posto que mora em hotel, a solidão é inerente. Aí João sai cedinho, dentro de um eterno e indefectível terno branco (para combinar com a cabeleira, eu sei), no usufruto de sua iníqua e inócua aposentadoria: vai perdigar.
Em sua travessia, desce e sobe e sobe e sobe e desce a mais carioca das nossas ruas. Passa ao largo pelos sebos. Seduzido, sim, pelo cartaz do Cine Íris, excita-se, coça-se e esfrega as mãos freneticamente: PENETRAÇÕES EM ABUNDÂNCIA. Hesita. Acalma-se. Olha para os lados. Dois dedos, o indicador e o médio direitos, salivados, sobre as sobrancelhas, gesto recorrente. Conserta a gravata e segue em frente, trauteando, sempre alguma coisa do Nélson Gonçalves. Entra no Luiz, parada matinal obrigatória. “Um remédio e um chope. Sem colarinho, ouviram?”
Depois, esbaforido, os bofes e a alma pela boca. “Também! Um sprinter daqueles, e a balzaca oxigenada, nada...”. Senta-se no banco preferido. Reconhece os habitues do pedaço, os seus pares, os que não sabem o que fazer com a manhã e a liberdade em plena Praça Tiradentes. Levanta a cabeça para o seu pétreo e diário interlocutor: “D. Pedro I – A gratidão dos pombos brasileiros!”
E ri de sacurdir-se, de lagrimar, de avermelhar-se todo feito um peru, com a própria chalaça. Tira o lenço marrom (da mesma cor da gravata, do cinto, das meias, dos sapatos) do bolso traseiro da calça e enxuga as lágrimas dos olhos vermelhos de pitu, o remédio. E recompõe-se.
Morta a que o matava, e lá vai a nossa personagem, palito entre os dentes, dando tapinhas no figueiredo velho de guerra. Avança para o Campo de Santana: fazer a digestão perdigueira. Galegas pacas, professor!
Bem mais tarde, estará abrindo a Estudantina. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair da gafieira. Já tem até mesinha cativa. “Uma deferência especial do gerente ao degas aqui”. E João dança, dança, dança. E bebe, bebe, bebe. “A dar com o pau!”.
A volta para o Rio Hotel, para o nosso terceiro andar, João sabe como o faz, mas volta sempre. Em sua cela, escancara a janela que dá para o João Caetano, tira o paletó, a gravata, a camisa. Afrouxa o cinto. Toma (me desculpe, João!), digo, bebe a boa e desmorona na cama. Desacorçoado. A mala, em cima do guarda-roupa, chama-o, convida-o novamente a partir...
Não, não se mate, João! Eu estou aqui ao lado, solitário/solidário. Vamos pituzar, vamos! Ou falemos da galega Madonna, a quem você gostaria de dar uma boneca, certo? Ou pichemos o Governo, que nunca rima com povo, não é verdade? Que tal fazermos uma fezinha, botarmos tudo no veado? Que tal uma raspadinha? Por que essa angústia noturna a corroer-lhe a existência, João? É, concordo, às vezes, mesmo para nós, tupiniquins, profissionais da esperança, fica difícil contestar que o Brasil não é um ´país sério...
A despeito disso, não se mate, João! Venha ouvir Vitor Assis Brasil, ou Paulo Moura, ou Robero Sion, comigo. O jazz também nos impede de jazer, sabia? Venha, sim, que eu quero ler alguma coisa para você. Alguma coisa daquele luminoso negro do Desterro, seu conterrâneo. Então você vai saber o que é DOR. Venha, que eu sou despreconceituoso. Se quiser dizer safadezas, diga, eu gosto também delas. Só não me chame professor: eu brigo. A vida é que ensina e as melhores e inesquecíveis lições quase sempre vêm de nãos.
Não, não se mate, João! Você, que é tão desertado, não me deserte. Há tantas galegas para as nossas fantasias! Há tantos bailes ainda para você, pé-de-valsa! Há tantos pés-sujos para dessedentá-lo! Afinal, por que cultivar a morte no quarto, na mala? Jogue fora o três-oitão! Melhor, vamos barganha-lo na feira de Acari, vamos! Com o dinheiro, zonearemos a dar com o pau! Tudo em nome de Baco, pois Tânatos nós já cultuamos demais.
Não, não se mate, João! Você já se esqueceu do Carnaval, quer dizer, do vale a carne? Por que é que temos Carnaval, João? É para lembrarmo-nos de que estamos vivos, de que chegou a hora de tirarmos as máscaras cotidianas e gozarmos (em todos os sentidos) a vida, meu agridoce catarina. Mesmo porque “morrer é ininterrupto”, conforme uma ucraniano-carioca.
Não, não se mate, João! Antes é necessário conhecer o metrô, Sou lá tatu pra andar debaixo da terra!, boquejar contra a filha (o que você plantou e agora tem de arrancar?), perder os dentes, ganhar mais tiques e acabar pelo fundo como panela...
Não, não se mate, João! Eu ainda não falei em Deus, reparou? E tenho de fazê-lo: é Ele, por meio dos homens, que me dá uma vontade danada. Homens, por exemplo, como o Cidadão (com todos os efes e erres) Herbert de Souza, o Betinho e sua Sociologia da Caridade, a mostrarem-nos que podemos ricos do Outro, sim Senhor.
Organizador – Douglas Lara
O CATARINA E EU
João é ninguém e todos nós. João, faz tempo, o meu vizinho do quarto 35. O que tem 67 anos, uma cabeleira branca impecável e um orgulho dos diabos. Posto que mora em hotel, a solidão é inerente. Aí João sai cedinho, dentro de um eterno e indefectível terno branco (para combinar com a cabeleira, eu sei), no usufruto de sua iníqua e inócua aposentadoria: vai perdigar.
Em sua travessia, desce e sobe e sobe e sobe e desce a mais carioca das nossas ruas. Passa ao largo pelos sebos. Seduzido, sim, pelo cartaz do Cine Íris, excita-se, coça-se e esfrega as mãos freneticamente: PENETRAÇÕES EM ABUNDÂNCIA. Hesita. Acalma-se. Olha para os lados. Dois dedos, o indicador e o médio direitos, salivados, sobre as sobrancelhas, gesto recorrente. Conserta a gravata e segue em frente, trauteando, sempre alguma coisa do Nélson Gonçalves. Entra no Luiz, parada matinal obrigatória. “Um remédio e um chope. Sem colarinho, ouviram?”
Depois, esbaforido, os bofes e a alma pela boca. “Também! Um sprinter daqueles, e a balzaca oxigenada, nada...”. Senta-se no banco preferido. Reconhece os habitues do pedaço, os seus pares, os que não sabem o que fazer com a manhã e a liberdade em plena Praça Tiradentes. Levanta a cabeça para o seu pétreo e diário interlocutor: “D. Pedro I – A gratidão dos pombos brasileiros!”
E ri de sacurdir-se, de lagrimar, de avermelhar-se todo feito um peru, com a própria chalaça. Tira o lenço marrom (da mesma cor da gravata, do cinto, das meias, dos sapatos) do bolso traseiro da calça e enxuga as lágrimas dos olhos vermelhos de pitu, o remédio. E recompõe-se.
Morta a que o matava, e lá vai a nossa personagem, palito entre os dentes, dando tapinhas no figueiredo velho de guerra. Avança para o Campo de Santana: fazer a digestão perdigueira. Galegas pacas, professor!
Bem mais tarde, estará abrindo a Estudantina. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair da gafieira. Já tem até mesinha cativa. “Uma deferência especial do gerente ao degas aqui”. E João dança, dança, dança. E bebe, bebe, bebe. “A dar com o pau!”.
A volta para o Rio Hotel, para o nosso terceiro andar, João sabe como o faz, mas volta sempre. Em sua cela, escancara a janela que dá para o João Caetano, tira o paletó, a gravata, a camisa. Afrouxa o cinto. Toma (me desculpe, João!), digo, bebe a boa e desmorona na cama. Desacorçoado. A mala, em cima do guarda-roupa, chama-o, convida-o novamente a partir...
