domingo, 28 de março de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

IPIAÚ E EU - Vitor Hugo Fernandes Martins


Maio/2005

Ainda não sei o significado da palavra Ipiaú que, com certeza, é mais um tupinismo e um anagrama de Piauí, terra esta do caju e de dois poetas maiores da nossa literatura, Mário Faustino e Torquato Neto, mas já sei o que significa para mim, para a minha existência, esta cidade de Ipiaú, que ora passo a habitar, percorrer, escreviver.
Desde que cheguei aqui, tudo em Ipiaú me chama, me ama: a família de miquinhos da Praça Rui Barbosa (mais uma na minha vida) me assovia, querendo atenção. Os sinos da Matriz fazem-me pensar na grandeza da minha pobreza existencial, fazem-me pensar antes no meu ser que no meu ter, no lá antes que no aqui e em como estou em dívida com Deus! As pessoas também têm sido generosas por demais (gosto imenso desse sintagma bainês) comigo. Em especial, o Sr. João, meu guia na cidade e cujo táxi, que anda pela bola sete -, leva-me aonde me leva minha curiosidade a respeito do que há em Ipiaú. Sr. João é daqueles raros taxistas que saem do volante para abrir a porta para o passageiro entrar. Pode? Pôde. A par disso, Sr. João, para a minha (in)felicidade, faz as vezes de corretor zoológico... Sinto muito, leitores amigos, mas não vou traduzir-lhes esse último sintagma. Assim, ficamos, ele, o Sr. João, e eu, algo protegidos da sanha da maledicência alheia e da polícia. Sem dúvida, esta incomoda bem menos que aquela. Na nossa primeira corrida (qualquer corrida aqui custa R$ 5,00), perguntei, meio sem jeito:
- Seu João... Ipiaú... tem jogo?
Ele, de pronto, sem nenhum tipo de saia-justa:
- Iche! Tem dia que tem quatro vezes!
- Quatro?!
- Roleta, Para-todos, Federal e Corujinha...
“Se a vida é teatro, em Ipiaú, é jogo!” – filosofei comigo, enquanto o Sr. João coçava a cabeça e ria, como que lendo o meu pensamento.
Os leitores espertos e compreensivos poderão inferir daquilo que leram aqui que o cronista que lhes fala é um ser lúdico, um carioca, pois. Não estarão errados. Mas se inferirem que eu prefiro o jogo à cidade, é que não perceberam que esta crônica é, antes de tudo, uma delcaração de amor a Ipiaú. A primeira delas. Haverá outras, ipiauenses. Afinal, crônica, quase sempre, implica paixão urbana. Nesse sentido, não sou nada romântico: para mim, o verdadeiro amor é o último, nunca o primeiro.

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

- Alô, Homem do Telefone! - Vitor Hugo Fernandes Martins

Dezembro/2004

O homem do telefone é uma das figuraças de Porto Seguro, tão ou mais conhecido que o Prefeito, recém-eleito, a quem o povo chama de Guaiamum. Encontro-o quase todos os dias, pelas manhãs, deambulando pelas ruas porto-segurenses (e nisso ele é dos meus), principalmente pela Getúlio Vargas – à altura daquele restaurante que tem a melhor feijoada da cidade -, sempre com o seu “celular” jurássico, às vezes vermelho, às vezes preto, colado ao ouvido (e nisso ele não é dos meus), esbravejando e gesticulando sem parar. Quando o vejo, desejo falar-lhe, mas receio interromper a sua fala nervosa, que gira invariavelmente em torno de economia e de política. É, todos neste país, agora, não são mais técnicos de futebol, mas sim economistas e políticos.
Embora ande desgrenhado, meio andrajoso, o homem do telefone não abre mão de um imenso guarda-sol amarelo, esteja o dia chuvoso ou não. Segundo consta, ele mora na Rua da Vala, numa habitação que, infelizmente, rima como a sua grenha e com os seus andrajos. Do seu quintal, a vista pode não ser das melhores e a maresia lá tão aromática, mas pelo menos ele tem o seu caranguejo do dia-a-dia bem à mão. Dizem as más línguas que ele era professor... Para mim, é o caso de dizer-se: “Cherchez la femme!” Se me permitem os puristas e as feministas.
O que me intriga no homem do telefone é saber para onde ele vai diariamente, pela Getúlio Vargas, no sentido do mar e da estátua de Inaiá e quem é o seu eterno interlocutor, do outro lado da linha. Intrigante é igualmente o registro lingüístico dele. É técnico, preciso, num “economês” escorreito, de fazer inveja a qualquer economista da Fundação Getúlio Vargas. Não lhes disse acima que o homem é louco por economia e política? A Rede Globo, que todos os dias entrevista um economista de quem nunca ouvimos falar, por justiça e mérito, deveria entrevistá-lo também.
- Alô, Homem do telefone, você que é meu concidadão, que é um comunicador, que é loquaz por demais, que parece gostar de dialética, por favor, ouça, ouça meu gritante silêncio! Minha voz comunica dor, solidão. Meu inferno, o da incomunicabilidade. Dê linha pra mim, homem do telefone! Eu sou um dos seus!

