VITOR HUGO FERNANDES MARTINS é professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Câmpus de Ipiaú. Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto. Poeta, cronista e contista. vhugofm@yahoo.com.br
sábado, 25 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
MINHA CRÔNICA-COLIBRI - Vitor Hugo Fernandes Martins
Sim, à maneira dos cronistas-colibris, e remeto desde logo quem me lê a um dos maiores, o Bruxo do Cosme Velho, quero ser breve e leve em relação a três tópicos que me chegam, não mais pelo telégrafo, como no caso da antológica crônica de Machado de Assis, datada de 11 de novembro de 1897, para o jornal carioca A SEMANA, mas sim pela internet. A saber: a provável condenação à morte, por apedrejamento ou enforcamento, de Sakineh Mohammadi Ashtiani, no Irã; a subterrânea experiência de sobreviver dos mineiros no Chile; e a intolerância racial na França de Sarkozy. Vejamo-los.
Primeiro pairo. É certo que cada povo tem suas leis, seus costumes, seus valores, suas naturezas e suas culturas. Em razão disso, devemos respeitar o Outro, para exigirmos respeito em relação ao que é nosso. O que não é nosso, em princípio, tende a ser não compreendido por nós e, portanto, negado, depreciado, execrado. Como é o caso da pena de morte adotada em muitos países, como o Irã – antiga Pérsia – mas não aqui, na terra de Pindorama. Acredito, todavia, que, se houvesse um plebiscito, hoje, no Brasil, a pena de morte seria aprovada por uma maioria significativa da população brasileira. Não, porém, com o voto deste cronista, sublinho. Se a justiça humana é falível, aqui e em qualquer lugar do mundo, como ressarcir a vida daquele que se foi, condenado à morte injustamente? No entanto, como já disse no início deste parágrafo, respeitemos o Outro, para que este nos respeite. Por mais que as leis, os costumes, os valores, as naturezas e as culturas do Outro nos pareçam radicais, absurdos, desumanos, têm de ser compreendidos dentro do seu contexto. Condenar alguém à morte, por apedrejamento ou enforcamento, sob a acusação de adultério e participação no assassinato do ex-marido, como parece ser o caso de Sakineh, para nós do Ocidente, e em pleno século XXI, só tem um nome: barbárie. Por isso, há uma grita geral por parte de quem não é do Oriente, em favor da absolvição da bela e quarentona iraniana. Por isso, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, o “Lulinha paz e amor”, interveio em favor dela junto ao “amigo” e “colega” Almadinejad, oferecendo asilo à acusada. Certo, Lula, em matéria de diplomacia, é um retumbante fracasso, mas vale a intenção, reconheçamos. Que intenção? Talvez tenha intervindo a pedido, não do nosso Chanceler Amorim, mas sim da presidenciável Dilma, para simbolizar a defesa das causas femininas e a luta contra todas as injustiças sofridas pela Mulher. Talvez em razão de 2010 ser um ano eleitoral. Talvez porque esteja pensando em ganhar o prêmio que lhe falta, o Nobel da Paz. Talvez “porque só quer se aparecer”, na voz de um amigo meu e inimigo número 1 de Lula, aqui de Ipiaú. Talvez porque ele, “Lulinha paz e amor”, queira ser o Nazareno da Madalena iraniana (É, o apedrejamento é bíblico, mas não cristão, lembremo-nos). E seria o caso de indagarmos: nesta hora trágica para Sakineh, onde andará a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003, a também iraniana Shirin Ebadi? Talvez, enfim, porque nosso presidente seja verdadeiramente um humanista. Talvez...
Pairemos sobre outro tópico, tão ou mais dramático do que o primeiro. A tenebrosa situação dos 33 (32 chilenos e 1 boliviano) mineiros numa das minas do Chile. Também eles estão condenados a morrer, mas não mais por força de lei, costumes ou valores culturais. O destino pregou-lhes uma peça: foram em busca de minas e transformaram-se em minas humanas. Estão a ponto de explodir, pior, de implodir. O inimigo número 1 do presidente Lula do segundo parágrafo, um espirituoso retado, satiriza: “Também quem mandou eles darem uma de tatu! Agora agüenta, cambada!” Mas a situação não é para risos, e sim para lágrimas. Não são sete palmos de terra a cobri-los, senão setecentos metros. O buraco é mais embaixo, leitor(a). Soterrados, sobrevivem, sem uma única baixa há mais de um mês, e isso por si só já é um milagre. Como um exército de formigas, trabalham com cálculo, solidariedade e determinação, palavra esta perigosa, sabemos, mas que fica nesta crônica-colibri, por ser obra do acaso. A verdade é que estes mineiros nos dão uma lição de sobrevivência admirável. Aprendamos com eles, pois, a arte de conviver solidariamente com o Outro, em situações-limite, como a deles, que envolve escuridão, escassez, isolamento. Devem estar famintos das manhãs, do ar e do sol chilenos. E sobretudo do afago da mãe, da esposa, do filho. Uma sonda os põe em vida e é o canal entre eles lá embaixo e nós aqui em cima. Sobreviverão por mais quatro meses, tempo este estimado para que possam ser resgatados de seu Hades? E depois de resgatados, o que farão eles de suas seqüelas? Perderão a visão pelo desábito da luz ou passarão a transver, na medida em que aprenderam a ver com a escuridão?