Não, não se mate, João! Eu estou aqui ao lado, solitário/solidário. Vamos pituzar, vamos! Ou falemos da galega Madonna, a quem você gostaria de dar uma boneca, certo? Ou pichemos o Governo, que nunca rima com povo, não é verdade? Que tal fazermos uma fezinha, botarmos tudo no veado? Que tal uma raspadinha? Por que essa angústia noturna a corroer-lhe a existência, João? É, concordo, às vezes, mesmo para nós, tupiniquins, profissionais da esperança, fica difícil contestar que o Brasil não é um ´país sério...
A despeito disso, não se mate, João! Venha ouvir Vitor Assis Brasil, ou Paulo Moura, ou Robero Sion, comigo. O jazz também nos impede de jazer, sabia? Venha, sim, que eu quero ler alguma coisa para você. Alguma coisa daquele luminoso negro do Desterro, seu conterrâneo. Então você vai saber o que é DOR. Venha, que eu sou despreconceituoso. Se quiser dizer safadezas, diga, eu gosto também delas. Só não me chame professor: eu brigo. A vida é que ensina e as melhores e inesquecíveis lições quase sempre vêm de nãos.
Não, não se mate, João! Você, que é tão desertado, não me deserte. Há tantas galegas para as nossas fantasias! Há tantos bailes ainda para você, pé-de-valsa! Há tantos pés-sujos para dessedentá-lo! Afinal, por que cultivar a morte no quarto, na mala? Jogue fora o três-oitão! Melhor, vamos barganha-lo na feira de Acari, vamos! Com o dinheiro, zonearemos a dar com o pau! Tudo em nome de Baco, pois Tânatos nós já cultuamos demais.
Não, não se mate, João! Você já se esqueceu do Carnaval, quer dizer, do vale a carne? Por que é que temos Carnaval, João? É para lembrarmo-nos de que estamos vivos, de que chegou a hora de tirarmos as máscaras cotidianas e gozarmos (em todos os sentidos) a vida, meu agridoce catarina. Mesmo porque “morrer é ininterrupto”, conforme uma ucraniano-carioca.
Não, não se mate, João! Antes é necessário conhecer o metrô, Sou lá tatu pra andar debaixo da terra!, boquejar contra a filha (o que você plantou e agora tem de arrancar?), perder os dentes, ganhar mais tiques e acabar pelo fundo como panela...
Não, não se mate, João! Eu ainda não falei em Deus, reparou? E tenho de fazê-lo: é Ele, por meio dos homens, que me dá uma vontade danada. Homens, por exemplo, como o Cidadão (com todos os efes e erres) Herbert de Souza, o Betinho e sua Sociologia da Caridade, a mostrarem-nos que podemos ricos do Outro, sim Senhor.
terça-feira, 11 de maio de 2010
A SINTAXE PARATÁTICA DE “CONTOS CARDIAIS” – Cleiton dos Santos Pereira
“Por mais veterano, por mais hábil que seja um contista, se lhe faltar uma motivação entranhável, se os seus contos não nasceram de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético.”
(Júlio Cortázar)
Aprendi com João Cabral de Melo Neto, a retirar a gordura do texto: fazer, a todo instante, lipoaspiração nas palavras. Ou melhor: como os árcades, cortar o que for inútil. Preferir a transposição à inspiração. Privilegiar o chão à nuvem. Enfim: ser telúrico, orgânico, cirúrgico.
Todo esse cuidado com o texto (a propósito, muito mais do que se imagina!) Vitor Hugo tem de sobra. Sua sintaxe é cortante, afiada, elegantíssima. Em suma: ingordurosa. Despe-se dos adjetivos delirantes, das nuances metafóricas. Assiste-se, antes de tudo, à sintaxe lacônica, cabralina, que se reveste de clareza, de objetividade, de concisão. Por isso, fascina.
Engana-se quem se dispuser a ler os “Contos Cardiais” com apenas coração. Deve-se lê-lo, em detrimento de qualquer compreensão, com o cérebro, com a precisão cirúrgica à Ivo Pitanguy (perdoem-me a analogia médica). Eliminam-se o adiposo, as sobras, os lipídios, os glicídios. A palavra, somente ela, é quem monitora o olhar atento do leitor.
Podem-se ver, na sintaxe narrativa dos contos, os “pontos cardiais” (a paranomásia do título do livro não é gratuita!) estão vivos, vivíssimos na voz do narrador anônimo, que perpassa a sintaxe paratática dos enredos (parecidíssimo com o narrador machadiano, que escre(vivia) suas histórias com a perspicácia inerente às testemunhas oculares).
Para ser mais sincero: Vitor Hugo, meu amigo, você não tem cura. A sua escrita é logocêntrica. À Roland Barthes. Não por acaso, assim como eu, acredita, também, que a Linguística é a ciência maior. A Semiótica, apenas filha bastarda dela. Nesse ponto, barthianamente, compartilhamos a mesma opinião (o que é coisa rara: que o diga o meu vício pirrônico, como você já disse certa vez, em carta enviada ao Laércio,na Corte!).
Essa maneira de narrar, que faz inveja ao curitibano Dalton Trevisan, desvia os olhos da história para os olhos da palavra. Vemos, em primeiríssima mão, o vocábulo; depois, o enredo. Como os formalistas russos, o discurso em vez da histórica. O enunciado em vez da enunciação.
Para a compreensão da narrativa de “Contos Cardiais”, vale mais a sintaxe do que a semântica (ou, convenientemente, vice-versa, bem ao gosto dos críticos de Noam Chomsky!). Sendo assim, a literariedade que Jakobson nos ensinou em seu famoso artigo O que é poesia? (1978): “A palavra é então experimentada como palavra, e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão da emoção”.
Se não, vejamos:
a) “grudarnela” na cantina...” (Gula)
b) “pichara democradura...” (Polaca)
c) “Es-ti-lha-ça-do, o escuro silêncio...” (Eles)
Nesse sentido, o significante é, em si, o próprio significado. Para aquele, os nossos olhos. Para aquele, o cuidado do narrador. Vemo-nos na palavra. A história, primorosa também, caminha paralelamente. Nem por isso, menos importante. Ofusca-se, porém, diante do primor sintático do enunciado.
Mas, registre-se, o NARRADOR COM (à Jean Pouillon) apresenta os pontos cardeais mediante as particularidades dialetais de cada região (escre)vivida nos “Contos Cardeais”. Dos Portos Velho e Alegre a Curitiba, do Rio de Janeiro a Goiânia, as marcas linguístico-locais são evidenciadas pela artimanha do discurso narrador:
a) “Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios [...]” (Amargo feito sorvete – Porto Velho, negrito meu);
b) “- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria!” (Vingança – Porto Alegre, negritos meus);
c) “Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabonitismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski?” (Polaca – Curitiba);
d) “Dioniso da Silva, aliás, o ‘Bonito’, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriado. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé?” (O sequestro – Rio de Janeiro, negrito meus);
e) “Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor, a um Enoch.” (Sob(re) Ancila – Goiânia, negritos meus).
Assim, pelas frestas da linguagem, as variações diatópicas, diastráticas, diafásicas se encontram idiossincrásicos do nosso destino, do nosso falar brasileiramente. Eis os “Contos Cardiais” : de cor (ô) e de cor (ó). Dos olhos (em primeira mão) e do coração (em segunda mão).
As reses (sintaticamente) prevalecem em detrimento do predicado. As sentenças dos contos são curtíssimas. Daí, a preferência pela parataxe. Ou seja: a ausência de subordinação e de coordenação. O vocábulo, ele próprio, a frase, o sintagma nominal. Nisso, Vitor Hugo chega a ser artesão. Vasculha as vísceras da palavra. Parataticamente, um ourives. Enfim: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!” (bilacmente!).
Bom exemplo disso é o conto “Diana-Chupeta”. Quase todo qualificador. O verbo desaparece. Dá lugar à precisão cirúrgica do sintagma adjetival. Por esse motivo, ler os “Contos Cardiais” é muito mais que deleite. É aprendizagem e palavra, discurso e sobriedade, cérebro e concretude.