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

ACHAMENTO. - Vitor Hugo Fernandes Martins


Agosto/2003

Mar à vista!
Assim, contrariando o “Terra à vista” daquele grumete ou vigia de Cabral, quando do achamento deste pedaço da Bahia, pedaço do Brasil, destinei-me a Porto Seguro, ou foi o Destino que me trouxe até aqui (como trouxe Cabral e sua esquadra quatrocentista, quase quinhentista)? É sempre assim, o homem põe, Deus dispõe. Por que seria diferente comigo?
O fato é que aqui aportei, faz apenas três semanas. E não há como não amar Porto Seguro de imediato. A cada nova manhã, mais amo esta cidade que hoje se tornou meu lar, minha oficina e minha musa. Desejo tanto escrivivê-la. Mas como pôr Porto Seguro em crônica depois que Caminha o fez? O que registrou lá na Carta, quinhentos anos atrás, vejo aqui à minha frente, ao vivo e em cores. Que grande cronista ele foi, como soube ler tão bem as gentes, as coisas, os lugares daqui em escassos dez dias! Um cronista-mor, ele, sem dúvida.
Mas voltemos ao meu achamento, Porto Seguro, onde espero me achar, depois de perdas, perdas, perdas. A hospitalidade baiana, conhecia-a de oitiva. Não, minto. Conhecia-a em Barreiras, e bem, durante duas semanas, com alunos que me ensinaram a ciência de ver (sem terem lido mestre Alberto Caeiro, sublinhemos). Mas a daqui é insuperável, agora o sei. Deve ser por amor do mar. Do que eu gosto do jeitinho sestroso do baiano é a saudação carinhosa “- Ô, meu rei!”. Aquele Nicolau Coelho, o primeiro português a “conversar” com os indígenas de Porto Seguro, não a ouviu de seu batel “por o mar quebrar na costa”, de acordo com o primeiro cronista desta terra. Um ruído – a voz do mar -, diria hoje um teórico da comunicação, impediu assim que o portuga ouvisse do pataxó o tão gentil “Ô, meu rei!”. Naturalmente, na língua pataxó. Se o mar estivesse mudo àquela hora, ainda assim haveria outro ruído certamene. Enfim, naquela manhã de quinta-feira de 1500, a fala gestual bastou e tudo acabou em escambo, guarapijópi, jocana (baicá ou baixu) e folgar, claro, muito folgar. E tudo veio dar em nós. Nós? Sim, porque agora faço parte da tribo pataxó. Acredite, “ô, meu rei” que me lê.

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

CANHOTOS, NÓS... - Vitor Hugo Fernandes Martins

Julho/2003

“Eu desenhava, obrigado, com a mão direita, mas coloria com a mão esquerda: revanche da pulsão.” (Roland Barthes)

Canhotos, nós... Sim, desde muito cedo, quantos preconceitos, quantos obstáculos, quantas amputações para as nossas sinistras, ao comermos, ao escrevermos, ao pegarmos as coisas às avessas! Canhotos tendem a ser precoces e pirrônicos. A propósito, sinistra (do Latim “sinistra”), mau agouro, fúnebre, funesto, terrível, desastre, incêndio, ruína, enfim, toda uma conotação depreciativa, pejorativa, negativa, marginal. Está no Aurélião, confiram. Canhoto, outro nome do diabo, cruzes!
Canhotos e meninos, lá atrás, sofríamos, apanhávamos nas mãos de nossas mães, de nossas professoras. Em nossos dias, elas é que sofreriam, que apanhariam nas mãos dos promotores da Delegacia da Criança e do Adolescente e das psicólogas e pedagogas hodiernas. Nem por isso, porém, esta Ruth, cada vez mais semita, silente e minha, e a professora Wilma, paixão menina, que me viciou em Machado de Assis, traumatizaram-me, cindiram-me a alma e merecem meu ódio hoje. Ao contrário, seqüestrei-as no meu coração, para sempre.
Meninos e tijucanos e peladeiros, aos canhestros apontávamos e ordenávamos: “ – Ponta-esquerda!” Pior que isso só ir para o gol, só ter a mãe xingada. Depois é que vieram canhoteiros geniais (e geniosos): Gérson, Tostão, Rivelino, Mário Sérgio, Neto, Maradona, Djalminha... Canhotos esses que só dão autógrafos com a mão direita. “Revanche da pulsão?” Por que os canhotos (futebolistas) quase sempre têm muito controle de bola, mas não de bola?
Tornei-me ambidestro. O que não quer dizer estar em-cima-do-muro. Escrevo com a destra, o mais só com a sestra. O hemisfério dominante, o direito, já que sou canhoto, já que sou verbal, já que sou memória. Seduz-me antes Cronos que Topos. Canhoto politicamente (mas não da esquerda festiva): a rosa vermelha sempre sinistra(mente), o que implicou, é claro, pedras e perdas no meio do caminho. “Gauche” tenho sido na vida, Carlos.
Esquerdismo não é doença; é vida, desvio da morte. Haja vista para a mão esquerda e impressionista de Lúcio Cardoso.
Canhotos, nós... a contrapelo, contramaré, ainda em Canhotinho (PE). (Mal)dito, eis o que quer dizer ser canhoto, para respondermos à pergunta de Roland Barthes, um canhoto tão enrustido quanto seus textos.

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

CLASSIAMOR - Vitor Hugo Fernandes Martins

Maio/2003

Gostaria imensamente de me corresponder com senhores de finíssimo trato, de 40 a 60 anos, preferencialmente arianos e carecas, digo, calvos, 1,80m, sem vícios (sobretudo o futebol, vote!), desimpedidos, poliglotas, com pouco passado e nenhum futuro, e curso superior, que gozem de excelente saúde espiritual, física e financeira, que sejam homens de Deus, se possível librianos, kiekegaardianos, destros, e com covinha de Kirk Douglas (NooooooSenhora!), e ética, ideológica e partidariamente corretos, que apreciem ópera e jazz, que sejam sócios do Country, do Jockey e do Kennel, que pertençam a alguma Sociedade Secreta, que tenham Mercedes e seguranças e mordomos e brasão de família e monogramas nas camisas e roupões e abotoaduras de ouro, que sejam campeões em tudo, mas principalmente em hipismo e bridge, que estejam internetados, que só usem Minotauro, que não rouquem, não xinguem, não agridam (senão com luvas de pelica) e que façam gato e sapato de mim. Correspondências somente por cartas com fone/fax e foto (de corpo e alma inteiros) para Madalena. Setor dos Prazeres, 69, Piranhas, GO.