Terceiro pairo. No que respeita à intolerância do governo francês, melhor será dizermos intolerâncias, com relação, primeiramente, aos imigrantes, em especial aos ciganos, nada mais condenável do que a intolerância do governo de Nicolas Sarkozy. E é aqui que entra em cena a revanche do destino barthesiana. Como explicarmos que a mais alta autoridade da França (apesar de não passar de 1m65cm de altura, dizem), cujo pai, imigrante, é oriundo da Hungria – a terra originária dos ciganos, segundo me consta –, esteja agora empenhadíssima em expulsar os ciganos do território francês? Estaremos fantasiando muito ao vermos aí um parricídio? Só Freud mesmo para explicar tal perseguição.
Mais: o presidente Sarko (para os íntimos) vai mais além: persegue também os imigrantes muçulmanos e suas práticas e gestos culturais, como, por exemplo, proibindo o uso na França, em lugares públicos, da burka. O argumento dele é insidioso: com a proibição do uso do véu islâmico, em lugares públicos franceses, ele, Sarkozy, estaria ao lado dos direitos humanos, porque defenderia a liberdade da mulher que poderia mostrar seu rosto, impor-se e, assim, identificar-se. O uso da burka no Ocidente é um desrespeito às leis e aos hábitos e culturas do mundo ocidental? A meu ver, não necessariamente. Até porque não se vive a proclamar, hoje, aos quatro cantos deste planeta, a aldeia global, o multiculturalismo, as culturas híbridas do pós-modernismo? Onde, então, o OrientenoOcidente ou o OcidentenoOriente? (Assim mesmo, senhor micreiro. Micreiro? Retado! Assim mesmo, senhor revisor!).
Os três tópicos acima tocados certamente tocaram (tocarão) também a(o) leitor(a) sensível. Não, é claro, por causa do plano da expressão, do estilo do cronista, mas sim do plano do conteúdo, do tema, a nossa sempre tão precária condição humana, seja no Irã, seja na França, seja, ainda, no Chile. Sakineh, cujo olhar tem algo do de Capitu, sim (Não resisto à tentação de dizê-lo...), não merece pedra nem forca nem chibata, aliás, nenhum ser vivo o merece; os mineiros enterrados vivos no país de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, a injustificável caça aos gitanos e a discriminação dos imigrantes muçulmanos e seus valores culturais na França, berço da liberdade, igualdade e fraternidade, não esqueçamos, merecem, sim, de nós outros, do Ocidente ou mesmo do Oriente, solidariedade. Daí esta crônica-colibri.
* Vitor Hugo Fernandes Martins é professor do Curso de Letras da UNEB – Campus XXI. Poeta, cronista e contista.
Primeiro pairo. É certo que cada povo tem suas leis, seus costumes, seus valores, suas naturezas e suas culturas. Em razão disso, devemos respeitar o Outro, para exigirmos respeito em relação ao que é nosso. O que não é nosso, em princípio, tende a ser não compreendido por nós e, portanto, negado, depreciado, execrado. Como é o caso da pena de morte adotada em muitos países, como o Irã – antiga Pérsia – mas não aqui, na terra de Pindorama. Acredito, todavia, que, se houvesse um plebiscito, hoje, no Brasil, a pena de morte seria aprovada por uma maioria significativa da população brasileira. Não, porém, com o voto deste cronista, sublinho. Se a justiça humana é falível, aqui e em qualquer lugar do mundo, como ressarcir a vida daquele que se foi, condenado à morte injustamente? No entanto, como já disse no início deste parágrafo, respeitemos o Outro, para que este nos respeite. Por mais que as leis, os costumes, os valores, as naturezas e as culturas do Outro nos pareçam radicais, absurdos, desumanos, têm de ser compreendidos dentro do seu contexto. Condenar alguém à morte, por apedrejamento ou enforcamento, sob a acusação de adultério e participação no assassinato do ex-marido, como parece ser o caso de Sakineh, para nós do Ocidente, e em pleno século XXI, só tem um nome: barbárie. Por isso, há uma grita geral por parte de quem não é do Oriente, em favor da absolvição da bela e quarentona iraniana. Por isso, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, o “Lulinha paz e amor”, interveio em favor dela junto ao “amigo” e “colega” Almadinejad, oferecendo asilo à acusada. Certo, Lula, em matéria de diplomacia, é um retumbante fracasso, mas vale a intenção, reconheçamos. Que intenção? Talvez tenha intervindo a pedido, não do nosso Chanceler Amorim, mas sim da presidenciável Dilma, para simbolizar a defesa das causas femininas e a luta contra todas as injustiças sofridas pela Mulher. Talvez em razão de 2010 ser um ano eleitoral. Talvez porque esteja pensando em ganhar o prêmio que lhe falta, o Nobel da Paz. Talvez “porque só quer se aparecer”, na voz de um amigo meu e inimigo número 1 de Lula, aqui de Ipiaú. Talvez porque ele, “Lulinha paz e amor”, queira ser o Nazareno da Madalena iraniana (É, o apedrejamento é bíblico, mas não cristão, lembremo-nos). E seria o caso de indagarmos: nesta hora trágica para Sakineh, onde andará a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003, a também iraniana Shirin Ebadi? Talvez, enfim, porque nosso presidente seja verdadeiramente um humanista. Talvez...