Não fiquemos apenas com esse aspecto. O conflito das narrativas percorre o caminho tênue enter o nós e os outros (o empletment, como nos ensinou Hayden White). Permitam-me o meu inofensivo bairrismo: a Ancila (quem é escravo de quem?), pela beleza, pela luxúria, tinha de ser de Goiânia. Terra das mulheres mais bonitas do mundo (não, meu coração não é menor do que o mundo, Drummond! Ele tem mania de grandeza...).
Ressalte-se, pois, a astúcia do Divino 45, a Gula de Neuza Beatriz, o sofrimento do implícito Jean Valjean em Eles (reescritura d’Os Miseráveis, de Victor Hugo: ambos, românticos!). Toda essa gama de personagens, que nos remontam ao universo continental brasileiro: do Rio Madeira ao Guaíba, do Largo do Humaitá ao Lyceu de Goiânia. Tudo se move como se a vida estivesse ali, na fineza narrativa, no labor das palavras de cor.
Enfim, Vitor Hugo insere a lâmina sintática na contística contemporânea brasileira. Por isso, este livro demarca a vida literária deste carioca mundano, e o lança no rol dos principais contistas que surgiram em nossas letras do final dos anos 80 para cá. “Contos Cardiais” o provam. Deleitem-se com mais essa prova de amor à palavra, à literatura, à vida literatizada. Grande abraço, meu amigo crônico!
Ceilândia, DF, 23 de novembro, de 2005.
Quarta-feira!
15h6min!
(Júlio Cortázar)
Aprendi com João Cabral de Melo Neto, a retirar a gordura do texto: fazer, a todo instante, lipoaspiração nas palavras. Ou melhor: como os árcades, cortar o que for inútil. Preferir a transposição à inspiração. Privilegiar o chão à nuvem. Enfim: ser telúrico, orgânico, cirúrgico.
Todo esse cuidado com o texto (a propósito, muito mais do que se imagina!) Vitor Hugo tem de sobra. Sua sintaxe é cortante, afiada, elegantíssima. Em suma: ingordurosa. Despe-se dos adjetivos delirantes, das nuances metafóricas. Assiste-se, antes de tudo, à sintaxe lacônica, cabralina, que se reveste de clareza, de objetividade, de concisão. Por isso, fascina.
Engana-se quem se dispuser a ler os “Contos Cardiais” com apenas coração. Deve-se lê-lo, em detrimento de qualquer compreensão, com o cérebro, com a precisão cirúrgica à Ivo Pitanguy (perdoem-me a analogia médica). Eliminam-se o adiposo, as sobras, os lipídios, os glicídios. A palavra, somente ela, é quem monitora o olhar atento do leitor.
Podem-se ver, na sintaxe narrativa dos contos, os “pontos cardiais” (a paranomásia do título do livro não é gratuita!) estão vivos, vivíssimos na voz do narrador anônimo, que perpassa a sintaxe paratática dos enredos (parecidíssimo com o narrador machadiano, que escre(vivia) suas histórias com a perspicácia inerente às testemunhas oculares).
Para ser mais sincero: Vitor Hugo, meu amigo, você não tem cura. A sua escrita é logocêntrica. À Roland Barthes. Não por acaso, assim como eu, acredita, também, que a Linguística é a ciência maior. A Semiótica, apenas filha bastarda dela. Nesse ponto, barthianamente, compartilhamos a mesma opinião (o que é coisa rara: que o diga o meu vício pirrônico, como você já disse certa vez, em carta enviada ao Laércio,na Corte!).
Essa maneira de narrar, que faz inveja ao curitibano Dalton Trevisan, desvia os olhos da história para os olhos da palavra. Vemos, em primeiríssima mão, o vocábulo; depois, o enredo. Como os formalistas russos, o discurso em vez da histórica. O enunciado em vez da enunciação.
Para a compreensão da narrativa de “Contos Cardiais”, vale mais a sintaxe do que a semântica (ou, convenientemente, vice-versa, bem ao gosto dos críticos de Noam Chomsky!). Sendo assim, a literariedade que Jakobson nos ensinou em seu famoso artigo O que é poesia? (1978): “A palavra é então experimentada como palavra, e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão da emoção”.
Se não, vejamos:
a) “grudarnela” na cantina...” (Gula)
b) “pichara democradura...” (Polaca)
c) “Es-ti-lha-ça-do, o escuro silêncio...” (Eles)
Nesse sentido, o significante é, em si, o próprio significado. Para aquele, os nossos olhos. Para aquele, o cuidado do narrador. Vemo-nos na palavra. A história, primorosa também, caminha paralelamente. Nem por isso, menos importante. Ofusca-se, porém, diante do primor sintático do enunciado.
Mas, registre-se, o NARRADOR COM (à Jean Pouillon) apresenta os pontos cardeais mediante as particularidades dialetais de cada região (escre)vivida nos “Contos Cardeais”. Dos Portos Velho e Alegre a Curitiba, do Rio de Janeiro a Goiânia, as marcas linguístico-locais são evidenciadas pela artimanha do discurso narrador:
a) “Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios [...]” (Amargo feito sorvete – Porto Velho, negrito meu);
b) “- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria!” (Vingança – Porto Alegre, negritos meus);
c) “Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabonitismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski?” (Polaca – Curitiba);
d) “Dioniso da Silva, aliás, o ‘Bonito’, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriado. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé?” (O sequestro – Rio de Janeiro, negrito meus);
e) “Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor, a um Enoch.” (Sob(re) Ancila – Goiânia, negritos meus).
Assim, pelas frestas da linguagem, as variações diatópicas, diastráticas, diafásicas se encontram idiossincrásicos do nosso destino, do nosso falar brasileiramente. Eis os “Contos Cardiais” : de cor (ô) e de cor (ó). Dos olhos (em primeira mão) e do coração (em segunda mão).
As reses (sintaticamente) prevalecem em detrimento do predicado. As sentenças dos contos são curtíssimas. Daí, a preferência pela parataxe. Ou seja: a ausência de subordinação e de coordenação. O vocábulo, ele próprio, a frase, o sintagma nominal. Nisso, Vitor Hugo chega a ser artesão. Vasculha as vísceras da palavra. Parataticamente, um ourives. Enfim: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!” (bilacmente!).
Bom exemplo disso é o conto “Diana-Chupeta”. Quase todo qualificador. O verbo desaparece. Dá lugar à precisão cirúrgica do sintagma adjetival. Por esse motivo, ler os “Contos Cardiais” é muito mais que deleite. É aprendizagem e palavra, discurso e sobriedade, cérebro e concretude.
Não fiquemos apenas com esse aspecto. O conflito das narrativas percorre o caminho tênue enter o nós e os outros (o empletment, como nos ensinou Hayden White). Permitam-me o meu inofensivo bairrismo: a Ancila (quem é escravo de quem?), pela beleza, pela luxúria, tinha de ser de Goiânia. Terra das mulheres mais bonitas do mundo (não, meu coração não é menor do que o mundo, Drummond! Ele tem mania de grandeza...).
Ressalte-se, pois, a astúcia do Divino 45, a Gula de Neuza Beatriz, o sofrimento do implícito Jean Valjean em Eles (reescritura d’Os Miseráveis, de Victor Hugo: ambos, românticos!). Toda essa gama de personagens, que nos remontam ao universo continental brasileiro: do Rio Madeira ao Guaíba, do Largo do Humaitá ao Lyceu de Goiânia. Tudo se move como se a vida estivesse ali, na fineza narrativa, no labor das palavras de cor.
Enfim, Vitor Hugo insere a lâmina sintática na contística contemporânea brasileira. Por isso, este livro demarca a vida literária deste carioca mundano, e o lança no rol dos principais contistas que surgiram em nossas letras do final dos anos 80 para cá. “Contos Cardiais” o provam. Deleitem-se com mais essa prova de amor à palavra, à literatura, à vida literatizada. Grande abraço, meu amigo crônico!
Ceilândia, DF, 23 de novembro, de 2005.
Quarta-feira!
15h6min!