Do livro: “Eletrocrônic@s” – Organizador: Sérgio Waldeck – Produtor Editorial: Alan Oliveira Machado. www.linguacomtexto.com.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A PROSA TELÚRICA DE EUCLIDES NETO - Vitor Hugo Fernandes Martins


a Cid Seixas

Telurismo [De telu(i) + -ismo] S.m. 1. Influência do solo de uma região nos
costumes, caráter, etc, dos habitantes. 2. Med. Suposta produção de doenças
por emanações provenientes do solo. (Novo Aurélio – Século XXI, 1999, p.
1939). Mas Os magros não tem nada de pastiche ou imitação simplória. É obra autônoma que testemunha o engajamento da escrita de um homem
comprometido com sua terra e, principalmente, com a gente que vive nela.
(Cid Seixas, www.uneb.br/seara1/21/09/2007).

Há muitíssimo o que comentarmos a respeito da obra de EUCLIDES José Teixeira NETO (1925-2000). Trata-se de mais um escritor, ficcionista, baiano, grapiúna. Como o foram Jorge Amado (1912-2001) e Adonias Filho (1915-1990). Talvez em razão de suas regiões de origem, têm os três, dentre outros, um ponto em comum, sobre o qual gostaríamos de fazer alguns comentários neste breve ensaio. Referimo-nos, é claro, ao telurismo. Os leitores desses ficcionistas sabem muito bem que um tema personagem é recorrente na ficção deles: o cacau. Ora, cacau, para os homens,
vem da natureza para a cultura da terra e depois para a da mente. Assim, Jorge Amado, Adonias Filho e Euclides Neto, com Cacau (1932), Corpo vivo (1962) e Os magros (1961) – para citarmos apenas três narrativas longas desses autores –, tematizaram e mimetizaram a terra do cacau, o sul da Bahia. Certo, cada um deles o fez seguindo a sua idiossincrasia, à sua maneira, com o seu estilo próprio, o que pressupõe três mundividências distintas. E isso é o que os torna preciosos para os grapiúnas, para os soteropolitanos, para todos os baianos e para todos os brasileiros. Não há dúvida de que um se alimentou do outro, mas sempre digerindo o outro, quer dizer, transformando-o. Em conformidade, pois, com a lição oswaldiana, ontem, e a kristevaniana, hoje. Ideologicamente, partidariamente, até se afinavam, sobretudo o primeiro com o terceiro, pelo menos por um bom tempo.
Jorge Amado e Adonias Filho fizeram-se nomes nacionais,
internacionais mesmo, como o autor de Terras do sem fim (1942), indicado algumas vezes para o Nobel de Literatura. E suas obras foram traduzidas para diversos idiomas. Enfim, conseguiram o que só poucos conseguem: falando de suas aldeias, universalizaram-se. Há quem prefira Jorge Amado; há quem prefira Adonias Filho. Não se trata aqui de valorar um em relação ao outro, como parece fazer, inexplicavelmente, a Academia (entenda-se Universidade, e não-baiana, e não a Casa de Machado de Assis, já que a esta ambos pertenceram), mas sim de compreender a ética e a estética de cada um deles.
Se há mais dissertações e teses sobre o criador de Cajango; por outro lado, há muitíssimos mais leitores para o criador de Gabriela, dentro e fora do País. Revanche do destino, diria esta fina escritura que se chama Roland Barthes (2003). Quanto a Euclides Neto, que é dos três grapiúnas o menos conhecido nacionalmente (e mesmo na Bahia, infelizmente), mas o que nos interessa mais de perto aqui neste ensaio, urge que nós o leiamos. “Nós” significa dizer não só quem é de Ipiaú (o grande cenário de seus textos, por certo), mas
também, repetimos, quem é da Bahia, do Brasil e – por que não? – da Humanidade, deste planeta, hoje mais fogo do que água, chamado Terra. Por quê? Porque fala, como no seu supracitado romance, de homens, famélicos, comendo terra. Pior: de crianças, como o Agrípio, comendo terra. Vale dizer, de não-humanos. Como naquele poema de Manuel Bandeira, “Os bichos” (do livro Estrela da vida inteira, de 1966), cuja leitura nos arrepia hoje mais do que ontem. E essa não-humanidade vindo precisamente da desumanidade. O homem lobo do homem, de acordo com a máxima de Thomas Hobbes (1974). Foi contra isto que se bateu, na vida e na arte, o grapiúna Euclides Neto. Por isso, vamos chamar aqui Os magros de romance solidário. Denominação que cabe, porém, a contento também para os demais romances e contos e crônicas deste político-literato (ao contrário de Jorge Amado, literato-político), sublinhemos. Sem dúvida, Euclides Neto foi um homem solidário. Principalmente ao homem da terra, sem-terra. Sua biografia de homem público é admirável. Aí está a Fazenda do Povo, em Ipiaú, aí está a sua atuação como Secretário da Reforma Agrária do Governo de Waldir Pires no estado da Bahia (1981-1983), como provas cabais disso. Sem falarmos em sua atuação como advogado do povo da terra. Não é de se estranhar, assim, que sua ficção também seja solidária à dor do homem da terra. Não bastasse tudo isso, os informantes de que dispomos em Ipiaú e em toda a Bahia atestam o homem público correto que ele foi. O telurismo de Euclides de Neto difere, é certo, do de Jorge Amado e
do de Adonias Filho. Em que medida? Na medida em que a maneira dada à matéria não é lírica, “folha prolixa”, como a do romancista de Terras do sem fim; tampouco é trágica, elíptica, como a do romancista de Corpo vivo. Desse modo, poderíamos dizer que Os magros estariam no meio termo. Isso é isto: a ficção euclidiana, empenhadíssima, nem por isso prescinde da linguagem e da montagem literárias em nome da mensagem ideológico político-partidária.