Pairemos sobre outro tópico, tão ou mais dramático do que o primeiro. A tenebrosa situação dos 33 (32 chilenos e 1 boliviano) mineiros numa das minas do Chile. Também eles estão condenados a morrer, mas não mais por força de lei, costumes ou valores culturais. O destino pregou-lhes uma peça: foram em busca de minas e transformaram-se em minas humanas. Estão a ponto de explodir, pior, de implodir. O inimigo número 1 do presidente Lula do segundo parágrafo, um espirituoso retado, satiriza: “Também quem mandou eles darem uma de tatu! Agora agüenta, cambada!” Mas a situação não é para risos, e sim para lágrimas. Não são sete palmos de terra a cobri-los, senão setecentos metros. O buraco é mais embaixo, leitor(a). Soterrados, sobrevivem, sem uma única baixa há mais de um mês, e isso por si só já é um milagre. Como um exército de formigas, trabalham com cálculo, solidariedade e determinação, palavra esta perigosa, sabemos, mas que fica nesta crônica-colibri, por ser obra do acaso. A verdade é que estes mineiros nos dão uma lição de sobrevivência admirável. Aprendamos com eles, pois, a arte de conviver solidariamente com o Outro, em situações-limite, como a deles, que envolve escuridão, escassez, isolamento. Devem estar famintos das manhãs, do ar e do sol chilenos. E sobretudo do afago da mãe, da esposa, do filho. Uma sonda os põe em vida e é o canal entre eles lá embaixo e nós aqui em cima. Sobreviverão por mais quatro meses, tempo este estimado para que possam ser resgatados de seu Hades? E depois de resgatados, o que farão eles de suas seqüelas? Perderão a visão pelo desábito da luz ou passarão a transver, na medida em que aprenderam a ver com a escuridão?
Terceiro pairo. No que respeita à intolerância do governo francês, melhor será dizermos intolerâncias, com relação, primeiramente, aos imigrantes, em especial aos ciganos, nada mais condenável do que a intolerância do governo de Nicolas Sarkozy. E é aqui que entra em cena a revanche do destino barthesiana. Como explicarmos que a mais alta autoridade da França (apesar de não passar de 1m65cm de altura, dizem), cujo pai, imigrante, é oriundo da Hungria – a terra originária dos ciganos, segundo me consta –, esteja agora empenhadíssima em expulsar os ciganos do território francês? Estaremos fantasiando muito ao vermos aí um parricídio? Só Freud mesmo para explicar tal perseguição.
Mais: o presidente Sarko (para os íntimos) vai mais além: persegue também os imigrantes muçulmanos e suas práticas e gestos culturais, como, por exemplo, proibindo o uso na França, em lugares públicos, da burka. O argumento dele é insidioso: com a proibição do uso do véu islâmico, em lugares públicos franceses, ele, Sarkozy, estaria ao lado dos direitos humanos, porque defenderia a liberdade da mulher que poderia mostrar seu rosto, impor-se e, assim, identificar-se. O uso da burka no Ocidente é um desrespeito às leis e aos hábitos e culturas do mundo ocidental? A meu ver, não necessariamente. Até porque não se vive a proclamar, hoje, aos quatro cantos deste planeta, a aldeia global, o multiculturalismo, as culturas híbridas do pós-modernismo? Onde, então, o OrientenoOcidente ou o OcidentenoOriente? (Assim mesmo, senhor micreiro. Micreiro? Retado! Assim mesmo, senhor revisor!).
Os três tópicos acima tocados certamente tocaram (tocarão) também a(o) leitor(a) sensível. Não, é claro, por causa do plano da expressão, do estilo do cronista, mas sim do plano do conteúdo, do tema, a nossa sempre tão precária condição humana, seja no Irã, seja na França, seja, ainda, no Chile. Sakineh, cujo olhar tem algo do de Capitu, sim (Não resisto à tentação de dizê-lo...), não merece pedra nem forca nem chibata, aliás, nenhum ser vivo o merece; os mineiros enterrados vivos no país de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, a injustificável caça aos gitanos e a discriminação dos imigrantes muçulmanos e seus valores culturais na França, berço da liberdade, igualdade e fraternidade, não esqueçamos, merecem, sim, de nós outros, do Ocidente ou mesmo do Oriente, solidariedade. Daí esta crônica-colibri.
* Vitor Hugo Fernandes Martins é professor do Curso de Letras da UNEB – Campus XXI. Poeta, cronista e contista.
domingo, 12 de setembro de 2010
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