O “ESCREVIVER” DE VITOR HUGO MARTINS – ALAN OLIVEIRA MACHADO (Poeta e professor)
Vitor Hugo Fernandes Martins, esta figura camoniana por trás dos óculos escuros, perspicaz, carioca, é uma personagem rara dentro do nosso mundo acadêmico. Conjuga o rigor teórico, apolíneo, do doutor, com a embriaguez, o desprendimento dionisíaco, do artista. Com a existência e a persistência desse homem, a Academia, muitas vezes ascética, fria e fechada, ganha por dois lados: por um, o professor competente e cativante, demasiadamente humano; por outro, a literatura refinada, de alta qualidade. Quem até então só conhecia o professor, a pessoa, verá, neste “Contos Cardeais”, o criador, o homem que luta com as palavras, luta vã, diria o poeta das epígrafes, mas infinda, inquietante e necessária como a vida.
Vitor Hugo é um “flâneur”, bem no sentido que dá João do Rio ao termo. É aquele andarilho inteligente, como coração aberto ao mundo, às singularidades das vivências. Esse vagamundear certamente se reflete neste seu bem tramado livro de contos. Aqui, um périplo pelos cantos cardeais do Brasil se converte em “Contos Cardiais”, referentes ao coração. E este às vezes se avoluma, outras se apequena diante da força existencial de suas personagens, predominantemente gauches, de têmpera sanguínea, dionisíaca. Assim, vai-se enfileirando de conto a conto, de canto a canto, essa gente excluída, esta gente carnal, esta gente da margem: Divino, Diana, Gringo, Bonito, Bernadete, Ancila...
Porém, mais do que um desfile de almas, temos em “Contos Cardiais” o saboroso texto de um exímio escritor, de um perito na lida com a língua. No contato com o “escreviver” deste mestre, nós nos damos conta de que a verve, o estilo vitor-huguiano é fruto de profunda consciência de linguagem, da palavra, diga-se. Isso é o que denuncia a sua prosa paratática, picada, que se esquiva dos verbos, forçando o substantivo, o nominal, a ganhar efeitos inusitados, mediante hábil manipulação metabólica ou semântica. Ademais, com a mesma perícia que atribui ao seu “Divino 45” no estudo das vítimas, o autor se apropria, ainda, na medida certa, de bossas e tiques que dão a cada narrativa, situada regionalmente, um agradável colorido local.
Um livro de primeira, vibrante, rápido, é o que este deambulador (insaciável) nos entrega. E aqui temos, muito mais que o deleite, a sorte de apre(e)nder o mundo, a língua... Viva, vivíssima.
Goiânia, 14 de novembro de 2005.
Vitor Hugo é um “flâneur”, bem no sentido que dá João do Rio ao termo. É aquele andarilho inteligente, como coração aberto ao mundo, às singularidades das vivências. Esse vagamundear certamente se reflete neste seu bem tramado livro de contos. Aqui, um périplo pelos cantos cardeais do Brasil se converte em “Contos Cardiais”, referentes ao coração. E este às vezes se avoluma, outras se apequena diante da força existencial de suas personagens, predominantemente gauches, de têmpera sanguínea, dionisíaca. Assim, vai-se enfileirando de conto a conto, de canto a canto, essa gente excluída, esta gente carnal, esta gente da margem: Divino, Diana, Gringo, Bonito, Bernadete, Ancila...
Porém, mais do que um desfile de almas, temos em “Contos Cardiais” o saboroso texto de um exímio escritor, de um perito na lida com a língua. No contato com o “escreviver” deste mestre, nós nos damos conta de que a verve, o estilo vitor-huguiano é fruto de profunda consciência de linguagem, da palavra, diga-se. Isso é o que denuncia a sua prosa paratática, picada, que se esquiva dos verbos, forçando o substantivo, o nominal, a ganhar efeitos inusitados, mediante hábil manipulação metabólica ou semântica. Ademais, com a mesma perícia que atribui ao seu “Divino 45” no estudo das vítimas, o autor se apropria, ainda, na medida certa, de bossas e tiques que dão a cada narrativa, situada regionalmente, um agradável colorido local.
Um livro de primeira, vibrante, rápido, é o que este deambulador (insaciável) nos entrega. E aqui temos, muito mais que o deleite, a sorte de apre(e)nder o mundo, a língua... Viva, vivíssima.
Goiânia, 14 de novembro de 2005.
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
SOB(RE) ANCILA - OESTE
Aí vai à frente, meus leitores sacanas – grandessíssimos e inveterados “voyeurs” – o meu conto, a que acrescento um ponto, está claro, obedecendo, assim, à lição machadiana. Se considerardes de saída que sou chegadíssimo numa sacanagem e numa poetagem, estareis com a razão. Se pensais, porém, que neste textículo haverá mais sacanagens e menos metáforas, incorrereis em grosso, desmarcado erro. Preparai, pois, vossas fantasias, vossos olhos, vossos ouvidos. Relaxai e gozai.
Penso que posso e devo estimular vossas cabeças, safados leitores, até porque esta história não passa de uma puta sacanagem, literariamente, e não literalmente, hein, moralistas de plantão! É antes ficção que fricção, cuideis. Mas, alegrai-vos, vede, aí vem a minha, a nossa criança. Quatorze anos, nem mais nem menos. Delicioso um-metro-e-setenta. É, bitelona, sim. Filé, de dar água na boca a um Roman Polanski, a um Woody Allen e a outros pedófilos menos dotados. É loura, onde quer que tenha pelos. Lourice natural. Olhos azuis. Bocas maravilhosas.
Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor a um Enoch.
Um rubi, o umbigo, sempre à mostra. Uma pinta, uma razoável pinta acima do púbis, à direita de quem entra. E crede, povo devasso que me lê, calipígia. Ai, a queda que os brasileiros têm por uma bunda! Eu também estou aí no meio, hein! De minha, digo, nossa ninfeta só falta dizer-vos isto: é goiana, de Montividiu (sic), assim como eu, a Ancila. A que me escraviza com suas bocas e mãos. A que sob mim me domina. A que me cavalga, já que súcubo sou, silenciosamente, mordendo o lábio inferior, e me faz incêndio. Como a seguir, no próximo parágrafo, excitados leitores, como cacei jeito de caçar esta pombinha que me não sai da cabeça. Por enquanto, gozai e relaxai.
Proxeneta, o destino nos destinou mutuamente. Se não, vejamos: Ancila mora na minha rua, a T-4 Setor (Mui) Bueno, aqui em Goiânia. No mesmo prédio em que moro. Vive debaixo de mim. Além de ser montividiuense e minha vizinha, é minha aluna. Faz a oitava série no Hugo de Carvalho Ramos. Aluna boa, boa aluna. NooooooosSenhora!, demais da conta, sô! Aprende com facilidade tudo que lhe ensino. Tem um dom inato, raríssimo, para trabalhar com a língua. E com as mãos também. Uma prestidigitadora, ela.
A mãe dela não me conhece, não sabe que sou professor de Português da filha. Talvez tenhamos nos dado um ou outro bom-dia no elevador. Ela parece mais preocupara com o marido, sozinho lá nas fazendas de Montividiu, do que com as lições e a iniciação da filha comigo. Desconhece, por exemplo, que o vou-estudar-na-casa-de-Laura de todas as tardes, inclusive e sobretudo as dos sábados, é trepar no meu quinto andar. Nem desconfia, coitada, que eu deflorei (iche! que verbo mais fora de moda!) Ancila no começo deste ano, numa chuvosa sexta-feira, depois de lermos, em voz alta, es-can-din-do, os versos de A NOITE DAS NOVE FODAS, soneto de Bocage, e de assistirmos no vídeo ao GARGANTA PROFUNDA e ao ÚLTIMO TANTO EM PARIS. Foram as preliminares do defloramento (iche!) de Ancila. Transa feita com muito vagar, com minúcias, detalhe por detalhe. Trabalho de ourives. Digitando-a, manuseando-a, invadindo-a, explorando-a. Eu, o seu espeleólogo. Eu, comendo o mingau pelas beiradas, para não acabar logo... Aí ela aprendeu o que é clitóris, que não é uma palavra proparoxítona como ela pensava e pronunciava, clitóris; aprendeu, NoooooosSenhora!, como aprendeu, o que é felação; aprendeu a diferença enter quiromancia (ela vibrou com a palavra), onanismo (achou massa a história de Onan) e siririca (iche! eu palavra mais “démodé”! na verdade, nada mais “démodé” que a palavra “démodé”, não achais, lúbricos leitores?); aprendeu um numeral muito especial, o sessenta-e-nove, e uma variação dele, o noventa-e-seis, não pensa noutra coisa; aprendeu a ser penetrada com manteiga (exige que eu chame de Maria Schineider); aprendeu coisas pra caralho. No outro dia, no sábado, ela trouxe todas as lições na ponta da língua. Estais aí ainda, leitores luxuriosos? Melhor fazermos uma pausa, certo? Eu aqui; vós, aí. Ufa! Mas vem mais, aguardai.