Neste sentido, o telurismo de Euclides Neto lembra, principalmente em Os magros, o de Graciliano Ramos (1898-1953), sua inegável e grande influência. Assim, João tem mesmo muito de Fabiano, como bem observou Hélio Pólvora, na orelha de nossa edição (2a. ed., São Paulo: GBS, 1992). Até nos tiques expressionistas, acrescentaríamos, por meio dos quais os homens ganham aspectos animalescos, zoomorfizam-se (e, em contrapartida, os animais antropomorfizam-se), haja vista para os pares Fabiano e Baleia, de
Vidas secas (1938) e João e Sereia, de Os magros. Não vamos, no entanto, nos ater aqui a um estudo comparativo entre estas obras – embora isso seja quase que inevitável e necessário, uma vez que são tantos os pontos de aproximação entre as soluções narrativas e estilísticas do romancista alagoano e as do baiano. Outra influência, também evidente, mas agora concernente à estrutura narrativa, que aproxima Euclides de Graciliano em Os magros é a que diz respeito ao contraponto, ou seja, à alternância dos blocos narrativos, muito embora em Vidas secas eles sejam mais autônomos, à maneira de contos. Lembremo-nos, a propósito, de que “Baleia” foi publicado como um conto, que depois se juntou a outros “contos” para formarem a novela Vidas secas.
Assim, tanto num caso quanto noutro, percebemos uma intencionalidade por parte dos ficcionistas, a saber, fazer com que o plano do conteúdo esteja, melhor, seja o plano da expressão. Ou melhor dito: que o significado seja o próprio significante. Ou ainda: que o signo espelhe em si o que represente. Por certo, a iconicidade alcançada por Graciliano é diversa da de Euclides. Naquela o que se iconiza é o inferno da incomunicabilidade; nesta, o da alienação. Portanto, ali uma questão psicológica e filosófica; aqui uma questão sociológica e política. Isso, porém, não quer dizer que em Os magros não haja retratos psicológicos construídos à perfeição, como os do tíbio e espoliado João (e aqui não há como não nos lembrarmos de outro tíbio, o já citado Fabiano) e principalmente os do Dr. Jorge e da esposa deste, fetichistas, cada
um deles a seu modo. Os magros, de acordo com a leitura de um atento pesquisador da obra euclidiana, sobretudo pelo viés sócio-político, Elieser César (2003), compõem uma tetralogia, da qual fazem parte, O patrão (1978), Machombongo (1986) e A enxada e a mulher que venceu o próprio destino (1996). Essa série, correlata à do ciclo-do-cacau de Jorge Amado e de Adonias Filho, traz consigo, porém, uma novidade apontada desde logo pelo pesquisador a que nos referimos linhas atrás: o telurismo agora diz mais respeito ao roceiro do que ao fazendeiro. Dito de outra maneira: lemos, na ficção euclidiana, não mais o apogeu do cacau, mas sim sua derrocada e, por extensão, a do latifúndio. Em Os magros, que iniciam a série, vemos o fazendeiro, o Dr. Jorge, e a esposa, Helena, alienados (em qualquer sentido que se dê a essa
palavra), mas ainda abastados. Em contrapartida, João, Isabel, a mulher, e prole, coisificados, descambam para a miséria, para a morte. Não há dúvida quanto à preferência do narrador, que tende mais para o agregado do que para o fazendeiro ou representantes deste, mais para o sujeito-presa do que para o(s) sujeito(s)-predador(e)(s). Não gratuitamente o título do romance refere-se
antes à magreza de João e sua gente do que à gordura do Dr. Jorge e seu clã. Não gratuitamente o romance inicia-se e termina com o também alienado João, que não malsina quem o malsina, quem faz a sua má sina:
“ – Ninguém tem culpa. Quem manda a gente ser pobre?”
E aqui não vemos, ao contrário de muitos críticos de Euclides Neto,
maniqueísmo, e sim dialética, na medida em que há muita riqueza em João e muita pobreza no Dr. Jorge. Referimo-nos, evidentemente, à alma dessas personagens. Assim, umestánoutro. Como o papel na árvore e a árvore no papel, para nos valermos da feliz observação de Marilena Chauí (2003).
Os magros devem ser lidos, sim, e urgentemente, pela juventude
Ipiauense e também pela Academia baiana. Sabemos o quanto de dificuldade existe para que isso ocorra: primeiro, porque o livro, este objeto precioso, tende a desaparecer (aliás, como já se previu ficcionalmente, e admiravelmente, num dos episódios do seriado televisivo O planeta dos macacos, há quase quarenta anos), é tudo uma questão de tempo; segundo, porque o texto de Euclides Neto vai de encontro à prosa de ficção pós modernista, uma vez que esta se volta antes para o de-fora do que para o de dentro.
Assim, Euclides Neto insiste em falar da história de Ipiaú, rememorando-a, melhor, recordando-a. Por isso, o esforço que vem fazendo a Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, ao reeditar, por sua editora, a Editus, a obra euclidiana, merece ser louvado por todos nós. Enfim, lendo Os magros, resgatamos a cultura da terra, a nossa identidade telúrica e, dessa forma, desalienamo-nos. Não podemos, não devemos permitir que o “vício” de Agrípio exista ainda hoje. Quem o produz comete um crime de lesa-humanidade.