Há quase um ano venho ensinando, cevando, comendo Ancila. UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES. Lições amatórias, muitas, muitas. E, como costuma ocorrer, quem aprende, termina ensinando. MESTRE É QUEM DE REPENTE APRENDE. Ou quem recorre à APRENDIZAGEM DE DESAPRENDER. O que tenho dado para Ancila? – me perguntais, desejando mais devassidão do que citação, mais sexo do que nexo e plexo, leitores libertinos. Serenai, eu vos respondo: banhos pro-lon-ga-da-men-te gostosos; duros exercícios com duros instrumentos de gozo; e ração diária (incluindo algumas tardes dominicais) de carinho-e-delicadeza, uai! Sabei que coisamos ainda nos entardeceres goianienses, coisamo, sim. Ô terém danado de gozozo! Agora, a verdade seja dita, recebo mais do que dou. Ancila é que me ensina, me ceva, me come. ESTE DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE, temo e tremo só de pensar em perde-lo, e sei que vou perde-lo breve, breve. Afinal, ela já sabe bater asas, já sabe voar. Afinal, tenho, segundo ela, a mesma barriguinha dos quarentões, a mesma mania de olhar por cima das lentes dos óculos e, o que é pior, a mesma idade do pai dela. Quem carece de alforria, pois, não é Ancila, mas sim eu. Por ora, entretanto, ela me diz que não pertencerá a mais ninguém, nunca jamais. Leréia, leréia, eu sei. Diz, após o orgasmo, depois de colar o ouvido no meu CORAÇÃO DISPARADO, tirando o louro cabelo do rosto suado e rosado, meu trem!, e eu chego outra vez ao Éden. Para mim, será custoso demais da conta não mais introduzirmenela, edernizarmenela, eternizarmenela. Anoitecerão dolorosamente as minhas tardes, a minha vida. Debruçado sobre a T-4, sem o meu ancilar gozo, estarei plenamente vazio. Descerei rápido para o poço de mim, sem minha Lolita. “Professores frágeis sempre se apaixonam por alunas fortes”, onde li isso, meu Deus?
Quereis saber mais, mixóscopos leitores? Quereis antes trepadas que depressões? Simples: comprai o próximo número desta revista. Aí talvez possais ver se ainda estou sob(re) a Ancila. Pelejei que só para contar-vos, com engenho e arte e erotismo, a história de uma ninfeta goiana, e vos daí, desse lado, com essa vossa puta má-vontade, com essa vossa puta indiferença, com essa vossa puta insensibilidade, sempre insatisfeitos, com essa vossa puta pulsão escópica que vai além da normalidade, querendo mais e mais e mais... Ide vós todos aos pés, que é como dizemos aqui em Goiás, o que quer dizer, na verdade, ide vós todos à merda! Basta. Cansei. Ficai com a putaria; eu fico com a poetagem. Ou vossa excitação vos impediu de inferir deste textículo o quanto quero estar próximo de vós?
Aí vai à frente, meus leitores sacanas – grandessíssimos e inveterados “voyeurs” – o meu conto, a que acrescento um ponto, está claro, obedecendo, assim, à lição machadiana. Se considerardes de saída que sou chegadíssimo numa sacanagem e numa poetagem, estareis com a razão. Se pensais, porém, que neste textículo haverá mais sacanagens e menos metáforas, incorrereis em grosso, desmarcado erro. Preparai, pois, vossas fantasias, vossos olhos, vossos ouvidos. Relaxai e gozai.
Penso que posso e devo estimular vossas cabeças, safados leitores, até porque esta história não passa de uma puta sacanagem, literariamente, e não literalmente, hein, moralistas de plantão! É antes ficção que fricção, cuideis. Mas, alegrai-vos, vede, aí vem a minha, a nossa criança. Quatorze anos, nem mais nem menos. Delicioso um-metro-e-setenta. É, bitelona, sim. Filé, de dar água na boca a um Roman Polanski, a um Woody Allen e a outros pedófilos menos dotados. É loura, onde quer que tenha pelos. Lourice natural. Olhos azuis. Bocas maravilhosas.
Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor a um Enoch.
Um rubi, o umbigo, sempre à mostra. Uma pinta, uma razoável pinta acima do púbis, à direita de quem entra. E crede, povo devasso que me lê, calipígia. Ai, a queda que os brasileiros têm por uma bunda! Eu também estou aí no meio, hein! De minha, digo, nossa ninfeta só falta dizer-vos isto: é goiana, de Montividiu (sic), assim como eu, a Ancila. A que me escraviza com suas bocas e mãos. A que sob mim me domina. A que me cavalga, já que súcubo sou, silenciosamente, mordendo o lábio inferior, e me faz incêndio. Como a seguir, no próximo parágrafo, excitados leitores, como cacei jeito de caçar esta pombinha que me não sai da cabeça. Por enquanto, gozai e relaxai.
Proxeneta, o destino nos destinou mutuamente. Se não, vejamos: Ancila mora na minha rua, a T-4 Setor (Mui) Bueno, aqui em Goiânia. No mesmo prédio em que moro. Vive debaixo de mim. Além de ser montividiuense e minha vizinha, é minha aluna. Faz a oitava série no Hugo de Carvalho Ramos. Aluna boa, boa aluna. NooooooosSenhora!, demais da conta, sô! Aprende com facilidade tudo que lhe ensino. Tem um dom inato, raríssimo, para trabalhar com a língua. E com as mãos também. Uma prestidigitadora, ela.
A mãe dela não me conhece, não sabe que sou professor de Português da filha. Talvez tenhamos nos dado um ou outro bom-dia no elevador. Ela parece mais preocupara com o marido, sozinho lá nas fazendas de Montividiu, do que com as lições e a iniciação da filha comigo. Desconhece, por exemplo, que o vou-estudar-na-casa-de-Laura de todas as tardes, inclusive e sobretudo as dos sábados, é trepar no meu quinto andar. Nem desconfia, coitada, que eu deflorei (iche! que verbo mais fora de moda!) Ancila no começo deste ano, numa chuvosa sexta-feira, depois de lermos, em voz alta, es-can-din-do, os versos de A NOITE DAS NOVE FODAS, soneto de Bocage, e de assistirmos no vídeo ao GARGANTA PROFUNDA e ao ÚLTIMO TANTO EM PARIS. Foram as preliminares do defloramento (iche!) de Ancila. Transa feita com muito vagar, com minúcias, detalhe por detalhe. Trabalho de ourives. Digitando-a, manuseando-a, invadindo-a, explorando-a. Eu, o seu espeleólogo. Eu, comendo o mingau pelas beiradas, para não acabar logo... Aí ela aprendeu o que é clitóris, que não é uma palavra proparoxítona como ela pensava e pronunciava, clitóris; aprendeu, NoooooosSenhora!, como aprendeu, o que é felação; aprendeu a diferença enter quiromancia (ela vibrou com a palavra), onanismo (achou massa a história de Onan) e siririca (iche! eu palavra mais “démodé”! na verdade, nada mais “démodé” que a palavra “démodé”, não achais, lúbricos leitores?); aprendeu um numeral muito especial, o sessenta-e-nove, e uma variação dele, o noventa-e-seis, não pensa noutra coisa; aprendeu a ser penetrada com manteiga (exige que eu chame de Maria Schineider); aprendeu coisas pra caralho. No outro dia, no sábado, ela trouxe todas as lições na ponta da língua. Estais aí ainda, leitores luxuriosos? Melhor fazermos uma pausa, certo? Eu aqui; vós, aí. Ufa! Mas vem mais, aguardai.
Há quase um ano venho ensinando, cevando, comendo Ancila. UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES. Lições amatórias, muitas, muitas. E, como costuma ocorrer, quem aprende, termina ensinando. MESTRE É QUEM DE REPENTE APRENDE. Ou quem recorre à APRENDIZAGEM DE DESAPRENDER. O que tenho dado para Ancila? – me perguntais, desejando mais devassidão do que citação, mais sexo do que nexo e plexo, leitores libertinos. Serenai, eu vos respondo: banhos pro-lon-ga-da-men-te gostosos; duros exercícios com duros instrumentos de gozo; e ração diária (incluindo algumas tardes dominicais) de carinho-e-delicadeza, uai! Sabei que coisamos ainda nos entardeceres goianienses, coisamo, sim. Ô terém danado de gozozo! Agora, a verdade seja dita, recebo mais do que dou. Ancila é que me ensina, me ceva, me come. ESTE DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE, temo e tremo só de pensar em perde-lo, e sei que vou perde-lo breve, breve. Afinal, ela já sabe bater asas, já sabe voar. Afinal, tenho, segundo ela, a mesma barriguinha dos quarentões, a mesma mania de olhar por cima das lentes dos óculos e, o que é pior, a mesma idade do pai dela. Quem carece de alforria, pois, não é Ancila, mas sim eu. Por ora, entretanto, ela me diz que não pertencerá a mais ninguém, nunca jamais. Leréia, leréia, eu sei. Diz, após o orgasmo, depois de colar o ouvido no meu CORAÇÃO DISPARADO, tirando o louro cabelo do rosto suado e rosado, meu trem!, e eu chego outra vez ao Éden. Para mim, será custoso demais da conta não mais introduzirmenela, edernizarmenela, eternizarmenela. Anoitecerão dolorosamente as minhas tardes, a minha vida. Debruçado sobre a T-4, sem o meu ancilar gozo, estarei plenamente vazio. Descerei rápido para o poço de mim, sem minha Lolita. “Professores frágeis sempre se apaixonam por alunas fortes”, onde li isso, meu Deus?
Quereis saber mais, mixóscopos leitores? Quereis antes trepadas que depressões? Simples: comprai o próximo número desta revista. Aí talvez possais ver se ainda estou sob(re) a Ancila. Pelejei que só para contar-vos, com engenho e arte e erotismo, a história de uma ninfeta goiana, e vos daí, desse lado, com essa vossa puta má-vontade, com essa vossa puta indiferença, com essa vossa puta insensibilidade, sempre insatisfeitos, com essa vossa puta pulsão escópica que vai além da normalidade, querendo mais e mais e mais... Ide vós todos aos pés, que é como dizemos aqui em Goiás, o que quer dizer, na verdade, ide vós todos à merda! Basta. Cansei. Ficai com a putaria; eu fico com a poetagem. Ou vossa excitação vos impediu de inferir deste textículo o quanto quero estar próximo de vós?
segunda-feira, 10 de maio de 2010
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
ELES - OESTE
Nada. Mais uma vez ele chegava sem nada. O olhar vazio. As mãos vazias. O estômago vazio. Se fosse só isso, ele não se nadificaria. O que lhe esvaziava a existência, o que o mortificava era isto: a fome da mulher, da filha. Estes seres queridos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos... pela madrugada adentro, dentro dos ouvidos dele, acusando-o, recriminando-o, penalizando-o. Elas, a vida dele; ele, a morte delas. Não, desta vez ele não chegaria com as mãos vazias. Hoje, sim, ele se tornaria um criminoso. ELES veriam só...
A vidraça, es-ti-lha-ça-da com o soco. Es-ti-lha-ça-da, o escuro silêncio. Ele corria, corria, corria. Fugia dos apitos policiais. As mãos sangravam mas não estavam vazias: apertavam o pão ao coração. Ele ria, ria , ria que chorava. Elas agora estavam salvas, viveriam.
Apenado, ele só pensava nelas, no que elas penavam. Elas, à própria sorte neste momento. Sim, mais um crime que ele cometia contra elas. Será que elas, pelo menos elas, entenderiam que, naquele estado, o que ele fizera fora uma necessidade? Se ele...
A fome comeu elas, tadinhas, disse-lhe a vizinha, talvez a próxima vítima dELES, digo, da fome. Ele levou as mãos à boca: queria vomitar-se. Pensou em entregar-se ao primeiro policial que visse: Sou o foragido que vocês procuram. Levem-me, encarcerem-me, executem-me, por favor!
Porém, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Apesar disso, ele desvivia. Noturnamente, esgueirava-se, rato, esgueirava-se. Sim, porque ELES o perseguiam. ELES o perseguiam a vida inteira. Javermente. Não, não era delírio persecutório, como disse a psicóloga. Não. No fundo, ele é que devia persegui-LOS.
Ele penou, penou, penou. Foi então que ele cruzou com Deus. Ele nunca tinha provado Deus. Um sabor que só vendo, só se tendo, Deus. Com toda certeza, ELES nunca tinham cruzado com Deus. Então comeu o pão que Deus cozeu: sabia melhor que o que ele comera antes, sabia, sim.
Nada. Mais uma vez ele chegava sem nada. O olhar vazio. As mãos vazias. O estômago vazio. Se fosse só isso, ele não se nadificaria. O que lhe esvaziava a existência, o que o mortificava era isto: a fome da mulher, da filha. Estes seres queridos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos, em ge-mi-dos... pela madrugada adentro, dentro dos ouvidos dele, acusando-o, recriminando-o, penalizando-o. Elas, a vida dele; ele, a morte delas. Não, desta vez ele não chegaria com as mãos vazias. Hoje, sim, ele se tornaria um criminoso. ELES veriam só...
A vidraça, es-ti-lha-ça-da com o soco. Es-ti-lha-ça-da, o escuro silêncio. Ele corria, corria, corria. Fugia dos apitos policiais. As mãos sangravam mas não estavam vazias: apertavam o pão ao coração. Ele ria, ria , ria que chorava. Elas agora estavam salvas, viveriam.
Apenado, ele só pensava nelas, no que elas penavam. Elas, à própria sorte neste momento. Sim, mais um crime que ele cometia contra elas. Será que elas, pelo menos elas, entenderiam que, naquele estado, o que ele fizera fora uma necessidade? Se ele...
A fome comeu elas, tadinhas, disse-lhe a vizinha, talvez a próxima vítima dELES, digo, da fome. Ele levou as mãos à boca: queria vomitar-se. Pensou em entregar-se ao primeiro policial que visse: Sou o foragido que vocês procuram. Levem-me, encarcerem-me, executem-me, por favor!
Porém, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Apesar disso, ele desvivia. Noturnamente, esgueirava-se, rato, esgueirava-se. Sim, porque ELES o perseguiam. ELES o perseguiam a vida inteira. Javermente. Não, não era delírio persecutório, como disse a psicóloga. Não. No fundo, ele é que devia persegui-LOS.
Ele penou, penou, penou. Foi então que ele cruzou com Deus. Ele nunca tinha provado Deus. Um sabor que só vendo, só se tendo, Deus. Com toda certeza, ELES nunca tinham cruzado com Deus. Então comeu o pão que Deus cozeu: sabia melhor que o que ele comera antes, sabia, sim.