Referências:
AMADO, Jorge. Cacau. 54a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
_____________. Terras do sem fim. 72a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio,
1966.
BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
CÉSAR, Elieser. O romance dos excluídos. Ilhéus: Editus, 2003.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13ª ed. São Paulo: Ática, 2003.
DIAS, Heloisa Martins. A estética expressionista. São Paulo: Íbis, 1999.
DORON, Roland & PAROT, Françoise. Dicionário de psicologia. Trad. De Odilon Soares Leite. São Paulo: Ática, 2002.
ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
FILHO, Adonias. Corpo vivo. 30a. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. de João Paulo Gomes Monteiro & Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Abril (Coleção Pensadores), 1974.
HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de. Novo Aurélio – Século XXI – Dicionário da língua portuguesa. 3a. ed. Rio de Janeiro: nova Fronteira, 1999.
JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
MEDAUR, Jorge. “Euclides Neto: o mais próximo de Machado de Assis”, in Introdução à edição de O tempo é chegado, de Euclides Neto. Ilhéus: Editus, 2001
NETO, Euclides. Os magros. 2a.ed. São Paulo: GSB, 1992.
_____________. A enxada e a mulher que venceu o próprio destino. São Paulo: Littera, 1996.
_____________. Dicionareco das roças de cacau e arredores. Ilhéus: Editus, 1997.
______________. Machombongo. Itabuna: Cacau Letras, 1986.
______________. O tempo é chegado. Ilhéus: Editus, 2001.
______________. 64: um prefeito, a revolução e os jumentos. A fábula do presidenciável Salém. Salvador: Fator, 1983.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 94a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.
ROUDINESCO, Elisabeth & PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
SEIXAS, Cid. “Dois momentos da obra de Euclides Neto”.
www.uneb.br/seara1/acesso 21/09/2006.

MOURA, O BEIJOQUEIRO - Vitor Hugo Fernandes Martins

Dizem que ele tinha um táxi. Os passageiros recebiam um beijo antes de deixarem o fusquinha, que era só flâmulas, adesivos e fotos do time do Vasco da Gama e, naturalmente, pagarem a corrida, porque ele, o Moura, é um lusitano que está mais para bestial do que para besta, ó pá!

Datam desse tempo os primeiros beijos e tapas, os primeiros socos e dentes quebrados, as primeiras estadas em delegacias, as primeiras reportagens sobre ele em jornais, rádios e tevês. Data daí também o epíteto que o faria conhecido Aqui e Ali. Sim, pois os beijos dele já foram além das divisas da Cidade Maravilhosa. São intermunicipais (um beijinho garotinho no ex-prefeitinho de Campos e futuro governadorzinho do Rio) e internacionais (dizem – vejam bem – dizem que numa mesma noite, em Assunção, o Moura conseguiu a façanha de beijar o Generalíssimo Strossner (à época ditador paraguaio), o nissei Fujimori (à época futuro ditador do Peru) e o milongueiro Menem (à época Senhor Costeletas), num fundo de uma mansión, numa roda de guarânia, regada a muito uísque e tererê.

Mas quem mais foi beijado pelo Moura, quem? Uma lista infindável de nomes, ó pá! Tão grande quanto a dos sonegadores do leão por aqui. E nada de gente chinfrim. Ele é enjoado até, o Moura. Se não, vejamos: João Paulo II (o Santo Padre – não confundir com o lateral-esquerdo reserva do Santos Futebol Clube); Sinatra (É, esse mesmo, o Francisco, o Olhos-Azuis, o que cantava My Way e desafinou e se borrou todo nas calças em pleno Maracá por causa daquele simples beijinho); Brizola (Barbaridade! Cinco vezes, não é verdade, che?); Zico (Somente por amor da Terrinha, donde procedem os Coimbra, fique bem claro!); Pelé (Beijei o Negão pensando no Mane. Foi uma traição, eu cá sei, confessou o Moura ao Jô Soares, que por sua vez ganhou um beijão gordíssimo, extensivo ao quinteto); Joãozinho Trinta (Gente! Trinta lu-xu-o-sís-si-mas beijocas, nem mais nem menos!); Charles (O centro-avantes do Íbis, o ex-pior time do mundo – não confundir com aqueloutro, um que às vezes veste saias, realengo); Collor (O caçador? Digo, o caçado/cassado? Vote!); Fittipaldis (O barão, o Wilsinho, o Emerson, o Cristian), uma carrada de beijos; Maradona (Hombre! Uma carreira de bejos!); José Sarney, Itamar Franco e, por extensão, e simbolicamente, todos os caroneiros do Brasil; FHC (O Presidente-Rei? Perdoai-me, Fernando Pessoas, perdoai-me!); e mais 17.212 (Até a data deste textículo) agraciados com um beijo, que, para o Moura, não é a véspera do escarro, e sim a véspera doutro beijo (Na entrevista ao Jô). À paródia beijoqueira sucedem beijos beijos beijos na sardenta destra do Gordo.

Pergunto-me, então, quais seriam as outras frustrações osculatórias, os outros beijáveis, para o Moura. Ele satisfaz minha curiosidade (Ainda na entrevista ao Jô): Bill Clinton, Myke Tyson, Jack Nicholson, Saddan Hussein, Fidel Castro, Luciano Pavarotti (Melhor, os três tenores, um beijo triplo, bravo!), Nelson Mandela, $$ (Quer dizer, Sílvio Santos), Boris Yeltsen, ACM (Antônio Carlos Malvadeza). Dudaiev (O checheno, lembram?), Barthez (Não condir com Barthes, o semiólogo), Zidane e tantos, tantos, tantos... E lá vai outro beijo, agora na mão esquerda do roliço entrevistador.