CONTOS CARDIAIS - VITOR HUGO FERNANDES MARTINS
HISTÓRIA - OESTE
“Toda história é remorso.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Ele lecionava-nos História. História do Brasil. OS DONOS DO PODER – a Bíblia dele – sempre debaixo do braço esquerdo, nas mãos de dedos nodosos, sob os olhos com óculos de lentes grossas feito fundo de garrafa. Os dois volumes. Lidos. Relidos. Treslidos. Surradíssimos. As capas, esmaecidas. Como o terno azul-marinho de todas as aulas, que de tão justo já não abotoava mais. A camisa, branquinha, branquinha, trazia o colarinho puído. A gravata, a eterna gravata, também de um azul-marinho desbotado, curta. Saliente, o ventre dele, o que o fazia mais baixo do que era na verdade. Obeso, ele andava com dificuldade. Raras vezes ia à lousa. À cátedra, empedernido. Gostava era de que lêssemos em voz alta, que comentássemos, que discutíssemos, palavras, expressões, frases, períodos, parágrafos, capítulos de OS DONOS DO PODER, de Raymundo Faoro. Dizia-nos que dava aulas dialéticas, que usava a estratégia de Sócrates, a maiêutica. Senhorita Vera Lúcia, por que “o coronel converte o freio jurídico do governo em buçal caboclo”? Senhor Marcos Lúcio, qual o seu comentário a respeito da citação de Raymundo Faoro e que o senhor acabou de ler? Pelo que vejo o Cleiton Luís discorda da interpretação dada pelo senhor Wendell Sullivan à expressão “criatura domesticada” e deseja intervir. Estou certo, senhor Cleiton Luís?
Ele tinha um ar de cansaço, de fastio, de amargura. O nodoso médio da mão esquerda teimava em ajeitar os óculos bem no meio da armação. De imediato, silenciávamos. Ele olhava-nos, devassava-nos. Desde o nosso primeiro dia de aula, nós sabíamos que íamos amá-lo. Também sabíamos que ele vivia à base de vinho, de ódio. Negro, ele era negro.
O professor Amaro deixou-nos cicatrizes indeléveis. À sombra da nossa confidente munguba, nós o víamos chegar todas as manhãs, a pé, pela Rua 22. Vagarosamente. Penosamente. Odiosamente. À beira da calçada, ele ajeitava os óculos. Esperava, com uma feroz tranquilidade, que os carros passassem para poder atravessar a Rua 21. Logo começava a suar. À claridade do sol, ele negrejava. Vinha vindo. Raymundo Faoro na axila esquerda, claro. Na mão direita, os diários de classe. Ante a sua iminente e eminente presença, parávamos a discussão sobre Zico, sobre Reinaldo. Calávamo-nos, intimidados. Bons-dias, senhores. Entrava no Lyceu pontualmente às 6h55min. Não ia para a sala dos professores, não. As retinas estavam fartas daquelas cópias chinfrins, como a da Santa Ceia, a do Homem com moça no barco, a da Mona Lisa e, sobretudo, a do Beijo de Judas em Cristo. Aquela sala também estava cheia de gente chinfrim e de Judas... Atravessava o pátio. Lançava, sim, um tímido olhar para os seios da Índia, à esquerda, palavras do Turco, o Nacif, o maior cê-dê-efe do Lyceu, que não sabia mentir. Com uma dor patente, com um rancor latente, subia aquela ingrata escadaria que levava à sala 18, a nossa. A mão esquerda sobre o joelho da perna esquerda, a que coxeava levemente. No patamar, esbaforido, tirava os óculos, limpava o suor do rosto com o lenço azul-marinho, embranquecido como o terno, como a gravata. Às 7h, ao toque do sinal, entrava em sala, fechava a porta. Bons-dias. Depois que ele entrasse, ninguém mais entrava. Podia ser o Queixada, o Fernando, o filho da professora Iná, a Diretora, que não entrava, não. É, ele era opiniático até, o professor Amaro.
Aprendemos muito com ele. Às aulas de História do Brasil dele ninguém faltava. Mesmo o Quasímodo, o Hércules, o mais baixinho da nossa turma, o gazeteiro-mor do Lyceu, não perdia uma aula sequer do professor Amaro. Por quê? Porque eram aulas iniciáticas, reveladoras da História do Brasil. Quer dizer, não da História Oficial do Brasil, mas sim da História marginal, proibida. Os porões, os vazios, os interditos da história do País aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. A anti-história. Aquele homem negro de alma negra, tão indignado, tão indiciado, tão injuriado, não apenas nos informava, mas principalmente nos formava. Vocês trouxeram consigo o artigo de O POPULAR que eu lhes pedi na última aula, estou certo? Vamos lê-lo, então. Senhorita Myrian Ruth, por favor, leia, sim.
“De São Paulo a Minas, meditei sobre os imprevistos caminhos dos povos. O jovem Pedro do Ipiranga era neto da mesma Maria que, 30 anos antes, sancionara as condenações de Tiradentes e seus companheiros.
Tais são os caprichos da história que, poucos anos depois, o mesmo príncipe sonharia reunir numa só duas pátrias. A D. Pedro pareceu natural juntar o título de rei de Portugal ao de imperador do Brasil.
Caprichos da história, talvez. Ou então indício da índole dos brasileiros, que, em menino, Pedro absorvera. Pois nós somos, como os mineiros tão bem exemplificam, pela conciliação. A mão estendida. O milagre de uma gente para quem o dia de glória é o do perdão e do esquecimento, e não o dia da ira, o dia da violência.”
“Caprichos da história”, como quer o nosso intelectualismo General-Presidente, significam o mesmo que caprichos do homem, senhor Geraldo Magela? A seu ver, senhorita Sônia Maria, o brasileiro tem mesmo índole cordial, conciliatória? Certo, senhor Cleiton Luís. De fato, não podemos, não devemos confundir “esquecimento” com impunidade. Brilhante, o seu aparte. Parabéns.
Sim, aprendemos demais com o professor Amaro. Com ele aprendemos mais Português e Literatura que com os nossos professores de Português e Literatura, que, por sinal, eram muito bons, façamos justiça. Mas nosso inesquecível mestre de História do Brasil ensinou-nos a amar as palavras, a nos amar pelas palavras. Ensinou-nos a ler as entrelinhas da VIDA, este texto tão acessível a todos. Aprendemos o significado de palavras como dignidade, coerência, justeza, solidariedade, desalienação, cadeia da legalidade, constituição humanismo anistia... aprendemos o que é ser digno, coerente, justo, solidário, desalienado, humanista, anistiado, amaro...
Pela grossa aliança no anular esquerdo, sabíamo-lo casado. Porém, ninguém o via com a esposa. Ninguém, vírgula. A linguaruda da Dalila, aquela sardenta que escrevia notas chistosas em O LYCEU, espalhou que tinha visto a mulher do professor Amaro, uma loura de fechar o comércio, gente. Disse mais: tinha visto o casal e uma escadinha de filhos, três meninos e uma menina, todos louros, louríssimos, gente, a loura, que não era oxigenada, não, tinha um decote... um sábado, no Mutirama. Apenas mais um detalhe, gente: o professor Amaro estava vestido com o seu inseparável terno azul-marinho... Seria verdade da Dalila? Aquela sardenta sabia mentir como ninguém. Era o oposto do Nacif. O nome se ajustava bem à pessoa. Ela já havia espalhado que ele, o professor Amaro, fedia a vinho... E nisso ela infelizmente não mentia. Com toda certeza, ela estava se vingando dele, pois fora reprovada por ele. Era ainda uma segundanista. Nós aí nos vingamos dela: batizamo-la de “Ferrugem”. Pronto. E não é que pegou.
Este 1979, que recuperamos agora nesta história, alimenta-nos. É matéria de memória. Sempre recordamos o professor Amaro, sua natureza atrabiliária, a última palavra que lhe ouvimos, quando da nossa despedida. Sim, lá estava ele, com o mesmo terno azul-marinho desbotado, o mesmo tique com os óculos, suando, um nadinha de vinho na boca. Só, na sua doce cólera. Sem saber o que fazer com as mãos, que talvez sentissem falta de Raymundo Faoro. Ele, o professor Amaro, nosso substrato. Nossos pais choravam por nós, por nossa formatura. Nós chorávamos por ele. Temíamos não tê-lo amado como ele merecia ser amado. Como nós o amávamos, meu Deus! Levou-o de nós uma hepatólise, faz três anos. Trazem-no de volta a nós suas lições: ainda hoje sabemo-las de cor.