– Tu que conheces tão bem esse gajo, dize-me cá; não será ele paneleiro? Pergunta-me o Correia, corretor zoológico, patrício do Moura (De Chaves também?), entre um salaminho e umas cervejas, na Padaria Rio Preto, ali juntinho da Rodoviária.

Finjo ignorar o lusitanismo e respondo com brasileirismos:

– O bicho é pirado, Correia.

– Por homem, está a ver...

Sai dessa, beijoqueiro!


* Professor da UNEB – Câmpus de Ipiaú. Poeta, cronista e contista.

NO CADINHO DA CULTURA BAIANA - Vitor Hugo Fernandes Martins



para Serjão Macunaíma Alves dos Santos

“Estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também os verdadeiros primeiros brasileiros.”(João Ubaldo Ribeiro, “Viva o povo brasileiro”, in A Tarde, Salvador, Caderno 2, 24/04/2005, p. 9

Não é difícil, ainda para uma pessoa menos esclarecida, compreender que a cultura brasileira nasce baiana e seus formadores são, a princípio, o indígena, o português e o negro. Isso é já um truísmo. Vale dizer, o primeiro elemento, americano, autóctone, e os outros dois, europeu e africano, respectivamente, alóctones. Certo, com o passar do tempo, outros elementos, também alóctones e bem estrategicamente situados em determinadas regiões do País, vão integrar-se aos três retrocitados e fazer parte assim do cadinho da cultura brasileira. Não é dessa maneira que no Recife (PE) o frevo surge da fusão da eslava polca com a indígenanegra capoeira? Não é desse modo também que em Araraquara (SP) um rapsodo tupi amulatado tange, na rede, muito ma-cu-na-i-mi-ca-men-te, seu alaúde, depois de palmilhar, ver, cheirar, ouvir, comer (e digerir) os Brasis? E não é dessa mesma forma que na fria e branca Curitiba (PR) nasce um poeta vulcanicamente criativo, filho de polaco e negra, chamado Paulo Leminski (1944-1989)? Quer dizer, mestiçagem pura (relevem o oxímoro).

A indignação da oportuníssima crônica de João Ubaldo Ribeiro a respeito da formação do homem brasileiro serviu-me não apenas como epígrafe; serviu-me como deflagrador de reflexão e de discussão para este ensaio, mediante a literatura, sobre os elementos formadores da cultura brasileira e, mais especificamente, da baiana. Oxalá, essa reflexão e essa discussão levem-nos à ação.

No caso da cultura baiana, é interessante notar, por exemplo, já que me referi a alaúde, linhas acima, a presença do árabe e sua loquacidade, sua sensualidade e sua mercancia, mais notadamente em Salvador, em Ilhéus e em Itabuna. Haja vista para os “turcos” da ficção do autor de Gabriela, cravo e canela (1958), romance transcodificado para a telenovela (1961, TV Tupi, RJ, direção de Maurício Sherman / 1975, TV Globo, RJ, direção de Walter Avancini) e para o cinema (1983, direção de Bruno Barreto), como o impagável Nacib. Haja vista para o “turco” Jamil Bichara de A conquista da América pelos turcos (1994), um dos últimos textos de Jorge Amado (1912-2001). Talvez por ter sido ele, um emérito criador de tipos sociais da Literatura Brasileira, também um “turco”, um primo [brimu], a julgarmos pelo prenome, Jorge, muito freqüente entre os brasileiros descendentes de árabes e pelo biotipo (sobretudo o rosto), quando homem adulto e mesmo na terceira idade. Haja vista e coração para Wally Salomão (1944-2003), síriosertanejo, este poeta vulcanicamente criativo, que nos deixou há pouco, parenteaderente do não menos vulcanicamente criativo e conterrâneo (mas não de Jequié, e sim de Irará), Tom Zé.

A cultura da Bahia é (como de resto em todo o País), pois, miscigenada desde a origem, mas aqui, na terra do ministro da Cultura, faz-se ainda mais geléia geral – para recordarmos outro poeta vulcanicamente criativo, o piauiense Torquato Neto (1944-1972), muito embora ao contrário dos três já citados, vulnerável, bastante vulnerável (vulnerabilidade prenunciada na antológica canção “Pra dizer adeus”, de parceria com Edu Lobo). É precisamente esse fusionismo – palavra cara à gente pós-modernista – que faz a cultura baiana cada vez mais peculiar, mais rica, mais viva. O “axé-music” é a melhor prova do que digo. Não resisto à tentação de citar, a propósito, o soneto de Gregório de Matos (1636-1696) “À Fidalguia do Brasil”, no qual o Boca do Inferno recorre ao trilingüismo, isto é, a africanismos, lusitanismos e tupinismos, o que vai ao encontro do fusionismo tão desejado e alardeado pelo Pós-Modernismo, ainda que o poeta baiano (também vulcanicamente criativo, a seu modo e em adequação ao seu contexto espácio-temporal) visasse, com o trilingüismo mixórdico, à iconização (“avant la lettre”) da crítica à “fidalguia” da época da “Nossa Senhora da Bahia”. Quer dizer, o significado no significante.