“Toda história é remorso.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Ele lecionava-nos História. História do Brasil. OS DONOS DO PODER – a Bíblia dele – sempre debaixo do braço esquerdo, nas mãos de dedos nodosos, sob os olhos com óculos de lentes grossas feito fundo de garrafa. Os dois volumes. Lidos. Relidos. Treslidos. Surradíssimos. As capas, esmaecidas. Como o terno azul-marinho de todas as aulas, que de tão justo já não abotoava mais. A camisa, branquinha, branquinha, trazia o colarinho puído. A gravata, a eterna gravata, também de um azul-marinho desbotado, curta. Saliente, o ventre dele, o que o fazia mais baixo do que era na verdade. Obeso, ele andava com dificuldade. Raras vezes ia à lousa. À cátedra, empedernido. Gostava era de que lêssemos em voz alta, que comentássemos, que discutíssemos, palavras, expressões, frases, períodos, parágrafos, capítulos de OS DONOS DO PODER, de Raymundo Faoro. Dizia-nos que dava aulas dialéticas, que usava a estratégia de Sócrates, a maiêutica. Senhorita Vera Lúcia, por que “o coronel converte o freio jurídico do governo em buçal caboclo”? Senhor Marcos Lúcio, qual o seu comentário a respeito da citação de Raymundo Faoro e que o senhor acabou de ler? Pelo que vejo o Cleiton Luís discorda da interpretação dada pelo senhor Wendell Sullivan à expressão “criatura domesticada” e deseja intervir. Estou certo, senhor Cleiton Luís?
Ele tinha um ar de cansaço, de fastio, de amargura. O nodoso médio da mão esquerda teimava em ajeitar os óculos bem no meio da armação. De imediato, silenciávamos. Ele olhava-nos, devassava-nos. Desde o nosso primeiro dia de aula, nós sabíamos que íamos amá-lo. Também sabíamos que ele vivia à base de vinho, de ódio. Negro, ele era negro.
O professor Amaro deixou-nos cicatrizes indeléveis. À sombra da nossa confidente munguba, nós o víamos chegar todas as manhãs, a pé, pela Rua 22. Vagarosamente. Penosamente. Odiosamente. À beira da calçada, ele ajeitava os óculos. Esperava, com uma feroz tranquilidade, que os carros passassem para poder atravessar a Rua 21. Logo começava a suar. À claridade do sol, ele negrejava. Vinha vindo. Raymundo Faoro na axila esquerda, claro. Na mão direita, os diários de classe. Ante a sua iminente e eminente presença, parávamos a discussão sobre Zico, sobre Reinaldo. Calávamo-nos, intimidados. Bons-dias, senhores. Entrava no Lyceu pontualmente às 6h55min. Não ia para a sala dos professores, não. As retinas estavam fartas daquelas cópias chinfrins, como a da Santa Ceia, a do Homem com moça no barco, a da Mona Lisa e, sobretudo, a do Beijo de Judas em Cristo. Aquela sala também estava cheia de gente chinfrim e de Judas... Atravessava o pátio. Lançava, sim, um tímido olhar para os seios da Índia, à esquerda, palavras do Turco, o Nacif, o maior cê-dê-efe do Lyceu, que não sabia mentir. Com uma dor patente, com um rancor latente, subia aquela ingrata escadaria que levava à sala 18, a nossa. A mão esquerda sobre o joelho da perna esquerda, a que coxeava levemente. No patamar, esbaforido, tirava os óculos, limpava o suor do rosto com o lenço azul-marinho, embranquecido como o terno, como a gravata. Às 7h, ao toque do sinal, entrava em sala, fechava a porta. Bons-dias. Depois que ele entrasse, ninguém mais entrava. Podia ser o Queixada, o Fernando, o filho da professora Iná, a Diretora, que não entrava, não. É, ele era opiniático até, o professor Amaro.
Aprendemos muito com ele. Às aulas de História do Brasil dele ninguém faltava. Mesmo o Quasímodo, o Hércules, o mais baixinho da nossa turma, o gazeteiro-mor do Lyceu, não perdia uma aula sequer do professor Amaro. Por quê? Porque eram aulas iniciáticas, reveladoras da História do Brasil. Quer dizer, não da História Oficial do Brasil, mas sim da História marginal, proibida. Os porões, os vazios, os interditos da história do País aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. A anti-história. Aquele homem negro de alma negra, tão indignado, tão indiciado, tão injuriado, não apenas nos informava, mas principalmente nos formava. Vocês trouxeram consigo o artigo de O POPULAR que eu lhes pedi na última aula, estou certo? Vamos lê-lo, então. Senhorita Myrian Ruth, por favor, leia, sim.
“De São Paulo a Minas, meditei sobre os imprevistos caminhos dos povos. O jovem Pedro do Ipiranga era neto da mesma Maria que, 30 anos antes, sancionara as condenações de Tiradentes e seus companheiros.
Tais são os caprichos da história que, poucos anos depois, o mesmo príncipe sonharia reunir numa só duas pátrias. A D. Pedro pareceu natural juntar o título de rei de Portugal ao de imperador do Brasil.
Caprichos da história, talvez. Ou então indício da índole dos brasileiros, que, em menino, Pedro absorvera. Pois nós somos, como os mineiros tão bem exemplificam, pela conciliação. A mão estendida. O milagre de uma gente para quem o dia de glória é o do perdão e do esquecimento, e não o dia da ira, o dia da violência.”
“Caprichos da história”, como quer o nosso intelectualismo General-Presidente, significam o mesmo que caprichos do homem, senhor Geraldo Magela? A seu ver, senhorita Sônia Maria, o brasileiro tem mesmo índole cordial, conciliatória? Certo, senhor Cleiton Luís. De fato, não podemos, não devemos confundir “esquecimento” com impunidade. Brilhante, o seu aparte. Parabéns.
Sim, aprendemos demais com o professor Amaro. Com ele aprendemos mais Português e Literatura que com os nossos professores de Português e Literatura, que, por sinal, eram muito bons, façamos justiça. Mas nosso inesquecível mestre de História do Brasil ensinou-nos a amar as palavras, a nos amar pelas palavras. Ensinou-nos a ler as entrelinhas da VIDA, este texto tão acessível a todos. Aprendemos o significado de palavras como dignidade, coerência, justeza, solidariedade, desalienação, cadeia da legalidade, constituição humanismo anistia... aprendemos o que é ser digno, coerente, justo, solidário, desalienado, humanista, anistiado, amaro...
Pela grossa aliança no anular esquerdo, sabíamo-lo casado. Porém, ninguém o via com a esposa. Ninguém, vírgula. A linguaruda da Dalila, aquela sardenta que escrevia notas chistosas em O LYCEU, espalhou que tinha visto a mulher do professor Amaro, uma loura de fechar o comércio, gente. Disse mais: tinha visto o casal e uma escadinha de filhos, três meninos e uma menina, todos louros, louríssimos, gente, a loura, que não era oxigenada, não, tinha um decote... um sábado, no Mutirama. Apenas mais um detalhe, gente: o professor Amaro estava vestido com o seu inseparável terno azul-marinho... Seria verdade da Dalila? Aquela sardenta sabia mentir como ninguém. Era o oposto do Nacif. O nome se ajustava bem à pessoa. Ela já havia espalhado que ele, o professor Amaro, fedia a vinho... E nisso ela infelizmente não mentia. Com toda certeza, ela estava se vingando dele, pois fora reprovada por ele. Era ainda uma segundanista. Nós aí nos vingamos dela: batizamo-la de “Ferrugem”. Pronto. E não é que pegou.
Este 1979, que recuperamos agora nesta história, alimenta-nos. É matéria de memória. Sempre recordamos o professor Amaro, sua natureza atrabiliária, a última palavra que lhe ouvimos, quando da nossa despedida. Sim, lá estava ele, com o mesmo terno azul-marinho desbotado, o mesmo tique com os óculos, suando, um nadinha de vinho na boca. Só, na sua doce cólera. Sem saber o que fazer com as mãos, que talvez sentissem falta de Raymundo Faoro. Ele, o professor Amaro, nosso substrato. Nossos pais choravam por nós, por nossa formatura. Nós chorávamos por ele. Temíamos não tê-lo amado como ele merecia ser amado. Como nós o amávamos, meu Deus! Levou-o de nós uma hepatólise, faz três anos. Trazem-no de volta a nós suas lições: ainda hoje sabemo-las de cor.
domingo, 2 de maio de 2010
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