Ora, se estamos reconhecendo na miscigenação dos elementos referidos fator importante e caracterizador da gente e da sociedade baianas (bem como das demais do País, repitamos), a cultura, porque atividade essencialmente humana e social, vai revelá-lo. Desse modo, não tem sentido privilegiar-se um desses elementos em detrimento dos outros. Ser brasileiro é ser branconegrovermelhoamarelo... Ao apartá-los, descaracterizamos o brasileiro, praticamos o nosso “apartheid”, mais visivelmente. Como, por exemplo, quando vemos, no teatro, no cinema e nas telenovelas, atores e atrizes negros fazendo o papel de personagens secundárias – quando não de oponentes. Certo, esses atores e atrizes ultimamente vêm deixando as cozinhas e os eitos e vindo para as salas, para os alpendres: tornaram-se protagonistas. Deixaram o fundo do palco e vieram para o proscênio. Haja vista para Lázaro Ramos e Camila Pitanga, filha do grande e, infelizmente, pouco reconhecido soteropolitano Antônio Pitanga. Aplaudamos. Mas essa visibilidade ainda é tímida e, às vezes, falaz, reconheçamos.

Se nos ativermos apenas ao estudo dos três primeiros elementos da nossa formação étnica, constataremos que o negro é o único deles que ainda não foi devidamente valorizado. Pelo brasileiro e, o que é pior, pelo brasileiro mais afro, o baiano. Digo isso em relação a todos os setores da vida nacional, mesmo o do Esporte e da Arte (nos quais esse elemento encontra a maior visibilidade) e principalmente o da Política (em que encontra a menor visibilidade). Isso só tem um nome: alienação. Quer dizer, a perda se si para o outro. Alienação econômica, social, política, intelectual, cultural, existencial. Nada espanta, portanto, que poucos jovens negros freqüentem teatro, comprem livros, sejam bem-sucedidos nos vestibulares das universidades públicas às quais vão sempre de ônibus e, não raro, a pé, nunca de carros próprios etc. Não espanta mas indigna e repugna a quem acredita que somos todos iguais, pertencentes a uma mesma família, a da humanidade.

A história é esta: primeiro foi o branco, colonizador, aventureiro, herói, que se impôs politicamente e, como sói acontecer, culturalmente. Ao vencedor, as batatas. Daí logo ocorrer de o elemento autóctone ouvir a missa do alóctone; mas não o contrário. Ontem, lá em Porto Seguro e hoje, aqui, no Brasil lulista. O olhar mercantil do herói branco sobre o Eldorado americano substituiu imediatamente o olhar de alumbramento da “visão do paraíso”. Não é invenção nossa, está na Carta de Caminha, com todos os efes e erres. Dessa maneira, os indígenas foram aculturados. Conseqüência disso? Isto: perderam-se, porque perderam sua cultura, sua língua, sua identidade. Provam-no, à perfeição, na literatura, o “desplazado” Avá de Mayra (1976), de Darcy Ribeiro (1922-1997); e, na vida, o não menos “desplazado” xavante Juruna, morto de diabetes, antes das sessenta luas, na taba chamada Brasília. Quem se acultura, aliena-se, inevitavelmente. Integrar-se é uma coisa; entregar-se, outra, completamente diferente.

Depois, foi o indígena. Daí Juca-Pirama, Peri, Iracema, Ubirajara etc. Antropônimos adotados por inúmeros “curumins” e “cunhãs”, cujos pais disso se orgulhavam, porque os viam como mais brasileirinhos e brasileirinhas do que os outros de nomes José, Maria etc. Tais pais nacionalistas ignoravam, entretanto, que “Brasil” e “pau-brasil” não vinham do Tupi. Certo, o Pré-Modernismo (por exemplo, de Monteiro Lobato, com todo o seu reacionarismo), o Modernismo (por exemplo, de Antônio Callado e sua ficção empenhadíssima) e o Pós-Modernismo (por exemplo, de Márcio Souza e sua narrativa parodística) brasileiros reviram o índio árcade e romântico, o elemento nativo, o “brasileiro por excelência”, o “primeiro brasileiro”, o orgulho nacional. Colocaram os pingos nos is. Quer dizer, revelaram, com o auxílio dos indigenistas e antropólogos, o “indígena indigente”, o quanto havia de falsidade no índio do Arcadismo e do Romantismo, sobretudo deste, falsidade no conteúdo, na forma, enfim, falsidade, porque ideologia do elemento dominador e, como tal, ocultando o dominado, o terceiro elemento, o negro. Entendamos a estratégia ideológica dos românticos em sua ficção: mostravam os índios, para dar a aparência de realidade e de indivisão social e racial dos “brasileiros”, mas escondiam os negros, até porque eram “peças-da-índia, e não homens”, conforme perspicaz anotação de João Ubaldo Ribeiro em sua crônica aqui citada. Não é gratuito, portanto, que José de Alencar (1829-1877), sabidamente escravagista, não tematizasse o negro em seus romances. E é essa também a explicação para o fato de Gonçalves Dias (1823-1864) preferir os índios; ao passo que Castro Alves (1847-1871), os negros. Este era um poeta maldito (relevem a redundância), assim como Sousândrade (1833-1902), que tematizava os índios pan-americanos, e não apenas os “brasileiros”; aquele, um poeta oficial, bancado pelo Imperador Pedro II, à sombra do poder, pois.

Certo, a questão está agora em sabermos por que o negro não entra como herói da nacionalidade nas literaturas pré-modernista, modernista e pós-modernista do País. Ora, a razão é a mesma acima apontada. Trata-se, infelizmente, do saber do poder, não do poder do saber. Assim, antes mesmo do Pré-Modernismo, Adolfo Caminha (1867-1897) escrevera O Bom crioulo (1895), romance protagonizado pelo negro Amaro, o que seria algo de se louvar, não fosse a concepção determinista, mecanicista, a partir da qual o romancista cearense compõe sua personagem, que se move apenas e tão-somente por um instinto biológico, genético, hereditário, nunca por um móvel social, histórico, dialético. Quer dizer, Amaro é fruto das ciências naturais, não das ciências sociais. Nesse sentido, o Naturalismo falsificou tanto quanto o Romantismo.

A despeito de Lima Barreto (1881-1922), grande injustiçado da Literatura Brasileira, que tem duplo mérito, uma vez que era um criador negro tematizando criaturas negras – algo que antes dele só havia acontecido com o soteropolitano Luís Gama (1830-1882), outro grande injustiçado da nossa literatura, que tinha, aliás, outro “defeito”, para o Romantismo, não era lírico nem épico nem trágico (como o conterrâneo Castro Alves), mas satírico, o que aponta para o cômico –; do tupi amulatado, Mário de Andrade (1893-1945), de Adonias Filho (1915-1990), cujas personagens estão mais para o segundo elemento do que para o terceiro e têm um caráter antes mítico que histórico, qual o(a) ficcionista/poeta assumidamente negro(a) que se destacou nos últimos cinqüenta anos na Literatura Brasileira? Mais: qual a nossa (não somente baiana mas também brasileira) personagem literária negra de destaque? O leitor erudito poderá responder-me: Orfeu da Conceição, que dá título ao texto de Vinícius de Moraes (1913-1980), o “branco mais negro do Brasil”. Certo, mas convém que esse mesmo leitor erudito observe que, primeiro, a “tragédia carioca” faz, neste 2005, precisamente cinqüenta anos; e, segundo, referi-me à “personagem literária negra”, o que não é o caso de Orfeu da Conceição. Voltará, então, o referido leitor e me questionará a respeito das personagens do romance Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins. Quer dizer, criaturas e criador negros. Não há dúvida de que se trata de uma extraordinária revelação literária, a desse misto de romancista-professor-antropólogo carioca. E, ainda que isolada no panorama cultural brasileiro, bem salutar, porque exemplar para os nossos jovens negros.

O criador e a criatura negros estão ausentes na Literatura Brasileira, infelizmente. E não há como compreendê-lo, na medida em que metade da população brasileira é negra. Não cabe, portanto, falar-se, no Brasil, em minoria para os negros (como também para as mulheres), como se fala em relação aos índios. Ora, se é assim, por que os negros não estão representados, não se representam literariamente? Por causa dos donos do poder. Penso que temos de exigir destes, urgentemente, a carta de alforria econômica, política, social, intelectual dos negros. Carta de alforria para se tornarem efetivamente humanos, brasileiros, nordestinos, baianos, ipiauenses. Na mesma exata proporção dos outros elementos, com os quais se integrem. Porque é a mestiçagem que nos caracteriza, que nos perde e nos salva, que nos faz, enfim, brasileiros, como está no Macunaíma. Fique, para terminar, o bordão de Darcy Ribeiro, ainda não de todo ouvido e compreendido pelo povo brasileiro: “O mestiço é que é bom”.

Ipiaú, BA, junho de 2005.

* Vitor Hugo Fernandes Martins é professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Câmpus de Ipiaú. Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto. Poeta, cronista e contista. vhugofm@yahoo.com.br

BARATAS - Vitor Hugo Fernandes Martins



Para a amiga feminista e conterrânea Adriana Maria de Abreu Barbosa


Desculpem-me, sensíveis leitoras, mas chegou o dia de escrever sobre elas, dedicar-lhes uma ou duas laudas, ainda que baratas, dada a “excelência” deste cronista. Elas, objeto de nosso asco, inimigas de nossas casas, de nossos olhos: “ – Ai, Jesus, uma barata! Que nojo!” É, mas sinto-me fascinado por elas, desde que li pela primeira vez a barata clariceana, sobretudo a de A paixão segundo G. H. Desde então passei a compreendê-las, quer dizer, a amá-las. Não se ama o que não se compreende. Por isso, entrego-me às baratas aqui nesta crônica. Estarei entregue às baratas? “ – Ô cronista, não tinhas outro assunto, não?”

Ao contrário das formigas (outra minúscula existência que me fascina, sempre solidárias), as baratas são solitárias, silenciosas, vivem a esgueirar-se e têm hábitos noturnos. As baratas pertencem, sim, ao bas-fond. Por tudo isso, identifico-me ainda mais com elas...

Assim, já não ajo como uma barata tonta ao ver, na madrugada insone, inesperadamente, uma barata defrontar-me e desafiar-me junto ao ralo do banheiro (antes banheiro que cozinha, é certo!), com todo o seu envernizado marrom, com suas atentas antenas, seus pares de pernas, enfim, com toda a sua barateza. Não, ela não me assusta mais, mesmo que seja uma barata que voa, de asas enormes, mesmo que seja uma barata-noiva. A barata tem lá consigo a sua razão de ser. Cumpre, sim, o seu papel na cadeia biológica. “ – Vá dizer isto para as nossas donas de casa e seu instinto inseticida, vá, cronista!”

Dizem que elas, as baratas, vêm de longe, são pré-históricas. Nem bombas atômicas conseguem exterminá-las. Portanto, nem os homens – os piores predadores da Terra – conseguem acabar com elas. As baratas irão longe.

Para mim, elas são o maior barato, as baratas. Só espero que quem me lê não chupe uma barata. Calma lá, sensíveis leitoras (Ainda estarão comigo?)! Faço questão de esclarecer logo para as mais pudicas esta expressão, para que se evite a ambigüidade, embora saiba que na crônica a ambiguidade é antes virtude que defeito. Chupar uma barata nada mais é do que ser iludido, bigodeado.

As perguntas que ficam: minha crônica estará à altura das baratas e das sensíveis leitoras?